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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Kishore Mahbubani  
   

O asiáticos sabem pensar?


Ilustrações: Evandro Luiz


Sétima Conferência Internacional do Pensamento, em Cingapura, em junho de 1997, precisava de vozes asiáticas. Quando me convidaram, veio imediatamente à minha cabeça: "Os asiáticos sabem pensar bem como os outros?" Vi que a resposta era complicada. Este artigo é minha abordagem da questão. O objetivo é desencadear um debate entre as mentes da Ásia. Mas me pergunto se aos habitantes de outros continentes não conviria levantar questões semelhantes.

Pois então, sabem pensar os asiáticos? Obviamente, é uma pergunta delicada. Nesta época do politicamente correto, imagine o furor se eu fosse à Europa ou à África e questionasse a capacidade de pensar de africanos e europeus. É preciso ser da Ásia para poder perguntar: "Os asiáticos sabem pensar?"

Em virtude da delicadeza do tema, explico as razões e o contexto em que abordo o assunto. Primeiro, se fosse necessário fazer uma única pergunta para determinar o futuro do mundo, poderia muito bem ser essa, se os asiáticos sabem pensar. Em 1996, de uma população global de mais de 5 bilhões de habitantes, 3,5 bilhões viviam na Ásia (cerca de 70% da população mundial). Projeções cautelosas indicam que, em 2050, dos 9,87 bilhões de habitantes da Terra, 5,7 bilhões serão asiáticos, enquanto a população da América do Norte e a da Europa permanecerão relativamente estáveis, em 374 milhões e 721 milhões, respectivamente. É evidente que nos últimos séculos a Europa e, mais recentemente, a América do Norte carregaram a maior parte do fardo de fazer progredir a civilização humana. Em 2050, quando europeus e norte-americanos forem um décimo, em vez de um sexto, da população mundial, seria justo 90% da humanidade esperar que esses 10% continuassem a carregar o fardo? É sensato e realista que o resto do mundo continue a descansar nos ombros do Ocidente? Se a Ásia dobrar sua população nos próximos cinqüenta anos, será o caso de caber a ela uma cota justa desse fardo?

Segundo, a pergunta não se refere aos asiáticos individualmente e a sua capacidade limitada de pensamento. É óbvio que podem dominar alfabetos, somar 2 mais 2, jogar xadrez. Contudo, no decorrer da História, há exemplos de grupos que produziram indivíduos brilhantes e, no entanto, muito sofreram coletivamente. O exemplo clássico é a sociedade judaica. Per capita, os judeus contribuíram com mais cérebros brilhantes, de Einstein a Wittgenstein, de Disraeli a Kissinger, do que qualquer outro grupo humano. Mas como sociedade sofreram muito. Quero sublinhar que não me refiro ao sofrimento de Israel nos tempos modernos. Falo do período entre o ano 135, quando os judeus foram obrigados a deixar a Palestina, e 1948, quando se constituiu o Estado de Israel. Cabe um destino semelhante às sociedades asiáticas, ou elas serão capazes de pensar bem e garantir-se um futuro melhor?

Terceiro, a escala de tempo em que formulo a questão não é em dias, semanas, meses, anos ou mesmo décadas. Vejo a questão em séculos, especialmente agora, que entramos em novo milênio. É possível argumentar que o curso da História mundial, nos próximos séculos, dependerá de como as sociedades asiáticas pensem e atuem.

De volta à pergunta inicial – os asiáticos sabem pensar? –, numa prova de múltipla escolha haveria três respostas possíveis: "sim", "não" e "talvez". Antes de cravar o X, vou justificar cada resposta.

Não, não sabem

Começo com os motivos para uma resposta negativa, nem que seja para refutar os críticos, que poderiam dizer que a pergunta, em si, é absurda. Examinando o milênio passado, achamos fortes indícios de que os asiáticos, ou melhor, as sociedades asiáticas não sabem pensar.

Observe o estado dessas sociedades há 1 000 anos – digamos, no ano 999. Chineses e árabes (isto é, as civilizações confuciana e islâmica) estavam à frente em ciência e tecnologia, medicina e astronomia. Os árabes adotaram da Índia o sistema decimal e os números de 0 a 9 e aprenderam a fabricar papel com os chineses. A primeira universidade do mundo foi criada há pouco mais de um milênio, em 971, no Cairo. Já a Europa ainda estava na chamada Idade das Trevas, iniciada no século V com a queda do Império Romano. Como diz Will Durant, em The Age of Faith:

"No século VI, a Europa Ocidental era um caos de conquistas, desintegração e volta à barbárie. Boa parte da cultura clássica sobreviveu, em silêncio, escondida em poucos mosteiros e famílias. Mas o alicerce físico e psicológico da ordem social foi tão abalado que restaurá-lo levaria séculos. O amor às letras, a devoção à arte, a unidade e a continuidade da cultura, a fecundação cruzada entre as mentes tombaram diante das convulsões da guerra, do perigo dos transportes, das economias de pobreza, da ascensão dos vernáculos, do sumiço do latim no Oriente e do grego no Ocidente".

Em tal cenário, teria sido pura insensatez prever que, no segundo milênio, as civilizações chinesa, indiana e islâmica estagnariam na História, enquanto a Europa se tornaria a primeira civilização a dominar o mundo inteiro. No entanto, foi exatamente o que aconteceu.

A mudança não foi repentina. Até o século XVI, as sociedades mais avançadas da Ásia, mesmo perdida a primazia, ainda estavam em igualdade de condições e não havia indício claro de que as européias passariam à frente. Na época, a fraqueza relativa da Europa era mais evidente que sua potência. Não era a região mais fértil do mundo nem excepcionalmente habitada – critérios importantes numa época em que o solo era a principal fonte de riqueza e a energia vinha do músculo humano e animal. A Europa não exibia vantagens pronunciadas nos campos da cultura, matemática, engenharia, navegação e outras tecnologias. Era também um continente fragmentado, miscelânea de pequenos reinos, principados e cidades-Estados. Além disso, no final do século XV, estava empenhada num conflito sangrento com o poderoso Império Otomano, que parecia avançar inexoravelmente rumo às portas de Viena. Essa ameaça durava por tanto tempo que alguns príncipes germânicos, a centenas de quilômetros da frente de combate, tinham passado a pagar tributo – Turkenverehrung – à Sublime Porta, em Istambul.

Já as culturas asiáticas pareciam prosperar no século XV. A China, por exemplo, ostentava uma cultura notável e vibrante. Sua administração unificada e hierárquica era feita por burocratas confucianos bem formados, que haviam dado à sociedade chinesa uma coerência e uma sofisticação sem paralelos. Seus avanços tecnológicos também eram fantásticos. A imprensa com tipos móveis aparecera no século XI. O papel-moeda acelerava o fluxo do comércio e o crescimento dos mercados. A formidável indústria do ferro, associada à invenção da pólvora, deu-lhe imensa potência militar.

Porém, dir-se-ia espantosamente, foi a Europa que deu um salto à frente. Algo meio mágico aconteceu às mentes européias, seguido por ondas de progresso e avanço civilizador, da Renascença ao Iluminismo, da revolução científica à revolução industrial. Enquanto as sociedades asiáticas declinaram no atraso e na ossificação, as européias – impulsionadas por novas formas de organização econômica, dinamismo técnico-militar, pluralismo político no continente em geral (se não em cada país) e pelos primeiros passos, desiguais, de liberdade intelectual, mormente na Itália, na Inglaterra e na Holanda – produziram o que se chamaria na época de "milagre europeu", caso houvesse uma civilização superior observadora que classificasse o fato. Como tal combinação de ingredientes essenciais não existia nas sociedades asiáticas, elas estagnaram, enquanto a Europa ocupou o centro do palco mundial. A colonização iniciada no século XVI e a revolução industrial do século XIX aumentaram e consolidaram a posição dominante dos europeus.

Para mim, que sou de Cingapura e de uma população de 3 milhões, causa grande admiração que um Estado pequeno como Portugal, com população também de poucos milhões, tenha podido apossar-se de territórios como Goa, Macau e Malaca, de civilizações maiores e mais antigas. Um feito extraordinário. E o mais surpreendente é isso ter sido realizado nos 1500. Aos colonizadores portugueses seguiram-se espanhóis, holandeses, franceses e, depois, ingleses. Por três ou mais séculos, as sociedades asiáticas estiveram prostradas e se deixaram ultrapassar e colonizar por sociedades menores.

A coisa mais dolorosa que aconteceu à Ásia não foi a dominação física, mas a colonização mental. Muitos asiáticos (inclusive, acho eu, muitos de meus antepassados da Ásia meridional) passaram a se acreditar seres inferiores aos europeus. É só o que pode explicar como uns poucos milhares de ingleses puderam mandar em centenas de milhões de habitantes do sul da Ásia. Se posso fazer uma afirmação controvertida, direi que essa colonização mental não foi erradicada de todo e que muitas sociedades asiáticas ainda lutam para se libertar.

É realmente espantoso que ainda hoje, na entrada do século XXI, 500 anos depois da chegada dos primeiros portugueses à Ásia, somente um – repito, um – país asiático tenha atingido, em sentido amplo, o nível de desenvolvimento que, em termos gerais, prevalece na Europa e na América do Norte. Os japoneses foram os primeiros a despertar, a partir da Restauração Meiji da década de 1860. O Japão foi considerado pela primeira vez desenvolvido, e mais ou menos aceito como igual, em 1902, quando assinou a aliança anglo-nipônica.

Se as mentes asiáticas sabem pensar, por que só existe hoje uma sociedade asiática capaz de ombrear com o Ocidente? Encerro minha argumentação a favor da resposta negativa. Quem quiser marcar "não" na pergunta "os asiáticos sabem pensar?" pode fazê-lo.

Sim, sabem pensar

Tentarei dar os argumentos a favor da resposta positiva. O primeiro e mais óbvio é o incrível desempenho econômico dos países asiáticos nas últimas décadas. O sucesso do Japão, embora não se tenha repetido inteiramente no resto da Ásia, desencadeou pequenas ondas que, apesar dos problemas atuais, podem transformar-se em maremoto. Após o êxito da economia japonesa, veio a emergência dos "quatro Tigres" (Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura). Mas o sucesso dos Tigres mostrou a outras nações do Sudeste Asiático, em especial Indonésia, Malásia e Tailândia, que poderiam fazer o mesmo. Ultimamente, seguiu-os a China, que já tem potencial para superar os Estados Unidos e se tornar a maior economia mundial, lá por 2020. O que espanta é o ritmo do desenvolvimento. Para duplicar sua produção econômica, os ingleses precisaram de 58 anos (a partir de 1780), os americanos, de 47 (a partir de 1839) e os japoneses, de 33 anos (a partir da década de 1880). A Indonésia levou apenas dezessete anos, a Coréia do Sul, onze, e a China, dez anos para o mesmo feito. Em seu conjunto, as economias do milagre da Ásia oriental cresceram com mais rapidez e consistência que qualquer outro grupo de países entre 1960 e 1990. Em média, apresentaram um aumento real de renda per capita anual de 5,5%, superando todas as economias da América Latina e da África subsaariana e até as da Comunidade Européia, as quais tiveram, em média, 2,5% de crescimento no período.

Não é por sorte que se tira nota boa num exame: é preciso inteligência e muito estudo. Da mesma forma, não se consegue bom desempenho econômico, ainda mais na escala ocorrida na Ásia, por pura sorte. Isso reflete inteligência e muito trabalho. E é essencial destacar que o ritmo e a escala da explosão econômica da Ásia não têm precedentes na história da humanidade. O economista Joseph Stiglitz captou bem essa realidade, em artigo publicado no Asian Wall Street Journal:

"O 'milagre' da Ásia oriental foi real. A mudança econômica que causou na região é um dos feitos mais notáveis da História. O enorme crescimento do produto interno bruto refletiu-se em padrões de vida mais altos para centenas de milhões de asiáticos, expectativa de vida mais longa, saúde e educação melhores; outros tantos saíram da pobreza e hoje vivem mais esperançosos. Essas conquistas são tangíveis e serão muito mais duradouras que a crise atual".

A autoconfiança dos asiáticos foi reforçada pelos numerosos estudos que mostram seu impressionante desempenho acadêmico, tanto nas maiores universidades do Ocidente como em seus próprios países. Hoje, muitos dos melhores estudantes das universidades americanas são de origem asiática. A excelência educacional é pré-requisito essencial da confiança cultural. Para falar com franqueza, muitos asiáticos exultam por ver, finalmente, que seu cérebro não é inferior. A maioria dos ocidentais não consegue apreciar a mudança por nunca ter tido o sentimento de inferioridade que muitos asiáticos experimentaram até bem pouco tempo atrás.

O segundo motivo para responder "sim" à nossa questão é que uma mudança vital está em curso na mente de muitos asiáticos. Durante séculos, eles acreditaram que a única via para o progresso era imitar o Ocidente. Yukichi Fukuzawa, um dos líderes da Reforma Meiji, resumiu essa atitude quando disse, no fim do século XIX, que, para progredir, o Japão tinha de aprender com o Ocidente. Os outros modernizadores da Ásia, como Sun Yat-sen e Jawaharlal Nehru, compartilhavam essa atitude. A mudança que está ocorrendo na mente dos asiáticos é que já não acreditam que a via para o progresso é a cópia; julgam, agora, que podem encontrar as próprias soluções.

Essa mudança aconteceu de modo lento e imperceptível. Até algumas décadas atrás, os países ocidentais brilhavam como faróis no alto do rochedo: modelos vivos da forma mais bem-sucedida de sociedade humana – economicamente próspera, politicamente estável, socialmente justa e harmoniosa, eticamente limpa e oferecendo ambiente com as melhores condições para o desabrochar dos cidadãos como indivíduos. Essas sociedades não eram perfeitas, mas eram claramente superiores, em todos os sentidos, a qualquer outra de fora. Até recentemente, seria insensatez, aliás inconcebível, que um intelectual asiático dissesse: "Talvez não seja esse o caminho que queremos". Hoje é o que muitos pensam em particular, se não em público.

Porém, no conjunto, não há dúvida de que as sociedades ocidentais continuam a se sair melhor que as asiáticas. E mantêm centros de excelência em áreas de que nenhuma outra chega perto, nas universidades, nos institutos de pesquisa e, com certeza, nos domínios da cultura. Nenhuma orquestra asiática tem o nível das principais orquestras ocidentais, ainda que o mundo musical do Ocidente se tenha enriquecido com muitos músicos brilhantes da Ásia. Mas os asiáticos estão espantados com a enormidade e a escala dos problemas sociais e econômicos que afligem muitas sociedades ocidentais. Na América do Norte, há o relativo rompimento da família como instituição, a desgraça das drogas e os problemas ligados a elas, como o crime, a persistência dos guetos e a percepção de que houve declínio dos padrões éticos. Isso é claro nas estatísticas do governo americano que refletem as tendências sociais do período 1960-1990. Nesses trinta anos, a taxa de crimes violentos quadruplicou, as famílias sem pai ou mãe quase triplicaram e o número de presos estaduais e federais triplicou. Os asiáticos também estão preocupados com o apego dos europeus a seus sistemas de seguridade social, apesar da clara evidência de que esses sistemas atrasam as sociedades e criam desânimo quanto às perspectivas econômicas de longo prazo. Em outras décadas, quando visitavam a América do Norte e a Europa Ocidental, os asiáticos invejavam o alto padrão e a qualidade de vida. Hoje, embora esse padrão ainda exista nas sociedades ocidentais, os asiáticos não mais as consideram modelares. Começam a crer que podem tentar algo diferente.

Uma metáfora simples pode explicar o que um ocidental veria se espiasse a mente oriental. A maioria dos asiáticos compartilhava a suposição geral de que o caminho de todas as sociedades culminava no platô em que se encontra a maior parte das sociedades ocidentais. Portanto, todos os países, com pequenas variações, acabariam criando sociedades liberais e democráticas, com ênfase nas liberdades individuais, à medida que subissem na escala socioeconômica. Hoje, os asiáticos ainda vêem o platô de satisfação em que repousa a maioria das sociedades ocidentais, mas podem ver também, para além, cumes alternativos para onde conduzir suas sociedades. Em vez de ver no platô seu destino natural, agora pretendem contorná-lo (não querem sofrer de alguns dos males sociais e culturais que afligem as sociedades ocidentais) e procurar adiante outras cimeiras. Esse panorama mental não existia para os asiáticos até recentemente. Ele revela uma renovada confiança dos asiáticos em si mesmos.

A terceira razão para escolher "sim" em nossa questão é que este não é o único momento da História em que as mentes asiáticas despertaram. À medida que emergem do nível de simples sobrevivência, mais e mais asiáticos conquistam a liberdade econômica para pensar, refletir e redescobrir sua herança cultural. Há uma consciência crescente de que, tal como o Ocidente, eles têm um rico legado social, cultural e filosófico que podem ressuscitar e usar na criação das próprias sociedades modernas e avançadas. A riqueza e a profundidade das civilizações indiana e chinesa, para mencionar apenas duas, são reconhecidas por estudiosos ocidentais. A bem da verdade, nos últimos séculos, foram a erudição e o empenho ocidentais que preservaram os frutos da civilização asiática, tal como os árabes preservaram e transmitiram as civilizações grega e romana, nos tempos mais obscuros da Europa. Assim, enquanto as culturas asiáticas se deterioravam, os museus e as universidades do Ocidente preservaram e até valorizaram o melhor da arte e da cultura oriental. Conforme mergulham nas profundezas de sua herança cultural, os asiáticos nutrem a mente. Pela primeira vez em séculos, ocorre uma renascença asiática. Quem visita cidades como Teerã, Calcutá, Bombaim, Xangai, Cingapura e Hong Kong encontra uma confiança recém-descoberta, bem como interesse pela linguagem e pela cultura tradicionais. À medida que suas economias crescem e eles têm mais renda à disposição, os asiáticos gastam cada vez mais para reviver a dança e o teatro tradicionais. O que se vê é apenas o começo de uma grande redescoberta cultural. O orgulho que os asiáticos estão tendo em sua cultura é claro e palpável.

Em suma, aqueles asiáticos que se apressariam em responder "sim" à questão têm bons motivos para isso. Mas, antes, aconselho-os a esperar um pouco e a refletir sobre as razões do "talvez", antes de uma decisão final.

 
continua

 

 
   
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