Os
jovens de hoje
e os mistérios de sempre
h,
os jovens de hoje em dia... São alienados e egocêntricos,
consumistas e irresponsáveis. Pensam apenas no próprio
bem-estar. Não se interessam por política, não
respeitam ninguém, não têm ideais.
O
diagnóstico acima tem pelo menos vinte anos. Ou seja: é
mais velho que "os jovens de hoje em dia".
Quando eu estava no ginásio, entre 1977 e 1980, já
ouvia dizer que os jovens davam mais importância à
marca da roupa que ao caráter. Que uma calça Fiorucci
era mais apreciada que a beleza interior. Que o "ter" valia mais
que o "ser".
Dizia-se
também que a minha geração tinha trocado a
cultura dos livros pela bitolação da TV. Que a música
barulhenta alienava e ensurdecia ("Não se faz mais música
de verdade!"). Que o sexo se tinha banalizado as meninas
não se preservavam e os meninos só queriam aproveitar-se
delas. Que havia menos profundidade nas relações e
mais futilidade. Muito disso era verdade, e continua sendo. Muito
é exagero.
Rebeldia
e individualismo
Os
jovens do meu tempo têm sempre os anos 60 como modelo do que
não fomos. Parece até que todos os jovens daquela
década eram engajados na luta por liberdade e justiça.
Não eram! Quantos jovens atravessaram os anos 60 alheios
às manifestações por liberdade? Quantos trataram
só de perseguir seu diploma, seu casamento, um emprego estável
e a casa própria? Havia quem concordasse com aquele estado
de coisas e quem ficasse indiferente, desde que pudesse tirar um
sarro no carro do pai.
Costumamos
jogar no mesmo barco dos anos 60 os protestos contra a Guerra do
Vietnã, o movimento negro, as passeatas feministas e os festivais
de rock (nos Estados Unidos) e a resistência à ditadura
(no Brasil). Os clipes de imagens da época reúnem,
freqüentemente, jovens seminuas com flores no cabelo e estudantes
fugindo do gás lacrimogêneo, embora as reivindicações
de uns e outros fossem completamente diferentes.
Entre
aqueles que participavam, de fato, das passeatas e de outras manifestações,
quantos não estavam pensando prioritariamente na própria
liberdade, em seu tesão, em seu direito? Quantos, genuinamente,
lutavam pelos direitos de todos? Quanto havia de altruísmo
e quanto de individualismo? Quantos se deixaram levar pelo embalo
e não sabiam muito bem o que estava acontecendo? (Não
foram só os caras-pintadas do Fora Collor!)
Claro
que muitos abandonaram seu conforto, suas horas de descanso e o
abrigo seguro da indiferença para se arriscar seriamente
na luta política. Expuseram-se a todo tipo de violência
por seu ideal. Muitos morreram; muitos perderam amigos, parentes,
a liberdade e até a pátria.
Hoje
em dia, mais do que em qualquer época, é impossível
dizer "os jovens são isso" (ou "aquilo"). O espectro que
vai dos liberais aos conservadores, dos modernos aos antiquados,
dos adesistas aos inconformados, dos antenados aos distraídos
tem muito mais nuances.
Há
jovens alienados agora, assim como havia antes. Há jovens
equivocados e jovens esclarecidos. Há jovens altruístas
e idealistas, como há ambiciosos e egocêntricos. Todos
com muitas coisas em comum entre si...
A
vontade de encher a cara ou de "fumar um" pode ser arrivismo ou
existencialismo mas não é nova. Aproveitar
a efervescência dos hormônios e o tempo livre para fazer
o que não se espera de um adulto sempre foi a palavra de
ordem.
Se
a música continua uma boa referência do que querem
e sobre o que pensam os jovens, seu significado não é
muito evidente a mesma menina que se diverte com Planet Hemp
e Charlie Brown Jr pode gostar de Hanson e Ivete Sangalo; o garoto
que ouve um pagode romântico e "alienado" pode amar Thaíde
& DJ Hum e Racionais MC's, Chico Science e Nação
Zumbi, representando os pobres das regiões mais pobres do
Brasil. Alguns jovens da periferia adoram Djavan e não têm
o menor respeito por Caetano Veloso, mas quase todos reverenciam
Legião Urbana.
Hoje,
como antes, as aparências enganam. Há patricinhas engajadas,
cujos brincos de argola emolduram preocupações sociais
e a disposição para o trabalho voluntário.
Sujeitos mal-encarados e assustadores podem ser absolutamente inofensivos,
gentis e equilibrados. O garoto tatuado pode ser preguiçoso
e descrente de tudo ou um esportista esforçado e focado em
sua carreira. O vestibulando de direito pode ter o anseio de lutar
pelos direitos das minorias ou pode ser machista e homófobo.
Aquele que ostenta dúzias de piercings pode ter vontade de
desafiar os mais velhos e os preconceituosos em doses iguais ao
respeito e carinho que sente pela própria mãe. Talvez
ele não queira fazer desafio nenhum e apenas se ache mais
bonito assim.
De
graça e sem graça
Embora
hoje se fale muito mais sobre sexo e se estimule sua prática
em todas as horas e lugares, das capas de revista aos comerciais
de refrigerante, algumas coisas permanecem iguais entre quatro paredes
cobertas de cartazes. Os meninos continuam com medo de falhar na
primeira vez e de não corresponder às expectativas.
As meninas têm medo de ser usadas, de fazer papel de trouxas.
Os consultórios públicos se multiplicam, nas revistas,
na TV e na internet, mas as perguntas são as mesmas de sempre:
masturbação demais faz mal? Como saber se meu pênis
é pequeno? Devo transar no primeiro encontro?
Os
jovens podem falar muito mais de sexo, mas isso não significa
que estejam fazendo tanto quanto falam. Beijar é muito mais
fácil do que era antes, mas ir para a cama, não tanto.
Meninos e meninas ainda têm vergonha até de pensar
em tirar a roupa na frente de quem interessa, por mais bundas que
haja em exposição. Há meninos românticos
e meninas cruéis; meninos e meninas atirados e retraídos.
Como sempre houve...
Mesmo
que seja mais no falar do que no fazer, é uma pena que a
vida sexual comece cada vez mais cedo. As relações
precipitadas trazem o risco de gravidez, doenças sexualmente
transmissíveis e da falta de prazer. As meninas poderiam
ter muito mais orgasmos com masturbação e bolinação
que com penetração. Além disso, a sedução,
a provocação e o jogo de aparências começam
muito antes do que deveriam. Sobra cada vez menos tempo para ignorar
as medidas "ideais", a bunda caída ou a roupa da moda. Para
ser menina desencanada ou criança feiosa.
Muitas
coisas ficaram mais fáceis e perderam boa parte da graça.
Ninguém precisa esforçar-se para ver um peito de mulher.
O pior é que a nudez não ficou mais natural. Ainda
não podemos tirar o biquíni ou a camisa na rua. É
o seio sedutor, que se oferece ao toque e ao desejo, que estampa
os outdoors. Perdeu-se o mistério e não ganhamos liberdade.
Era mais gostoso quando era um pouco mais difícil!
Outros
sonhos também já foram mais distantes. Outro dia me
lembrei de quanto tempo esperei até comprar um tênis
de cano alto, próprio para jogar basquete. Foi uma glória,
e era um Topper! Hoje em dia, ninguém quer menos que um tênis
importado. Embora as perspectivas de trabalho e renda sejam mais
estreitas, os sonhos se popularizaram. O consumo se apresenta exuberante,
impositivo e tentador e seduz a todos, democraticamente (?). Mas
não satisfaz nem a metade. Se, por um lado, é cada
vez mais difícil encontrar uma praia deserta, por outro,
milhares e milhares de jovens da periferia de São Paulo,
a cento e poucos quilômetros do litoral, nunca viram praia
alguma. A não ser no anúncio de sorvete na traseira
do ônibus.
Os
adultos de hoje em dia
Os
jovens não são um povo alienígena nem uma sociedade
à parte. Eles são parte da nossa sociedade
mais consumista, mais injusta, mais superficial e apressada. O que
antes era sombria ameaça apocalíptica hoje já
está em vigor. Falta emprego, a periferia explode em carências
múltiplas, a violência toma conta. A ameaça
ao meio ambiente tornou-se um perigo real e imediato. Os espaços
de convivência rareiam. A família conversa menos, os
vizinhos mal se conhecem, há menos tempo para o "nada" necessário
para a reflexão.
Ilustração: Evandro Luiz
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Quem
é consumista e egocêntrico? Quem é comodista
e não sai da frente da televisão? Uma parte dos jovens
e uma grande parte dos ex-jovens. Os pais, os chefes, os adultos.
O
mundo adulto está cada vez mais juvenil, no pior sentido.
As pessoas resistem a qualquer coisa que lhes contrarie a vontade.
O uso de camisinha é maior entre os mais jovens que entre
os mais velhos (isso é estatística, não é
palpite). Pense neste exemplo: nos últimos anos, os adultos
ganharam um brinquedo de presente um telefone sem fio, que
fala em qualquer lugar. "Só não pode usar no cinema,
no teatro e principalmente enquanto estiver dirigindo." O que fizeram
com o celular? Transformaram o aparelho no melhor amigo do motorista.
Não conseguem obedecer a uma regra simples e esperam que
os jovens respeitem os limites.
Juventude?
Isso passa
Tanto
quanto eu sempre ouvi dizer que os jovens eram alienados, ouvi também
que a minha vontade de mudar o mundo era típica dos jovens...
E era só esperar um pouco que ia passar.
Há
muitos e muitos jovens querendo mudar o mundo. Há mais deles
tomando atitudes que em qualquer outro tempo no movimento
hip hop, em ONGs, nas escolas, na rua. Sozinhos ou em turma, os
jovens se movimentam em nome de seus ideais.
Os
jovens mais modernos não são aqueles que desconfiam
de qualquer um com mais de 30 anos. Eles reverenciam os avós,
repelem o machismo, têm consciência social. Valorizam
tudo o que é genuíno, mesmo que não seja de
seu gosto de Jackson do Pandeiro a Bob Marley e Tim Maia.
Fazem sites e fanzines, escrevem poesias, organizam eventos. E se
prometem não mudar depois de crescer.
Música
e política, sexo e responsabilidade, justiça social
e meio ambiente... Apesar da desconfiança (e até má
vontade) dos adultos, quer dizer, daqueles que eram jovens nos "mágicos"
anos 60, boa parte dos jovens desta década está no
caminho certo. Se aquela época pode ser representada por
figuras tão diferentes como Janis Joplin, Martin Luther King,
Pelé e Che Guevara, os jovens do fim do século podem
ter como símbolos os Racionais MC's, Gustavo Kuerten e o
logotipo da reciclagem. Acho que ainda vou tatuar um no braço.
Aos
pais: os jovens valorizam o que é genuíno. Eles gostam
dos avós, detestam o machismo e se preocupam com a situação
social e o meio ambiente. Estão no caminho certo.
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