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O panorama das populações

O panorama da riqueza da Terra
Imprensa *
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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Alberto Manguel  
   

O destino da leitura
na era da web

um dos primeiros dias do mês de outubro de 1659, depois de dar à praia no lugar a que chamou de "ilha do Desespero", Robinson Crusoé voltou aos destroços do naufrágio e conseguiu levar para terra ferramentas e alguns tipos de alimento, bem como "coisas de menor valor", tais como penas, tinta, papel e vários livros. Destes, alguns eram em português, dois eram "livros papistas de oração" e três eram Bíblias muito boas. Ter "escapado por pouco" o deixara temeroso da morte por inanição. A ferramenta e a comida supriram-lhe as necessidades materiais e, agora, ele iria em busca d'algo que mitigasse os dias medonhos que teria pela frente. "Primeiro a forragem, depois a moral", diria mais tarde Brecht.

Assim, após cuidar do corpo, Crusoé tratou de atender ao espírito e buscou distração moral na escassa biblioteca do navio. Robinson Crusoé foi o fundador – relutante fundador – de uma nova sociedade. E Daniel Defoe, seu autor, julgou necessário que num alvor de nova sociedade houvesse livros.

Nós, os leitores (criaturas compulsivas que somos), achamos óbvio que, ao buscar satisfazer suas necessidades, Crusoé salvasse os livros do barco, fossem em português, fossem em qualquer outra língua. Somos também tentados a adivinhar que "alguns livros em português" teriam sido esses. Sem dúvida, um exemplar de Os Lusíadas, de Camões, livro perfeito para biblioteca de navio. Talvez os Sermões, do ilustre padre Antônio Vieira, inclusive o edificante "Sermão de Santo Antônio aos Peixes", no qual Crusoé poderia ler uma defesa dos irmãos de Sexta-Feira. Com toda a certeza, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, que conta estranhas viagens pelo ainda misterioso Oriente e que o criador de Crusoé, o onívoro Defoe, conhecia bem.

Porém, não se sabe que livros eram porque, embora mantivesse um diário em que anotava religiosamente as mudanças de tempo e de humor, Crusoé jamais escreveu sobre os livros que carregou para sua ilha. Talvez, fiel à convicção inglesa de que seu idioma é o único que se requer de um cavalheiro, Crusoé não lesse português. Imaginemos, porém, nosso desespero se nos víssemos em seus sapatos de couro de cabra, tendo à disposição volumes de literatura numa escrita que não conseguíssemos decifrar. Imaginemo-nos folheando as páginas obstinadamente mudas, desejosos de que fizessem sentido as vinte e poucas letras que conhecemos tão bem, mas que reunidas daquela forma tornavam a página um pesadelo. Pobres de nós! Pobre Robinson Crusoé! Mas desse calvário, que seria o melhor detalhe a gravar na lembrança de cada um de nós, seus leitores hipócritas, ele nada diz. (Na verdade, parece que Crusoé logo se esqueceu completamente de seus livros; quando deixa a ilha, em 11 de junho de 1687, e faz uma lista detalhada de seus pertences, não há palavra sobre aqueles misteriosos volumes.)

No entanto, conta-nos o uso que fez da Bíblia. Ela está no âmago da nova sociedade humana, deixa sua marca em cada ação de Crusoé, dá o sentido de seus sofrimentos, é o instrumento pelo qual ele tenta, à moda de Próspero, transformar o selvagem Sexta-Feira num criado útil.

Pode-se viver numa sociedade baseada no livro e, ainda assim, não ler, ou viver numa em que o livro seja mero enfeite e ser, no sentido mais profundo e verdadeiro da palavra, um leitor. Como sociedade, por exemplo, os gregos pouca importância davam a livros, mas individualmente, por certo, eram grandes leitores. Aristóteles, cujos livros (tal como chegaram a nós) são provavelmente notas de aula, feitas por seus alunos, lia com voracidade, e sua biblioteca pessoal é a primeira da Grécia antiga sobre a qual há informação certa. Sócrates, que desprezava os livros e jamais se dignou a deixar uma palavra escrita, optou por ler o discurso do orador Lícias, em vez de ouvi-lo recitado pelo entusiástico Fedro. Por outro lado, creio que Crusoé teria preferido que lhe contassem o texto. Representante de uma sociedade judaico-cristã centrada no livro, ele não era um leitor como nós, nas chamadas sociedades letradas, somos leitores. Crusoé (embora lesse "diariamente a Palavra de Deus", como ele mesmo nos conta) não era nem mesmo leitor profundo da Bíblia, o livro que estava no centro de sua vida social, o seu "Livro de Poder" (para citar a expressão de Lutero). Ele a consultava diariamente, como consultaria a internet, se esta existisse, e se permitia ser por ela guiado. Mas não tornava sua a Palavra, como Santo Agostinho pregava que se deve fazer, encarnando o texto escrito. Ele apenas acreditava no que a sociedade lhe dizia dela. Houvesse naufragado no final de nosso milênio, seria fácil vê-lo resgatando do navio não o Book of Power, mas um powerbook, que não é instrumento para ler, mas ferramenta apenas para escrever e consultar.

Então, o que distingue Crusoé de Defoe, seu autor e ledor voraz, ambos membros da sociedade do livro? O que distingue um leitor de livros da pessoa para quem um livro é apenas importância ou prestígio? Ou melhor, o que distingue a importância de palavras resgatadas da prisão da página pelo ato de se as ler, da Palavra não lida, mas venerada na prisão da página? Há uma diferença intransponível entre o livro que a tradição declarou um clássico e o livro (o mesmo) que tornamos nosso por instinto, emoção e entendimento: sofremos através dele, gozamos com ele, traduzimo-lo para nossa ex`eriência e (a despeito das camadas de leituras com que cada livro chega a nossas mãos) viramos seus primeiros descobridores, experiência tão espantosa e inesperada quanto encontrar na areia as pegadas de Sexta-Feira. "As canções de Homero", disse Goethe, ele próprio um clássico pouco lido hoje em dia, "têm o poder de nos aliviar, ainda que por breves momentos, do fardo aterrador com que a tradição nos vergou por milhares de anos." Ser o primeiro a entrar na caverna de Circe ou a ouvir Ulisses chamar a si mesmo de Ninguém é o anseio secreto de todo leitor, concedido repetidamente, geração após geração, aos que abrem a Odisséia pela primeira vez. Esse modesto jus primae noctis, esse direito à primeira noite, garante aos livros a que chamamos de clássicos sua única imortalidade útil.

Há duas maneiras de ler o versículo muito citado do Eclesiastes: "E de se fazerem muitos livros não há fim". Podemos vê-lo espelhando as palavras que seguem: "E muita devoção a eles é fadiga para a carne", e dar de ombros diante da tarefa impossível de chegar ao fim de nossa biblioteca; ou podemos lê-lo como jubilação, como ação de graças pela abundância de Deus, de tal forma que o "e" conectivo se leia "mas". "Mas de se fazerem muitos livros não há fim." Crusoé faz a primeira leitura; Aristóteles (e São Jerônimo, Erasmo, Léon Hebreo, Sóror Juana, o dr. Johnson e Northrop Frye) fazem a segunda. A partir de uma tarde perdida na Mesopotâmia, cada leitor ou leitora encontrou seu caminho na infinita biblioteca de "muitos livros", apesar da "fadiga para a carne". Cada leitor achou encantos com os quais assegurou a posse de uma página que, por magia, aparece como se nunca tivesse sido lida, fresca e imaculada, com todas as leituras anteriores agora incorporadas aos próprios átomos do texto. A história da leitura é, em certo sentido, a história desses encantos. Fazemos o caminho ao longo de prateleiras infindáveis de livros, escolhendo este ou aquele por nenhum motivo claro: pela capa, pelo título, por um nome, por algo que alguém disse, ou não disse, graças a um palpite, a um capricho, a um erro, porque achamos que talvez encontremos nesse livro determinada história, ou personagem ou detalhe, porque nos parece escrito para nós ou porque nos parece escrito para todo mundo, menos para nós, e queremos descobrir por que fomos excluídos, por desejarmos aprender, ou rir, ou esquecer.

Estou falando de leitura como se os diferentes aspectos dessa arte fossem invariáveis. Talvez o sejam, até certo ponto. Na Mesopotâmia ou na Grécia, em Buenos Aires ou em Toronto, em qualquer lugar, existiram e existem, lado a lado, leitores e não-leitores, e estes sempre foram a vasta maioria. Seja nos exclusivos scriptoria da Suméria ou da Europa medieval, na Londres do século XVIII ou na Paris do século XX, é bem pequeno o número daqueles de cuja essência a leitura é parte. O que varia não é a proporção, em termos muito gerais, entre esses dois grupos da humanidade, mas o modo como as diferentes sociedades vêem o livro e a arte de ler. E aqui, a distinção entre o livro entronizado e o livro lido entra em cena de novo.

Ilustração: Evandro Luiz


S
e um ser do passado visitasse nossas cidades de hoje, uma das coisas que surpreenderia esse Gulliver de antanho seria, por certo, o hábito de leitura de seus futuros irmãos. Que veria ele? Vastos templos comerciais que vendem livros aos milhares, edifícios imensos onde a palavra impressa é dividida e arrumada em categorias ou campos arbitrários para orientar o consumo dos fiéis. Por exemplo, na Books Etc. [http://www.booksetc.net], o vocabulário gastronômico criado para expor a arte de ler, desde que o anjo mandou que Ezequiel comesse o livro celestial, ganhou realidade física e os leitores bebericam dezenas de misturas de café e provam vários tipos de bolos, a ler tomos eruditos, romances baratos, revistas de fofocas e periódicos de cultura que choram a morte do livro. Ele veria bibliotecas e leitores ainda vagando por esses edifícios neoclássicos, entre estantes ou olhando as coleções virtuais semimutantes em que alguns livros foram convertidos, passando à existência frágil de fantasmas eletrônicos. Também fora, o visitante veria uma multidão de leitores, nos bancos de praça, no metrô, em ônibus e trens, leitores a esperar com livros em aeroportos e sentados em restaurantes com volumes abertos a sua frente. Em casas e apartamentos (o visitante tem um olhar metediço), veria leitores na cama, no banheiro, em poltronas junto a lareiras ou deitados no chão, de pernas para o ar. Nosso visitante veria leitores em toda parte; desculpemo-lo se concluir que a nossa é uma sociedade letrada.

Mas não, ao contrário, não somos uma sociedade letrada. Aceitamos o livro como um dado comum, mesmo antiquado. O ato de ler, outrora considerado útil e prestigioso, quando não perigoso e subversivo, agora recebe condescendência como passatempo, lento passatempo que não tem eficiência nem contribui para o bem comum. Como nosso visitante acabaria por descobrir, ler não passa de um ato ancilar em nossa sociedade, e o grande repositório de nossa memória e experiência, a biblioteca universal, mais é um depósito incômodo que uma entidade viva. Depósito supérfluo, pois guarda apenas o passado.

Nas revoltas estudantis que sacudiram o mundo ao final da década de 60, uma das palavras de ordem berradas aos professores da Universidade de Heidelberg foi "Hier wird nicht zitiert!" ­ "Nada de citações aqui!" Os estudantes exigiam pensamento original, esquecendo que citar é continuar uma conversa do passado e dar contexto ao presente; citar é fazer uso da Biblioteca de Babel; citar é refletir sobre o que foi dito antes, pois, se não o fizermos, falamos no vácuo, onde a voz humana não faz som. "Escrever história é citá-la", disse Walter Benjamin1. Escrever o passado, conversar com a história era, como sabemos, o ideal humanista, o ideal que Nicolau de Cusa formulou pela primeira vez em 1440. Em De Docta Ignorantia (Da Ignorância Douta), ele aventou que a Terra talvez não fosse o centro do universo e que o espaço poderia ser infinito, em vez de limitado por decreto divino, e sugeriu a criação de uma sociedade semi-utópica que, tal como a biblioteca universal, abarcaria a humanidade inteira, e na qual religião e política deixariam de ser forças desagregadoras. É interessante observar que para os humanistas existe correlação entre a suspeita da existência de um espaço sem limites, que não pertence a ninguém, e o conhecimento de um passado rico, que pertence a todos.

Trata-se, é lógico, do exato avesso da definição da world wide web, a www. A internet define-se como um espaço que pertence a todos e exclui um senso do passado. Não há nacionalidades na internet (exceto, é claro, pelo fato de sua língua franca ser o inglês) nem censura (exceto, de novo, pelo fato de governos estarem achando modos de banir o acesso a certos sites, numa censura por omissão). Para o usuário da web, o passado (a tradição temporal que conduz a nosso presente eletrônico) não é habitado por ninguém. O espaço eletrônico é (aparentemente) sem fronteiras. Os sites – isto é, locais específicos, autodefinidos – são criados nele, mas não o limitam nem o possuem, são como água na água. Ele é quase instantâneo, não ocupa tempo, exceto o pesadelo de um presente constante. Toda superfície, e sem volume, toda presente, sem nenhum passado, a internet aspira a ser (anuncia-se assim) o lar de cada usuário, em que a comunicação com outro usuário é possível à velocidade do pensamento. Essa é sua característica principal: a velocidade. Beda, o Venerável, lamentando a brevidade de nossa vida sobre a Terra, comparou-a à passagem de uma ave por um salão iluminado, entrando na escuridão, de um lado, e saindo para a escuridão, do outro. Nossa sociedade interpretaria o lamento de Beda como bazófia.

O meio eletrônico é impermanente. A vida de um disco é de uns sete anos, um CD-ROM dura cerca de dez anos. As coleções virtuais, onde as há, precisam ter várias cópias de segurança para salvá-las da destruição total, em caso de pane eletrônica. Mas quantos backups se podem fazer dessas coleções virtuais? Há alguns anos, no Museu Arqueológico de Nápoles, vi, presas entre duas folhas de vidro, as cinzas de um papiro achado nas ruínas de Pompéia. Tinha 2 000 anos, fora queimado pelo fogo do Vesúvio, enterrado pela lava, e ainda era possível ler as letras tão bem quanto um jornal de hoje. O meio eletrônico, por outro lado, é perecível, é do momento, útil sobretudo para se comunicar neste exato instante e captar informações atualizadas no mesmo segundo em que as buscamos. Por que, então, queremos que faça algo para o que ele é tão mal adequado?

Com suas funções de áudio e de escrita, o texto eletrônico tem um pé na tradição oral e outro na tradição do livro; espera-se que se liberte de ambas, criando seu próprio vocabulário. Ler o texto completo de Crime e Castigo ou de ...E o Vento Levou numa tela de computador, ou copiado para um rocket-book, é extenuante, já que uma pessoa comum não pode ficar sentada horas sem fim diante de uma tela iluminada, onde rola, tal como nos dias de Grécia e Roma, um texto que não é sólido, mas feito de pontos que piscam. E os leitores de livros em CD-ROM (usados, no momento, mais para obras de referência) passam pela humilhação de se verem guiados como crianças que precisam de ilustrações, de uma voz que os oriente ou de cativantes animações. Degradar o CD-ROM, tão cheio de possibilidades, à mera função de um velho códice, embora ilustrado e lido em voz alta, é ignorar teimosamente sua riqueza, é ir de avião a jato ao supermercado. Creio que isso mudará logo, que só vai durar até que os artistas tomem conta do novo meio e lhe dêem vocabulário próprio, como fizeram com as invenções da fotografia, do rádio, do cinema, do vídeo. Só então perceberemos que o CD-ROM não é um livro, como fotografia não é pintura. Até lá, sua função fica entre falar e folhear.

Outra deficiência: a internet não é universal. Somente as sociedades mais ricas a têm. Para milhões de seres humanos deste planeta, a web é inacessível como a mais distante lua do universo. Mas nós, que a temos, achamos que abrange tudo e falamos dela como a pique de substituir todas as tecnologias, inclusive a de livros. Os editores americanos de hoje avaliam que pelo menos 30% da edição de um livro, no futuro, será eletrônica, como texto na teia mundial, disponível para ser copiado à vontade para um dos vários tipos de livros digitais já existentes no mercado.

Nossa futura sociedade sem papel (aliás, definida por Bill Gates em um livro, quero salientar) é uma sociedade sem história, de vez que tudo na internet é instantaneamente contemporâneo e que, graças aos procescadores de texto, não há mais arquivo de nossas notas, erros, avanços e rascunhos. Walter Benjamin observou, lá pela década de 30, que a "humanidade, que na época de Homero era objeto de contemplação dos deuses do Olimpo, o é agora de si mesma. Sua auto-alienação atingiu grau tal que ela pode experimentar sua própria destruição com um prazer estético de primeira ordem"2. A essa auto-alienação acrescentamos agora a alienação de nossas próprias idéias, e nos deleitamos observando a destruição de nosso passado. Não mais registramos a evolução de nossas criações intelectuais. Para um observador do futuro, será como se nossas idéias nascessem prontas, qual Palas Atena inteira da cabeça de Zeus – só que, tendo em vista que nosso vocabulário histórico será esquecido, mesmo esse clichê não significará nada.

A proposta sociedade sem papel, que realçaria a ilusão de um mundo sem fronteiras, talvez seja global, mas certamente não é cosmopolita, pois não consegue ser o lar de ninguém, uma vez que ninguém pode morar num site da internet. Mas uma sociedade sem papel pode aumentar os já gigantescos lucros das companhias multinacionais que possuem e operam esse espaço virtual. Elas não apenas controlam os sistemas que possibilitam a existência dessas páginas, apropriando-se do patrimônio escrito do mundo, como estão comprando também nossa herança iconográfica. Feitas hoje, as figuras do escudo de Aquiles e o desenho sempre desfeito da tapeçaria de Penélope estariam sujeitos a taxas de uso embolsadas por uma das multinacionais. Corbis, a empresa fundada em 1989 por Bill Gates, adquiriu direitos não exclusivos de reprodução de muitas obras da National Gallery de Londres, da Barnes Foundation, do Museu de Arte de Filadélfia, do Museu Hermitage e da coleção do Extremo Oriente do Museu Real de Ontário. Entre outras companhias que compram direitos iconográficos em massa estão a Disney, a CNN, a DreamWorks, de Spielberg, o grupo Bertelsmann, a Sony e a Hollinger Inc., de Conrad Black3.

Em 1948, um americano chamado James T. Mangan protocolou uma escritura no tabelião de registro de imóveis do condado de Cook reivindicando a propriedade de todo o espaço. Depois de batizar seu vasto território de Celestia, Mangan avisou a todos os países da Terra que não tentassem fazer viagens à Lua e entrou com um pedido de ingresso na ONU. O ambicioso empreendimento do sr. Mangan foi agora assumido, num sentido mais prático, pelas multinacionais. Seus métodos têm sido muito eficazes. Ao oferecer aos usuários eletrônicos a aparência de um mundo controlado a partir de seus teclados, um mundo em que tudo pode ser "acessado" e tudo pode ser possuído, como nos contos de fadas, com um simples toque dos dedos, as multinacionais certificaram-se de que, por um lado, os usuários não protestarão por ser usados, uma vez que estão supostamente "com o controle" do ciberespaço e que, por outro lado, ficarão impedidos de saber qualquer coisa profunda sobre si mesmos, seu ambiente ou o resto do mundo. Essa prestidigitação é executada graças à ênfase na velocidade em detrimento da reflexão e na brevidade em lugar da complexidade. Dá-se preferência a fragmentos de notícias e a bytes às discussões longas e aos dossiês minuciosos, e dilui-se a opinião fundada com resmas de conversa fiada, conselhos ineficazes, versões inexatas e informações triviais, que ganham atrativo graças a nomes de marcas e estatísticas manipuladas. A enfadonha Florence Nightingale disse certa vez que, "para entender os pensamentos de Deus, devemos estudar estatísticas, pois elas são a medida de Sua intenção"4. E também a medida da intenção profana das desabusadas multinacionais.

Ilustração: Evandro Luiz

Mas não é o caso de culpar a internet por nossa falta de interesse em explorar o passado, nem pela preocupação superficial com o mundo em que vivemos. Sua virtude, como eu disse, está na rapidez e na quantidade da informação; não pode dar concentração e profundidade. O meio eletrônico pode nos ajudar (de fato, ajuda) num sem-número de questões práticas, mas não em todas, e não se deve responsabilizar pelo que não se propõe a fazer. Não será ele o receptáculo de nosso passado cosmopolita, tal como o livro, eis que não é um livro e jamais o será, malgrado tantos truques e disfarces inventados para enfiá-lo nesse papel. Nem nos oferece cama e mesa, em nossa passagem por este mundo, porque não é local de repouso; ele não é país estrangeiro nem terra natal, não é a caverna de Circe nem Ítaca. Somos nós mesmos, e não nossas tecnologias, os responsáveis por essa destituição, e a culpa é só nossa por escolhermos deliberadamente o olvido em vez da reminiscência. Porém, somos hábeis em achar desculpas e inventar razões para nossa incapacidade. Os indígenas abnakis da América do Norte, por exemplo, acreditavam que um grupo especial de divindades, os Oonagamessoks, governava a escrita de petróglifos, e passaram a explicar o sumiço gradual dessas gravuras rupestres dizendo que aborrecia os deuses a falta de atenção para com eles, desde a chegada do homem branco5. Os petróglifos de nosso passado comum não se apagam em razão da chegada de uma tecnologia nova, mas sim porque não temos mais a vontade de os ler. Estamos perdendo nosso vocabulário comum, construído no decorrer de milhares de anos para nos dar voz, ajudar, deleitar e instruir, em nome do que julgamos serem virtudes exclusivas da nova tecnologia. Talvez sejam virtudes, mas não exclusivas. O mundo, como descobriu Robinson Crusoé, é bastante grande para acomodar sempre uma maravilha a mais. Nesse sentido, ser cosmopolita hoje pode significar ser eclético, recusar a exclusão. Nossa tendência a levantar paredes é útil apenas como ponto de partida para a autodefinição, paredes que contêm a cama em que nascemos, sonhamos, nos reproduzimo-nos e morremos. Mas fora das paredes está a percepção de Sidarta, de que todos os seres humanos envelhecem, são propensos ao pesadelo e à doença e marcham juntos para o mesmo e implacável fim.

Nossa existência flui como um rio impossível, em duas direções: da massa infindável de nomes, lugares, criaturas, estrelas, livros, rituais, memórias, luzes e pedras, a que chamamos mundo, para o rosto que nos encara pela manhã da profundeza de um espelho, e desse rosto, desse corpo que cerca um centro que não podemos ver, disso que nos designa quando dizemos Eu, para tudo que é Outro, externo, além. Um sentimento de quem somos, individualmente, acoplado a um sentimento de ser cidadão do universo inconcebível, coletivamente, nos dá um certo sentido da vida – um sentido posto em palavras pelos livros de nossas bibliotecas.

Estou convencido de que a leitura continua e sobreviverá, desde que persistamos em aplicar palavras ao mundo que nos cerca. Tanta coisa recebeu nome, tanta coisa continuará a receber que, com toda nossa insensatez, não desistiremos desse pequeno milagre que nos permite um vago entendimento mútuo. Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas, a oportunidade de mudança, a eventualidade de iluminação. Talvez não haja um livro, bem escrito como seja, que possa remover uma gota de dor da tragédia de Kosovo, mas talvez também não se ache um só livro, mal escrito quanto seja, que não enseje uma epifania a seu leitor. Na página 162, Robinson Crusoé escreve: "Talvez não seja errado, dos que lerem minha história, tirar dela a justa observação de quão freqüentemente, em nossas vidas, o mal que mais buscamos evitar e que é o mais terrível quando cai sobre nós é, ele mesmo, muitas vezes, o meio, a via de nossa libertação, por onde, tão-somente, podemos nos erguer de novo". Não se trata, evidentemente, de Crusoé falando, mas de Defoe, leitor de muitos livros.

Ilustração: Evandro Luiz


As histórias, as cronologias, os almanaques nos oferecem a ilusão de progresso, ainda que tenhamos repetidas provas de que tal não existe. Há transformação e há passagem, mas, se é para melhor ou pior, depende apenas do contexto e do observador. Como leitores, temos ido da aprendizagem de uma arte preciosa, cujo segredo era mantido com ciúme por uns poucos, para a indiferença de considerar apenas normal uma capacidade que se tornou subordinada a princípios de desatenção ou eficiência, e para a qual os governos quase não dão a mínima. Fomos de um extremo ao outro muitas vezes e, sem dúvida, o faremos de novo. Não conseguimos evitar esse trajeto errático que parece ser da natureza humana, mas podemos pelo menos oscilar sabendo que oscilamos e com a convicção de que, em algum momento, nossa arte será outra vez reconhecida como essencial. A biblioteca de Robinson Crusoé não foi (ou melhor, não deve ter sido) mero objeto de culto ou apenas um esteio, mas, sim, a ferramenta essencial de sua nova sociedade.

O apóstolo Paulo (o único que não conheceu Jesus em pessoa) dizia audaciosamente aos homens e mulheres que vinham em busca das Escrituras, "Quereis a prova de Cristo falando em mim?" – sabendo que tendo lido a Palavra, a Palavra agora morava nele, mesmo que não tivesse conhecido o Autor; que ele se tornara o Livro, a Palavra feita carne, mediante a pequena porção de divindade que a arte da leitura oferece a quem busca aprendê-la. Esta é a sabedoria da seita dos essênios, a gente devota que nos deixou, há tantos séculos, os manuscritos do Mar Morto: "Sabemos que o corpo é corrutível e que o material de que é feito é temporário. Mas sabemos também que a alma (e eu, futuro leitor deles, acrescentarei 'o livro') é imortal e imperecível".

 
Conclusão

Ele argumenta que o livro, como tecnologia, tem vantagens enormes sobre as telas dos computadores. Como elo com o passado e porta para o futuro, o livro de papel terá uma longa vida. Talvez a mais objetiva das conclusões que se tira ao ler o artigo de Manguel é a de que é tolice colocar a culpa na internet pela dificuldade que muitos têm de encontrar prazer na leitura, especialmente os jovens. Cada geração, no passado, encontrou um subterfúgio para fugir dos livros. Alberto Manguel, com a graça e a arte de seu texto, é a prova de que a leitura é uma riqueza irrenunciável.


1) Walter Benjamin, The Arcades Project, trad. de Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Belknap, 1999.

2) Walter Benjamin, Schriften, editado com uma introdução de Hannah Arendt, Suhrkamp Verlag, Frankfurt-am-Main, 1955.

3) Luc Melanson, "Le cartel des images", L'Actualité, Montreal, 1o de setembro de 1999.

4) K. Pearson, The Life, Letters and Labours of Francis Galton, II:13:1, Londres, 1914.

5) Garrick Mallery, Picture Writing of the American Indians, Washington, 1893.

 

 

 
   
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