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Mas não, ao contrário, não somos uma sociedade letrada. Aceitamos o livro como um dado comum, mesmo antiquado. O ato de ler, outrora considerado útil e prestigioso, quando não perigoso e subversivo, agora recebe condescendência como passatempo, lento passatempo que não tem eficiência nem contribui para o bem comum. Como nosso visitante acabaria por descobrir, ler não passa de um ato ancilar em nossa sociedade, e o grande repositório de nossa memória e experiência, a biblioteca universal, mais é um depósito incômodo que uma entidade viva. Depósito supérfluo, pois guarda apenas o passado. Trata-se, é lógico, do exato avesso da definição da world wide web, a www. A internet define-se como um espaço que pertence a todos e exclui um senso do passado. Não há nacionalidades na internet (exceto, é claro, pelo fato de sua língua franca ser o inglês) nem censura (exceto, de novo, pelo fato de governos estarem achando modos de banir o acesso a certos sites, numa censura por omissão). Para o usuário da web, o passado (a tradição temporal que conduz a nosso presente eletrônico) não é habitado por ninguém. O espaço eletrônico é (aparentemente) sem fronteiras. Os sites isto é, locais específicos, autodefinidos são criados nele, mas não o limitam nem o possuem, são como água na água. Ele é quase instantâneo, não ocupa tempo, exceto o pesadelo de um presente constante. Toda superfície, e sem volume, toda presente, sem nenhum passado, a internet aspira a ser (anuncia-se assim) o lar de cada usuário, em que a comunicação com outro usuário é possível à velocidade do pensamento. Essa é sua característica principal: a velocidade. Beda, o Venerável, lamentando a brevidade de nossa vida sobre a Terra, comparou-a à passagem de uma ave por um salão iluminado, entrando na escuridão, de um lado, e saindo para a escuridão, do outro. Nossa sociedade interpretaria o lamento de Beda como bazófia. O meio eletrônico é impermanente. A vida de um disco é de uns sete anos, um CD-ROM dura cerca de dez anos. As coleções virtuais, onde as há, precisam ter várias cópias de segurança para salvá-las da destruição total, em caso de pane eletrônica. Mas quantos backups se podem fazer dessas coleções virtuais? Há alguns anos, no Museu Arqueológico de Nápoles, vi, presas entre duas folhas de vidro, as cinzas de um papiro achado nas ruínas de Pompéia. Tinha 2 000 anos, fora queimado pelo fogo do Vesúvio, enterrado pela lava, e ainda era possível ler as letras tão bem quanto um jornal de hoje. O meio eletrônico, por outro lado, é perecível, é do momento, útil sobretudo para se comunicar neste exato instante e captar informações atualizadas no mesmo segundo em que as buscamos. Por que, então, queremos que faça algo para o que ele é tão mal adequado? Com suas funções de áudio e de escrita, o texto eletrônico tem um pé na tradição oral e outro na tradição do livro; espera-se que se liberte de ambas, criando seu próprio vocabulário. Ler o texto completo de Crime e Castigo ou de ...E o Vento Levou numa tela de computador, ou copiado para um rocket-book, é extenuante, já que uma pessoa comum não pode ficar sentada horas sem fim diante de uma tela iluminada, onde rola, tal como nos dias de Grécia e Roma, um texto que não é sólido, mas feito de pontos que piscam. E os leitores de livros em CD-ROM (usados, no momento, mais para obras de referência) passam pela humilhação de se verem guiados como crianças que precisam de ilustrações, de uma voz que os oriente ou de cativantes animações. Degradar o CD-ROM, tão cheio de possibilidades, à mera função de um velho códice, embora ilustrado e lido em voz alta, é ignorar teimosamente sua riqueza, é ir de avião a jato ao supermercado. Creio que isso mudará logo, que só vai durar até que os artistas tomem conta do novo meio e lhe dêem vocabulário próprio, como fizeram com as invenções da fotografia, do rádio, do cinema, do vídeo. Só então perceberemos que o CD-ROM não é um livro, como fotografia não é pintura. Até lá, sua função fica entre falar e folhear. Outra deficiência: a internet não é universal. Somente as sociedades mais ricas a têm. Para milhões de seres humanos deste planeta, a web é inacessível como a mais distante lua do universo. Mas nós, que a temos, achamos que abrange tudo e falamos dela como a pique de substituir todas as tecnologias, inclusive a de livros. Os editores americanos de hoje avaliam que pelo menos 30% da edição de um livro, no futuro, será eletrônica, como texto na teia mundial, disponível para ser copiado à vontade para um dos vários tipos de livros digitais já existentes no mercado. Nossa futura sociedade sem papel (aliás, definida por Bill Gates em um livro, quero salientar) é uma sociedade sem história, de vez que tudo na internet é instantaneamente contemporâneo e que, graças aos procescadores de texto, não há mais arquivo de nossas notas, erros, avanços e rascunhos. Walter Benjamin observou, lá pela década de 30, que a "humanidade, que na época de Homero era objeto de contemplação dos deuses do Olimpo, o é agora de si mesma. Sua auto-alienação atingiu grau tal que ela pode experimentar sua própria destruição com um prazer estético de primeira ordem"2. A essa auto-alienação acrescentamos agora a alienação de nossas próprias idéias, e nos deleitamos observando a destruição de nosso passado. Não mais registramos a evolução de nossas criações intelectuais. Para um observador do futuro, será como se nossas idéias nascessem prontas, qual Palas Atena inteira da cabeça de Zeus só que, tendo em vista que nosso vocabulário histórico será esquecido, mesmo esse clichê não significará nada. A proposta sociedade sem papel, que realçaria a ilusão de um mundo sem fronteiras, talvez seja global, mas certamente não é cosmopolita, pois não consegue ser o lar de ninguém, uma vez que ninguém pode morar num site da internet. Mas uma sociedade sem papel pode aumentar os já gigantescos lucros das companhias multinacionais que possuem e operam esse espaço virtual. Elas não apenas controlam os sistemas que possibilitam a existência dessas páginas, apropriando-se do patrimônio escrito do mundo, como estão comprando também nossa herança iconográfica. Feitas hoje, as figuras do escudo de Aquiles e o desenho sempre desfeito da tapeçaria de Penélope estariam sujeitos a taxas de uso embolsadas por uma das multinacionais. Corbis, a empresa fundada em 1989 por Bill Gates, adquiriu direitos não exclusivos de reprodução de muitas obras da National Gallery de Londres, da Barnes Foundation, do Museu de Arte de Filadélfia, do Museu Hermitage e da coleção do Extremo Oriente do Museu Real de Ontário. Entre outras companhias que compram direitos iconográficos em massa estão a Disney, a CNN, a DreamWorks, de Spielberg, o grupo Bertelsmann, a Sony e a Hollinger Inc., de Conrad Black3.
Em
1948, um americano chamado James T. Mangan protocolou uma escritura
no tabelião de registro de imóveis do condado de Cook
reivindicando a propriedade de todo o espaço. Depois de batizar
seu vasto território de Celestia, Mangan avisou a todos os
países da Terra que não tentassem fazer viagens à
Lua e entrou com um pedido de ingresso na ONU. O ambicioso empreendimento
do sr. Mangan foi agora assumido, num sentido mais prático,
pelas multinacionais. Seus métodos têm sido muito eficazes.
Ao oferecer aos usuários eletrônicos a aparência
de um mundo controlado a partir de seus teclados, um mundo em que
tudo pode ser "acessado" e tudo pode ser possuído, como nos
contos de fadas, com um simples toque dos dedos, as multinacionais
certificaram-se de que, por um lado, os usuários não
protestarão por ser usados, uma vez que estão supostamente
"com o controle" do ciberespaço e que, por outro lado, ficarão
impedidos de saber qualquer coisa profunda sobre si mesmos, seu
ambiente ou o resto do mundo. Essa prestidigitação
é executada graças à ênfase na velocidade
em detrimento da reflexão e na brevidade em lugar da complexidade.
Dá-se preferência a fragmentos de notícias e
a bytes às discussões longas e aos dossiês minuciosos,
e dilui-se a opinião fundada com resmas de conversa fiada,
conselhos ineficazes, versões inexatas e informações
triviais, que ganham atrativo graças a nomes de marcas e
estatísticas manipuladas. A enfadonha Florence Nightingale
disse certa vez que, "para entender os pensamentos de Deus, devemos
estudar estatísticas, pois elas são a medida de Sua
intenção"4. E também a medida da
intenção profana das desabusadas multinacionais.
Mas não é o caso de culpar a internet por nossa falta de interesse em explorar o passado, nem pela preocupação superficial com o mundo em que vivemos. Sua virtude, como eu disse, está na rapidez e na quantidade da informação; não pode dar concentração e profundidade. O meio eletrônico pode nos ajudar (de fato, ajuda) num sem-número de questões práticas, mas não em todas, e não se deve responsabilizar pelo que não se propõe a fazer. Não será ele o receptáculo de nosso passado cosmopolita, tal como o livro, eis que não é um livro e jamais o será, malgrado tantos truques e disfarces inventados para enfiá-lo nesse papel. Nem nos oferece cama e mesa, em nossa passagem por este mundo, porque não é local de repouso; ele não é país estrangeiro nem terra natal, não é a caverna de Circe nem Ítaca. Somos nós mesmos, e não nossas tecnologias, os responsáveis por essa destituição, e a culpa é só nossa por escolhermos deliberadamente o olvido em vez da reminiscência. Porém, somos hábeis em achar desculpas e inventar razões para nossa incapacidade. Os indígenas abnakis da América do Norte, por exemplo, acreditavam que um grupo especial de divindades, os Oonagamessoks, governava a escrita de petróglifos, e passaram a explicar o sumiço gradual dessas gravuras rupestres dizendo que aborrecia os deuses a falta de atenção para com eles, desde a chegada do homem branco5. Os petróglifos de nosso passado comum não se apagam em razão da chegada de uma tecnologia nova, mas sim porque não temos mais a vontade de os ler. Estamos perdendo nosso vocabulário comum, construído no decorrer de milhares de anos para nos dar voz, ajudar, deleitar e instruir, em nome do que julgamos serem virtudes exclusivas da nova tecnologia. Talvez sejam virtudes, mas não exclusivas. O mundo, como descobriu Robinson Crusoé, é bastante grande para acomodar sempre uma maravilha a mais. Nesse sentido, ser cosmopolita hoje pode significar ser eclético, recusar a exclusão. Nossa tendência a levantar paredes é útil apenas como ponto de partida para a autodefinição, paredes que contêm a cama em que nascemos, sonhamos, nos reproduzimo-nos e morremos. Mas fora das paredes está a percepção de Sidarta, de que todos os seres humanos envelhecem, são propensos ao pesadelo e à doença e marcham juntos para o mesmo e implacável fim.
Nossa existência flui como um rio impossível, em duas direções: da massa infindável de nomes, lugares, criaturas, estrelas, livros, rituais, memórias, luzes e pedras, a que chamamos mundo, para o rosto que nos encara pela manhã da profundeza de um espelho, e desse rosto, desse corpo que cerca um centro que não podemos ver, disso que nos designa quando dizemos Eu, para tudo que é Outro, externo, além. Um sentimento de quem somos, individualmente, acoplado a um sentimento de ser cidadão do universo inconcebível, coletivamente, nos dá um certo sentido da vida um sentido posto em palavras pelos livros de nossas bibliotecas. Estou
convencido de que a leitura continua e sobreviverá, desde
que persistamos em aplicar palavras ao mundo que nos cerca. Tanta
coisa recebeu nome, tanta coisa continuará a receber que,
com toda nossa insensatez, não desistiremos desse pequeno
milagre que nos permite um vago entendimento mútuo. Os livros
talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos
protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom
ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado
comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de
tais coisas, a oportunidade de mudança, a eventualidade de
iluminação. Talvez não haja um livro, bem escrito
como seja, que possa remover uma gota de dor da tragédia
de Kosovo, mas talvez também não se ache um só
livro, mal escrito quanto seja, que não enseje uma epifania
a seu leitor. Na página 162, Robinson Crusoé escreve:
"Talvez não seja errado, dos que lerem minha história,
tirar dela a justa observação de quão freqüentemente,
em nossas vidas, o mal que mais buscamos evitar e que é o
mais terrível quando cai sobre nós é, ele mesmo,
muitas vezes, o meio, a via de nossa libertação, por
onde, tão-somente, podemos nos erguer de novo". Não
se trata, evidentemente, de Crusoé falando, mas de Defoe,
leitor de muitos livros.
O apóstolo Paulo (o único que não conheceu Jesus em pessoa) dizia audaciosamente aos homens e mulheres que vinham em busca das Escrituras, "Quereis a prova de Cristo falando em mim?" sabendo que tendo lido a Palavra, a Palavra agora morava nele, mesmo que não tivesse conhecido o Autor; que ele se tornara o Livro, a Palavra feita carne, mediante a pequena porção de divindade que a arte da leitura oferece a quem busca aprendê-la. Esta é a sabedoria da seita dos essênios, a gente devota que nos deixou, há tantos séculos, os manuscritos do Mar Morto: "Sabemos que o corpo é corrutível e que o material de que é feito é temporário. Mas sabemos também que a alma (e eu, futuro leitor deles, acrescentarei 'o livro') é imortal e imperecível".
Ele argumenta que o livro, como tecnologia, tem vantagens enormes sobre as telas dos computadores. Como elo com o passado e porta para o futuro, o livro de papel terá uma longa vida. Talvez a mais objetiva das conclusões que se tira ao ler o artigo de Manguel é a de que é tolice colocar a culpa na internet pela dificuldade que muitos têm de encontrar prazer na leitura, especialmente os jovens. Cada geração, no passado, encontrou um subterfúgio para fugir dos livros. Alberto Manguel, com a graça e a arte de seu texto, é a prova de que a leitura é uma riqueza irrenunciável.
2) Walter Benjamin, Schriften, editado com uma introdução de Hannah Arendt, Suhrkamp Verlag, Frankfurt-am-Main, 1955. 3) Luc Melanson, "Le cartel des images", L'Actualité, Montreal, 1o de setembro de 1999. 4) K. Pearson, The Life, Letters and Labours of Francis Galton, II:13:1, Londres, 1914. 5) Garrick Mallery, Picture Writing of the American Indians, Washington, 1893.
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