As
falhas continuarão
a ser o motor do progresso
ano 2000 deveria ter sido celebrado em Londres com várias
construções sensacionais. O Domo do Milênio
cobriria um imenso espaço onde os londrinos poderiam visitar
uma exposição atrás da outra. A gigantesca
Roda do Milênio se ergueria junto ao Rio Tâmisa e elevaria
as pessoas a uma altura maior que a do domo da Catedral de Saint
Paul. E a Ponte do Milênio, delgada como uma lâmina,
seria uma nova e emocionante forma de atravessar o rio.
Nenhuma
dessas maravilhas da arquitetura e da engenharia funcionou conforme
os planos. O Domo do Milênio não atraiu multidões
capazes de justificar seu custo, que continuou a crescer. A Roda
do Milênio não conseguiu, de início, pôr-se
em posição; depois, não tinha o alvará
de segurança para o dia da inauguração. A Ponte
do Milênio, só para pedestres, vibrou a tal ponto com
o caminhar da massa de usuários que foi preciso interditá-la
para que essa ressonância se corrija. Em vez de exibir espetacularmente
a engenharia inglesa às vésperas do milênio,
esses sistemas tecnológicos juntaram-se para envergonhar
Londres.
No resto do mundo, outros fiascos tecnológicos também
marcaram a passagem para 2000. O problema todo do bug do milênio,
que provocou tanta ansiedade financeira e tecnológica há
apenas um ano, não passou, para muitos, de puro rebate falso
da indústria de computadores. Foi o fracasso de um fracasso,
por assim dizer. E os últimos meses testemunharam várias
falhas trágicas: a queda de um jato supersônico Concorde,
outrora símbolo do vôo futurista, a perda do submarino
nuclear russo Kursk, com suas armas supostamente avançadas,
e o recall de milhões de pneus Firestone, acusados em acidentes
fatais de automóveis da Ford.
Como é possível que alguns dos mais recentes exemplares
de tecnologias já conhecidas e testadas falhem dessa maneira?
Domos e pontes existem literalmente há milênios, e
rodas-gigantes de parques de diversões antecedem em séculos
a portentosa Roda Ferris da exposição de Chicago de
1893. O Concorde já voava por quase um quarto de século
sem uma única queda, ganhando a reputação de
ser quase imbatível. E temos bons motivos para crer que computadores
digitais, submarinos nucleares e pneus com cintas de aço
deveriam estar perfeitos a esta altura. Por que tecnologias conhecidas,
que parecem funcionar bem, de repente dão manchetes sinistras?
Por que, afinal, ocorrem essas falhas surpreendentes? Continuarão
elas a nos perseguir no século XXI?
Ilustrações: Evandro Luiz
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Uma
das características da tecnologia é que se trata de
feito humano e, como tal, tanto se aproveita como sofre dos melhores
e piores traços dos criadores. Em seus grandes momentos,
inventores e engenheiros são os poetas do artefato. Porém,
humanos que são, esses mesmos inventores e engenheiros
responsáveis por máquinas, estruturas e sistemas tecnológicos
que nos assombram e dos quais dependemos exageram, cometem
erros e malogram. Compreender como e por que isso ocorre ajuda a
enquadrar os vexames tecnológicos.
Observem-se a concepção e a construção
de pontes. As pontes primitivas eram troncos caídos por acaso
ou atirados sobre um riacho. Essas apreciadas travessias secas devem
ter maravilhado quem antes se molhava, mas logo dariam problema.
A ponte de troncos, além de exigir algum cuidado na travessia,
devia ser arrastada pelas enchentes da primavera ou apodrecia com
o tempo. Esses defeitos relativamente leves devem ter feito algumas
cabeças mais espertas, os primeiros engenheiros, tentar uma
solução melhor. Esta veio na forma da ponte de pedra,
que tinha um piso mais largo e plano, as águas da primavera
não levavam e não apodrecia ao tempo.
Mas
nada é perfeito, e toda tecnologia tem seus pontos fracos.
Pontes de pedra requerem, obviamente, um bom suprimento de pedras,
nem sempre bem localizado, sua construção é
trabalhosa e exige muito mais tempo, esforço e dinheiro do
que uma ponte de troncos. Assim, os engenheiros sempre festejavam
qualquer material e método alternativo que surgisse. A Revolução
Industrial entrou com esse material, pondo à disposição
o ferro fundido.
A construção de pontes de ferro começou no
final do século XVIII, inicialmente perto das fundições
que produziam o componente. As primeiras pontes de ferro imitavam
as estruturas de pedra na forma e as de madeira nos detalhes da
montagem. Desse modo, os engenheiros podiam concentrar-se no próprio
material novo. Demonstrada sua superioridade sobre as anteriores,
essas pontes foram amplamente adotadas.
No
início do século XIX, os engenheiros já tinham
experiência suficiente e confiança no projeto e na
construção de pontes de ferro e passaram a se afastar
da tradição, erguendo pontes em novas formas e escalas.
Quanto mais sucesso, mais confiantes ficavam, acelerando as inovações
e a ambição. Não demorou para que excedessem
os limites e, na metade do século, ocorreram tantas quedas
de pontes de ferro que se nomeou uma comissão real para examinar
o emprego do ferro em pontes ferroviárias.
Quando determinado tipo de ponte ruía de modo especialmente
dramático, cortando a vida de cidadãos surpreendidos
nela, era abandonado. Projetavam-se, então, e construíam-se
novos tipos, tendo os engenheiros o cuidado de tomar as precauções
normais de quando se experimenta algo inédito e diferente.
Erguido com sucesso o novo tipo, vinham os imitadores e construíam
pontes de comprimento cada vez maior. E assim se ia, até
ser feita uma ponte comprida demais e ela desabava. Recomeçava,
então, o ciclo.
A Ponte do Milênio, que se houve mal em Londres, é
fruto dessa tradição. Ela é do tipo pênsil,
mas com perfil muito raso e pouco comum, que não interfere
no cenário histórico em que foi construída.
Para as torres da ponte serem baixas, os cabos tinham de ficar extremamente
retesados. (Se quisermos que o varal de roupas não ceda muito,
temos de esticá-lo bem.) Com isso, a freqüência
de ressonância da ponte era muito alta. (A altura do som da
corda de violão depende de quão tensa ela é
regulada.) A freqüência da Ponte do Milênio era
de meio a um ciclo por segundo, muito próxima daquela em
que batem nossos passos quando caminhamos ou atravessamos uma ponte.
Mas as pessoas não caminham no mesmo passo, parecem ter pensado
os engenheiros, portanto não havia motivos para preocupação.
As
primeiras multidões que atravessaram a ponte não andaram
no mesmo compasso, mas ela começou a vibrar levemente, como
acontece com todas as pontes pênseis. Com a ponte oscilando,
embora pouco, as pessoas passaram a andar naturalmente no ritmo
dela. Da mesma forma que um balanço sobe cada vez mais alto
quando ajudamos seu movimento mexendo as pernas no mesmo tempo,
a Ponte do Milênio começou a vibrar cada vez mais,
à medida que os pedestres lhe adotavam a freqüência.
Quanto mais vibrava, mais as pessoas caminhavam no mesmo ritmo.
Os engenheiros não haviam imaginado esse comportamento da
multidão.
O movimento excessivo de pontes pênseis não é
novidade. Há notícias de pontes do século XVIII
que caíram sob o ritmo da marcha uniforme de soldados. Daí,
durante muito tempo, algumas, inclusive a Ponte Albert, de Londres,
tinham avisos para que os soldados não marchassem em passo
ordinário sobre elas. Várias pontes pênseis
construídas nos Estados Unidos na década de 1930 reagiram
mal ao vento forte. Em 1940, a ponte de Tacoma Narrows, a terceira
maior do mundo de então, desabou pela ação
do vento, quando seu movimento passou da conta. Como puderam ignorar
essas lições da História os engenheiros que
projetaram uma ponte pênsil para comemorar a aurora do novo
milênio? Engenheiros, como a maioria de nós, tendem
a olhar à frente, em vez de relancear para trás. Crêem
conhecer estruturas como pontes pênseis muito melhor hoje
do que seus colegas do século XIX, ou mesmo do século
XX. Além disso, usam programas modernos em computadores para
montar projetos altamente precisos e calcular tensões com
grande exatidão. Provavelmente pensam que as pontes que caíram
há um ou dois séculos eram projetadas sem essas vantagens
e, portanto, os desastres não interessam para as que são
projetadas hoje. Além disso, as novas pontes utilizam materiais
novos mais resistentes e são inerentemente mais estáveis
que as antigas.
Esse raciocínio ignora algumas semelhanças fortes
entre o velho e o novo. Construídas em tempos modernos ou
antigos, as estruturas seguem as mesmas leis da natureza. Despertada
pelo vento ou por passos ritmados, uma ponte mal projetada responderá
hoje da mesma maneira como no passado. Compete aos engenheiros prever
tais possibilidades e adequar os projetos. Por exemplo, com o ajuste
da tensão dos cabos, afinando a estrutura a uma freqüência
não tão próxima do ritmo do caminhar humano.
Claro que a engenharia nem sempre prevê o que, em retrospecto,
parece tão óbvio. Não se trata de uma característica
de engenheiros, mas dos humanos. Incorremos, todos, em nos concentrarmos
tanto em algum aspecto da tarefa que perdemos de vista certos detalhes.
Evidentemente, tal não deveria ocorrer com engenheiros e,
de fato, não é muito freqüente. Mas ocorre, simplesmente
porque engenheiros são gente. Como todos nós, convencem-se,
às vezes, de que podem ignorar certas coisas para cuidar
de outras. Sem esse vezo, dificilmente realizariam o que se espera
deles. Mas ser humano tem vantagens e desvantagens.
Entre as vantagens, somos criaturas extremamente inteligentes e
criativas, e nossas tecnologias refletem isso. É fácil
recitar uma lista infindável das maravilhas da invenção
e da engenharia que utilizamos no dia-a-dia. Entre os maiores feitos
do século XX, relacionados pela Academia Nacional de Engenharia
americana, estão a eletrificação, as viagens
aéreas, o fornecimento de água potável, a eletrônica,
a mecanização agrícola, a internet, as redes
telefônicas, as espaçonaves, as técnicas médicas,
o raio laser e as fibras ópticas.
Se nos toca a sorte de viver numa sociedade tecnologicamente avançada,
nem sequer percebemos todas essas realizações. Nossos
despertadores tocam música e dão as primeiras notícias;
tomamos café da manhã com leite e manteiga conservados
em refrigeração e cozinhamos com gás e eletricidade;
vamos para o trabalho em automóveis, por ruas asfaltadas,
ou em trens sobre trilhos sem ruído; trabalhamos no conforto
do ar condicionado e falamos com o mundo todo pelas redes internacionais
de comunicação; jantamos em casas ou restaurantes
bem mobiliados e equipados; vemos televisão ou navegamos
na internet em nosso computador pessoal; dormimos em camas confortáveis,
em tempos de paz.
Mas,
amiúde, parece que nós, humanos, não estamos
satisfeitos com o que temos. Obtido um sucesso, tendemos a logo
querer outro, maior, o carro mais novo, um emprego melhor, uma casa
mais ampla, um computador mais rápido, vinho de melhor qualidade.
Quando não podemos ter as coisas, ansiamos por elas, sonhamos
com elas, rezamos por elas.
Inventores
e engenheiros ouvem nossas preces e acrescentam as próprias.
Mesmo que ninguém clame por um domo mais imponente ou uma
ponte mais longa, um avião mais veloz ou um carro mais espaçoso,
o desafio técnico de produzi-los empurra o processo de projetá-los
e construí-los. Ao se concentrarem nos aspectos novos de
um novo projeto, os engenheiros podem esquecer os problemas dos
antigos. Quando esses produtos de tecnologia, maiores, mais longos,
mais rápidos e mais espaçosos, são encetados
sem respeito pelo que veio antes (e pifou antes), muitas vezes caímos
das nuvens com o resultado.
Os engenheiros, tal como outras pessoas, criam a hybris, a arrogância
do que podem fazer. E sofrem também de outro traço
humano, a condescendência. Descuidam-se do fácil e
do comum. Acontece-nos a todos. Cortamos o dedo esfatiando legumes,
tropeçamos nas escadas. Sabemos como se faz isso e o fizemos,
perfeitamente, milhares de vezes. Justamente porque o fazemos tão
bem, com tanta freqüência, prestamos cada vez menos atenção.
Pensamos no molho novo que está no fogo, em lugar de cuidar
do legume que cortamos. Pensamos no que dizer na visita aos vizinhos
novos, em vez de ter cuidado nos degraus da porta.
Os engenheiros têm obrigação de pensar igualmente
sobre o velho e o novo, mas, como todos, de vez em quando escorregam
e vão ao chão. Por isso codificam seus pressupostos
e cálculos, para que outros engenheiros lhes possam conferir
o raciocínio e os números, percebendo com mais facilidade
os possíveis erros. Infelizmente, um dos supostos mais críticos
de uma estrutura como uma nova ponte para pedestres não é
a tensão que os cabos podem suportar, mas o modo como as
pessoas usarão a ponte. Pensar sobre isso exige uma visão
mais ampla do problema, que pode estar obscurecida por detalhes.
Os computadores não eliminarão o elemento humano do
projeto e da construção. Na verdade, há um
certo receio de que a confiança excessiva nos computadores
tornará os engenheiros menos vigilantes. Mas, independentemente
disso, toda a história da civilização nos ensina
que erros, acidentes e fracassos acontecem. Não há
motivo para pensar que essa condição tecnológica
humana mudará no século XXI.
Por outro lado, o registro histórico também fornece
provas irrefutáveis de que o número de fracassos é
minúsculo, comparado com o dos êxitos da tecnologia.
Podemos comentar a recente tragédia do Concorde, mas não
devemos esquecer as dezenas de milhares de vôos sem acidente
e os milhões de passageiros que voaram em segurança
nessa aeronave supersônica. Em vez de vivermos com medo da
queda de um avião ou do estouro de um pneu, devemos confiar
em que a probabilidade de esses desastres acontecerem é desprezível.
Não se trata de ignorar a possibilidade do defeito, que não
devemos esquecer, mas de não se deixar imobilizar por ela.
Petroski
conclui com acerto que haverá margem para erro enquanto existir
gente disposta a construir a ponte mais longa e mais delgada, o
carro mais leve e veloz, o avião mais esguio e que voa mais
rápido e o computador menor e mais rápido. Que fazer?
O impulso inicial de tentar segurar o ímpeto inovador da
humanidade é contraproducente. Não adianta. A melhor
saída parece ser conviver com as falhas e os erros, de modo
que o desastre de hoje abra caminho para o desenho seguro do futuro.
De acordo com Henry Petroski, o destino tecnológico da humanidade
é evoluir de queda em queda, como os bebês quando começam
a aprender a andar.
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