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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Jared Diamond  
   

Por que eles
perdem a cabeça

s outros articulistas que contribuíram com suas idéias para esta edição especial de VEJA discorreram sobre questões que vão mudar no futuro. Eu escrevo aqui a respeito de uma característica moldada no decorrer da evolução dos seres vivos e que, tudo indica, continuará sendo a mesma coisa no futuro: o comportamento sexual. Quantas pessoas você conhece que se entregaram a um comportamento de risco e se deram mal? Damos duro para conseguir vencer na vida e depois fazemos alguma coisa estúpida que põe tudo em perigo. O que nos leva a isso?

Essa questão surge com freqüência em um contexto sexual. A esta altura, será que todos já não sabem que sexo sem segurança pode matar? E o que dizer das pessoas que destroem o casamento ou a carreira com sexo extraconjugal imprudente, apesar do risco óbvio de ser flagrado? Essas questões ficaram particularmente evidentes nos Estados Unidos, onde o presidente Bill Clinton se expôs a grandes riscos por suas atividades sexuais na Casa Branca com a jovem Monica Lewinsky. No Brasil, os problemas em que se meteu o ex-treinador da Seleção Brasileira de Futebol Wanderley Luxemburgo vieram à tona em boa parte por suas imprudências sexuais. Brasileiros e americanos devem estar se perguntando: "Como pôde um sujeito tão esperto ser tão estupidamente autodestrutivo no campo sexual?" A resposta é ao mesmo tempo complexa e simples.

É claro que a espécie humana não é a única a assumir riscos. Os animais também se arriscam. Os biólogos evolucionistas sabem muito sobre os motivos por que os animais correm riscos, pois é muito mais fácil para nós analisar friamente as razões dos animais do que as humanas. Acontece que existem tipos diferentes de risco, que muitas vezes não provêm de pura estupidez, mas trazem consigo mensagens profundas.

O tipo de risco que talvez seja menos surpreendente é aquele decidido a sangue-frio. Muitas pessoas – os investidores, por exemplo – vivem disso. Ao jogar na bolsa, eles não são estúpidos, autodestrutivos, nem desejam impressionar alguém. Querem apenas ganhar dinheiro e acreditam que com um comportamento prudente podem minimizar o risco e maximizar as chances de lucro.

Ilustrações: Evandro Luiz


Nesse sentido, há muito sexo extraconjugal que é um risco calculado. Por exemplo, se as histórias sobre as atividades sexuais de John F. Kennedy forem verdadeiras, podemos concluir que ele usava o cérebro: caçou mulheres desejáveis, como Marilyn Monroe, tomou todos os cuidados para apagar suas pegadas e calculou corretamente que se safaria ileso. O ministro da Guerra inglês John Profumo também assumiu um risco calculado em seu caso com Christine Keeler, mas, ao contrário de Kennedy, perdeu a aposta, pois não percebeu que ela estava envolvida ao mesmo tempo com o adido militar russo e que o segredo vazaria. Os cautelosos Kennedy e Profumo contrastam com o autodestrutivo e fracassado candidato a presidente Gary Hart: ele certamente sabia que estava sendo vigiado pela imprensa quando uma mulher atraente – que não era sua esposa – foi vista entrando em sua casa e saindo só na manhã seguinte. Em alguns países, como o Brasil e a França, por questões culturais próprias, com muito mais freqüência a ousadia sexual – especialmente a do homem – não só não é punida como também premiada. Mas essa não é a questão que me interessa, pois, com ou sem punição, há sempre o risco. E por que decidimos nos arriscar?

Os riscos calculados que estamos dispostos a enfrentar dependem do desfecho em potencial e de nossa "desesperança", isto é, daquilo que provavelmente acontecerá de qualquer modo, mesmo que não corramos o risco. Isso vale também para os animais. Por exemplo: em climas frios como o do Canadá, os pássaros cujo ninho é descoberto por um predador são capazes de lutar em defesa da prole, mesmo assumindo o risco de perder a própria vida. Mas os pássaros tropicais, como os do Brasil, são famosos por abandonar o ninho ao menor sinal da presença de um predador. O motivo evolucional tem a ver com as oportunidades alternativas (ou seja, a desesperança): os passarinhos de zona temperada vivem por um ano ou dois no máximo e talvez não tenham outra chance de chocar, ao passo que uma ave tropical, que dura dez anos, pode contar com muitas outras oportunidades futuras de transmitir seus genes.

Um exemplo de comportamento suicida calculado que faz pleno sentido evolutivo é o canibalismo sexual de algumas espécies de aranhas de vida curta que ocorre em baixas densidades populacionais. A princípio, os biólogos ficaram espantados ao ver uma aranha macho, enquanto copulava, pressionar a cabeça e o tórax contra a boca da fêmea e deixar que ela lhe comesse o corpo enquanto sua genitália a inseminava. Mas aquele macho, em sua curta existência, teria poucas probabilidades de encontrar outra fêmea. Portanto, era melhor que convertesse o risco de morte em certeza, alimentando a fêmea com seu próprio corpo e possibilitando assim que a parceira, bem nutrida, produzisse mais ovos que transmitiriam seus genes. Os seres humanos também seriam canibais sexuais se não fosse por três diferenças que existem entre nós e as aranhas.

1) A primeira provém de um cálculo quase automático que pode ser expresso da seguinte maneira: a maioria dos homens tem mais de uma oportunidade na vida de copular. Até mesmo mulheres bem nutridas geralmente dão à luz um único filhote por vez. A mulher não poderia consumir uma quantidade suficiente de corpo masculino em uma única refeição para aumentar significativamente sua probabilidade de gerar gêmeos.

2) Esse primeiro passo de cálculo frio, assunção de risco bem-sucedida e prazer adequado ao sucesso está a um pulinho do segundo passo: ver na emoção do risco uma recompensa em si mesma. A satisfação de "escapar impune" passa a valer mais que o resultado da ação de risco. As pessoas viciadas em jogo sentem prazer no puro ato de jogar; teriam muito menos prazer se ganhassem exatamente a mesma coisa trabalhando das 9 às 5 numa linha de montagem. Como sou do tipo que só assume riscos calculados, não posso acreditar que haja grande prazer físico no bungee jump ou em dirigir um carro de Fórmula 1. Convenhamos, o que há de tão bom em cair, comparado com o prazer do sexo ou de uma massagem? A recompensa do bungee jump está certamente no suspense e na adrenalina do salto enquanto está acontecendo, e no alívio e orgulho de ainda estar vivo depois de pular. A massagem é ótima no momento, mas você não vai embora excitado por ter posto a vida em risco e sobrevivido – se é isso que importa para você.

3) A terceira e última diferença deriva do fato de que o ser humano não fica satisfeito apenas em impressionar a si próprio com o fato de ter sobrevivido a algo perigoso, mas quer causar impressão também a outras pessoas. Não me arrisco no bungee jump, mas sei que é usualmente praticado como um esporte social: há outra pessoa que observa seu salto (e portanto fica impressionada). Boa parte da vida consiste em fazer coisas para tentar elevar o próprio status aos olhos dos outros (inclusive parceiros sexuais em potencial). Exibir-se fazendo algo perigoso é um método muito comum utilizado com esse objetivo. Temos aí um dos motivos dos rachas de carros entre adolescentes. O motorista prova que é frio, habilidoso, corajoso e sexualmente desejável; quem tem medo de correr é medroso, destituído de habilidade e geneticamente menos significativo.

Não conheço animais que se detenham no segundo passo, o de gostar do perigo em si mesmo. Mas o terceiro passo, o de correr riscos para impressionar os outros, é muito difundido no mundo animal. Tal como os seres humanos, os animais defrontam periodicamente com o problema de como demonstrar sua superioridade de forma convincente para atrair uma parceira, intimidar um rival, paralisar uma presa de medo ou deter um possível predador. Os animais estão constantemente empenhados em transmitir sinais de suposta superioridade uns aos outros, por meio de sons, imagens e cheiros. Por exemplo: por que os cães latem, mostram os dentes ou urinam no poste quando há outros cachorros por perto? A mensagem implícita é: "Sou um cão forte, este é o meu território, fique longe daqui". Mas como um cachorro novo na vizinhança pode inferir desses sinais que o residente é realmente forte e não está simplesmente fingindo? Um vira-lata mirrado e covarde não é capaz de latir, mostrar os dentes e urinar? Como pode um cão forte inventar um sinal que não possa ser imitado por vira-latas covardes?

A solução desenvolvida por muitos animais é emitir um sinal que envolva um grau de risco tal que nenhum bicho fraco ousaria ou teria condições de exibir. Na África, por exemplo, a gazela de Thomson, ao ver um leão, reage com um comportamento chamado stotting: pula alto várias vezes, com as pernas rígidas. Quando vi pela primeira vez essa reação, pensei comigo mesmo: "Meu Deus! Isto é suicídio! O leão vai ganhar terreno, por favor, comece a galopar logo!" Na verdade, os leões não querem perder tempo nem energia na perseguição infrutífera de uma gazela rápida e em boas condições físicas; o que procuram é um animal lento e ferido. Quando uma gazela não foge a toda a velocidade ao ver o leão e começa a pular, está mandando uma mensagem que significa: "Tenho confiança em que sou mais rápida do que você e, para provar que não é pura exibição, estou dando esta vantagem e nem assim você vai conseguir me pegar! Portanto, não me persiga. Será perda de tempo e energia!" De fato, os leões não perdem tempo perseguindo uma gazela saudável que reage dessa forma. Eles estão convencidos da honestidade da mensagem: nenhuma gazela lenta poderia se dar ao luxo de conceder vantagem a um leão e sobreviver. Esperam, então, por uma gazela que não ouse pular e fugir em seguida, desesperadamente.

Evidentemente, gazelas e outros animais não fazem esses cálculos de forma racional. Os genes que influenciam o comportamento evoluem mediante seleção natural. As gazelas que dão esses pulinhos salvadores economizavam elas próprias energia e tempo, porque os leões aprenderam que persegui-las é inútil. Com a energia e o tempo economizados, as gazelas podiam conquistar fêmeas ou cuidar de filhotes com mais sucesso.

A seleção natural acrescentou muito desse risco à anatomia do animal, e não apenas a seu comportamento. Por exemplo: por que os machos de tantas espécies desenvolveram estruturas grandes ou vistosas que usam na conquista das fêmeas? Entre os exemplos familiares, temos a cauda do pavão e as cores brilhantes de muitos beija-flores machos do Brasil. A cauda do pavão dificulta seus movimentos na selva e as cores do beija-flor atraem a atenção de predadores. Imagine agora que a fêmea do pavão tenha vários pretendentes e um deles tenha a cauda grande. Suponha que todos estão se exibindo para ela e tentando dizer na linguagem dos pavões: "Faça sexo comigo, eu tenho genes superiores!" Todos poderiam estar mentindo, mas, quando vê o macho da cauda grande, a fêmea sabe que ele está sendo honesto, pois não sobreviveria com aquela cauda na selva se não fosse superior em todos os outros aspectos. Nem poderia sustentar o crescimento da bela cauda se não tivesse genes excelentes que lhe permitiram ficar bem nutrido. A ostentação dessa vantagem, essa insígnia que prova sua capacidade de sobreviver ao perigo, é um sinal garantido de honestidade que não pode ser imitado. Um pavão inferior teria sido presa fácil dos tigres se exibisse uma cauda daquelas; na verdade, ele nem seria capaz de cultivá-la.

Muito da imutabilidade do comportamento dos seres humanos em seu condicionamento evolutivo para impressionar as outras pessoas consiste em se afirmar superiores. Mas queremos demonstrar sempre a honestidade de nossa alegação de superioridade. Com efeito, convidamos os outros a tirar suas próprias conclusões do fato de ainda estarmos vivos, apesar de corrermos riscos ou custos que destruiriam outra pessoa. Por que os presentes caros são tão importantes na corte amorosa? Milhares de homens tentam convencer uma linda mulher: "Venha para a cama comigo e tenha certeza de que sou suficientemente rico para cuidar para sempre de você e dos bebês resultantes". Uma mulher sensível sabe que os homens que dizem isso são, na maioria, fanfarrões mentirosos. Mas o homem que lhe dá um anel de diamante de 50 000 dólares sem empalidecer deve estar falando a verdade. A mensagem implícita do diamante é: "Tenho tanto dinheiro que posso jogar fora 50 000 dólares numa simples pedra. Pode ter certeza de que sou rico. Você notou como o rosto de meu rival supostamente rico ficou pálido quando a conta do restaurante passou dos 100 dólares?"

Homens e animais emitem sinais arriscados e caros não somente quando estão tentando conquistar a fêmea, mas durante toda a vida. Dessa forma, mantêm sua posição numa hierarquia de dominação. Depois que você passou meses intimidando os outros machos, subiu de status, tornou-se o macho dominante ou alfa-macho, no jargão dos biólogos evolucionistas, e reclamou para si o melhor emprego ou território, as mulheres vão se deixar seduzir facilmente. Por isso, boa parte do comportamento masculino, especialmente na adolescência e no começo da vida adulta, consiste em fazer coisas arriscadas para obter status, mas a maneira de realizar isso varia muito conforme a cultura.

Na competição por status na Ilha de Malekula, no Oceano Pacífico, por exemplo, cada homem constrói uma torre alta de madeira, amarra uma das pontas de um par de cipós fortes, mas elásticos, no alto da torre e a outra ponta em seus tornozelos. Então, salta de cabeça lá de cima. Naturalmente, ele comparou cuidadosamente o comprimento do cipó com a altura da torre, para que a queda se interrompa antes que sua cabeça atinja o solo. Quanto mais alta a torre e quanto mais perto sua cabeça chegar do chão na queda, mais status ele ganha. Para nós, isso parece loucura, mas um macho de Malekula estaria correto ao julgar muito mais maluco o bungee jump: "É verdade que vocês brancos idiotas confiam em outra pessoa para trançar a corda ou construir a plataforma para saltar?" O bungee jump, como os americanos e os brasileiros praticam, não prova nada sobre as capacidades em geral do saltador. Ao contrário, o saltador da torre de Malekula que constrói sua torre, salta e sobrevive prova que é forte, cuidadoso, preciso, excelente construtor e devidamente autoconfiante, mas não convencido.

Ilustração: Evandro Luiz
Montagem sobre fotos de Bauer e Luiz Teixeira



Para os seres humanos de hoje, um dos comportamentos autodestrutivos mais comuns é o abuso de bebidas alcoólicas ou drogas. Qual é a mensagem cifrada das orgias alcoólicas? Eis uma questão intrigante: todo mundo deve saber como é fácil se ferir quando se está bêbado, e se você já teve alguma vez uma ressaca brava sabe como é terrível. Por que, então, tantas pessoas se orgulham da capacidade de ingerir doses industriais de bebidas alcoólicas?

Na verdade, elas estão dizendo: "Minha constituição é tão forte que posso me entupir com todos esses produtos químicos tóxicos, manter-me de pé e não ficar impotente como o resto de vocês. Bebam, seus fracotes, e revelem o frouxo que há em vocês!" Um exemplo de pessoa famosa por sua tolerância ao álcool era o ditador soviético Joseph Stalin. Em festas diplomáticas, ele comandava várias rodadas de vodca, propunha brindes e mandava todo mundo beber. A maioria dos diplomatas acabava em estado de torpor, revelava segredos de Estado ou melava as negociações. Stalin tinha constituição suficientemente forte para se encharcar de vodca. Ele se achava único nesse particular até o dia em que encontrou um páreo a sua altura em Winston Churchill, que tinha capacidade alcoólica semelhante.

Os exemplos que citei de comportamento exibicionista em contexto sexual foram de machos se mostrando para fêmeas, porque, na maioria das espécies animais, o macho faz a corte e a fêmea faz a escolha.

Evidentemente, o mesmo acontece com os seres humanos: muito mais homens tentam seduzir mulheres do que vice-versa (exceto quando se trata de um homem rico e de uma mulher pobre). As mulheres são nosso sexo mais exigente. Um exemplo: um serviço de encontros por computador fez centenas de clientes preencherem um questionário sobre o que procuravam em um parceiro. Em quase todas as categorias, exceto boa aparência física, as mulheres expressaram preferências mais meticulosas que os homens. Depois que o computador combinou os casais e eles tiveram um primeiro encontro, uma entrevista de acompanhamento mostrou que uma porcentagem duas vezes e meia maior de homens que de mulheres estava satisfeita e expressou uma forte atração romântica por sua parceira escolhida pelo computador.

Sabemos também que os homens tendem a se interessar mais que as mulheres pelo sexo em si mesmo, por encontros sexuais casuais e pela variedade de parceiras, além de estarem mais propensos a se queixar de tédio sexual com a parceira de sempre. (É claro que as mulheres também praticam o sexo extraconjugal, mas é mais provável que façam isso no contexto da busca de uma nova relação de longo prazo.) Na região montanhosa da Nova Guiné em que trabalho, por exemplo, a poligamia é tolerada e os chefes podem ter até meia dúzia de esposas, mas mesmo esses chefes polígamos enganam as seis mulheres e cometem adultério. Quando lhes perguntam o motivo, dão essencialmente a mesma resposta que os homens legalmente monogâmicos da sociedade ocidental: que o sexo sempre com a mesma mulher/as mesmas seis mulheres fica chato. Por que isso valeria mais para os homens que para as mulheres?

A base evolutiva dessa diferença é clara: as mulheres (e as fêmeas em geral) fazem um investimento inevitável muito maior em seu embrião fertilizado do que os homens. Pensem em um casal que acabou de transar, resultando em fertilização. A mulher está agora comprometida com nove meses de gravidez, mais (no tempo das cavernas, antes que ordenhássemos animais domésticos) quatro anos de amamentação e amenorréia devido à lactação. Durante todo esse tempo, fazer sexo com um homem diferente não resultará em um outro bebê transmissor de seus genes. Mas o homem que acabou de gastar quatro minutos na relação sexual (a reles média americana, mas espero que no Brasil dure muito mais) pode se levantar, sair e, em mais quatro minutos com outra mulher, gerar mais um rebento para transmitir seus genes. Em conseqüência, os homens podem gerar muito mais filhos que as mulheres, e múltiplas parceiras ou acessos de sexo extraconjugal são geneticamente mais lucrativos para o homem. O recorde de filhos paridos por uma mulher é de "apenas" 69 (uma mãe moscovita do século XIX, propensa a conceber trigêmeos), mas o imperador do Marrocos Ismail, o Sanguinário, teve 888 filhos registrados (mais um número incontável e presumivelmente semelhante de filhas). Na corrida para propagar os genes, os homens podem dar-se ao luxo de ser menos exigentes.

 
Cartoonists & Writers Syndicate/Intercontinental

Para um biólogo evolucionista como eu, que trabalha sobre o comportamento das aves, a leitura da primeira página do jornal dá freqüentemente a sensação de déjà vu. Vejo que os alfa-machos estão ocupados com seus truques de sempre, enquanto os beta-machos estão se pavoneando e tentando escalar a pirâmide do status. Todas as nossas palavras pomposas e comportamentos exagerados não parecem mais que maneiras complicadas e patéticas de dizer: "Vejam que genes maravilhosos eu tenho e que rico território reclamei para mim". Na savana africana, a gazela pula e desafia o leão a persegui-la; no Brasil, o beija-flor macho exibe sua plumagem iridescente; em Malekula, os homens saltam de torres; e aqui no sul da Califórnia fin-de-siècle os homens bebem, saltam de pára-quedas ou dirigem carros velozes.

Mas não exageremos em nosso cinismo. Não somos apenas mais uma espécie animal, escravos impotentes de nossos instintos. Ao contrário, somos o único animal que toma decisões conscientes sobre se disseminar nossos genes é realmente a coisa mais importante da vida. É verdade, muitos homens saltam a cerca, mas outros tantos (uma minoria?) são esposos fiéis e pais dedicados, e alguns até decidem não ter filhos. A maneira darwiniana de ver a raça humana não é a única.

 

Conclusão

Antes que se acuse o professor americano de estar tentando complicar uma questão tão simples como a atração humana pelo risco, ele mesmo se adianta para concluir que não se deve exagerar no cinismo de colocar toda a culpa na herança animal da humanidade. Ainda resta às pessoas a consciência e a capacidade de prevalecer sobre os genes e os instintos. Nesse particular talvez seja útil trazer à luz uma idéia genial do pensador francês Gaston Bachelard: "A humanidade é produto do desejo, e não da necessidade".

 

 
   
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