Por
que eles
perdem a cabeça
s
outros articulistas que contribuíram com suas idéias
para esta edição especial de VEJA discorreram sobre
questões que vão mudar no futuro. Eu escrevo aqui
a respeito de uma característica moldada no decorrer da evolução
dos seres vivos e que, tudo indica, continuará sendo a mesma
coisa no futuro: o comportamento sexual. Quantas pessoas você
conhece que se entregaram a um comportamento de risco e se deram
mal? Damos duro para conseguir vencer na vida e depois fazemos alguma
coisa estúpida que põe tudo em perigo. O que nos leva
a isso?
Essa
questão surge com freqüência em um contexto sexual.
A esta altura, será que todos já não sabem
que sexo sem segurança pode matar? E o que dizer das pessoas
que destroem o casamento ou a carreira com sexo extraconjugal imprudente,
apesar do risco óbvio de ser flagrado? Essas questões
ficaram particularmente evidentes nos Estados Unidos, onde o presidente
Bill Clinton se expôs a grandes riscos por suas atividades
sexuais na Casa Branca com a jovem Monica Lewinsky. No Brasil, os
problemas em que se meteu o ex-treinador da Seleção
Brasileira de Futebol Wanderley Luxemburgo vieram à tona
em boa parte por suas imprudências sexuais. Brasileiros e
americanos devem estar se perguntando: "Como pôde um sujeito
tão esperto ser tão estupidamente autodestrutivo no
campo sexual?" A resposta é ao mesmo tempo complexa e simples.
É
claro que a espécie humana não é a única
a assumir riscos. Os animais também se arriscam. Os biólogos
evolucionistas sabem muito sobre os motivos por que os animais correm
riscos, pois é muito mais fácil para nós analisar
friamente as razões dos animais do que as humanas. Acontece
que existem tipos diferentes de risco, que muitas vezes não
provêm de pura estupidez, mas trazem consigo mensagens profundas.
O tipo de risco que talvez seja menos surpreendente é aquele
decidido a sangue-frio. Muitas pessoas os investidores, por
exemplo vivem disso. Ao jogar na bolsa, eles não são
estúpidos, autodestrutivos, nem desejam impressionar alguém.
Querem apenas ganhar dinheiro e acreditam que com um comportamento
prudente podem minimizar o risco e maximizar as chances de lucro.
Ilustrações: Evandro Luiz
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Nesse sentido, há muito sexo extraconjugal que é um
risco calculado. Por exemplo, se as histórias sobre as atividades
sexuais de John F. Kennedy forem verdadeiras, podemos concluir que
ele usava o cérebro: caçou mulheres desejáveis,
como Marilyn Monroe, tomou todos os cuidados para apagar suas pegadas
e calculou corretamente que se safaria ileso. O ministro da Guerra
inglês John Profumo também assumiu um risco calculado
em seu caso com Christine Keeler, mas, ao contrário de Kennedy,
perdeu a aposta, pois não percebeu que ela estava envolvida
ao mesmo tempo com o adido militar russo e que o segredo vazaria.
Os cautelosos Kennedy e Profumo contrastam com o autodestrutivo
e fracassado candidato a presidente Gary Hart: ele certamente sabia
que estava sendo vigiado pela imprensa quando uma mulher atraente
que não era sua esposa foi vista entrando em
sua casa e saindo só na manhã seguinte. Em alguns
países, como o Brasil e a França, por questões
culturais próprias, com muito mais freqüência
a ousadia sexual especialmente a do homem não
só não é punida como também premiada.
Mas essa não é a questão que me interessa,
pois, com ou sem punição, há sempre o risco.
E por que decidimos nos arriscar?
Os riscos calculados que estamos dispostos a enfrentar dependem
do desfecho em potencial e de nossa "desesperança", isto
é, daquilo que provavelmente acontecerá de qualquer
modo, mesmo que não corramos o risco. Isso vale também
para os animais. Por exemplo: em climas frios como o do Canadá,
os pássaros cujo ninho é descoberto por um predador
são capazes de lutar em defesa da prole, mesmo assumindo
o risco de perder a própria vida. Mas os pássaros
tropicais, como os do Brasil, são famosos por abandonar o
ninho ao menor sinal da presença de um predador. O motivo
evolucional tem a ver com as oportunidades alternativas (ou seja,
a desesperança): os passarinhos de zona temperada vivem por
um ano ou dois no máximo e talvez não tenham outra
chance de chocar, ao passo que uma ave tropical, que dura dez anos,
pode contar com muitas outras oportunidades futuras de transmitir
seus genes.
Um
exemplo de comportamento suicida calculado que faz pleno sentido
evolutivo é o canibalismo sexual de algumas espécies
de aranhas de vida curta que ocorre em baixas densidades populacionais.
A princípio, os biólogos ficaram espantados ao ver
uma aranha macho, enquanto copulava, pressionar a cabeça
e o tórax contra a boca da fêmea e deixar que ela lhe
comesse o corpo enquanto sua genitália a inseminava. Mas
aquele macho, em sua curta existência, teria poucas probabilidades
de encontrar outra fêmea. Portanto, era melhor que convertesse
o risco de morte em certeza, alimentando a fêmea com seu próprio
corpo e possibilitando assim que a parceira, bem nutrida, produzisse
mais ovos que transmitiriam seus genes. Os seres humanos também
seriam canibais sexuais se não fosse por três diferenças
que existem entre nós e as aranhas.
1) A primeira provém de um cálculo quase automático
que pode ser expresso da seguinte maneira: a maioria dos homens
tem mais de uma oportunidade na vida de copular. Até mesmo
mulheres bem nutridas geralmente dão à luz um único
filhote por vez. A mulher não poderia consumir uma quantidade
suficiente de corpo masculino em uma única refeição
para aumentar significativamente sua probabilidade de gerar gêmeos.
2) Esse primeiro passo de cálculo frio, assunção
de risco bem-sucedida e prazer adequado ao sucesso está a
um pulinho do segundo passo: ver na emoção do risco
uma recompensa em si mesma. A satisfação de "escapar
impune" passa a valer mais que o resultado da ação
de risco. As pessoas viciadas em jogo sentem prazer no puro ato
de jogar; teriam muito menos prazer se ganhassem exatamente a mesma
coisa trabalhando das 9 às 5 numa linha de montagem. Como
sou do tipo que só assume riscos calculados, não posso
acreditar que haja grande prazer físico no bungee jump ou
em dirigir um carro de Fórmula 1. Convenhamos, o que há
de tão bom em cair, comparado com o prazer do sexo ou de
uma massagem? A recompensa do bungee jump está certamente
no suspense e na adrenalina do salto enquanto está acontecendo,
e no alívio e orgulho de ainda estar vivo depois de pular.
A massagem é ótima no momento, mas você não
vai embora excitado por ter posto a vida em risco e sobrevivido
se é isso que importa para você.
3) A terceira e última diferença deriva do fato de
que o ser humano não fica satisfeito apenas em impressionar
a si próprio com o fato de ter sobrevivido a algo perigoso,
mas quer causar impressão também a outras pessoas.
Não me arrisco no bungee jump, mas sei que é usualmente
praticado como um esporte social: há outra pessoa que observa
seu salto (e portanto fica impressionada). Boa parte da vida consiste
em fazer coisas para tentar elevar o próprio status aos olhos
dos outros (inclusive parceiros sexuais em potencial). Exibir-se
fazendo algo perigoso é um método muito comum utilizado
com esse objetivo. Temos aí um dos motivos dos rachas de
carros entre adolescentes. O motorista prova que é frio,
habilidoso, corajoso e sexualmente desejável; quem tem medo
de correr é medroso, destituído de habilidade e geneticamente
menos significativo.
Não conheço animais que se detenham no segundo passo,
o de gostar do perigo em si mesmo. Mas o terceiro passo, o de correr
riscos para impressionar os outros, é muito difundido no
mundo animal. Tal como os seres humanos, os animais defrontam periodicamente
com o problema de como demonstrar sua superioridade de forma convincente
para atrair uma parceira, intimidar um rival, paralisar uma presa
de medo ou deter um possível predador. Os animais estão
constantemente empenhados em transmitir sinais de suposta superioridade
uns aos outros, por meio de sons, imagens e cheiros. Por exemplo:
por que os cães latem, mostram os dentes ou urinam no poste
quando há outros cachorros por perto? A mensagem implícita
é: "Sou um cão forte, este é o meu território,
fique longe daqui". Mas como um cachorro novo na vizinhança
pode inferir desses sinais que o residente é realmente forte
e não está simplesmente fingindo? Um vira-lata mirrado
e covarde não é capaz de latir, mostrar os dentes
e urinar? Como pode um cão forte inventar um sinal que não
possa ser imitado por vira-latas covardes?
A
solução desenvolvida por muitos animais é emitir
um sinal que envolva um grau de risco tal que nenhum bicho fraco
ousaria ou teria condições de exibir. Na África,
por exemplo, a gazela de Thomson, ao ver um leão, reage com
um comportamento chamado stotting: pula alto várias vezes,
com as pernas rígidas. Quando vi pela primeira vez essa reação,
pensei comigo mesmo: "Meu Deus! Isto é suicídio! O
leão vai ganhar terreno, por favor, comece a galopar logo!"
Na verdade, os leões não querem perder tempo nem energia
na perseguição infrutífera de uma gazela rápida
e em boas condições físicas; o que procuram
é um animal lento e ferido. Quando uma gazela não
foge a toda a velocidade ao ver o leão e começa a
pular, está mandando uma mensagem que significa: "Tenho confiança
em que sou mais rápida do que você e, para provar que
não é pura exibição, estou dando esta
vantagem e nem assim você vai conseguir me pegar! Portanto,
não me persiga. Será perda de tempo e energia!" De
fato, os leões não perdem tempo perseguindo uma gazela
saudável que reage dessa forma. Eles estão convencidos
da honestidade da mensagem: nenhuma gazela lenta poderia se dar
ao luxo de conceder vantagem a um leão e sobreviver. Esperam,
então, por uma gazela que não ouse pular e fugir em
seguida, desesperadamente.
Evidentemente,
gazelas e outros animais não fazem esses cálculos
de forma racional. Os genes que influenciam o comportamento evoluem
mediante seleção natural. As gazelas que dão
esses pulinhos salvadores economizavam elas próprias energia
e tempo, porque os leões aprenderam que persegui-las é
inútil. Com a energia e o tempo economizados, as gazelas
podiam conquistar fêmeas ou cuidar de filhotes com mais sucesso.
A seleção natural acrescentou muito desse risco à
anatomia do animal, e não apenas a seu comportamento. Por
exemplo: por que os machos de tantas espécies desenvolveram
estruturas grandes ou vistosas que usam na conquista das fêmeas?
Entre os exemplos familiares, temos a cauda do pavão e as
cores brilhantes de muitos beija-flores machos do Brasil. A cauda
do pavão dificulta seus movimentos na selva e as cores do
beija-flor atraem a atenção de predadores. Imagine
agora que a fêmea do pavão tenha vários pretendentes
e um deles tenha a cauda grande. Suponha que todos estão
se exibindo para ela e tentando dizer na linguagem dos pavões:
"Faça sexo comigo, eu tenho genes superiores!" Todos poderiam
estar mentindo, mas, quando vê o macho da cauda grande, a
fêmea sabe que ele está sendo honesto, pois não
sobreviveria com aquela cauda na selva se não fosse superior
em todos os outros aspectos. Nem poderia sustentar o crescimento
da bela cauda se não tivesse genes excelentes que lhe permitiram
ficar bem nutrido. A ostentação dessa vantagem, essa
insígnia que prova sua capacidade de sobreviver ao perigo,
é um sinal garantido de honestidade que não pode ser
imitado. Um pavão inferior teria sido presa fácil
dos tigres se exibisse uma cauda daquelas; na verdade, ele nem seria
capaz de cultivá-la.
Muito da imutabilidade do comportamento dos seres humanos em seu
condicionamento evolutivo para impressionar as outras pessoas consiste
em se afirmar superiores. Mas queremos demonstrar sempre a honestidade
de nossa alegação de superioridade. Com efeito, convidamos
os outros a tirar suas próprias conclusões do fato
de ainda estarmos vivos, apesar de corrermos riscos ou custos que
destruiriam outra pessoa. Por que os presentes caros são
tão importantes na corte amorosa? Milhares de homens tentam
convencer uma linda mulher: "Venha para a cama comigo e tenha certeza
de que sou suficientemente rico para cuidar para sempre de você
e dos bebês resultantes". Uma mulher sensível sabe
que os homens que dizem isso são, na maioria, fanfarrões
mentirosos. Mas o homem que lhe dá um anel de diamante de
50 000 dólares sem empalidecer deve estar falando a verdade.
A mensagem implícita do diamante é: "Tenho tanto dinheiro
que posso jogar fora 50 000 dólares numa simples pedra. Pode
ter certeza de que sou rico. Você notou como o rosto de meu
rival supostamente rico ficou pálido quando a conta do restaurante
passou dos 100 dólares?"
Homens e animais emitem sinais arriscados e caros não somente
quando estão tentando conquistar a fêmea, mas durante
toda a vida. Dessa forma, mantêm sua posição
numa hierarquia de dominação. Depois que você
passou meses intimidando os outros machos, subiu de status, tornou-se
o macho dominante ou alfa-macho, no jargão dos biólogos
evolucionistas, e reclamou para si o melhor emprego ou território,
as mulheres vão se deixar seduzir facilmente. Por isso, boa
parte do comportamento masculino, especialmente na adolescência
e no começo da vida adulta, consiste em fazer coisas arriscadas
para obter status, mas a maneira de realizar isso varia muito conforme
a cultura.
Na competição por status na Ilha de Malekula, no Oceano
Pacífico, por exemplo, cada homem constrói uma torre
alta de madeira, amarra uma das pontas de um par de cipós
fortes, mas elásticos, no alto da torre e a outra ponta em
seus tornozelos. Então, salta de cabeça lá
de cima. Naturalmente, ele comparou cuidadosamente o comprimento
do cipó com a altura da torre, para que a queda se interrompa
antes que sua cabeça atinja o solo. Quanto mais alta a torre
e quanto mais perto sua cabeça chegar do chão na queda,
mais status ele ganha. Para nós, isso parece loucura, mas
um macho de Malekula estaria correto ao julgar muito mais maluco
o bungee jump: "É verdade que vocês brancos idiotas
confiam em outra pessoa para trançar a corda ou construir
a plataforma para saltar?" O bungee jump, como os americanos e os
brasileiros praticam, não prova nada sobre as capacidades
em geral do saltador. Ao contrário, o saltador da torre de
Malekula que constrói sua torre, salta e sobrevive prova
que é forte, cuidadoso, preciso, excelente construtor e devidamente
autoconfiante, mas não convencido.
Ilustração: Evandro
Luiz
Montagem sobre fotos de Bauer e Luiz Teixeira
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Para os seres humanos de hoje, um dos comportamentos autodestrutivos
mais comuns é o abuso de bebidas alcoólicas ou drogas.
Qual é a mensagem cifrada das orgias alcoólicas? Eis
uma questão intrigante: todo mundo deve saber como é
fácil se ferir quando se está bêbado, e se você
já teve alguma vez uma ressaca brava sabe como é terrível.
Por que, então, tantas pessoas se orgulham da capacidade
de ingerir doses industriais de bebidas alcoólicas?
Na verdade, elas estão dizendo: "Minha constituição
é tão forte que posso me entupir com todos esses produtos
químicos tóxicos, manter-me de pé e não
ficar impotente como o resto de vocês. Bebam, seus fracotes,
e revelem o frouxo que há em vocês!" Um exemplo de
pessoa famosa por sua tolerância ao álcool era o ditador
soviético Joseph Stalin. Em festas diplomáticas, ele
comandava várias rodadas de vodca, propunha brindes e mandava
todo mundo beber. A maioria dos diplomatas acabava em estado de
torpor, revelava segredos de Estado ou melava as negociações.
Stalin tinha constituição suficientemente forte para
se encharcar de vodca. Ele se achava único nesse particular
até o dia em que encontrou um páreo a sua altura em
Winston Churchill, que tinha capacidade alcoólica semelhante.
Os exemplos que citei de comportamento exibicionista em contexto
sexual foram de machos se mostrando para fêmeas, porque, na
maioria das espécies animais, o macho faz a corte e a fêmea
faz a escolha.
Evidentemente, o mesmo acontece com os seres humanos: muito mais
homens tentam seduzir mulheres do que vice-versa (exceto quando
se trata de um homem rico e de uma mulher pobre). As mulheres são
nosso sexo mais exigente. Um exemplo: um serviço de encontros
por computador fez centenas de clientes preencherem um questionário
sobre o que procuravam em um parceiro. Em quase todas as categorias,
exceto boa aparência física, as mulheres expressaram
preferências mais meticulosas que os homens. Depois que o
computador combinou os casais e eles tiveram um primeiro encontro,
uma entrevista de acompanhamento mostrou que uma porcentagem duas
vezes e meia maior de homens que de mulheres estava satisfeita e
expressou uma forte atração romântica por sua
parceira escolhida pelo computador.
Sabemos também que os homens tendem a se interessar mais
que as mulheres pelo sexo em si mesmo, por encontros sexuais casuais
e pela variedade de parceiras, além de estarem mais propensos
a se queixar de tédio sexual com a parceira de sempre. (É
claro que as mulheres também praticam o sexo extraconjugal,
mas é mais provável que façam isso no contexto
da busca de uma nova relação de longo prazo.) Na região
montanhosa da Nova Guiné em que trabalho, por exemplo, a
poligamia é tolerada e os chefes podem ter até meia
dúzia de esposas, mas mesmo esses chefes polígamos
enganam as seis mulheres e cometem adultério. Quando lhes
perguntam o motivo, dão essencialmente a mesma resposta que
os homens legalmente monogâmicos da sociedade ocidental: que
o sexo sempre com a mesma mulher/as mesmas seis mulheres fica chato.
Por que isso valeria mais para os homens que para as mulheres?
A base evolutiva dessa diferença é clara: as mulheres
(e as fêmeas em geral) fazem um investimento inevitável
muito maior em seu embrião fertilizado do que os homens.
Pensem em um casal que acabou de transar, resultando em fertilização.
A mulher está agora comprometida com nove meses de gravidez,
mais (no tempo das cavernas, antes que ordenhássemos animais
domésticos) quatro anos de amamentação e amenorréia
devido à lactação. Durante todo esse tempo,
fazer sexo com um homem diferente não resultará em
um outro bebê transmissor de seus genes. Mas o homem que acabou
de gastar quatro minutos na relação sexual (a reles
média americana, mas espero que no Brasil dure muito mais)
pode se levantar, sair e, em mais quatro minutos com outra mulher,
gerar mais um rebento para transmitir seus genes. Em conseqüência,
os homens podem gerar muito mais filhos que as mulheres, e múltiplas
parceiras ou acessos de sexo extraconjugal são geneticamente
mais lucrativos para o homem. O recorde de filhos paridos por uma
mulher é de "apenas" 69 (uma mãe moscovita do século
XIX, propensa a conceber trigêmeos), mas o imperador do Marrocos
Ismail, o Sanguinário, teve 888 filhos registrados (mais
um número incontável e presumivelmente semelhante
de filhas). Na corrida para propagar os genes, os homens podem dar-se
ao luxo de ser menos exigentes.
Cartoonists & Writers Syndicate/Intercontinental
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Para
um biólogo evolucionista como eu, que trabalha sobre o comportamento
das aves, a leitura da primeira página do jornal dá
freqüentemente a sensação de déjà
vu. Vejo que os alfa-machos estão ocupados com seus truques
de sempre, enquanto os beta-machos estão se pavoneando e
tentando escalar a pirâmide do status. Todas as nossas palavras
pomposas e comportamentos exagerados não parecem mais que
maneiras complicadas e patéticas de dizer: "Vejam que genes
maravilhosos eu tenho e que rico território reclamei para
mim". Na savana africana, a gazela pula e desafia o leão
a persegui-la; no Brasil, o beija-flor macho exibe sua plumagem
iridescente; em Malekula, os homens saltam de torres; e aqui no
sul da Califórnia fin-de-siècle os homens bebem,
saltam de pára-quedas ou dirigem carros velozes.
Mas não exageremos em nosso cinismo. Não somos apenas
mais uma espécie animal, escravos impotentes de nossos instintos.
Ao contrário, somos o único animal que toma decisões
conscientes sobre se disseminar nossos genes é realmente
a coisa mais importante da vida. É verdade, muitos homens
saltam a cerca, mas outros tantos (uma minoria?) são esposos
fiéis e pais dedicados, e alguns até decidem não
ter filhos. A maneira darwiniana de ver a raça humana não
é a única.
Antes que se acuse o professor americano de estar tentando complicar
uma questão tão simples como a atração
humana pelo risco, ele mesmo se adianta para concluir que não
se deve exagerar no cinismo de colocar toda a culpa na herança
animal da humanidade. Ainda resta às pessoas a consciência
e a capacidade de prevalecer sobre os genes e os instintos. Nesse
particular talvez seja útil trazer à luz uma idéia
genial do pensador francês Gaston Bachelard: "A humanidade é
produto do desejo, e não da necessidade".
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