O
exemplo dos bons selvagens
Montagens Evandro Luiz
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Bons tempos aqueles em que brasileiros em visita à França
se chocavam com a má distribuição de renda.
Rouen, novembro de 1562. A velha cidade normanda, com suas casas
de fachadas de madeira, o grande relógio, pousado sobre
uma pequena torre terminada em arco, e a catedral gótica
que, velha já de quatro séculos, se erguia alta
como nenhum monte ao redor, impressionante como um aviso do céu,
recebia o rei Carlos IX, então ainda uma criança
de 12 anos, cuja mãe, a italiana Catarina de Médicis,
detinha as efetivas rédeas do poder. Para entreter o real
pequerrucho, organizou-se um evento no qual a principal atração
vinha lá de longe, das misteriosas novas terras a ocidente,
onde franceses como o almirante Villegaignon, no rastro dos pioneiros
espanhóis e portugueses, também se atreviam a tirar
suas casquinhas. A atração não era mais tão
surpreendente, tanto se insistia nela ultimamente, mas o sucesso
continuava garantido. Consistia em expor à curiosidade
pública o mais extravagante dos espécimes colhidos
por aquelas bandas, mais ainda que os sagüis e os papagaios
aqueles seres tão parecidos com as pessoas normais
e no entanto tão diferentes. Uma espécie de bicho-gente.
Três topinamboux, como diziam os franceses, foram
trazidos ao rei naquele dia. Os portugueses diziam tupinambás,
e nem por isso estropiavam menos o idioma do qual haviam tomado
emprestada a palavra. Eram índios daquele lugar que, embora
pouca gente soubesse disso, fora os interessados diretos que iam
e vinham em viagens que prometiam lucros fáceis, ainda
que de alto risco, tinha o nome de Brasil. O rei e sua corte entreteram-se
longamente com os forasteiros. Mostraram-lhes a cidade, explicaram-lhes
os costumes locais. Alguém lhes perguntou, então,
quais as mais fortes impressões que lhes causara a França,
e eles responderam que uma delas, chocante, era a diferença
entre as pessoas. Enquanto algumas exibiam riquezas e gozavam
de regalias, outras mendigavam-lhes às portas, descarnadas
de fome e de pobreza. Como era possível? Como era possível,
sobretudo, perguntaram os tupinambás, que tais mendigos
miseráveis não agarrassem os outros pelo pescoço
e não lhes ateassem fogo às casas?
O
encontro dos índios com a corte de Carlos IX está
contado numa famosa página do francês Michel de Montaigne
(1533-1592), o clássico autor dos Ensaios. Montaigne
coloca-se mesmo como testemunha direta da história: afirma
que esteve presente ao evento de Rouen. O rei, na inocência
de seus tenros anos, não podia imaginar a senda perigosa
em que estava se metendo. Aqueles seres tão inocentes,
tão ignorantes e tão nus, portadores de desejos
tão simples quanto suas necessidades, haviam de, dois séculos
depois, emprestar colaboração não desprezível
para arrancar, não só a coroa, mas a própria
cabeça de seus descendentes, durante aquele cruento e decisivo
episódio que seria chamado de "Revolução
Francesa". Não estranhe o leitor. Aqueles índios,
lobos em pele de cordeiro, se diria, caso tivessem o costume de
apor alguma outra pele à sua própria, já
não estavam plantando, em plena presença do rei,
o germe da subversão, ao denunciar as desigualdades e estranhar
que os oprimidos não se alçassem contra os opressores?
E isso foi só o começo. A sombra dos tupinambás
não deixou de pairar, daí em diante, sobre as interrogações
e as inquietudes dos franceses. No ano de 1789, embora de maneira
sutil e invisível, esteve a animar os movimentos da malta
parisiense que deitou por terra os torreões da Bastilha.
A influência dos primitivos brasileiros na derrubada do
Antigo Regime francês está registrada num livro excelente,
publicado pela primeira vez em 1937, ultimamente esquecido, e
que enfim, e em boa hora, ganhou nova edição neste
ano que termina. Trata-se de O Índio Brasileiro e a
Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Melo
Franco. Com método, clareza e erudição, num
trabalho de grande originalidade e preciosos achados, o autor
vai desvendando, passo a passo, do início dos anos 1500
ao fim dos 1700, o impacto que os índios brasileiros produziram
entre os europeus, abrindo-lhes a imaginação para
novas e insuspeitadas paragens. "Índio fazendo europeu
se repensar: excelente tema para meditar no quinto centenário
do encontro das duas culturas", escreve o historiador José
Murilo de Carvalho, na apresentação da nova edição
do livro. Ao mesmo tempo que descobria o Brasil, a Europa redescobria-se
a si mesma, e ia fundo nessa redescoberta. O Índio Brasileiro
e a Revolução Francesa nos servirá de
fio condutor neste artigo, ao fim do qual de duas uma: ou o leitor
se regozijará, ao identificar a presença da pátria,
ou pelo menos dos habitantes originais da pátria, em cruciais
eventos europeus, ou desanimará, se concluir que, enquanto
ensinávamos lá, ou pelo menos os primitivos habitantes
da pátria ensinavam lá, desaprendíamos cá
as mesmas lições.
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Os
índios brasileiros eram uma mercadoria quase tão
preciosa, para arrancar das novas terras e levar à Europa,
quanto o pau-brasil. Raro era o navio que, aportando por estas
bandas, não levasse na viagem de volta um ou mais exemplares.
Alguns eram para servir de escravo. Outros, ou melhor, outras,
para atender à lascívia de senhores que viam nelas
amantes tão práticas e cômodas quanto pode
ser um brinquedo descartável. Outros ainda se destinavam
à exibição, perfeitas atrações
de feira que eram. Cabral, na mesma caravela que logo despachou
para comunicar ao rei a descoberta da nova terra, já mandou
um índio. Entre os franceses, que nos interessam mais de
perto nesta história, o primeiro a deixar-se seduzir pelo
encanto dos habitantes destes confins, pelo que se tem notícia,
foi o capitão Binot Paulmier de Gonneville, que, a bordo
do navio Espoir, aportou em 1504 no litoral de Santa Catarina.
Gonneville conquistou a amizade e a confiança do cacique
local, Arosca, a tal ponto que este permitiu, no ano seguinte,
que um seu filho de 15 anos, Essomericq, acompanhasse o francês
na viagem de volta. Gonneville prometeu que ao cabo de vinte luas
mandaria o filho do cacique de volta, mas não lhe foi possível
cumprir a promessa. Essomericq (cuja história é
objeto de outro livro muito bom, Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés)
acabou ficando na França, onde se casou com uma sobrinha
do capitão, assumiu o nome de Paulmier Gonneville, herdou
os bens da família, fez numerosa prole e morreu na provecta
idade de 95 anos.
Os Gonneville eram de Honfleur, também na Normandia. Era
sempre de lá, ou da vizinha Bretanha, que partiam as expedições
para o Brasil, fruto de iniciativas particulares que os portugueses
consideravam piratas. Em 1509 outro desses aventureiros, Thomas
Aubert, levou consigo sete índios brasileiros. Pouco depois
esses índios, originários "dessa ilha que se chama
Novo Mundo", segundo um cronista da época, desfilavam pelas
ruas de Rouen, para deleite do populacho. "Falam pela boca", registrava
o mesmo cronista, Henri Estienne, admirado com a grande coincidência
de a natureza ter plantado o órgão de emitir sons
daqueles seres no mesmo orifício destinado a essas funções
entre os europeus.
Em
1550, sempre em Rouen, deu-se um acontecimento memorável.
Por ocasião de uma visita do rei no caso Henrique
II, o pai do Carlos IX do encontro presenciado por Montaigne ,
preparou-se uma festa como jamais houvera, na Europa ou em parte
alguma. Sua majestade e outros ilustres visitantes, entre os quais
suas duas parceiras de leito Catarina de Médicis,
a oficial, e Diana de Poitiers, a oficiosa , a rainha da
Escócia, Maria Stuart, sete cardeais, inclusive um italiano,
príncipes, duques, ministros e embaixadores, foram obsequiados
com uma superprodução em que lhes era apresentado...
o quê? O Brasil. Numa floresta nos arredores da cidade,
ornamentaram-se as árvores com falsas folhas e falsos frutos
tropicais. Espalharam-se nos galhos micos, sagüis e papagaios.
E em meio a essa paisagem 300 índios, cinqüenta verdadeiros
e os demais franceses recrutados para o papel, foram postos a
representar o que seria a vida na selva. Uns fingiam caçar,
outros pescar. Uns se balançavam nas redes penduradas nas
árvores, outros se davam a trabalhos como recolher toras
de pau-brasil para os estrangeiros que punham tanto interesse
naquele produto. Eram homens e mulheres, todos, claro sem
isso, qual a graça? , nus. Não se preocupavam,
escreveu um cronista, em "cobrir de nenhuma maneira a parte que
comanda a natureza". A certa altura chegou uma tribo inimiga,
e travou-se uma batalha simulada. Foi o ponto culminante da encenação.
Afonso Arinos permite-se imaginar a reação das damas
da platéia: "Apertadas nos seus brocados, rendas, veludos
e sedas, faiscantes de jóias, recendentes de aromas raros,
essas discípulas estouvadas e matreiras de mestres como
Boccaccio ou Rabelais batiam com entusiasmo as mãozinhas
ociosas, ou mostravam, encantadas, os dentinhos brancos, diante
das atitudes simples e grotescas daqueles bárbaros desnudos,
bronzeados pelo sol dos trópicos".
O
Brasil estava na moda, no país destinado a ser, entre todos,
o que mais espalharia modas mundo afora. Menos festivas, no entanto,
e mais prenhes de conseqüências do que a encenação
de Rouen, ou o desfile dos seis índios que, em 1613, trazidos
do Maranhão, foram triunfalmente aclamados nas ruas de
Paris, antes de encaminhados a uma cerimônia de batismo
realizada por ninguém menos que o arcebispo da cidade,
servindo de padrinho ninguém menos que o rei Luís
XIII, foram as caraminholas que os índios brasileiros produziam
na cabeça dos pensadores europeus da França
principalmente, mas também de outros países. Seus
hábitos simples e o jeito inocente funcionavam de fermento
à idéia da bondade natural, ou seja, de que o homem
é inclinado naturalmente para o bem. Não é
outra coisa o que transmite o famoso ensaio de Montaigne. Nele,
além de contar a história dos índios que
conheceu em Rouen, ele encadeia numerosas informações
e considerações sobre os povos "desse mundo novo
que acabamos de descobrir", todas conduzindo a um quadro muito
róseo, de um mundo ideal, superior mesmo a tudo o que já
se inventara "para imaginar uma condição humana
feliz". Montaigne insurge-se contra os qualificativos de "bárbaro"
e "selvagem", pespegados a esses seres. Eles só seriam
bárbaros "porque cada qual chama de barbárie aquilo
que não é de seu costume".
As
numerosas informações sobre a vida desses povos,
desde o hábito de dormir em rede até o de comer
farinha de mandioca que chama de "uma certa substância
branca, como coriandro curtido" , ele diz tê-las obtido
de um criado seu, "que esteve no lugar onde Villegaignon desembarcou,
e a que deu o nome de França Antártica". Afonso
Arinos prova, no entanto, que Montaigne se instruiu mesmo foi
nos livros Singularidades da França Antártica,
de Andre Thevet, e, sobretudo, Viagem à Terra do Brasil,
de Jean de Léry, autores que foram, ambos, integrantes
da comitiva de Villegaignon. Sua descrição dos índios
como pessoas entre as quais é raro ver "um único
trêmulo, remelento, desdentado", ou "encurvado pela velhice",
coincide, entre muitas outras, com a de Léry. Em outros
pontos, se Léry já apresentava uma visão
favorável aos índios, Montaigne o supera. Assim
na questão das motivações que os levam a
continuadas guerras. Léry observa que não se trata
nunca de guerras de conquista. O motivo seriam as vinganças
que uma tribo sempre tem a perpetrar contra outra. Já Montaigne
arrisca que o objetivo verdadeiro dos índios ao guerrear,
como entre os mais sublimes cidadãos da República
Romana, seria a emulação pela virtude. Por isso,
suas guerras seriam "nobres e generosas". Mesmo a antropofagia
Montaigne defende, elaborando para esse fim uma hábil comparação
com a crueldade das guerras religiosas, que, naquele momento mesmo,
estraçalhavam a Europa: "Penso que há mais barbárie
em comer um homem vivo do que em comê-lo morto, em dilacerar
por tormentos e por torturas um corpo ainda cheio de sensibilidade,
assá-lo aos poucos, fazê-lo ser mordido e rasgado
por cães e por porcos (como não apenas lemos como
vimos de recente memória, não entre inimigos antigos,
mas entre vizinhos e concidadãos e, o que é pior,
sob pretexto de piedade e religião), do que assá-lo
e comê-lo depois que ele morreu".
Não se estava inaugurando naquele momento o tema da comparação
entre o homem dito "primitivo" com o dito "civilizado". Tal debate,
já presente entre os gregos, era velho como a filosofia.
Tampouco se conclua que o dito "primitivo" ganhou sempre do dito
"civilizado", seja na especulação dos pensadores,
seja nas percepções ou superstições
do povo. Com a tese de que o homem é naturalmente movido
pelos bons instintos conviveu sempre a tese oposta, qual seja:
a de que o homem, em estado de natureza, é um bruto desalmado,
dado ao exercício cotidiano e ilimitado da violência.
Mesmo depois da descoberta da América, as duas teses continuaram
a se digladiar. Hobbes (1588-1679), o autor do Leviatã,
é talvez o mais notório defensor da, digamos, maldade
original. Segundo esse filósofo inglês, o homem,
antes da formação das sociedades e suas leis, vivia
num estado de guerra permanente, de todos contra todos. Shakespeare
é outro que não se deixou arrastar pelo canto de
sereia da bondade natural. Na peça A Tempestade,
a figura de Calibã, o espírito do mal, encarna a
brutalidade primitiva. Calibã, acrescente-se, seria um
nome inspirado em canibal. Eis o Brasil de novo, de onde vinham
os relatos dos ritos antropofágicos, a exercer agora, em
outro europeu ilustre, impacto inverso ao exercido sobre Montaigne.
De toda forma, depois da descoberta da América, o debate
apresentava-se renovado. O Novo Continente propiciava um teatro
vivo onde buscar a comprovação empírica do
que seria a vida entre seres humanos ainda num estágio
inferior ao que se convencionou chamar de "civilização".
Na
França, as notícias da América, tal qual
lhe chegavam, eram de molde a desempatar a disputa em favor do
bom selvagem. Eles não só eram nus e felizes, esses
seres recém-contactados. Não só guerreavam
por virtude e devoravam-se com nobreza. Também eis
um aspecto decisivo desconheciam a propriedade e, por conseqüência,
desprezavam a riqueza. Léry já trouxera esse ponto
à baila. Ele descreve uma conversa em que um velho tupinambá
mostra estranheza diante do hábito europeu de acumular
riqueza para transmiti-la aos filhos. "Não será
a terra que os nutriu suficiente para alimentá-los também?",
pergunta o velho, em linguagem que não caberia mal numa
parábola do Evangelho. "Temos pais, mães e filhos
a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte
a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso
descansamos sem maiores cuidados." Montaigne, na mesma trilha,
louva um povo que não faz uso "da servidão, da riqueza
ou da pobreza", que não conhece "contratos, nem sucessões,
nem partilhas". Fique claro, se é que o leitor não
percebeu ainda, que tais autores, ao dar conta da vida dos índios,
estavam ao mesmo tempo fazendo a crítica da sociedade em
que viviam. Ao louvar uma, espicaçavam a outra. A um espírito
como o de Montaigne, interessaria menos a sociedade dos índios,
por mais fascínio que sobre ele exercesse, e exercia mesmo,
do que a sua própria. Com isso, a teoria da bondade natural
ia deixando de ser mera investigação sobre a natureza
humana, com interesse restrito aos campos da filosofia e da moral,
para virar doutrina política. Montaigne até lhe
acrescenta uma conotação revolucionária,
ao pôr na boca de seu tupinambá a sugestão
de que os miseráveis deveriam agarrar os ricos pelo pescoço
e atear-lhes fogo às casas.
O índio brasileiro continuava a seduzir os europeus, e
em especial os franceses, um século depois de Montaigne.
Quarenta quadros feitos por artistas holandeses durante a ocupação
do Nordeste, cedidos por Maurício de Nassau a Luís
XIV, o Rei Sol, foram expostos à visitação
pública no Palácio do Louvre, em 1679. Num poema
de 1687, Boileau fala em "topinambou" sem se dar ao trabalho
de explicar o que é isso, sinal de que a palavra era mais
do que familiar aos contemporâneos. Vale perguntar: por
que os brasileiros? Por que, entre todos os indígenas do
vasto continente americano, coube aos brasileiros a primazia de
excitar a imaginação e os transportes filosóficos
dos franceses? A resposta é: porque andavam nus. Talvez,
na verdade, não seja a única resposta, mas não
há dúvida de que essa circunstância foi crucial.
Os índios das regiões mais frias, como os da América
do Norte, ou de cultura mais requintada, como os do México
ou do Peru, se vestiam. Índios nus existiam na América
Central e no Brasil. Os do Brasil tiveram essa característica
ressaltada com enlevo desde as cartas de Pero Vaz de Caminha e
Américo Vespúcio. Igualmente nus e encantadores
ingressaram na literatura francesa, em versos como os de Ronsard
(1524-1585), que pintou o índio brasileiro como "nu de
vestes tanto quanto é nu de malícia". A associação
entre nudez e inocência já estava na Bíblia,
na história de Adão e Eva. O selvagem de boa índole
tinha de estar nu. O Brasil ofereceu o exemplar concreto, de carne
e osso, de que seus idealizadores necessitavam.
Se o índio de Montaigne já é quase um revolucionário,
no século XVIII ele vai ganhar uma bomba para levar na
mão, junto ao arco e flecha. Este é o momento histórico
em que a teoria da bondade natural saltará para as barricadas
e acabará por contribuir para a derrubada do regime. Há
um liame, que Afonso Arinos traça com maestria, entre os
humanistas do século XVI, dos quais Montaigne foi um dos
expoentes, e os iluministas do XVIII, os filósofos que
fornecerão a ideologia da Revolução Francesa.
A exaltação dos índios como seres livres
e felizes, em oposição aos europeus oprimidos e
sombrios, é encontrada, esparsamente, em Montesquieu e
em Diderot. Mas é com Jean-Jacques Rousseau que o "bom
selvagem" ganhará forma definitiva, como no caso de um
escultor que apanha o trabalho deixado a meio caminho pelo antecessor
e o leva a cabo. Rousseau (1712-1778) constrói sua obra
em torno de uma dualidade fundamental: "natureza" x "civilização".
Nem seria preciso dizer que, entre esses dois pólos, ele
pende, inteiro, para o primeiro. Rousseau, um dos pais fundadores
do romantismo, romantiza ao máximo possível a natureza.
Ela seria a mãe gentil, contra as perversões representadas
pela civilização. O homem, em conseqüência,
seria naturalmente bom. A civilização é que
o corrompe. Para Voltaire, o outro grande do período, e
acerbo crítico de Rousseau, "ninguém pôs tanto
engenho em querer nos converter em animais". Ler Rousseau, segundo
Voltaire, "dá vontade de andar sobre quatro patas".
Muito mais fortes do que as ironias, no entanto, foram as adesões
ao rousseauismo. Suas teses em favor da natureza e do bom selvagem
acabaram desaguando em demandas de liberdade que, na etapa seguinte,
estariam arrombando as portas dos palácios. Ele próprio
nunca pregou a revolta, nem aprovaria a violência, espírito
dócil que era. Mas estava adicionando nitroglicerina pura
ao debate quando louvava a vida comunitária dos índios,
e deduzia daí que o primeiro passo para a corrupção
da alma humana é a noção de propriedade.
Tal idéia converteu-se em pedra de toque da defesa da igualdade
em sua versão mais radical. Não apenas Rousseau
contribuiu decisivamente para a ideologia da Revolução
Francesa, mas, dentro dela, forneceu o condimento ideológico
de que se alimentou a ala mais extremada.
Cadê o Brasil, em Rousseau? Quem quiser encontrar terá
trabalho pela frente. Não há vinculação
direta, em seus escritos, do bom selvagem com os índios
brasileiros. Rousseau, se perguntado, possivelmente nem saberia
dizer em que lugar preciso do Novo Mundo foi buscar o selvagem
nu, fraterno, sem necessidades senão as mais simples, e
vivendo de acordo com as leis que lhe dita a natureza, que alimenta
sua teoria. No entanto, aqui e ali, deixa rastros de que sua inspiração,
para compor o tipo, é o índio de Montaigne, de quem
foi leitor assíduo. Chega a reproduzir trechos do ensaio
de Montaigne sobre os nativos do Brasil, como aquele que diz que
a organização dos índios é superior
a tudo o que já se imaginara para produzir uma condição
humana feliz. Eis que de Léry e Thevet, os cronistas de
Villegaignon, através do filtro de gênio que foi
Montaigne, o índio brasileiro, viajando de página
a página da vasta produção intelectual francesa,
e depois de fazer escalas em diversos outros autores, chega a
Rousseau e desencadeia sua concepção revolucionária
do bom selvagem.
Rousseau morreu onze anos antes de ser deflagrada a Revolução
Francesa. Em 1790, com a Revolução vitoriosa, um
busto seu e um exemplar de sua principal obra política,
o Contrato Social, foram colocados no recinto da Assembléia
Nacional. No dia 11 de outubro de 1794, seus restos foram transferidos,
com pompa e reverência, para o Panthéon, o templo
leigo onde os revolucionários decidiram que seriam enterrados
os heróis da pátria. Quem quer que já tenha
ido a Paris conhece o Panthéon, magnífico edifício
com fachada de templo grego, à margem esquerda do Sena.
O túmulo de Rousseau é ali, desde sempre, dos mais
procurados. O Panthéon como um todo convida à reverência.
A cúpula de mais de 100 metros de altura remete à
grandeza dos defuntos ali homenageados, a história parece
respirar daquelas paredes. Dentre os heróis franceses,
são sobretudo os da Revolução que ali se
veneram. Tudo muito impressionante, mas... Mas não faltaria
alguém no Panthéon?
Falta sim. O topinambou.
Perdoe o leitor que, linhas acima, se tenha dito que, ao terminar
este artigo, ou bem se regozijaria, ao identificar a presença
da pátria em cruciais eventos europeus, ou desanimaria,
ao concluir que as lições que deixamos lá
esquecemos aqui. Trata-se de uma falácia. Os índios
não se confundem com o Brasil. A entidade a que chamamos
Brasil, antes de representar uma continuidade, veio substituir,
e sufocar, os povos indígenas que se assentavam no mesmo
solo. Se há uma desculpa, no entanto, é que, falácia
por falácia, ou, para ser mais benevolente, verdades discutíveis
por verdades discutíveis, temos aí Montaigne e Rousseau
a dar o exemplo o mau exemplo, diriam os mais impiedosos.
Não há dúvida de que o bom selvagem de Rousseau
deve sua existência mais à imaginação
criadora de seu autor, rica de capricho e emoção,
do que à vida real. Quanto a Montaigne, com todo o respeito
por tão augusto personagem, a invectiva que diz ter ouvido
de um tupinambá contra as injustiças sociais francesas,
e o convite à revolta dos oprimidos, parecem mais bem ajustados
ao que ele desejava ouvir do que ao que ouviu de verdade. O que
prova que tênue e confusa é a linha que separa a
realidade da ficção. E que, para construir as boas
doutrinas e defender as boas causas, se a elas não se ajusta
a crua realidade... ora, fique a realidade em sua crueza, monótona,
pálida e sensaborona como é a vida quando não
se acrescentam a ela as pitadas necessárias de fantasia.
NOTA:
A nova edição de O Índio Brasileiro e
a Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Melo
Franco, a terceira, depois da original de 1937 e de uma intermediária
de 1976, é da Topbooks. Tem 320 páginas e textos
de apresentação de Alberto Venânio Filho,
Sérgio Paulo Rouanet e José Murilo de Carvalho.
Também no ano de 2000 saiu uma nova e bem-cuidada edição
brasileira dos Ensaios, de Montaigne. A editora é
a Martins Fontes. O livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés,
também citado no artigo acima, é uma edição
de 1992, da Companhia das Letras. A construção da
doutrina da bondade natural, em Jean-Jacques Rousseau, encontra-se
nos textos Discurso sobre as Ciências e as Artes
e Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens. Ambos
integram o volume dedicado a Rousseau na coleção
Os Pensadores, da editora Abril Cultural.
Com o sumiço físico da maioria das
tribos e a conseqüente desclassificação de
sua cultura, a civilização brasileira perdeu o bem
que mais preza: o dom de encantar os europeus.