Brasil
    . O ano em que o Brasil deu bom exemplo
. Roberto Pompeu de Toledo
Sexo
    . Por elas, eles perdem a cabeça
. Jared Diamond
Tecnologia
    . Quando a tecnologia mata
. Henry Petroski
Globalização
    . A globalização na prática
. Thomas Friedman
Internet
    . Nasce a cultura da internet
. Alberto Manguel
Jovens
    . O mundo adolescente
. Soninha
Ásia
    . A Ásia descobriu a democracia
. Kishore Mahbubani
Rússia
    . Rússia: ano zero da esperança
. Richard Pipes
Genética
    . O que aconteceu na genética
. Steve Jones
Capitalismo
    . Estados Unidos e Europa: dois capitalismos
. Paul Johnson
Cidades
    . O mundo mudou para a cidade
. Jonas Rabinovitch
Corrupção
    . Corrupção, uma praga brasileira
. Denise Frossard
Argentina
    . Globalização começa na vizinhança
. Domingo Cavallo
Educação
    . Educação posta à prova
. Claudio de Moura Castro
Sucessão do Papa
    . A sucessão de João Paulo II
. Giancarlo Zizola
Comportamento
    . Ressaca global
. Renato Mezan

O panorama das populações

O panorama da riqueza da Terra
Imprensa *
Democracia *
* exclusivos on-line
     
edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Roberto Pompeu de Toledo  
   

O exemplo dos bons selvagens

Montagens Evandro Luiz


Bons tempos aqueles em que brasileiros em visita à França se chocavam com a má distribuição de renda. Rouen, novembro de 1562. A velha cidade normanda, com suas casas de fachadas de madeira, o grande relógio, pousado sobre uma pequena torre terminada em arco, e a catedral gótica que, velha já de quatro séculos, se erguia alta como nenhum monte ao redor, impressionante como um aviso do céu, recebia o rei Carlos IX, então ainda uma criança de 12 anos, cuja mãe, a italiana Catarina de Médicis, detinha as efetivas rédeas do poder. Para entreter o real pequerrucho, organizou-se um evento no qual a principal atração vinha lá de longe, das misteriosas novas terras a ocidente, onde franceses como o almirante Villegaignon, no rastro dos pioneiros espanhóis e portugueses, também se atreviam a tirar suas casquinhas. A atração não era mais tão surpreendente, tanto se insistia nela ultimamente, mas o sucesso continuava garantido. Consistia em expor à curiosidade pública o mais extravagante dos espécimes colhidos por aquelas bandas, mais ainda que os sagüis e os papagaios – aqueles seres tão parecidos com as pessoas normais e no entanto tão diferentes. Uma espécie de bicho-gente.

Três topinamboux, como diziam os franceses, foram trazidos ao rei naquele dia. Os portugueses diziam tupinambás, e nem por isso estropiavam menos o idioma do qual haviam tomado emprestada a palavra. Eram índios daquele lugar que, embora pouca gente soubesse disso, fora os interessados diretos que iam e vinham em viagens que prometiam lucros fáceis, ainda que de alto risco, tinha o nome de Brasil. O rei e sua corte entreteram-se longamente com os forasteiros. Mostraram-lhes a cidade, explicaram-lhes os costumes locais. Alguém lhes perguntou, então, quais as mais fortes impressões que lhes causara a França, e eles responderam que uma delas, chocante, era a diferença entre as pessoas. Enquanto algumas exibiam riquezas e gozavam de regalias, outras mendigavam-lhes às portas, descarnadas de fome e de pobreza. Como era possível? Como era possível, sobretudo, perguntaram os tupinambás, que tais mendigos miseráveis não agarrassem os outros pelo pescoço e não lhes ateassem fogo às casas?

O encontro dos índios com a corte de Carlos IX está contado numa famosa página do francês Michel de Montaigne (1533-1592), o clássico autor dos Ensaios. Montaigne coloca-se mesmo como testemunha direta da história: afirma que esteve presente ao evento de Rouen. O rei, na inocência de seus tenros anos, não podia imaginar a senda perigosa em que estava se metendo. Aqueles seres tão inocentes, tão ignorantes e tão nus, portadores de desejos tão simples quanto suas necessidades, haviam de, dois séculos depois, emprestar colaboração não desprezível para arrancar, não só a coroa, mas a própria cabeça de seus descendentes, durante aquele cruento e decisivo episódio que seria chamado de "Revolução Francesa". Não estranhe o leitor. Aqueles índios, lobos em pele de cordeiro, se diria, caso tivessem o costume de apor alguma outra pele à sua própria, já não estavam plantando, em plena presença do rei, o germe da subversão, ao denunciar as desigualdades e estranhar que os oprimidos não se alçassem contra os opressores? E isso foi só o começo. A sombra dos tupinambás não deixou de pairar, daí em diante, sobre as interrogações e as inquietudes dos franceses. No ano de 1789, embora de maneira sutil e invisível, esteve a animar os movimentos da malta parisiense que deitou por terra os torreões da Bastilha.

A influência dos primitivos brasileiros na derrubada do Antigo Regime francês está registrada num livro excelente, publicado pela primeira vez em 1937, ultimamente esquecido, e que enfim, e em boa hora, ganhou nova edição neste ano que termina. Trata-se de O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Melo Franco. Com método, clareza e erudição, num trabalho de grande originalidade e preciosos achados, o autor vai desvendando, passo a passo, do início dos anos 1500 ao fim dos 1700, o impacto que os índios brasileiros produziram entre os europeus, abrindo-lhes a imaginação para novas e insuspeitadas paragens. "Índio fazendo europeu se repensar: excelente tema para meditar no quinto centenário do encontro das duas culturas", escreve o historiador José Murilo de Carvalho, na apresentação da nova edição do livro. Ao mesmo tempo que descobria o Brasil, a Europa redescobria-se a si mesma, e ia fundo nessa redescoberta. O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa nos servirá de fio condutor neste artigo, ao fim do qual de duas uma: ou o leitor se regozijará, ao identificar a presença da pátria, ou pelo menos dos habitantes originais da pátria, em cruciais eventos europeus, ou desanimará, se concluir que, enquanto ensinávamos lá, ou pelo menos os primitivos habitantes da pátria ensinavam lá, desaprendíamos cá as mesmas lições.

Os índios brasileiros eram uma mercadoria quase tão preciosa, para arrancar das novas terras e levar à Europa, quanto o pau-brasil. Raro era o navio que, aportando por estas bandas, não levasse na viagem de volta um ou mais exemplares. Alguns eram para servir de escravo. Outros, ou melhor, outras, para atender à lascívia de senhores que viam nelas amantes tão práticas e cômodas quanto pode ser um brinquedo descartável. Outros ainda se destinavam à exibição, perfeitas atrações de feira que eram. Cabral, na mesma caravela que logo despachou para comunicar ao rei a descoberta da nova terra, já mandou um índio. Entre os franceses, que nos interessam mais de perto nesta história, o primeiro a deixar-se seduzir pelo encanto dos habitantes destes confins, pelo que se tem notícia, foi o capitão Binot Paulmier de Gonneville, que, a bordo do navio Espoir, aportou em 1504 no litoral de Santa Catarina. Gonneville conquistou a amizade e a confiança do cacique local, Arosca, a tal ponto que este permitiu, no ano seguinte, que um seu filho de 15 anos, Essomericq, acompanhasse o francês na viagem de volta. Gonneville prometeu que ao cabo de vinte luas mandaria o filho do cacique de volta, mas não lhe foi possível cumprir a promessa. Essomericq (cuja história é objeto de outro livro muito bom, Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés) acabou ficando na França, onde se casou com uma sobrinha do capitão, assumiu o nome de Paulmier Gonneville, herdou os bens da família, fez numerosa prole e morreu na provecta idade de 95 anos.

Os Gonneville eram de Honfleur, também na Normandia. Era sempre de lá, ou da vizinha Bretanha, que partiam as expedições para o Brasil, fruto de iniciativas particulares que os portugueses consideravam piratas. Em 1509 outro desses aventureiros, Thomas Aubert, levou consigo sete índios brasileiros. Pouco depois esses índios, originários "dessa ilha que se chama Novo Mundo", segundo um cronista da época, desfilavam pelas ruas de Rouen, para deleite do populacho. "Falam pela boca", registrava o mesmo cronista, Henri Estienne, admirado com a grande coincidência de a natureza ter plantado o órgão de emitir sons daqueles seres no mesmo orifício destinado a essas funções entre os europeus.

Em 1550, sempre em Rouen, deu-se um acontecimento memorável. Por ocasião de uma visita do rei – no caso Henrique II, o pai do Carlos IX do encontro presenciado por Montaigne –, preparou-se uma festa como jamais houvera, na Europa ou em parte alguma. Sua majestade e outros ilustres visitantes, entre os quais suas duas parceiras de leito – Catarina de Médicis, a oficial, e Diana de Poitiers, a oficiosa –, a rainha da Escócia, Maria Stuart, sete cardeais, inclusive um italiano, príncipes, duques, ministros e embaixadores, foram obsequiados com uma superprodução em que lhes era apresentado... o quê? O Brasil. Numa floresta nos arredores da cidade, ornamentaram-se as árvores com falsas folhas e falsos frutos tropicais. Espalharam-se nos galhos micos, sagüis e papagaios. E em meio a essa paisagem 300 índios, cinqüenta verdadeiros e os demais franceses recrutados para o papel, foram postos a representar o que seria a vida na selva. Uns fingiam caçar, outros pescar. Uns se balançavam nas redes penduradas nas árvores, outros se davam a trabalhos como recolher toras de pau-brasil para os estrangeiros que punham tanto interesse naquele produto. Eram homens e mulheres, todos, claro – sem isso, qual a graça? –, nus. Não se preocupavam, escreveu um cronista, em "cobrir de nenhuma maneira a parte que comanda a natureza". A certa altura chegou uma tribo inimiga, e travou-se uma batalha simulada. Foi o ponto culminante da encenação. Afonso Arinos permite-se imaginar a reação das damas da platéia: "Apertadas nos seus brocados, rendas, veludos e sedas, faiscantes de jóias, recendentes de aromas raros, essas discípulas estouvadas e matreiras de mestres como Boccaccio ou Rabelais batiam com entusiasmo as mãozinhas ociosas, ou mostravam, encantadas, os dentinhos brancos, diante das atitudes simples e grotescas daqueles bárbaros desnudos, bronzeados pelo sol dos trópicos".

O Brasil estava na moda, no país destinado a ser, entre todos, o que mais espalharia modas mundo afora. Menos festivas, no entanto, e mais prenhes de conseqüências do que a encenação de Rouen, ou o desfile dos seis índios que, em 1613, trazidos do Maranhão, foram triunfalmente aclamados nas ruas de Paris, antes de encaminhados a uma cerimônia de batismo realizada por ninguém menos que o arcebispo da cidade, servindo de padrinho ninguém menos que o rei Luís XIII, foram as caraminholas que os índios brasileiros produziam na cabeça dos pensadores europeus – da França principalmente, mas também de outros países. Seus hábitos simples e o jeito inocente funcionavam de fermento à idéia da bondade natural, ou seja, de que o homem é inclinado naturalmente para o bem. Não é outra coisa o que transmite o famoso ensaio de Montaigne. Nele, além de contar a história dos índios que conheceu em Rouen, ele encadeia numerosas informações e considerações sobre os povos "desse mundo novo que acabamos de descobrir", todas conduzindo a um quadro muito róseo, de um mundo ideal, superior mesmo a tudo o que já se inventara "para imaginar uma condição humana feliz". Montaigne insurge-se contra os qualificativos de "bárbaro" e "selvagem", pespegados a esses seres. Eles só seriam bárbaros "porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de seu costume".

As numerosas informações sobre a vida desses povos, desde o hábito de dormir em rede até o de comer farinha de mandioca – que chama de "uma certa substância branca, como coriandro curtido" –, ele diz tê-las obtido de um criado seu, "que esteve no lugar onde Villegaignon desembarcou, e a que deu o nome de França Antártica". Afonso Arinos prova, no entanto, que Montaigne se instruiu mesmo foi nos livros Singularidades da França Antártica, de Andre Thevet, e, sobretudo, Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry, autores que foram, ambos, integrantes da comitiva de Villegaignon. Sua descrição dos índios como pessoas entre as quais é raro ver "um único trêmulo, remelento, desdentado", ou "encurvado pela velhice", coincide, entre muitas outras, com a de Léry. Em outros pontos, se Léry já apresentava uma visão favorável aos índios, Montaigne o supera. Assim na questão das motivações que os levam a continuadas guerras. Léry observa que não se trata nunca de guerras de conquista. O motivo seriam as vinganças que uma tribo sempre tem a perpetrar contra outra. Já Montaigne arrisca que o objetivo verdadeiro dos índios ao guerrear, como entre os mais sublimes cidadãos da República Romana, seria a emulação pela virtude. Por isso, suas guerras seriam "nobres e generosas". Mesmo a antropofagia Montaigne defende, elaborando para esse fim uma hábil comparação com a crueldade das guerras religiosas, que, naquele momento mesmo, estraçalhavam a Europa: "Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo do que em comê-lo morto, em dilacerar por tormentos e por torturas um corpo ainda cheio de sensibilidade, assá-lo aos poucos, fazê-lo ser mordido e rasgado por cães e por porcos (como não apenas lemos como vimos de recente memória, não entre inimigos antigos, mas entre vizinhos e concidadãos e, o que é pior, sob pretexto de piedade e religião), do que assá-lo e comê-lo depois que ele morreu".

Não se estava inaugurando naquele momento o tema da comparação entre o homem dito "primitivo" com o dito "civilizado". Tal debate, já presente entre os gregos, era velho como a filosofia. Tampouco se conclua que o dito "primitivo" ganhou sempre do dito "civilizado", seja na especulação dos pensadores, seja nas percepções ou superstições do povo. Com a tese de que o homem é naturalmente movido pelos bons instintos conviveu sempre a tese oposta, qual seja: a de que o homem, em estado de natureza, é um bruto desalmado, dado ao exercício cotidiano e ilimitado da violência. Mesmo depois da descoberta da América, as duas teses continuaram a se digladiar. Hobbes (1588-1679), o autor do Leviatã, é talvez o mais notório defensor da, digamos, maldade original. Segundo esse filósofo inglês, o homem, antes da formação das sociedades e suas leis, vivia num estado de guerra permanente, de todos contra todos. Shakespeare é outro que não se deixou arrastar pelo canto de sereia da bondade natural. Na peça A Tempestade, a figura de Calibã, o espírito do mal, encarna a brutalidade primitiva. Calibã, acrescente-se, seria um nome inspirado em canibal. Eis o Brasil de novo, de onde vinham os relatos dos ritos antropofágicos, a exercer agora, em outro europeu ilustre, impacto inverso ao exercido sobre Montaigne. De toda forma, depois da descoberta da América, o debate apresentava-se renovado. O Novo Continente propiciava um teatro vivo onde buscar a comprovação empírica do que seria a vida entre seres humanos ainda num estágio inferior ao que se convencionou chamar de "civilização".

Na França, as notícias da América, tal qual lhe chegavam, eram de molde a desempatar a disputa em favor do bom selvagem. Eles não só eram nus e felizes, esses seres recém-contactados. Não só guerreavam por virtude e devoravam-se com nobreza. Também – eis um aspecto decisivo – desconheciam a propriedade e, por conseqüência, desprezavam a riqueza. Léry já trouxera esse ponto à baila. Ele descreve uma conversa em que um velho tupinambá mostra estranheza diante do hábito europeu de acumular riqueza para transmiti-la aos filhos. "Não será a terra que os nutriu suficiente para alimentá-los também?", pergunta o velho, em linguagem que não caberia mal numa parábola do Evangelho. "Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados." Montaigne, na mesma trilha, louva um povo que não faz uso "da servidão, da riqueza ou da pobreza", que não conhece "contratos, nem sucessões, nem partilhas". Fique claro, se é que o leitor não percebeu ainda, que tais autores, ao dar conta da vida dos índios, estavam ao mesmo tempo fazendo a crítica da sociedade em que viviam. Ao louvar uma, espicaçavam a outra. A um espírito como o de Montaigne, interessaria menos a sociedade dos índios, por mais fascínio que sobre ele exercesse, e exercia mesmo, do que a sua própria. Com isso, a teoria da bondade natural ia deixando de ser mera investigação sobre a natureza humana, com interesse restrito aos campos da filosofia e da moral, para virar doutrina política. Montaigne até lhe acrescenta uma conotação revolucionária, ao pôr na boca de seu tupinambá a sugestão de que os miseráveis deveriam agarrar os ricos pelo pescoço e atear-lhes fogo às casas.

O índio brasileiro continuava a seduzir os europeus, e em especial os franceses, um século depois de Montaigne. Quarenta quadros feitos por artistas holandeses durante a ocupação do Nordeste, cedidos por Maurício de Nassau a Luís XIV, o Rei Sol, foram expostos à visitação pública no Palácio do Louvre, em 1679. Num poema de 1687, Boileau fala em "topinambou" sem se dar ao trabalho de explicar o que é isso, sinal de que a palavra era mais do que familiar aos contemporâneos. Vale perguntar: por que os brasileiros? Por que, entre todos os indígenas do vasto continente americano, coube aos brasileiros a primazia de excitar a imaginação e os transportes filosóficos dos franceses? A resposta é: porque andavam nus. Talvez, na verdade, não seja a única resposta, mas não há dúvida de que essa circunstância foi crucial. Os índios das regiões mais frias, como os da América do Norte, ou de cultura mais requintada, como os do México ou do Peru, se vestiam. Índios nus existiam na América Central e no Brasil. Os do Brasil tiveram essa característica ressaltada com enlevo desde as cartas de Pero Vaz de Caminha e Américo Vespúcio. Igualmente nus e encantadores ingressaram na literatura francesa, em versos como os de Ronsard (1524-1585), que pintou o índio brasileiro como "nu de vestes tanto quanto é nu de malícia". A associação entre nudez e inocência já estava na Bíblia, na história de Adão e Eva. O selvagem de boa índole tinha de estar nu. O Brasil ofereceu o exemplar concreto, de carne e osso, de que seus idealizadores necessitavam.

Se o índio de Montaigne já é quase um revolucionário, no século XVIII ele vai ganhar uma bomba para levar na mão, junto ao arco e flecha. Este é o momento histórico em que a teoria da bondade natural saltará para as barricadas e acabará por contribuir para a derrubada do regime. Há um liame, que Afonso Arinos traça com maestria, entre os humanistas do século XVI, dos quais Montaigne foi um dos expoentes, e os iluministas do XVIII, os filósofos que fornecerão a ideologia da Revolução Francesa. A exaltação dos índios como seres livres e felizes, em oposição aos europeus oprimidos e sombrios, é encontrada, esparsamente, em Montesquieu e em Diderot. Mas é com Jean-Jacques Rousseau que o "bom selvagem" ganhará forma definitiva, como no caso de um escultor que apanha o trabalho deixado a meio caminho pelo antecessor e o leva a cabo. Rousseau (1712-1778) constrói sua obra em torno de uma dualidade fundamental: "natureza" x "civilização". Nem seria preciso dizer que, entre esses dois pólos, ele pende, inteiro, para o primeiro. Rousseau, um dos pais fundadores do romantismo, romantiza ao máximo possível a natureza. Ela seria a mãe gentil, contra as perversões representadas pela civilização. O homem, em conseqüência, seria naturalmente bom. A civilização é que o corrompe. Para Voltaire, o outro grande do período, e acerbo crítico de Rousseau, "ninguém pôs tanto engenho em querer nos converter em animais". Ler Rousseau, segundo Voltaire, "dá vontade de andar sobre quatro patas".

Muito mais fortes do que as ironias, no entanto, foram as adesões ao rousseauismo. Suas teses em favor da natureza e do bom selvagem acabaram desaguando em demandas de liberdade que, na etapa seguinte, estariam arrombando as portas dos palácios. Ele próprio nunca pregou a revolta, nem aprovaria a violência, espírito dócil que era. Mas estava adicionando nitroglicerina pura ao debate quando louvava a vida comunitária dos índios, e deduzia daí que o primeiro passo para a corrupção da alma humana é a noção de propriedade. Tal idéia converteu-se em pedra de toque da defesa da igualdade em sua versão mais radical. Não apenas Rousseau contribuiu decisivamente para a ideologia da Revolução Francesa, mas, dentro dela, forneceu o condimento ideológico de que se alimentou a ala mais extremada.

Cadê o Brasil, em Rousseau? Quem quiser encontrar terá trabalho pela frente. Não há vinculação direta, em seus escritos, do bom selvagem com os índios brasileiros. Rousseau, se perguntado, possivelmente nem saberia dizer em que lugar preciso do Novo Mundo foi buscar o selvagem nu, fraterno, sem necessidades senão as mais simples, e vivendo de acordo com as leis que lhe dita a natureza, que alimenta sua teoria. No entanto, aqui e ali, deixa rastros de que sua inspiração, para compor o tipo, é o índio de Montaigne, de quem foi leitor assíduo. Chega a reproduzir trechos do ensaio de Montaigne sobre os nativos do Brasil, como aquele que diz que a organização dos índios é superior a tudo o que já se imaginara para produzir uma condição humana feliz. Eis que de Léry e Thevet, os cronistas de Villegaignon, através do filtro de gênio que foi Montaigne, o índio brasileiro, viajando de página a página da vasta produção intelectual francesa, e depois de fazer escalas em diversos outros autores, chega a Rousseau e desencadeia sua concepção revolucionária do bom selvagem.

Rousseau morreu onze anos antes de ser deflagrada a Revolução Francesa. Em 1790, com a Revolução vitoriosa, um busto seu e um exemplar de sua principal obra política, o Contrato Social, foram colocados no recinto da Assembléia Nacional. No dia 11 de outubro de 1794, seus restos foram transferidos, com pompa e reverência, para o Panthéon, o templo leigo onde os revolucionários decidiram que seriam enterrados os heróis da pátria. Quem quer que já tenha ido a Paris conhece o Panthéon, magnífico edifício com fachada de templo grego, à margem esquerda do Sena. O túmulo de Rousseau é ali, desde sempre, dos mais procurados. O Panthéon como um todo convida à reverência. A cúpula de mais de 100 metros de altura remete à grandeza dos defuntos ali homenageados, a história parece respirar daquelas paredes. Dentre os heróis franceses, são sobretudo os da Revolução que ali se veneram. Tudo muito impressionante, mas... Mas não faltaria alguém no Panthéon?
Falta sim. O topinambou.


Perdoe o leitor que, linhas acima, se tenha dito que, ao terminar este artigo, ou bem se regozijaria, ao identificar a presença da pátria em cruciais eventos europeus, ou desanimaria, ao concluir que as lições que deixamos lá esquecemos aqui. Trata-se de uma falácia. Os índios não se confundem com o Brasil. A entidade a que chamamos Brasil, antes de representar uma continuidade, veio substituir, e sufocar, os povos indígenas que se assentavam no mesmo solo. Se há uma desculpa, no entanto, é que, falácia por falácia, ou, para ser mais benevolente, verdades discutíveis por verdades discutíveis, temos aí Montaigne e Rousseau a dar o exemplo – o mau exemplo, diriam os mais impiedosos. Não há dúvida de que o bom selvagem de Rousseau deve sua existência mais à imaginação criadora de seu autor, rica de capricho e emoção, do que à vida real. Quanto a Montaigne, com todo o respeito por tão augusto personagem, a invectiva que diz ter ouvido de um tupinambá contra as injustiças sociais francesas, e o convite à revolta dos oprimidos, parecem mais bem ajustados ao que ele desejava ouvir do que ao que ouviu de verdade. O que prova que tênue e confusa é a linha que separa a realidade da ficção. E que, para construir as boas doutrinas e defender as boas causas, se a elas não se ajusta a crua realidade... ora, fique a realidade em sua crueza, monótona, pálida e sensaborona como é a vida quando não se acrescentam a ela as pitadas necessárias de fantasia.

NOTA: A nova edição de O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos de Melo Franco, a terceira, depois da original de 1937 e de uma intermediária de 1976, é da Topbooks. Tem 320 páginas e textos de apresentação de Alberto Venânio Filho, Sérgio Paulo Rouanet e José Murilo de Carvalho. Também no ano de 2000 saiu uma nova e bem-cuidada edição brasileira dos Ensaios, de Montaigne. A editora é a Martins Fontes. O livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés, também citado no artigo acima, é uma edição de 1992, da Companhia das Letras. A construção da doutrina da bondade natural, em Jean-Jacques Rousseau, encontra-se nos textos Discurso sobre as Ciências e as Artes e Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens. Ambos integram o volume dedicado a Rousseau na coleção Os Pensadores, da editora Abril Cultural.

 
Conclusão

Com o sumiço físico da maioria das tribos e a conseqüente desclassificação de sua cultura, a civilização brasileira perdeu o bem que mais preza: o dom de encantar os europeus.

 

 
   
Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  Home | VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife
Guias Regionais | Edições Especiais | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco