Globalização,
democracia
e desenvolvimento
Brasil vive um momento político de crucial importância
para uma superação efetiva das crises institucionais
endêmicas que acompanharam nossa história republicana.
Uma avaliação dessa nova condição, capaz
de nos projetar à frente no limiar do novo século, impõe
que se resgate à análise os enormes avanços que
temos realizado como uma nação democrática capaz
de enfrentar abertamente os desafios inerentes à consolidação
de sua esfera pública no mundo globalizado, sedimentando as
fundações de sua credibilidade política, racionalidade
normativa e boa governança.
O
POTENCIAL REALIZADO DA DEMOCRACIA
Promovemos
a responsabilidade fiscal dos governantes e estendemos a participação
cidadã nas decisões de governo em múltiplas
e até mesmo superpostas instâncias e mecanismos de
consulta, decisão e avaliação de políticas
públicas. Jamais, em tempo algum, a sociedade brasileira
foi de tal modo sacudida pela investigação e pela
cobrança de probidade administrativa em todos os níveis
e instâncias de governo. E, da mesma forma, jamais, em qualquer
tempo, tantos brasileiros do povo, sem discrimes de partido ou classe
social, e representando os segmentos mais variados de nossa sociedade,
estiveram envolvidos pelo exercício pontual, mas sistemático
e permanente, da reivindicação, execução
e fiscalização das ações governativas.
Como resultado disso, submetemos a tradicional obscuridade das ações
e decisões de governo ao crivo de uma crescente e expansiva
transparência e consistência de propósitos.
À
ampla liberdade de organização e atuação
partidária, conquistada ao autoritarismo na transição
democrática dos anos 80, somaram-se a ampliação
e a maturação de uma já extensa rede de auto-organização
da sociedade civil e dos movimentos de comunidade, atuando em negociações
coletivas, em conselhos de políticas públicas, na
gestão democratizada de organizações sociais,
nas instâncias descentralizadas do serviço público,
em voluntariados de ação social e de autogestão
comunitária. A qualidade dessa nova matriz de participação
social se reflete nas exigências crescentes de autenticidade
na representação e de capacidade administrativa, que
a sociedade brasileira vem cobrando aos pretendentes à sua
liderança na construção de seu destino. Disso
que, resulta emergente um marco referencial de princípios
e práticas, internalizados pelos indivíduos e institucionalizadas
na sociedade, capazes de ser objetivamente reconhecidos e invocadas
em sustentação de sua autonomia ética, pelos
agentes sociais privados e pelos incumbentes da função
pública. Aqui, a moralidade administrativa, erigida em norma
constitucional, ganha a dimensão de uma prática de
governo exigível, acima e além da mera regularidade
formal dos procedimentos.
Promovemos,
como em nenhum momento anterior da experiência republicana,
a compatibilidade do modo de funcionamento de nosso sistema político
com os postulados da racionalidade democrática. Asseguramos
à cidadania o direito de petição aos poderes
de Estado, às pessoas físicas e jurídicas o
direito de ação judicial sobre quaisquer conflitos
de interesse, e à soberania popular a prerrogativa das eleições
livres, honestas e freqüentes para a indicação
de nossos governantes. Institucionalizamos o conceito e criamos
mecanismos para a promoção dos direitos humanos em
sociedade e aprofundamos, numa vasta teia de regulações
e instituições, a efetividade de um pacto social que
promove a supremacia política do poder civil e a igualdade
de todos perante a lei. E não descuidamos de assegurar proteção
e defesa àqueles que em razão de gênero, idade,
ou por sua condição funcional como empregados ou consumidores,
locatários ou mutuários, vivenciam uma correlação
de forças inferiorizada ou fragilizada no mercado concorrencial
do poder.
AS
DURAS CONDIÇÕES DE ACESSO À ECONOMIA GLOBAL
Alcançamos,
a duras penas, no curso de um reajuste estrutural que se iniciou
nos anos 80, uma condição de governança invejável
entre as nações de desenvolvimento tardio e incomparável
no contexto de nossa inserção regional-continental.
E o fizemos em liberdade, com democracia, com eleições
presidenciais regulares e, até mesmo, exercitando a prerrogativa
constitucional do impeachment - condição inédita,
de fidelidade a princípios, entre as nações
que optaram pelo regime presidencialista. Experimentamos, erramos
e corrigimos em nosso percurso a implementação de
receitas econômicas heterodoxas e ortodoxas, para atingirmos
uma condição ímpar de estabilidade econômica,
abertura de mercados e progressão sistemática dos
indicadores macroeconômicos e sociais do desenvolvimento humano
e sustentado, mesmo em período de grave turbulência
internacional.
De
fato, sobrevivemos e digerimos, nos últimos anos, uma dramática
crise econômica global, que teve seu estopim na Tailândia
em julho de 1997, que desestruturou as economias expansionistas
dos Tigres do Leste Asiático, que arrasou a Rússia
em meados de 1998 e cujas seqüelas ainda não foram totalmente
debeladas, repercutindo no agravamento das condições
da pobreza em escala mundial. E atravessamos nosso inferno astral,
no limiar do novo século, confirmando o potencial pneumático
da nova economia brasileira, que se demonstrou calibrada, em sua
capacidade de absorver e diferir, mediante ajustes escalonados e
distribuídos em sua estrutura produtiva e de consumo, os
movimentos especulativos recentes no preço internacional
do petróleo.
A
cavaleiro dessa condição básica de governança,
que se traduz por desenvolvimento com estabilidade, trilhamos um
caminho difícil, mas o único efetivo, na captação
de investimentos e na conseqüente promoção do
crescimento econômico. Colhemos nisso a lição
dos tempos e a aplicamos ao nosso projeto estratégico nacional,
numa sociedade global em que o fluxo dos capitais se orienta, preponderantemente,
em decorrência das respectivas avaliações de
risco macroeconômico e institucional. Reestruturamos, nessa
perspectiva, o perfil de nosso endividamento externo e, graças
à uma severa disciplina na sustentação do serviço
da dívida, recuperamos o crédito internacional da
União de tal sorte que, também, para as demais instâncias
de governo - dos Estados e dos municípios - e para o setor
privado, dependendo apenas das condições específicas
das respectivas administrações ou empreendimentos,
vimos normalizado o acesso aos financiamentos públicos e
comerciais. De fato, avançamos tanto, em tão pouco
tempo, neste particular que a estabilidade econômica e a abertura
financeira e comercial alcançadas por nosso país,
sob a égide do Plano Real, não são mais monopólio
de um governo, transcendem o proselitismo político de um
partido por se terem alçado à condição
de um bem geral da sociedade.
O
PARADOXO DO SUCESSO ACACHAPANTE
Num
certo sentido, a trajetória recente na consolidação
do regime democrático no Brasil reproduz alguns traços
da construção nascente do liberalismo essencial no
século XIX e de sua superação pelo movimento
socialista operário. Tendo logrado a institucionalização
de seus valores fundamentais - o respeito à privacidade na
vida pessoal, à liberdade na esfera pública e à
solução pacífica dos conflitos de interesse
-, os quais se incorporaram à tradição civilizatória
da modernidade, a esquerda libertária de 1789, pluralista
nas suas vertentes teóricas e espontaneísta na sua
intervenção política, mercê de seu próprio
sucesso na luta contra a tradição e os privilégios
do ancien régime, viu-se, repentinamente, despojada do potencial
político representado pelas próprias conquistas. A
Declaração dos Direitos tornou-se patrimônio
universal da humanidade e o movimento social, das ruas de Paris,
deslocou-se para um outro quadrante do espectro ideológico,
passando a sustentar, no interior das fábricas e nos sindicatos,
o projeto socialista do proletariado industrial.
Analogamente,
a frente popular contra a ditadura, que erodiu o regime de 1964,
trazia em seu bojo o embrião de um liberalismo essencial.
A crítica ao autoritarismo estendia-se ao modelo político
secular, patrimonialista e excludente, que nutriu nosso desenvolvimento
capitalista e estadocrata, atribuindo-lhe as mazelas da inflação
e da concentração de renda. Hoje, quando não
mais se põe em causa a necessidade do combate à inflação,
do ajuste fiscal, da reforma do Estado, da captação
de investimentos e do recurso ao financiamento externo do setor
público, a política monetária que sustentou
esse esforço de reconstrução nacional em grandes
linhas cumpriu sua função, ganhou a parada.
Prova
cabal disso é o fato de que a Igreja Católica e o
Partido dos Trabalhadores, que organizaram o plebiscito da dívida,
colheram uma repercussão negativa de tal ordem que se apressaram
em revisar formalmente sua posição, negando a intencionalidade
flagrante da própria iniciativa, que propunha o calote da
dívida pública externa e interna. Com isso, antes
mesmo de se contabilizarem seus resultados, emasculava-se nesse
despropósito o voto dos 5 milhões de brasileiros a
favor do que acreditaram fosse uma posição consistente
da CNBB e do PT. Ponto a favor da equipe econômica de Pedro
Malan, que contabiliza aqui uma dura e decisiva queda-de-braço
contra o aventureirismo demagógico do economês de palanque.
Esse episódio reproduz tardiamente, em escala nacional, fiasco
semelhante ao da intervenção no sistema de transportes
coletivos urbanos, voluntaristicamente promovida pelo Partido dos
Trabalhadores em sua primeira administração na Prefeitura
Municipal de Porto Alegre, que logo se demonstrou técnica,
econômica e politicamente insustentável. Espera-se
que represente, por igual, uma oportunidade de reflexão e
amadurecimento, para as correntes ideológicas que se alinham
nesse quadrante da política partidária.
De
tudo isso ressalta, entretanto, o paradoxo do sucesso acachapante.
O governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso alcançou
uma vitória expressiva demais: e, assim, a estabilidade econômica,
a progressão dos indicadores sociais por força do
Plano Real, a recuperação lenta mas significativa
do crescimento e a inserção cidadã de nosso
país na economia globalizada, por isso mesmo, deixam de ser
propriedade sua.
Na
sua carona, o governador Olívio Dutra, que posou votando
no plebiscito da CNBB contra o pagamento da dívida externa,
pode dar-se ao luxo de, em seguida, voar até o Japão
e ali captar vultosos empréstimos internacionais para o governo
do Rio Grande do Sul. Recursos que, diga-se de passagem, o partido
do governador Olívio haverá de faturar politicamente
contra seu alvo prefixado, que é a política dita neoliberal
do presidente Fernando Henrique. E, de lambuja, na carona do regime
de austeridade da Lei de Responsabilidade Fiscal, os governos de
oposição estão conduzindo as próprias
reformas do Estado, utilizando-se dos mesmos recursos de gestão
econômico-financeira, os quais têm sistematicamente
denunciado e combatido no palanque eleitoral.
Bom
para o país, indiferente ao estadista - que, em seu segundo
mandato, se projeta acima e além dessas inconsistências
-, mas, seguramente, ruim para seu partido e a coalizão de
forças políticas que sustenta o governo federal, esse
traço paradoxal e perverso da consolidação
do regime releva as contradições emergentes na presente
conjuntura e projeta o debate eleitoral de 2002, sob condições
essencialmente distintas daquelas que prevaleceram nas duas últimas
eleições presidenciais. Nas próximas eleições,
as lacunas do Plano Real e do programa de estabilização
da economia brasileira pesarão muito mais que suas conquistas;
e as alternativas que lhes forem apresentadas tenderão a
constituir-se na pauta exclusiva das decisões eleitorais.
POLARIZAÇÃO
IDEOLÓGICA E VOTO CONSTITUCIONAL
No
primeiro turno das eleições municipais de 2000, os
resultados foram consistentes com as expectativas associadas ao
funcionamento do sistema de representação proporcional,
quais sejam: (a) a diferenciação do quadro partidário;
(b) a radicalização do espectro ideológico;
e (c) a polarização eleitoral de esquerda-direita,
como estágio final desse processo nos centros de maior densidade
eleitoral. No segundo turno, tornou-se possível identificar
a ocorrência concomitante, eventualmente cumulativa ou concorrencial,
de outras duas dimensões: (d) as idiossincrasias locais e
regionais do quadro político-partidário; e, por fim,
(e) a reemergência do voto constitucional.
O
voto constitucional reflete a lógica do comportamento eleitoral,
no âmbito de um sistema político que, embora constitucionalizado,
não resolveu ainda todos os problemas básicos em torno
dos quais se deverá consolidar e radicalizar a construção
da democracia. Neste contexto, a corrupção dos governantes,
o continuísmo político das administrações
e a autenticidade democrática dos partidos concorrentes são
temas em torno dos quais se articulam demandas institucionais do
eleitorado, parcialmente irrespondidas, que ganham expressão
no segundo turno das eleições para sustentar alianças,
vencedoras ou perdedoras, mas, de qualquer forma, para ampliar nossa
capacidade de reflexão sobre o sentido da democracia que
queremos construir. Expressam, ademais, um nível de consciência
e postulação política que, por seu próprio
fundamento constitutivo do pacto democrático, tende a permanecer
na pauta de quantas eleições venham a ocorrer até
o encaminhamento de sua efetiva solução.
Assim
compreendido e reduzido esse movimento das urnas aos seus aspectos
mais abrangentes e persistentes, identificam-se duas linhas de força,
cujas repercussões impõem análise mais detida:
a polarização ideológica da sociedade brasileira
e a consolidação e radicalização de
seu projeto constitucional democrático.
Na
França e na Europa do século XIX, em seqüência
ao sucesso acachapante do liberalismo essencial, a polarização
ideológica do quadro partidário resultou, na primeira
metade século XX, numa verdadeira hecatombe: a invenção
do totalitarismo. O carro-chefe desse movimento é uma esquerda
obituária, conformada na mentalidade conspiratória
de burocratas de partido, que se apropriam do movimento popular
e passam a instrumentalizar seu ressentimento e a força represada
dos interesses em conflito na sociedade industrial. Bebem na vertente
coletivista do poder, codificada pelo marxismo-leninismo, as suas
características essenciais: traços comportamentais
e organizativos que, afinal, vieram a se cristalizar num movimento
retrógrado, sectário, tirânico e obscurantista,
cuja afirmação, embora regionalizada e, assim, felizmente
delimitada, resultou na absoluta revogação das conquistas
históricas do governo constitucional e da democracia. Essa
nova esquerda influenciou decisivamente a emergência da direita
antidemocrática - do nazi-fascismo, que emulou seus métodos
e sua visão conspiratória do mundo - e ambas deixaram,
na sua esteira, o maior elenco de crimes contra a humanidade.
A
ESQUERDA OBITUÁRIA E A TEORIA DOS BLOCOS HISTÓRICOS
A esquerda
obituária mantém uma relação de causa
e efeito, com o fenômeno da polarização ideológica
do eleitorado: nutre-se de sua dinâmica; retroalimenta esse
antagonismo na sua pretensão de hegemonia (ou seja, dominação
política); e o justifica na teoria dos blocos históricos
ou dos campos ideológicos. Postula a existência de
dois tipos de homens e forças sociais: os que defendem a
tradição e a ordem estabelecida na sociedade; e os
que promovem a mudança, como negação dessa
mesma ordem. No jargão de uma certa vertente
tupiniquim: o bloco dos incluídos e o dos excluídos.
O comunismo como fim e o socialismo como meio, que instrumentalizam
essa concepção dualista do mundo, constituem-se numa
proposta nitidamente pedagógica, primordialmente orientada
à reeducação das massas pela experiência
da revolução, cuja função estratégica,
antes da própria satisfação material das necessidades
humanas que figura a sua utopia, será a transformação
dos homens que deverão produzir esse momento privilegiado
da História. Assim, portanto, na medida em que a pedagogia
do comunismo é a revolução; e na medida em
que a revolução é parturiente de suas próprias
e particulares razões de ser, como um ato de fundação
de uma nova ordem, cujo único argumento se constitui na sua
própria força; clarifica-se o apelo marxista à
violência, como o instrumento, por excelência, de conformação
da consciência-humanidade. A saga do socialismo real, que
está associada à repressão do pensamento e
ao desrespeito à autonomia da consciência individual,
não se constitui, por isso mesmo, num acidente histórico;
mas, numa determinação construída, pela sua
própria vontade, enquanto movimento social, como derivação
lógica de sua própria ideologia.
A
teoria dos campos ideológicos, que emoldura esse voluntarismo
político, divide a humanidade entre reacionários e
revolucionários: de um lado, a conivência com as iniqüidades
do presente; e, do outro, sua negação pela violência
ao serviço de uma causa, ao custo de outras tantas ou maiores
iniqüidades. Na sua esteira, medra a arrogância dos militantes
e o desprezo pela liberdade da pessoa, na dignidade própria
de uma existência absorvida no cotidiano da vida - valores
que se subordinam ao domínio de uma razão superior,
de classe ou partido, totalizante, sistemática e determinante,
em cujo serviço todos os meios se justificam, para que se
atualize sua própria vontade de poder na História.
A
tragédia da democracia na modernidade foi o naufrágio
do liberalismo essencial, promovido pelo mito dualista da luta de
classes na teoria dos blocos históricos. É bom e salutar,
portanto, que se previna a sociedade que experiencia a reemergência
desse mito, da sua dinâmica e dos seus efeitos. Não
se pretenda passar com isso a idéia que os comunistas comem
criancinhas; ou que estejamos na iminência de uma ditadura
de esquerda. Mas onde há fumaça existe o fogo. Cabe
aqui lembrar o dito popular, cunhado pelo nosso portunhol fronteiriço,
que soa verdadeiro e enfático na sua contradição:
"Yo no creo em brujas. Pero que las hay, hay..." Cuidem-se,
assim, os inadvertidos do tempo e da hora em que elas, afinal, irão
aparecer nas suas vassouras esvoaçantes! Ou serão,
apenas mesmo, foices...?
A
CONDIÇÃO NECESSÁRIA DO PENSAMENTO CRÍTICO
O
discurso contemporâneo da esquerda antineoliberal agrega ao
ranço mal digerido do velho marxismo na teoria dos blocos
históricos uma renovada versão da mesma concepção
conspiratorial da História, sintetizada agora na demonização
do consenso de Washington, do pensamento único da nova economia
e das artimanhas da globalização. Tudo isso, muito
bem direcionado à apropriação dos movimentos
sociais emergentes, à fragilização das instituições
democráticas e ao descrédito da sua liderança.
Não é fora de propósito, que se responsabilize
agora, esse discurso, pela ideação mítica de
sua própria criatura: uma nova direita, anticomunista e igualmente
conspiratorial na sua visão de mundo.
Retorna
sobre sua origem, destarte, a denúncia de um pensamento único
de esquerda, patrulhador da divergência intelectual nas fronteiras
do chamado campo popular, e patrolador da autonomia política
e organizativa das comunidades de base e das lideranças sociais,
fora do alcance disciplinador do partido de esquerda ou das instâncias
do Estado por ele controladas. E clarifica-se, neste repto, uma
estratégia de tomada de poder, que procede pela ocupação
militante e sistemática de todos os espaços organizativos
da sociedade, em especial nos centros produtores e reprodutores
da cultura de massas.
Verso
e reverso de um mesmo mito - o pensamento único de direita
e de esquerda - representam, não obstante, a expressão
de forças políticas e interesses reais, que se confrontam
na conjuntura presente. Na instrumentalidade desse mito, dá-se
por pressuposto a impossibilidade de governarem juntos, os homens
e as correntes que se rotulam, a priori e indiscriminadamente, pelo
estigma da esquerda ou da direita. Isso que constitui: no que respeita
ao passado, uma inverdade histórica; e, no que respeita ao
futuro, uma limitação drástica às possibilidades
da governança democrática, pela introdução
do anátema e da discriminação, e sobretudo
pela inviabilidade da cooperação.
Deixada
à sua própria inércia, essa dinâmica
ganha irreversibilidade. Da esquerda para a direita, meia-volta
volver... e, assim, sucessivamente, o círculo do poder total
se fecha sobre si mesmo, como a cobra que abocanha seu próprio
rabo! Circunscreve-se aos sucessos e desígnios de uma lógica
dualista, permanente e imutável, da luta entre o bem e o
mal, em que verdade e mentira se travestem nos argumentos de parte
a parte, e remetem todas as suas disputas ao julgamento da História
pela força, na ótica do vencedor.
Alternativamente,
a sociedade brasileira terá de defrontar-se a uma tarefa
hercúlea, diante da qual fracassaram outras nações,
talvez mais preparadas, em momentos mais propícios. Terá
de levar a sério esse confronto, mas para desmitificá-lo,
submetendo-o ao exame de uma razão crítica, que não
se constitui em monopólio da esquerda ou da direita e, muito
menos, de um partido, organização ou governo. E terá
de fazê-lo preservando, acima e além dos interesses
eleitorais e partidários jogados na conjuntura política,
a construção do interesse geral da sociedade nacional
e planetária: respeitando a autoridade investida; sustentando-lhe
a dignidade da representação pública; e observando,
até mesmo para aperfeiçoá-las, as regras do
jogo constitucional.
Não
parece muito exigente o conteúdo desse enunciado genérico,
mas há uma distância enorme a percorrer desde o estado
das coisas em que ainda nos encontramos. Todos os povos que alcançaram
patamares mais avançados de desenvolvimento humano e posição
de influência no concerto das nações sabem da
diferença que existe entre banalizar-se a designação
de um chefe de Estado como "Éfe Agá" e dispensar-lhe
publicamente o tratamento minimamente cerimonioso do próprio
nome. O dia em que apreendermos e praticarmos essa pequena lição
de amor-próprio, teremos galgado o primeiro degrau da iniciação,
imprescindível à exploração das novas
vertentes do poder que o limiar do século XXI nos permite
descortinar.
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