
nestaedição

|
|
O país do
futebol
O
que faz dos brasileiros os melhores
jogadores de futebol do
planeta: criativos,
irreverentes, indomáveis e campeões
Oscar Cabral
 |
O
futebol brasileiro é o melhor do mundo. Isso ninguém
contesta. Nem os números. Ganhamos cinco Copas e poderíamos
ter vencido outras tantas, se não fôssemos tão desorganizados.
Sempre que houve organização com o comandante Paulo
Machado de Carvalho, em 1958 e 1962, com Zagallo e sua tropa, em 1970,
e com o estudioso Carlos Alberto Parreira, em 1994 trouxemos o
caneco. Além disso, obtivemos dois vice-campeonatos (no Brasil,
em 1950, e na França, em 1998) e dois terceiros lugares (1938,
na França, e 1978, na Argentina). São conquistas que colocaram
o Brasil no topo do ranking da Fifa.
Se os números
não mentem, a mística da camisa amarela muito menos. Portanto,
somos os melhores, não há dúvida. Quando entramos
no campo das explicações para essa superioridade é
que são elas. Há de tudo. Dizem até que Deus é
brasileiro e dá uma mãozinha. Uns acham que é a formação
étnica do povo, a miscigenação. Outros estão
convencidos de que se trata de um traço cultural, uma suposta "malandragem".
Há quem responsabilize o clima, sabe-se lá por quê,
como se o calor servisse de estímulo à correria e não
ao descanso. Misturam-se aí conceitos, preconceitos, ideologias
e muito, muito chute. A única explicação realmente
inquestionável para a supremacia brasileira nos gramados é
uma palavra rasteira e bastante concreta, que irrita a intelectualidade
e os poetas: massificação. O Brasil joga bem porque joga
muito. É o que acontece com os americanos no basquete, os romenos
na ginástica e os russos no balé clássico. É
a massificação do futebol que determina o destaque que o
país tem nesse e não em outros esportes. Joga-se futebol
em boa parte das cerca de 2 100 praias do nosso litoral, nos terrenos
baldios, nas quadras da escolinha suburbana ou no asfalto das cidades.
Calculam-se em 30 milhões os brasileiros que praticam informalmente
o esporte. São 580 000 os atletas amadores e profissionais organizados
em 13 000 clubes. No Brasil, a bola é o brinquedo que todo garoto
ganha, antes mesmo de dar os primeiros passos. O maior fabricante de brinquedos
do país produz mais de 1 milhão de bolas não oficiais
por ano. A Inglaterra inventou a Football Association, mas também
inventou o colégio interno, de onde não dá para fugir
em busca da pelada no campinho da esquina. No Brasil, a bola rola antes
e depois da aula, quando não rola durante.
Alberto Sartini
 |
| A
bicicleta de Leônidas da Silva: invenção de um
gênio que se destacou num mar de craques |
Essa massificação
começa em casa e prossegue na escola, onde sempre há quadras,
mesmo precárias, para a prática do vôlei, do basquete
e do futebol de salão. Não é à toa que no
vôlei e no basquete temos algum brilho internacional. Mas, diferentemente
das outras modalidades, em que a rede e a trave, a cesta e a tabela são
essenciais, o futebol tem uma prática simples, além de poucas
regras, fixas e maleáveis. Pode-se praticá-lo no corredor
de casa, no pátio do prédio ou num ginásio. As traves
podem ser dois postes ou um par de sandálias. As linhas são
dispensáveis. Qualquer criança sabe quando a bola sai do
campo ou entra no gol. Uniformes são supérfluos quando um
time pode jogar com camisa e o outro sem. O número de praticantes
pode variar, dependendo da disponibilidade de atletas e das dimensões
do campo. A bola pode ser a oficial, a de plástico que desvia com
o vento ou a de borracha, que quica sem direção. Pode ser
de meia, recheada de trapo, uma laranja, papel embolado e, no desespero,
uma lata ou mesmo uma tampinha de cerveja.
A prática
extensiva e intensiva do esporte, como sabem muito bem os dirigentes olímpicos,
proporciona o surgimento de ases, que o meio aperfeiçoa e lapida.
É um fenômeno conhecido: a quantidade produz qualidade. É
por isso que Michael Jordan é americano, não tailandês,
e Nijinsky é russo, não brasileiro. Estão aí,
como fruto da quantidade do futebol, a qualidade de nomes como Didi, Baltazar,
Garrincha, Ronaldo e Leônidas. Como explicar que, nos anos 30, Leônidas
da Silva, o "Diamante Negro", inventasse uma jogada em que o atleta chuta
em gol estando de costas para a meta, de cabeça para baixo e em
pleno ar? A famosa bicicleta de Leônidas exige muito mais que a
evidente criatividade do gesto. Cobra uma elasticidade só possível
a grandes atletas modernos. Não surpreende que dessa massa de craques
tenha surgido a perfeição: Pelé. O rei não
foi fabricado em laboratório. Destacou-se no meio da multidão
de boleiros. É o que aconteceu com os titulares de Zagallo, tricampeões
em 1970.
 |
| Florença,
Itália: há séculos a turba já corria atrás
da bola nas ruas das cidades européias, na terça-feira
de Carnaval |
"Olhar
de Capitu" Massificação, portanto, é a
única razão para tamanha fartura de craques. A ginga e a
irreverência do futebol brasileiro são o nosso sotaque no
esporte. Os alemães jogam marchando e a seleção norueguesa
aposta no chutão. O brasileiro dribla até a trave, se puder.
Para que os antropólogos e sociólogos não se decepcionem,
esse jeito encantador de jogar é aquilo mesmo que eles escrevem.
É o reflexo da cultura de um povo que dança nos terreiros
e salões e rebola na economia informal para sobreviver. Aplicado
ao futebol, esse traço faz a diferença na busca do resultado
pela via mais plástica, inventada e coreografada.
Essa história
começou no dia em que o futebol deixou os clubes grã-finos
e ganhou o campinho de pelada dos subúrbios. Em História
Política do Futebol Brasileiro, o historiador Joel Rufino procura
contar como o esporte bretão caiu no gosto popular e se espalhou
pelo país. Segundo ele, desde a Idade Média as turbas exaltadas
corriam atrás da bola pelos becos e vielas das cidades européias
toda terça-feira de Carnaval. A criação da Football
Association, em 1863, na Inglaterra, foi uma maneira de botar regras no
jogo e tirá-lo do alcance das massas. Foi com esse espírito
que ele desembarcou no Brasil pelas mãos de Charles Miller, em
1894. Mas, já nas primeiras décadas do século XX,
os "ingleses" caboclos perderam o controle do esporte para a galera, e
clubes de esquina começaram a aparecer em todo o país.
Não
dá para negar que a agilidade com os pés e pernas
é valorizada na cultura popular do país. Na gafieira,
na capoeira, no futebol. A gente subalterna, nesta nação
de ex-escravos, teve de desenvolver uma grande capacidade de dissimulação
para vencer as barreiras e ludibriar a autoridade. Essas características
podem ser um fator determinante do nosso jogo balançado, que se
contrapõe à cintura grossa dos europeus. Garoto da cidade
de Campos, no escaldante norte do Estado do Rio de Janeiro, Didi já
sabia que sob o sol de 40 graus a bola é que devia correr. Lançador
perfeito, o meia Didi aprendeu a bater na bola com efeitos que a desviavam
do inimigo sem fugir do destino. "Chute oblíquo e dissimulado,
como o olhar de Capitu", definiu o jornalista Armando Nogueira. Aplicado
à cobrança de faltas, esse chute resultou na "folha-seca",
o tiro em que a bola sobe muito, ganha efeito, descai abruptamente e entra
rente ao travessão, para desespero do goleiro.
Gérson,
o meia da seleção de 70, que fumava dois maços de
cigarros por dia, estudou nessa escola. Para não correr, aprendeu
a fazer lançamentos de 40 metros. É a criatividade, que
muitos chamam de malandragem. Criativo ao limite, Garrincha será
lembrado para sempre como um dos maiores malandros que o futebol brasileiro
já produziu. Na Copa de 62, no Chile, da qual o Brasil saiu campeão,
Garrincha surpreendeu com dribles desconcertantes. Um jornal de Santiago
perguntou em manchete: "De que planeta saiu Garrincha?". Saiu dos campinhos
de pelada do interior fluminense, onde nasceu, solto como um passarinho,
da mesma maneira e ao mesmo tempo que outros milhões de garotos
pobres ou ricos, de norte a sul do país. Sem o altíssimo
grau de massificação que o futebol alcançou no Brasil,
teríamos no máximo uma seleção como a da Romênia:
habilidosa, mas que consegue reunir no máximo um ou dois craques
medianos. Ou como a da Dinamarca, que bate um bolão, mas por falta
de opção jogou com dois irmãos no time que levou
à França, em 1998. A baixa taxa de reposição
de talentos fez do bom time nórdico uma equipe sem brilho nesta
Copa de 2002, ao contrário do Brasil.
|
|
 |