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A imagem do sucesso
Ganhar
a Copa não melhora os países,
mas eles passam a ser vistos, durante
algum tempo, por uma ótica mais positiva
AFP
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| Para
os torcedores, o futebol é muito mais que um jogo com onze
atletas de cada lado |
Uma grande
seleção de futebol só pode ser realmente grande quando
reflete em sua maneira de jogar os ideais e o modo de vida do país
que a produziu", diz o escritor Vladimir Dimitrijevic, um iugoslavo há
quarenta anos radicado em Paris, onde edita uma conhecida coleção
de literatura chamada Idade do Homem. Ex-jogador, apaixonado pelo
futebol, Dimitrijevic, de 64 anos, escreve como poucos sobre o esporte.
Ele conta que nos anos de penúria da II Guerra Mundial os times
europeus fabricavam os próprios uniformes e as bolas, estas de
couro de vaca. A bexiga do animal servia de câmara de ar. As costuras
eram feitas do couro cortado em tiras e ficavam expostas. "No inverno
as costuras se congelavam. As boladas feriam o corpo e a pele ficava para
sempre com estampas em forma de xis. Nós exibíamos as cicatrizes
como medalhas. Elas eram nossas marcas de grandeza pessoal", escreveu
Dimitrijevic.
O iugoslavo
sonhador acredita que o futebol se tornou o elemento civilizatório
e modernizador mais significativo do século passado. Por seus critérios,
o futebol pentacampeão do Brasil, com seu jogo de infinitas possibilidades
táticas, espantosa capacidade técnica e rara beleza plástica
no gramado, seria um fenômeno ainda maior do que a alegria que proporcionou
aos brasileiros na semana passada. Ronaldo e seus companheiros teriam
propagandeado ao mundo a existência de um Brasil eficiente e competitivo
como sua equipe nacional de futebol. Não é pouca coisa em
tempos de globalização turbinada. A argumentação
acima pode parecer muito pomposa e artificial afinal, o Senegal
chegou tão longe na Copa de 2002 e o Brasil, convenhamos, não
é um pentacampeão mundial em distribuição
de renda, combate ao crime e à corrupção. Se os quesitos
acima fossem os de uma Copa, o Brasil nem se classificaria para a rodada
final. A brilhante seleção senegalesa estaria refletindo
que país? A antiga colônia francesa da África Ocidental
cujo único título mundial talvez seja o de mulheres portadoras
de Aids resistentes a remédios ? Não, e essa é a
mágica de uma Copa do Mundo. Por algumas semanas, a imprensa mundial
procurou publicar com mais destaque as notícias boas a respeito
do Senegal. As reportagens mostraram que o Senegal voltou a estreitar
laços comerciais e culturais com a França e a respeitar
os direitos humanos. Os jornais europeus lembraram que o Senegal conseguiu
sanear sua economia e abrir-se para o comércio mundial e que, em
contraste com outras nações africanas, os senegaleses têm
uma longa tradição de participar ativamente das missões
de manutenção da paz promovidas pela ONU. Essa projeção
positiva o Senegal deve a seus onze craques e à maneira como eles
encantaram o mundo na Coréia e no Japão.
Reuters
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| Comemoração
no Rio de Janeiro: um Carnaval fora de hora |
Não
é de agora que o futebol significa muito mais do que apenas um
jogo com onze para cada lado e uma bola no meio. Por razões que
vão merecer ainda muito estudo, o futebol e as Copas sempre tiveram
implicações sociais e políticas muito mais profundas,
complexas e interlaçadas do que a raiz da grama. As seleções
nos estádios podem reavivar ou atenuar sentimentos bélicos
e nacionalistas. Em 1966, na Copa da Inglaterra, um cronista esportivo
britânico preparou o espírito de seus leitores para a partida
final contra a Alemanha com esta jóia de retórica:
"Não nos desesperemos se perdermos para os alemães amanhã
em nosso esporte nacional, o futebol. Lembremo-nos de que só neste
século já os vencemos duas vezes no esporte nacional deles,
a guerra". O time de sua majestade venceu em 1966 por 4 a 2 e por
um instante alemães e ingleses esqueceram-se das iniqüidades
das guerras mundiais.
A história
mostra que a Hungria, vice-campeã de 1954, antes de ser percebida
como um país, passou a existir aos olhos do planeta primeiro como
uma seleção de futebol. O que era a Hungria antes de os
fenomenais jogadores Puskas e Kocsis, o Pelé e o Rivellino de seu
tempo, enfeitiçarem os torcedores de todo o mundo com suas chuteiras?
A Hungria era um pedaço de terra pertencente ao Império
Austro-Húngaro que mais tarde ficou escondido atrás da cortina
de ferro do comunismo. Não era propriamente um país de indentidade
própria reconhecida internacionalmente. Até que Puskas a
colocasse no mapa. A Alemanha saiu da humilhação do pós-guerra
graças em parte ao futebol. O fantasma coletivo do nazismo começou
a ser exorcizado depois que a Alemanha foi sacudida pelas vitórias
e pelo título mundial da fabulosa seleção de 1954,
comandada por um meio-campista esforçado chamado Fritz Walter
justamente uma final contra a Hungria. Documentários antigos mostram
a esquadra de Walter sendo saudada triunfalmente pelas multidões
enlouquecidas de alegria nas ruas das cidades alemãs. Foi a primeira
vez, desde o fim do nazismo, que os alemães perderam o medo de
se mostrar em público num frenesi coletivo de inspiração
nacionalista. Naquele momento a Alemanha recriou para si mesmo e para
o mundo a imagem de uma nação pacífica.
A Copa de
1998, na França, disputada em tempos de conflitos incomparavelmente
mais amenos, produziu situações dessa natureza. Numa rara
manifestação benigna, desde que caíram nas mãos
dos aiatolás, iranianos foram às praças comemorar
um triunfo de sua equipe contra o time dos Estados Unidos. As palavras
de ordem não falavam em sangue nem em morte. Sua seleção
venceu a equipe americana por 2 a 1 em Lyon e detonou uma explosão
de saudável alegria esportiva em Teerã. A Croácia,
graças unicamente ao talento futebolístico do artilheiro
Suker e de seus companheiros, entrou no mapa mundial não mais apenas
como o vizinho menos agressivo de bósnios e sérvios. Irã
e Croácia saíram da França com a imagem de países
mais amistosos do que quando entraram na competição. A Copa
da Coréia e Japão foi disputada num momento grave de recessão
econômica mundial, de guerra ao terrorismo e de conflitos sangrentos
no Oriente Médio. Durante o mês em que a bola rolou nos campos
asiáticos, centenas de milhões de pessoas ao redor ficaram
ligadas nas televisões sendo bombardeadas não por imagens
de guerra e terror, mas de competição sadia e de uma torcida
inflamada mas pacífica.
O pentacampeão
Brasil portou-se à altura de suas responsabilidades de potência
hegemônica do esporte mais amado do planeta. No fundo, quando se
pensa na teoria do iugoslavo Dimitrijevic exposta no começo desta
reportagem, o que a seleção mostrou na Coréia e no
Japão é a imagem de um Brasil vencedor também fora
dos gramados. O desempenho da seleção de futebol sugere
que o Brasil tem a capacidade de se apresentar ao mundo contemporâneo
com desembaraço coletivo, talento individual e poder organizativo.
E, acima de tudo, o Brasil teria mostrado que é capaz de superar
um mar de dificuldades que se revelou intransponível para equipes
e nações menos preparadas. Se se toma a seleção
como metáfora do conjunto, como sugere Dimitrijevic, então
o Brasil, enquanto durar a aura dourada da Copa, será visto lá
fora como um país mais formidável do que os brasileiros
conseguem enxergar. A seleção, espera-se, representou um
povo, uma sociedade e uma economia capazes de jogar de acordo com regras
internacionais implacáveis e sair vencedores.
Uma Copa
do Mundo é um evento cercado de liturgias e punições
exemplares para quem tenta escapar de suas regras. Não se pode
bater lateral com os pés nem cobrar um escanteio da entrada da
área. Os uniformes têm de obedecer a especificações
rígidas, as equipes entram em campo num esquema preestabelecido
em que cada segundo é cronometrado. Quando o juiz decide marcar
um pênalti, dar um cartão amarelo ou expulsar um jogador,
de nada adianta espernear. O mundo está cada vez mais parecido
com uma Copa. Nao custa repetir, quem ganhou não foi apenas o Brasil,
mas todas as equipes que foram ao Japão e à Coréia.
Derrota mesmo teve quem não se qualificou para ir à Copa
e amargou o anonimato.
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