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30 de junho de 2002
O povo das chuteiras

nestaedição
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice

A glória dos pentacampeões
Corações em campo
A imagem do sucesso
O país do futebol
Oriente loiro
Palpiteiros profissionais
Quarenta e quatro anos de glória
O esporte mais democrático
Talento à venda
Os juízes: trapalhadas sem fim
O penta em números
Os avanços da bola

Perfis
A vitória de Big Phil
Ronaldo
Rivaldo
Ronaldinho Gaúcho
Roberto Carlos
Gilberto Silva
Cafu
Kléberson
Juninho Paulista
Denilson
Marcos, o verdadeiro Kahn
O trio de ferro
Kaká
O Brasil do banco

Papel de parede: pôster da seleção pentacampeã
 


 

A imagem do sucesso

Ganhar a Copa não melhora os países,
mas eles passam a ser vistos,
durante
algum tempo, por uma ótica mais positiva

 

AFP
Para os torcedores, o futebol é muito mais que um jogo com onze atletas de cada lado

Uma grande seleção de futebol só pode ser realmente grande quando reflete em sua maneira de jogar os ideais e o modo de vida do país que a produziu", diz o escritor Vladimir Dimitrijevic, um iugoslavo há quarenta anos radicado em Paris, onde edita uma conhecida coleção de literatura chamada Idade do Homem. Ex-jogador, apaixonado pelo futebol, Dimitrijevic, de 64 anos, escreve como poucos sobre o esporte. Ele conta que nos anos de penúria da II Guerra Mundial os times europeus fabricavam os próprios uniformes e as bolas, estas de couro de vaca. A bexiga do animal servia de câmara de ar. As costuras eram feitas do couro cortado em tiras e ficavam expostas. "No inverno as costuras se congelavam. As boladas feriam o corpo e a pele ficava para sempre com estampas em forma de xis. Nós exibíamos as cicatrizes como medalhas. Elas eram nossas marcas de grandeza pessoal", escreveu Dimitrijevic.

O iugoslavo sonhador acredita que o futebol se tornou o elemento civilizatório e modernizador mais significativo do século passado. Por seus critérios, o futebol pentacampeão do Brasil, com seu jogo de infinitas possibilidades táticas, espantosa capacidade técnica e rara beleza plástica no gramado, seria um fenômeno ainda maior do que a alegria que proporcionou aos brasileiros na semana passada. Ronaldo e seus companheiros teriam propagandeado ao mundo a existência de um Brasil eficiente e competitivo como sua equipe nacional de futebol. Não é pouca coisa em tempos de globalização turbinada. A argumentação acima pode parecer muito pomposa e artificial ­ afinal, o Senegal chegou tão longe na Copa de 2002 e o Brasil, convenhamos, não é um pentacampeão mundial em distribuição de renda, combate ao crime e à corrupção. Se os quesitos acima fossem os de uma Copa, o Brasil nem se classificaria para a rodada final. A brilhante seleção senegalesa estaria refletindo que país? A antiga colônia francesa da África Ocidental cujo único título mundial talvez seja o de mulheres portadoras de Aids resistentes a remédios ? Não, e essa é a mágica de uma Copa do Mundo. Por algumas semanas, a imprensa mundial procurou publicar com mais destaque as notícias boas a respeito do Senegal. As reportagens mostraram que o Senegal voltou a estreitar laços comerciais e culturais com a França e a respeitar os direitos humanos. Os jornais europeus lembraram que o Senegal conseguiu sanear sua economia e abrir-se para o comércio mundial e que, em contraste com outras nações africanas, os senegaleses têm uma longa tradição de participar ativamente das missões de manutenção da paz promovidas pela ONU. Essa projeção positiva o Senegal deve a seus onze craques e à maneira como eles encantaram o mundo na Coréia e no Japão.

Reuters
Comemoração no Rio de Janeiro: um Carnaval fora de hora

Não é de agora que o futebol significa muito mais do que apenas um jogo com onze para cada lado e uma bola no meio. Por razões que vão merecer ainda muito estudo, o futebol e as Copas sempre tiveram implicações sociais e políticas muito mais profundas, complexas e interlaçadas do que a raiz da grama. As seleções nos estádios podem reavivar ou atenuar sentimentos bélicos e nacionalistas. Em 1966, na Copa da Inglaterra, um cronista esportivo britânico preparou o espírito de seus leitores para a partida final contra a Alemanha com esta jóia de retórica:
"Não nos desesperemos se perdermos para os alemães amanhã em nosso esporte nacional, o futebol. Lembremo-nos de que só neste século já os vencemos duas vezes no esporte nacional deles, a guerra". O time de sua majestade venceu em 1966 por 4 a 2 – e por um instante alemães e ingleses esqueceram-se das iniqüidades das guerras mundiais.

A história mostra que a Hungria, vice-campeã de 1954, antes de ser percebida como um país, passou a existir aos olhos do planeta primeiro como uma seleção de futebol. O que era a Hungria antes de os fenomenais jogadores Puskas e Kocsis, o Pelé e o Rivellino de seu tempo, enfeitiçarem os torcedores de todo o mundo com suas chuteiras? A Hungria era um pedaço de terra pertencente ao Império Austro-Húngaro que mais tarde ficou escondido atrás da cortina de ferro do comunismo. Não era propriamente um país de indentidade própria reconhecida internacionalmente. Até que Puskas a colocasse no mapa. A Alemanha saiu da humilhação do pós-guerra graças em parte ao futebol. O fantasma coletivo do nazismo começou a ser exorcizado depois que a Alemanha foi sacudida pelas vitórias e pelo título mundial da fabulosa seleção de 1954, comandada por um meio-campista esforçado chamado Fritz Walter – justamente uma final contra a Hungria. Documentários antigos mostram a esquadra de Walter sendo saudada triunfalmente pelas multidões enlouquecidas de alegria nas ruas das cidades alemãs. Foi a primeira vez, desde o fim do nazismo, que os alemães perderam o medo de se mostrar em público num frenesi coletivo de inspiração nacionalista. Naquele momento a Alemanha recriou para si mesmo e para o mundo a imagem de uma nação pacífica.

A Copa de 1998, na França, disputada em tempos de conflitos incomparavelmente mais amenos, produziu situações dessa natureza. Numa rara manifestação benigna, desde que caíram nas mãos dos aiatolás, iranianos foram às praças comemorar um triunfo de sua equipe contra o time dos Estados Unidos. As palavras de ordem não falavam em sangue nem em morte. Sua seleção venceu a equipe americana por 2 a 1 em Lyon e detonou uma explosão de saudável alegria esportiva em Teerã. A Croácia, graças unicamente ao talento futebolístico do artilheiro Suker e de seus companheiros, entrou no mapa mundial não mais apenas como o vizinho menos agressivo de bósnios e sérvios. Irã e Croácia saíram da França com a imagem de países mais amistosos do que quando entraram na competição. A Copa da Coréia e Japão foi disputada num momento grave de recessão econômica mundial, de guerra ao terrorismo e de conflitos sangrentos no Oriente Médio. Durante o mês em que a bola rolou nos campos asiáticos, centenas de milhões de pessoas ao redor ficaram ligadas nas televisões sendo bombardeadas não por imagens de guerra e terror, mas de competição sadia e de uma torcida inflamada mas pacífica.

O pentacampeão Brasil portou-se à altura de suas responsabilidades de potência hegemônica do esporte mais amado do planeta. No fundo, quando se pensa na teoria do iugoslavo Dimitrijevic exposta no começo desta reportagem, o que a seleção mostrou na Coréia e no Japão é a imagem de um Brasil vencedor também fora dos gramados. O desempenho da seleção de futebol sugere que o Brasil tem a capacidade de se apresentar ao mundo contemporâneo com desembaraço coletivo, talento individual e poder organizativo. E, acima de tudo, o Brasil teria mostrado que é capaz de superar um mar de dificuldades que se revelou intransponível para equipes ­ e nações ­ menos preparadas. Se se toma a seleção como metáfora do conjunto, como sugere Dimitrijevic, então o Brasil, enquanto durar a aura dourada da Copa, será visto lá fora como um país mais formidável do que os brasileiros conseguem enxergar. A seleção, espera-se, representou um povo, uma sociedade e uma economia capazes de jogar de acordo com regras internacionais implacáveis e sair vencedores.

Uma Copa do Mundo é um evento cercado de liturgias e punições exemplares para quem tenta escapar de suas regras. Não se pode bater lateral com os pés nem cobrar um escanteio da entrada da área. Os uniformes têm de obedecer a especificações rígidas, as equipes entram em campo num esquema preestabelecido em que cada segundo é cronometrado. Quando o juiz decide marcar um pênalti, dar um cartão amarelo ou expulsar um jogador, de nada adianta espernear. O mundo está cada vez mais parecido com uma Copa. Nao custa repetir, quem ganhou não foi apenas o Brasil, mas todas as equipes que foram ao Japão e à Coréia. Derrota mesmo teve quem não se qualificou para ir à Copa e amargou o anonimato.

 
 
   
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