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O ritual tem pequenas variações. A cada quatro anos, o país conhece os 23 convocados para a seleção e então começa a gritaria. O técnico, seja quem for, terá sempre deixado um craque de fora, ou montado uma equipe defensiva demais. A seleção embarca para o país-sede da Copa do Mundo e deixa um rastro de descrédito. É quase sempre uma unanimidade nacional: com esse timeco aí, não tem taça. A seleção estréia, vence, a festa toma as ruas, mas seu futebol não convence. À medida que vai ganhando, passando de uma fase para outra, o país não contém a euforia. O ritual de descrédito, ocorrido até com a magistral seleção de 1970, não significa que os brasileiros sejam ranhetas, implicantes, inapeláveis pessimistas. Parece ser uma forma coletiva de simular indiferença, só para proteger o coração da decepção oceânica da derrota. No futebol, não queremos cair das nuvens nem do quarto andar. E por quê? Por que uma derrota é luto nacional e a vitória é um imenso Carnaval? Por que, em dias de jogo, os bancos mudam o horário de funcionamento, as escolas dispensam os alunos, o governo dá folga para os funcionários, o trânsito se congestiona com motoristas correndo para casa em automóveis embandeirados? Por que o país fica mesmerizado diante da televisão ou do telão? Por que entramos nesse estado hipnótico coletivo?
O futebol é o esporte nacional, e isso explica a corrente de eletricidade que conecta o país de norte a sul quando a seleção entra em campo. Mas explica só uma parte do fenômeno. Esporte nacional todos os países têm. Nos Estados Unidos, a final do campeonato nacional de basquete rouba as atenções de costa a costa. No Paquistão, só para citar um dos maiores fabricantes de bolas do mundo, o esporte nacional é o críquete. Na Argentina, Colômbia ou Itália, é o próprio futebol. Sendo assim, por que apenas no Brasil a seleção é tão especial e põe 170 milhões de corações em estado de taquicardia? Será que adoramos a seleção porque somos os melhores do mundo no futebol e por meio dela experimentamos o doce sabor do triunfo? É verdade, mas também não é só isso. Toda nação preza aquilo em que se mostra superior. Os concursos de miss são um acontecimento nacional na Venezuela porque as venezuelanas vivem levando a faixa de miss universo para casa. Os italianos fizeram um carro de corrida espetacular, a lendária Ferrari, e erguem bandeiras para torcer por ele, seja qual for a nacionalidade do piloto que se senta na cabine vermelha.
Nas manhãs de domingo, o Brasil sempre gostou de se recolher em casa para ver as corridas de Fórmula 1, mas o interesse e o prazer eram maiores quando voavam nas pistas talentos como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet ou Ayrton Senna, cujo enterro foi um imenso tributo popular ao piloto. O Brasil pode perder uma Copa do Mundo, como aconteceu por 24 anos seguidos, e nem assim o país deixa de torcer pela seleção. Existe, aí, uma relação especial, profunda. A identificação do povo brasileiro com a seleção, e com o próprio futebol, transcende o talento esportivo. Há várias razões para isso, mas uma delas paira, soberana, sobre as demais: a equipe nacional, nosso velho escrete canarinho, expressa com perfeição a identidade do brasileiro. Os onze jogadores em campo são como um espelho de nós mesmos, uma pintura da alma brasileira, e daí nasce o fenômeno singularíssimo no qual, com a seleção jogando, o país simplesmente pára. Porque o Brasil quer o deleite coletivo de assistir ao Brasil, falar, xingar, amar o Brasil. A seleção é a nossa melhor metáfora. É a nossa maior bandeira.
No time há uma democracia socioeconômica que não aparece, na mesma extensão, na vida cotidiana, e o povo, o torcedor, se reconhece nisso. A equipe tem um filho de classe média alta. O brasiliense Kaká, caçula da seleção, com 20 anos de idade, é exceção no time. Como no Brasil. A maioria dos atletas é formada por cidadãos humildes. Gente como Cafu, nascido da união de uma empregada doméstica com um pintor de paredes. Ou como Rivaldo, terceiro dos cinco filhos de uma dona-de-casa e um escrevente, que veio ao mundo num bairro popular da região metropolitana do Recife. Analisando as estatísticas, constata-se como a seleção retrata a composição social do Brasil. Dos 23 convocados por Felipão, 77% vêm de família pobre, contra 63% na população brasileira em geral. Os outros 23% nasceram em famílias com uma situação econômica remediada, e no país todo esse número é de 37%. E não é só isso. Somente a Região Norte do país não está representada no time. São dois atletas do Centro-Oeste, cinco sulistas, cinco nordestinos e onze do Sudeste. Onze vieram de municípios pequenos, três de cidades médias e nove de capitais.
A seleção também traduz nossa composição racial, numa generosidade que não se encontra no dia-a-dia. Ela tem descendentes de europeus, como os sulistas Anderson Polga e Belletti, brancos. Tem negros, como Vampeta e Edílson, nordestinos. Tem o carioca Ronaldo, um mestiço que certa vez explicou que raspava o cabelo porque "o que é ruim a gente esconde". No aspecto racial, as estatísticas também mostram grande similaridade entre a equipe e o Brasil. Entre os 23 jogadores, 43% são brancos, 35% são pardos e 22% são negros. No país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 54% de brancos, 39% de pardos e 6% de negros. Só a proporção de negros é bem maior na seleção do que na sociedade brasileira, mas a frieza dos números não revela tudo. O caldeirão racial do país, característica que durante anos serviu de explicação preconceituosa para o atraso nacional, tem uma conotação positiva no futebol. É um elogio dizer que um atleta "joga com raça", e o elogio pode ser aplicado ao branco Edmílson, ao mulato Denilson, ao negro Vampeta. Ter raça, seja qual for, é bom. Se a harmonia racial parece comum no futebol, é bom lembrar que em 1998 a Holanda atravessou a Copa promovendo brigas entre os brancos de Amsterdã e os negros do Suriname e das Antilhas.
"A seleção nos expressa porque trouxe excelência. Ela levanta a auto-estima do brasileiro, e a experiência da vitória confirma os nossos valores nacionais", afirma o antropólogo Roberto DaMatta, 65 anos, professor da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, um dos primeiros brasileiros a estudar o universo social do futebol no Brasil. O acesso do negro ao esporte, por exemplo, foi uma conquista. Em 1923, o Vasco causou escândalo ao disputar um campeonato com um time de negros, mulatos e pobres. Ganhou. No ano seguinte, repetiu a receita e o resultado. Na Copa de 38, na França, a terceira da história do futebol, o Ministério das Relações Exteriores de Getúlio Vargas chegou a pedir que não se escalassem negros, mas a recomendação foi ignorada: estavam lá o zagueiro Domingos da Guia e o atacante Leônidas da Silva. E o Brasil ficou em terceiro lugar, sua melhor atuação em Copas até então. A derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 50, em pleno Maracanã, considerada a maior tragédia nacional do futebol, logo se desdobrou numa questão racial. Os culpados eram Barbosa, Juvenal e Bigode. Todos negros. A vitória de 1970 foi uma vingança nacional contra as armadilhas do destino e ajudou a promover uma evolução na visão nacional sobre os negros. Em 1950, eles foram os comandantes da derrota. Vinte anos depois, personificados na figura mágica de Pelé, foram os maestros do triunfo do tricampeonato.
Conta-se que, no início do século, os brancos e ricos, que trouxeram o então chamado "esporte bretão" para o país, tentaram resistir à invasão negra. Teriam criado até uma regra desconcertante: se um jogador branco fazia falta num negro, o juiz apitava, e tudo bem. Mas, se um negro batia num branco, o atingido tinha o direito de revidar a violência antes da cobrança da falta. Então, o que os negros fizeram para não sair sangrando dos gramados? Apareceu a notável capacidade do negro de contornar as dificuldades, censuras e punições a mesma que criou o sincretismo religioso na Bahia, driblando os cardeais católicos. Para escapar da surra dos brancos, os negros passaram a evitar bolas divididas e esmeraram-se noutro caminho: a ginga, o drible, a finta. Daí por que é recorrente no Brasil o debate que confronta o futebol-arte com o futebol-força. Os brasileiros preferem o futebol-arte por sua beleza, sua plasticidade e encanto, mas também porque, para ser artista da bola, é preciso nascer artista da bola. Se é assim, ricos e pobres, brancos e negros, altos e baixos, fortes e fracos estão em pé de igualdade. O futebol-força, ao contrário, prefere altos e fortes e é feito de uma matéria que se pode aprender: resistência, disciplina, velocidade. O Brasil não se vê nesse futebol. Quer sua marca nacional. A manha, a malícia, a malemolência, o dom de iludir o adversário.
Sabe-se que a seleção retrata a sociedade brasileira porque o futebol é aberto ao pobre, ao fraco, ao negro, ao analfabeto, às pernas tortas de Garrincha. Sabe-se, também, que uma família tradicional, rica ou poderosa pode criar um político influente, mesmo que ele não tenha talento para o palanque, ou pode diplomar um filho numa grande universidade estrangeira, ainda que não seja um aluno brilhante. Só não pode criar do nada um astro do futebol. O que é menos visível mas está nos cantos mais recônditos dos gramados é que no futebol o país pode zombar da hierarquia econômica, social ou cultural.
E isso é uma experiência e tanto numa sociedade como a nossa. É por meio dessa forma lúdica, pacífica, que vamos nos reafirmando como brasileiros. Nada é mais precário do que a bobagem esquerdista de classificar o futebol como "ópio do povo". É exatamente o contrário: é a cara do povo. No domingo, quando o Brasil levantou a taça do penta no Japão, ficamos mais próximos de nós mesmos, mais parecidos conosco como os romanos antigos no circo, ou como os bizantinos no hipódromo. Isso levanta uma nação.
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