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A
vitória de "Big Phil"
Luiz
Felipe Scolari assumiu a seleção
para salvar a pátria do vexame da
eliminação de uma Copa, fez da
teimosia uma bandeira, contrariou
a lógica e calou seus críticos
Reuters

Felipão
acostumou-se a rebater de canela as bolas que lhe são endereçadas
no gramado e na vida |
O
gaúcho Luiz Felipe Scolari, o Felipão, não come mel,
come abelha. Pavio curto, é capaz de colocar na geladeira um atleta
que demonstre o mínimo traço de má vontade ao executar
uma ordem sua. "Tu precisas ter atitudes fortes, ser impositivo", diz.
Zagueirão grosso que passou por diversas equipes do interior do
Rio Grande do Sul, Felipão acostumou-se a rebater de canela as
bolas que lhe são endereçadas no gramado e na vida. Num
jogo entre o seu Grêmio e o Palmeiras de Wanderley Luxemburgo, ele
saiu do seu banquinho e desferiu um sopapo no adversário. No começo
do ano, deu um chute no traseiro de um torcedor no saguão do hotel
em Goiânia, maneira escolhida pelo macanudo de Passo Fundo para
responder a uma crítica que lhe fora feita. Quando a Justiça
britânica quis impedir Augusto Pinochet de deixar o país
para responder a um processo por violação dos direitos humanos,
Felipão deu declarações de solidariedade ao ex-ditador
chileno. Vai gostar de abelha lá nos pampas.
No
comando da seleção desde junho de 2001, quando foi chamado
para substituir o técnico Leão, que substituíra Wanderley
Luxemburgo, ele chegou para salvar a pátria, ameaçada pela
primeira vez na história de ver sua seleção fora
de uma Copa do Mundo. Ele chegou levando ao extremo o ranço de
teimosia que caracteriza a profissão de técnico de futebol.
Nesse quesito nem Zagallo o superou. Bastava a torcida pedir uma coisa
para ele fazer outra. Foi assim que preteriu o dissimulado Romário,
o maior craque brasileiro em atividade, e convocou Luizão, um atacante
tecnicamente limitado, mas muito esforçado e leal, características
que considera fundamentais para o atleta integrar a "família Scolari".
Quando todos pediam Ricardinho, um jogador criativo que poderia abrir
o caminho na retranca belga, ele fez entrar Kléberson, um defensor,
para desespero da torcida e dos comentaristas esportivos. Mas não
foi exatamente de Kléberson o passe para o gol de Ronaldo que selou
o destino dos diabos vermelhos nos campos do Japão? Ponto para
Felipão, ou "Big Phil", como a imprensa estrangeira o chama.
Na Copa
de 2002 ele mostrou mais uma vez que nada do que dizem a seu respeito
fala mais alto que os títulos conquistados com seu futebol de
resultados. "Jogando feio e ganhando, tudo fica lindo", defende-se.
Tudo bem que durão e turrão sejam rimas perfeitas para
Felipão. Mas não é de hoje que ele tem a seu favor
estes argumentos inatacáveis: conquistou diversos títulos
estaduais, foi campeão da Copa do Brasil pelo Criciúma,
de Santa Catarina, e pelo Grêmio de Porto Alegre e conquistou
a Taça Libertadores da América pelo Grêmio e pelo
Palmeiras. Foi essa eficiência que o fez pegar o boi das eliminatórias
pelo chifre. Depois de quinze jogos e de testar 58 atletas, ele classificou
o Brasil e montou o time que passou invicto pelas sete partidas que
deram ao Brasil o título de pentacampeão do mundo.
Esse gauchão
brabo, pai de dois filhos, devoto de Nossa Senhora do Caravaggio, que
trata os desafetos no joelhaço, derrete-se num paternalismo derramado
quando se refere aos seus meninos: "Os jogadores são carentes.
A maioria deles quer um técnico exigente, forte e que aja como
um pai para eles". Podem criticar, mas funciona. Funcionou na Coréia
e no Japão, para a glória do futebol verde-e-amarelo. Como
o besouro, que não pode voar, mas voa, Felipão contrariou
a lógica futebolística estabelecida e venceu.
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