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30 de junho de 2002
Copa do Mundo

nestaedição
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice

A glória dos pentacampeões
Corações em campo
A imagem do sucesso
O país do futebol
Oriente loiro
Palpiteiros profissionais
Quarenta e quatro anos de glória
O esporte mais democrático
Talento à venda
Os juízes: trapalhadas sem fim
O penta em números
Os avanços da bola

Perfis
A vitória de Big Phil
Ronaldo
Rivaldo
Ronaldinho Gaúcho
Roberto Carlos
Gilberto Silva
Cafu
Kléberson
Juninho Paulista
Denilson
Marcos, o verdadeiro Kahn
O trio de ferro
Kaká
O Brasil do banco

Papel de parede: pôster da seleção pentacampeã
 


 

A glória dos pentacampeões

Com o craque-herói Ronaldo num dia
iluminado, o Brasil conquista o quinto
título mundial, façanha que o coloca
num patamar quase inalcançável

Carlos Maranhão,
de Yokohama, Japão


Reuters
Cafu levanta a taça: único jogador da história do futebol a chegar a três finais


O que a seleção brasileira conquistou no domingo no Japão, diante de uma platéia global estimada em mais de 1 bilhão de espectadores, não foi apenas o título inédito de pentacampeão mundial, que enche o país inteiro de orgulho. Foi muito mais que isso. O Brasil concluiu em Yokohama a maior epopéia futebolística já vivida por uma nação, coroando uma trajetória de 44 anos construída em Estocolmo, Santiago, Cidade do México e Los Angeles, palcos das inesquecíveis vitórias anteriores. No já histórico 30 de junho de 2002, ao vencer a Alemanha por 2 a 0, o Brasil alcançou uma hegemonia nos gramados que nenhum adversário terá condições de suplantar nem sequer igualar tão cedo. Os gols de Ronaldo, artilheiro desta Copa do Mundo, deixaram o Brasil numa posição insuperável. Nos futuros Mundiais, os alemães ou os italianos, ambos tricampeões, precisarão ganhar dois títulos cada um – desde que o Brasil não saia mais vitorioso – para chegar ao penta. Pelo que a dinâmica das Copas mostra, vão se passar gerações antes que alguma outra pátria esportiva ameace o domínio dos jogadores brasileiros no esporte mais popular do planeta.


AP
O lance do primeiro gol: Oliver Kahan erra, e Ronaldo não perdoa

Por muitos anos calam-se as discussões sobre se temos ou não o melhor futebol do mundo, uma dúvida muito mais presente no Brasil que na Europa, onde a seleção da camisa amarela é sempre vista com reverência. A trajetória de glórias dos jogadores brasileiros podia ser resumida no domingo na imagem em que o capitão Cafu, que aos 32 anos disputava sua terceira final consecutiva, levantou gloriosamente a taça, repetindo o gesto consagrador de Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres e Dunga. Se houvesse vencido, a Alemanha igualaria tudo. O futebol teria dois tetras e um bom motivo para debates intermináveis nos botequins, cervejarias, arquibancadas e programas de TV: quem, afinal, seria o número 1 do reino da bola? O assunto está encerrado pelas próximas Copas. É o Brasil, e ponto final.


AFP
O segundo gol: Rivaldo deixa a bola passar e ela chega aos pés de Ronaldo

"Para qualquer seleção do mundo, enfrentar o Brasil é antes de tudo uma honra e um prazer", escreveu o jornal inglês The Guardian. As outras equipes chegam às Copas para tentar vencê-lo. Com o Brasil é diferente.

No futebol, os brasileiros pentacampeões desfrutam da reputação de artistas que os americanos têm no basquete. O Brasil chega às Copas já dono da taça e, ocasionalmente, por alguma dobra imprevisível do destino pode perdê-la para algum outro time. Firmou-se também de modo definitivo o estilo brasileiro de jogar futebol, que andou desacreditado diante do enorme poderio financeiro e disciplina tática dos europeus. Na Europa jogam oito dos onze pentacampeões. Cada um se adaptou aos esquemas de seus times europeus. Mas, quando eles se juntaram às ordens de Luiz Felipe Scolari sob o manto da histórica camisa amarela, a tradição brasileira falou mais alto. Acima de tudo o Brasil produz craques inigualáveis. Em Yokohama, o rei Pelé dependurou a medalha no pescoço de um legítimo sucessor, Ronaldo Nazário, talvez o mais heróico de todos os jogadores que já vestiram a camisa amarela. Ronaldo foi dado como acabado. Sofreu uma convulsão horas antes da final de 1998 na França, em que o time da casa goleou o Brasil por 3 a 0. Depois viria o pior. O mundo inteiro viu seu joelho se desmanchar diante das câmeras de televisão num jogo do campeonato italiano, em que defendia a Internazionale de Milão. No domingo em Yokohama, Ronaldo fez os dois gols que deram aos brasileiros sua maior alegria esportiva e consagrou-se para sempre como um herói nacional.

Reuters
Kahn saltou no chute de Kleberson, mas não achou nada. A bola explodiu na trave

O estilo brasileiro se impôs na Copa do Japão e da Coréia. É um estilo que mistura doses de sofrimento e alegria para o torcedor. Felizmente, a alegria vem depois. Mesmo quando parece não jogar bem, como no primeiro tempo do jogo final contra a Alemanha, a seleção tem lampejos que desmontam os esquemas mais rígidos. Os alemães praticamente anularam Rivaldo nos primeiros 45 minutos. Ronaldo teve duas chances que morreram nas mãos do goleiro Oliver Kahn. Ronaldinho Gaúcho esteve quase sempre cercado por um corredor de alemães. Daí surgiu Kléberson. Saiu dos pés do paranaense a bomba que se chocou contra a trave superior de Kahn, quando o goleiro alemão já tinha passado pela bola. Agora que o Brasil assumiu a liderança, lugar que os torcedores sempre souberam que era dele, o que animará as conversas dos apaixonados pelo futebol? Vai-se discutir por exemplo como um time tão desacreditado transformou-se a ponto de se tornar campeão. Também se perguntará, em papos acalorados, qual terá sido a maior das seleções. A de 1958, na Suécia? A de 1970, no México? Ou talvez a de 2002, na Coréia e no Japão? Não existe uma resposta única para essas perguntas. Um dos encantos do futebol, responsável pela euforia que toma conta dos torcedores no momento do triunfo, é a possibilidade que ele abre para qualquer tipo de interpretação. Na hora das comparações, a memória é contagiada pela fantasia. As seleções de 1958 e 1970, que no plano técnico foram as mais refinadas, receberam vaias nos jogos preparatórios. Exatamente como a de 2002.

Reuters
AP
Ronaldinho Gaúcho: enlouquecendo os defensores das seleções adversárias Roberto Carlos: experiência, talento e habilidade na decisão

Nos campos asiáticos, o Brasil não foi sempre brilhante. Suou para ganhar na estréia e levantou temores sobre suas possibilidades nos 5 a 2 contra a Costa Rica, quando se percebeu quanto a defesa estava vulnerável. Em 1970, porém, o problema era quase igual. Não se confiava no goleiro Félix nem na linha de zagueiros. Assim é o futebol. Exceto nos desejos da imaginação, inexiste o time ideal, que não erra, dá show permanente e arrasa um por um seus adversários. Muitas vezes se pensa que a seleção de 1970 beirou a perfeição. Basta rever os vídeos de suas seis partidas no México para perceber como as coisas eram um pouco diferentes. Os fantásticos talentos que ela reuniu estavam longe de ser infalíveis. "Todo mundo acha que contra os ingleses, em Guadalajara, nós tivemos uma atuação extraordinária, o que não é verdade: eles criaram várias oportunidades de marcar e poderiam ter ganho", lembra Tostão, responsável com Pelé pela jogada que redundou no gol da vitória, feito por Jairzinho. Os três, mais Gérson, Rivellino e Carlos Alberto, que eram craques fora de série, conviviam, como Ronaldo e Rivaldo, com uma retaguarda cheia de falhas individuais. Foi no dia daquela partida, 7 de junho de 1970, que nasceu Cafu, o capitão do penta.

Reuters
Marcos salta no chute de Neuville e toca na bola. Na seqüência, ela bate na trave

Críticos e saudosistas acreditam que o futebol ficou mais feio de ver e que não existe mais seleções que funcionam como máquinas de triturar rivais. A Copa de 2002 seria o melhor exemplo. Também aí o impressionismo falha no julgamento. Desde que os europeus descobriram, nos anos 60, que o preparo físico em bases científicas e a estratégia são armas eficientes para enfrentar craques sul-americanos sem disciplina tática nem preparo atlético, o jogo nunca mais foi o mesmo. Desapareceram dos estádios o que o jornalista esportivo e técnico João Saldanha chamava de "times que jogam e deixam jogar". O futebol virou um esporte extremamente competitivo e, nesse sentido, mais empolgante. Ou seja, como sentiram a França e a Argentina, o jogo nunca foi tão imprevisível e equilibrado. Em outras palavras, ganhar uma Copa como o Brasil conseguiu no domingo ficou mais difícil. Salvo novatos inocentes, como a China e a Arábia Saudita, que foram à Copa pelas mesmas razões da política esportiva que garantiram a escalação de árbitros do Caribe e bandeirinhas do Oriente Médio, praticamente não há mais sacos de pancada nos torneios internacionais. A globalização da economia, a expansão do futebol como um negócio milionário, a transformação da Fifa numa gigantesca entidade universal, os investimentos cada vez maiores dos fabricantes de bolas, uniformes, tênis e chuteiras, os crescentes patrocínios de empresas que vendem no mundo inteiro serviços e produtos de alto consumo, do McDonald's à Coca-Cola, os direitos de transmissão de TV das grandes competições comercializados por cifras bilionárias, tudo isso disseminou o futebol pelos continentes e mudou suas características. Senegaleses jogam na França, japoneses viraram estrelas na Itália e americanos espalharam-se pela Inglaterra, numa mobilidade que resultou em corrente de aprendizado. Hoje os coreanos sabem driblar e os turcos tocam a bola de pé em pé.

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Reuters
Gilberto Silva: a aposta de Scolari mostrou por que é um dos melhores do mundo Roque Júnior: uma partida perfeita do início ao fim

A seleção de 1970, para voltar a esse referencial do futebol deslumbrante, era mais eficiente que a seleção de 2002? Quando se examinam simplesmente os resultados, é possível ver que as duas foram campeãs não só porque eram as melhores, cada uma em sua época, cada uma contra adversários que não escolheu, mas porque ganharam todos os seus jogos. A grande vantagem dos tricampeões – além da presença de Pelé numa fase sublime – é que eles puderam preparar-se em tempo integral durante três meses. Foram submetidos aos mesmos métodos dos europeus, com a diferença que o Brasil tinha mais craques. No atual futebol globalizado, isso não é mais possível. Os jogadores brasileiros, como os argentinos, os franceses ou os africanos, só são cedidos pelos clubes em que atuam às vésperas da Copa. A falta de tempo para a preparação, apontada pelos treinadores, deixou de ser uma desculpa. Foi a realidade que levou o Brasil a ir se acertando não nos campos de treinamento, mas jogo a jogo, até chegar à final e conquistar o título.

Não foi a primeira vez. Em 1958, a seleção não convenceu nos dois jogos iniciais. Viria mostrar seu futebol maravilhoso com a entrada de dois reservas do ataque: Garrincha e Pelé. Desta vez, o técnico Luiz Felipe Scolari colocou em campo 21 de seus 23 convocados, porque jamais teve clara a formação ideal. Em suas idas e vindas, com mudanças de plano na véspera dos jogos, ele percebeu o essencial: para ganhar, precisaria da união do elenco, recrutado na fase final das eliminatórias, e do que Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho pudessem fazer em campo. Sem ser um estrategista, o treinador soube motivar os atletas. "Nós jogamos com o coração", diz ele. Nas partidas da fase mata-mata, exibiu competência para extrair o máximo de competitividade da equipe e brilhou no banco, com sua filosofia de "viver para não morrer", na dramática meia hora em que, expulso Ronaldinho Gaúcho, levou o Brasil, à base de gritos, catimba e fechamento de espaços, a neutralizar a pressão inglesa. "Ficamos mais de quarenta dias juntos e posso garantir que não houve uma única briga interna", afirma o goleiro Marcos, que com suas defesas na fase final se tornou uma peça essencial para o sucesso coletivo.

AP
Pelé cumprimenta o goleador Ronaldo: encontro de reis na festa do penta

Na hora em que realmente a Copa entrou em jogo, a partir das oitavas-de-final, a seleção demonstrou sua capacidade de decisão. "Isso foi fundamental", afirma o técnico Carlos Alberto Parreira. "Desde o início, ficou claro para mim que o Brasil, para chegar à final, não teria de jogar sempre bem. Teria de ganhar três partidas. O time se preparou para elas na fase inicial, quando teve jogos mais fáceis, que serviram para o ajuste." Explodiram então os talentos e, dos erros, brotou uma seleção vencedora. Quem mais conseguiria fazer um gol como Rivaldo, contra a Bélgica? Encobrir o goleiro inglês daquele jeito, como conseguiu Ronaldinho Gaúcho? Ou os oito gols de artilheiro assinalados por Ronaldo? Eles e seus companheiros estão agora incorporados à história do futebol. Para o bem do esporte. E para a glória do torcedor brasileiro. *

 
 
   
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