|
|
Especial A teologia da
libertação enquadrada
Pedro Martinelli  |
| Na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, em sua primeira
visita ao Brasil: a Igreja "além dos aspectos sociopolíticos" |
Para a Igreja brasileira, os 26 anos de pontificado de João Paulo II tiveram
impacto de uma bomba de nêutrons. Dentro do espírito da sua cruzada
anticomunista, o papa praticamente varreu do mapa os líderes da dita ala
progressista do clero nacional, a qual se fortalecera na luta contra o regime
militar nas décadas de 60 e 70. Em paralelo, anatematizou a Teologia da
Libertação, que adaptava conceitos marxistas à doutrina católica
e servia de justificativa para o engajamento político de padres e bispos.
"A missão da Igreja não pode ser reduzida a aspectos sociopolíticos,
mas consiste em anunciar o que Deus revelou sobre si mesmo e sobre o destino do
homem", já anunciava João Paulo II, em 1980, às centenas
de milhares de fiéis que se acotovelavam em Brasília para assistir
à primeira missa rezada pelo pontífice em solo brasileiro. Desse
aviso claro e inequívoco, ele logo partiria para a ação fulminante.
Com o objetivo de arar com sal o terreno onde
vicejavam os progressistas, que no início da década de 80 constituíam
boa parte do clero e eram hegemônicos do ponto de vista ideológico,
o papa começou a nomear bispos mais sintonizados com as orientações
de Roma. Ao mesmo tempo, deu início à transferência de religiosos
que causavam incômodo ao Vaticano de cidades importantes para localidades
inexpressivas na geografia da Igreja. Essa estratégia, que começou
a ser levada a cabo lentamente, ganhou velocidade a partir de 1985, quando dom
José Cardoso Sobrinho, conservador, assumiu a arquidiocese de Olinda e
Recife, em substituição a dom Hélder Câmara, aposentado
na condição de um dos expoentes da esquerda eclesiástica.
O caso da capital pernambucana é exemplar da mudança de rumos. Para
combater os que pretendiam ver mantida a linha de atuação de dom
Hélder, Cardoso Sobrinho adotou práticas inquisitoriais. Destituiu
leigos rebeldes da direção de comissões voltadas para o trabalho
social, forçou a transferência de padres e articulou junto a Roma
o fechamento de dois seminários que insistiam em manter um currículo
de formação religiosa em desacordo com as novas diretrizes.
Antonio Milena  |
| Missa da Renovação Carismática: reação ao avanço dos
evangélicos, o movimento já conta com milhões de adeptos | A
bem-sucedida intervenção conservadora no Recife deixou João
Paulo II ainda mais à vontade para usar sua mão de ferro. Em 1987,
dom Lucas Moreira Neves (morto em 2002), mais papista do que o próprio
papa, foi nomeado arcebispo de Salvador e cardeal primaz do Brasil. Wojtyla fez
a escolha a partir de uma lista que incluía o nome do progressista dom
Luciano Mendes de Almeida, então presidente da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) e liderança de grande prestígio dentro
e fora da Igreja. Não só o nome de dom Luciano foi descartado, como
nove meses mais tarde ele foi deslocado de São Paulo para Mariana, cidade
de 40.000 habitantes no interior de Minas Gerais. Um ano depois viria o golpe
que quebraria de vez a coluna dorsal da ala progressista. A principal arquidiocese
do país, a paulistana, foi desmembrada em cinco pedaços, quatro
dos quais foram entregues a bispos de clara linha conservadora. Essa manobra teve
como alvo principal o cardeal Paulo Evaristo Arns, figura de proa da esquerda
eclesiástica, hoje aposentado. Com a divisão, dom Paulo perdeu metade
de sua área de influência, que na época abrangia um universo
de 14 milhões de pessoas. Estava redesenhado, assim, o perfil da Igreja
brasileira. João Paulo II fez terra arrasada
de toda e qualquer tentativa de pensamento autônomo em relação
aos cânones de Roma. Em 1980, o então secretário de Estado
do Vaticano, Agostino Casaroli, enviou à CNBB uma carta com orientações
sobre seu funcionamento interno. O documento descia a detalhes inimagináveis.
Determinava, por exemplo, que os bispos com funções na CNBB deveriam
reunir-se sozinhos, sem nenhum tipo de assessoria. Essa ordem visava diminuir
a influência dos teólogos de esquerda, que costumavam participar
ativamente das decisões da entidade. O passo seguinte foi promover uma
caça aos bruxos da Teologia da Libertação. O principal deles
era Leonardo Boff. Ao publicar o livro Igreja: Carisma e Poder, no qual
pregava que era papel da instituição contribuir para a "libertação
dos oprimidos", e não limitar-se à condição de "espectadora
dos dramas sociais" nos países de Terceiro Mundo, Boff forneceu o pretexto
que o Vaticano tanto esperava para intervir sem misericórdia. Em 1985,
Boff foi condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé,
o organismo que sucedeu ao Tribunal da Inquisição, a permanecer
em "silêncio penitencial" por "desvios e erros" cometidos no livro. Ele
se viu impedido de falar em público, dar entrevistas e publicar artigos.
Ao ser informado de que seria silenciado outra vez em 1992, Boff abandonou a ordem
dos franciscanos e, posteriormente, a Igreja. "Da primeira vez aceitei a punição
como um ato de colaboração e humildade. Mas uma segunda pena seria
humilhante", diz ele, hoje um bem-sucedido autor de bisonhos livros de auto-ajuda.
Fernando Seixas  |
| Boff: condenado ao silêncio, o frei esquerdista deixou
o sacerdócio | As mudanças ocorridas
na Igreja do Brasil nesses 26 anos, evidentemente, não são fruto
apenas dos rígidos desígnios de Roma. A redemocratização
do país, aliada ao fim do "socialismo real" no Leste Europeu, ajudou a
enfraquecer o esquerdismo clerical. O sintoma mais evidente desse fenômeno
é o auto-esvaziamento experimentado pelas Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs), pontas-de-lança dos progressistas junto à população
carente. O número de CEBs espalhadas pelo território brasileiro
mantém-se o mesmo desde a década de 80, cerca de 70.000, mas hoje
sua expressão política é quase nula. É verdade que
são numerosos os padres que atuam junto ao MST, o movimento dos sem-terra
que luta pela reforma agrária a partir de uma cartilha criptocomunista.
Esse fato, porém, não desperta maiores preocupações
no Vaticano, que o controla a distância. Ainda que signifique uma impregnação
ideológica da doutrina católica, ele é considerado um dos
caminhos para a Igreja manter seu predomínio na área rural, onde
os evangélicos ainda estão longe de ter a força que exibem
nos grandes centros urbanos.
Wania Corredo/Ag. O Globo  |
| Padre Marcelo: estrela de uma nova liturgia, com pregações
contra o demônio e animada coreografia destinada a provocar catarse geral |
Para conforto espiritual do Vaticano, os jovens
sacerdotes brasileiros mostram-se inapetentes em relação às
teses de esquerda. Estão mais preocupados em seguir rigidamente os mandamentos
da hierarquia eclesiástica, inclusive como forma de ascender dentro da
instituição. A perda de espaço do clero esquerdista não
significa, evidentemente, que a Igreja brasileira tenha abolido de seu rol de
preocupações as injustiças sociais que grassam no país.
Volta e meia a CNBB critica a política econômica do governo e ataca
o "neoliberalismo". No entanto, descontada a puerilidade das formulações,
o tom é o mesmo dos derradeiros pronunciamentos políticos do papa
João Paulo II. Ou seja, piedoso, caritativo, ancorado na miragem de um
mundo organizado segundo as virtudes teologais. Acabou-se a época em que
os padres tentavam transformar Karl Marx no quinto evangelista. Como tônica
geral, os sermões ideologizados contra as desigualdades deram lugar a reflexões
de caráter eminentemente místico, e muitas das Comunidades Eclesiais
de Base hoje fazem parte do campo de influência do movimento de Renovação
Carismática, a face emergente do catolicismo brasileiro.
A Renovação Carismática da qual o padre Marcelo Rossi
é a estrela mais saltitante vem se mostrando a resposta mais eficiente
da Igreja para combater o avanço dos evangélicos e de outras religiões
no país. Com uma liturgia especialmente coreografada para provocar a catarse
pessoal dos fiéis, além de pregações contra o demônio
que lembram os rituais exorcistas dos evangélicos, as missas promovidas
pela Renovação atraíram de volta para o catolicismo parte
do rebanho que se havia desgarrado em busca de uma visão mais mística
e menos politizada da religião. O movimento congrega hoje cerca de 10 milhões
de pessoas, e a tendência é que esse número aumente. Com a
bênção do sucessor de João Paulo II, não importa
quem seja ele. |