Papa João Paulo II . 6 de abril de 2005

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Especial
Trinta voltas ao redor da Terra

Os números do pontificado de João Paulo II, que durou 26 anos e foi o terceiro mais longo da história, impressionam. Por ter feito nove visitas ao exterior em quinze anos, de 1963 a 1978, o antecessor Paulo VI ficou conhecido como "o papa peregrino". Pois bem, João Paulo II saiu 104 vezes da Itália, o que dá uma média de quatro viagens por ano. No total, ele permaneceu mais de 550 dias no exterior – não à toa, alguns cardeais o apelidaram de "Giovanni Paolo Fuori Le Mura", um trocadilho com o nome em italiano da Basílica de San Paolo Fuori Le Mura, localizada fora do perímetro delimitado pelas muralhas históricas de Roma. Só no Brasil esteve em três ocasiões: 1980, 1991 e 1997. No total, o papa polonês visitou 129 países e percorreu mais de 1,2 milhão de quilômetros, o suficiente para dar quase trinta voltas ao redor da Terra. Na qualidade de chefe de Estado do Vaticano (e nunca houve um papa tão empenhado em seu papel político), João Paulo II fez-se ouvir em todos os foros sobre problemas mundiais, recuperando uma projeção que havia sido perdida pelo papado.

Ao todo, foram 982 encontros com governantes. O papa tomou parte nos acontecimentos que levaram à queda do Muro de Berlim e atuou como árbitro em delicadas questões internacionais, como a disputa pelo Canal de Beagle entre Argentina e Chile. Em seu pontificado, o Vaticano estabeleceu relações diplomáticas formais com mais de sessenta países, entre os quais Estados Unidos, Rússia, Israel, Líbia e México, e abriu diálogo com o ditador Fidel Castro, de Cuba. João Paulo II foi interlocutor privilegiado de três presidentes americanos, Ronald Reagan, George Bush e Bill Clinton, e do último líder da ex-União Soviética, Mikhail Gorbachev. Nenhum deles católico, enfatize-se.

A essa atividade febril, some-se a fecundidade no plano intelectual. Uma das funções de um pontífice é, com a ajuda dos cardeais mais próximos, elaborar documentos que, com base na sua própria reflexão sobre a doutrina católica e a realidade circunstante, norteiam o trabalho pastoral da Igreja ou ajustam o funcionamento do aparato burocrático da instituição, a Cúria Romana. São as encíclicas e as constituições, exortações e cartas apostólicas. Redigidas originalmente em latim, assim como todos os outros documentos do Vaticano, as encíclicas são os escritos papais que exigem mais fôlego, por serem ensaios extensos sobre um tema profundo. Exigem, assim, não só erudição como um longo período de meditação. Fides et Ratio, por exemplo, tem nada menos do que nove capítulos, incluindo a introdução e a conclusão. Pois bem, em 26 anos de pontificado, o papa Wojtyla publicou catorze encíclicas, afora onze constituições apostólicas, quinze exortações e 45 cartas apostólicas. Para se ter uma idéia do que isso representa em termos de produção, Paulo VI, um homem de refinada formação filosófica, publicou sete encíclicas, treze constituições, nove exortações e dezesseis cartas.

Também jamais houve um papa tão preocupado em povoar a coorte celeste: foram 482 canonizações e 1.338 beatificações, marcas recordes desde que o Vaticano começou a computar esses números, em 1588. Até João Paulo II, o papa com a maior quantidade de canonizações era Paulo VI, que fez 86 santos. Já o recordista em beatificações era Pio XI (1922-1939), com 380. A fúria santificadora do polonês, que curiosamente não rendeu nenhum santo brasileiro nato (madre Paulina, canonizada em 2002, era italiana de nascimento), tinha dois objetivos estratégicos. O primeiro: mostrar, por intermédio dos novos santos e beatos, muitos dos quais do século XX, que é possível obedecer aos rígidos ditames morais da Igreja numa época liberal em matéria de valores e costumes. O segundo: reforçar o caráter místico do catolicismo, uma religião que se tornara secular em demasia após os ventos modernizadores do Concílio Vaticano II. Ventos que, para continuar na metáfora utilizada por João XXIII, que abriu o concílio em 1962, "deveriam varrer a poeira que recobria o Trono de Pedro". Um pouco de poeira, na visão de João Paulo II, não fazia assim tão mal.

 
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