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Especial Trinta voltas
ao redor da Terra Os números do pontificado
de João Paulo II, que durou 26 anos e foi o terceiro mais longo da história,
impressionam. Por ter feito nove visitas ao exterior em quinze anos, de 1963 a
1978, o antecessor Paulo VI ficou conhecido como "o papa peregrino". Pois bem,
João Paulo II saiu 104 vezes da Itália, o que dá uma média
de quatro viagens por ano. No total, ele permaneceu mais de 550 dias no exterior
não à toa, alguns cardeais o apelidaram de "Giovanni Paolo
Fuori Le Mura", um trocadilho com o nome em italiano da Basílica de San
Paolo Fuori Le Mura, localizada fora do perímetro delimitado pelas muralhas
históricas de Roma. Só no Brasil esteve em três ocasiões:
1980, 1991 e 1997. No total, o papa polonês visitou 129 países e
percorreu mais de 1,2 milhão de quilômetros, o suficiente para dar
quase trinta voltas ao redor da Terra. Na qualidade de chefe de Estado do Vaticano
(e nunca houve um papa tão empenhado em seu papel político), João
Paulo II fez-se ouvir em todos os foros sobre problemas mundiais, recuperando
uma projeção que havia sido perdida pelo papado. Ao
todo, foram 982 encontros com governantes. O papa tomou parte nos acontecimentos
que levaram à queda do Muro de Berlim e atuou como árbitro em delicadas
questões internacionais, como a disputa pelo Canal de Beagle entre Argentina
e Chile. Em seu pontificado, o Vaticano estabeleceu relações diplomáticas
formais com mais de sessenta países, entre os quais Estados Unidos, Rússia,
Israel, Líbia e México, e abriu diálogo com o ditador Fidel
Castro, de Cuba. João Paulo II foi interlocutor privilegiado de três
presidentes americanos, Ronald Reagan, George Bush e Bill Clinton, e do último
líder da ex-União Soviética, Mikhail Gorbachev. Nenhum deles
católico, enfatize-se. A essa
atividade febril, some-se a fecundidade no plano intelectual. Uma das funções
de um pontífice é, com a ajuda dos cardeais mais próximos,
elaborar documentos que, com base na sua própria reflexão sobre
a doutrina católica e a realidade circunstante, norteiam o trabalho pastoral
da Igreja ou ajustam o funcionamento do aparato burocrático da instituição,
a Cúria Romana. São as encíclicas e as constituições,
exortações e cartas apostólicas. Redigidas originalmente
em latim, assim como todos os outros documentos do Vaticano, as encíclicas
são os escritos papais que exigem mais fôlego, por serem ensaios
extensos sobre um tema profundo. Exigem, assim, não só erudição
como um longo período de meditação. Fides et Ratio,
por exemplo, tem nada menos do que nove capítulos, incluindo a introdução
e a conclusão. Pois bem, em 26 anos de pontificado, o papa Wojtyla publicou
catorze encíclicas, afora onze constituições apostólicas,
quinze exortações e 45 cartas apostólicas. Para se ter uma
idéia do que isso representa em termos de produção, Paulo
VI, um homem de refinada formação filosófica, publicou sete
encíclicas, treze constituições, nove exortações
e dezesseis cartas. Também
jamais houve um papa tão preocupado em povoar a coorte celeste: foram 482
canonizações e 1.338 beatificações, marcas recordes
desde que o Vaticano começou a computar esses números, em 1588.
Até João Paulo II, o papa com a maior quantidade de canonizações
era Paulo VI, que fez 86 santos. Já o recordista em beatificações
era Pio XI (1922-1939), com 380. A fúria santificadora do polonês,
que curiosamente não rendeu nenhum santo brasileiro nato (madre Paulina,
canonizada em 2002, era italiana de nascimento), tinha dois objetivos estratégicos.
O primeiro: mostrar, por intermédio dos novos santos e beatos, muitos dos
quais do século XX, que é possível obedecer aos rígidos
ditames morais da Igreja numa época liberal em matéria de valores
e costumes. O segundo: reforçar o caráter místico do catolicismo,
uma religião que se tornara secular em demasia após os ventos modernizadores
do Concílio Vaticano II. Ventos que, para continuar na metáfora
utilizada por João XXIII, que abriu o concílio em 1962, "deveriam
varrer a poeira que recobria o Trono de Pedro". Um pouco de poeira, na visão
de João Paulo II, não fazia assim tão mal. |