Papa João Paulo II . 6 de abril de 2005

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Especial
O papa da certeza

 
AFP
No curso da mais dura batalha que travou com a ONU, em 1994, João Paulo II escreveu uma "carta às famílias do mundo inteiro", em que enfatizava a posição da Igreja no campo do comportamento sexual: não ao aborto, não ao amor livre, não a uniões homossexuais. À diretora executiva da ONU, afirmou, dedo em riste: "Uma família é um marido, uma mulher e suas crianças. E o casamento é a única base de uma família. Os homossexuais e as lésbicas não são famílias"

O Concílio Vaticano II, que se estendeu de outubro de 1962 a dezembro de 1965, é ponto de partida obrigatório para entender os caminhos que levaram a que João Paulo II impusesse de maneira tão férrea a sua visão moral e religiosa. A assembléia convocada por João XXIII deu margem a um debate sem precedentes no interior da Igreja, tendo como norte o diálogo com o homem moderno e as outras religiões. Ao final, o Vaticano II desfraldou a bandeira do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, inovou as práticas litúrgicas, com a abolição do latim nas missas, entre outras providências, e preparou o terreno para que os episcopados nacionais ganhassem autonomia decisória.

O concílio que prometia o paraíso aos católicos foi infernal do ponto de vista ideológico e colocou no purgatório a figura de Paulo VI, encarregado de levar adiante o trabalho iniciado sob os auspícios de João XXIII. A crônica do catolicismo eternizou Paulo VI como o "papa da dúvida". Apesar de suas intervenções para reafirmar a autoridade pontifícia em meio ao tiroteio entre progressistas e conservadores – as duas alas que polarizaram o Vaticano II –, ele passaria a seus contemporâneos a imagem de um líder fraco, sem opiniões firmes, ou pelo menos com receio de expô-las.  

Paulo VI, que se ordenou padre usando uma túnica feita com o vestido de noiva de sua mãe, era um homem perplexo e extremamente preocupado com as divisões que ameaçavam corroer a Igreja tanto por dentro quanto por fora. Ele não escondia sua angústia com o que ocorria nas décadas de 60 e 70, marcadas pelos conflitos decorrentes da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética e por transformações radicais no campo dos costumes. Como sintetiza a respeito desse período Giancarlo Zizola, um dos mais respeitados vaticanistas italianos, "ao concílio se seguiu uma mudança fantástica no mundo, uma espécie de explosão cultural, rápida e generalizada. Esta se traduziu na diminuição das vocações sacerdotais e religiosas, numa onda de padres que abandonaram o ministério, na troca da teologia pelas ciências humanas, na descoberta de novas relações entre fé e política. Em relação à instituição Igreja, serpenteava na base católica uma profunda desafeição, que em alguns casos assumiu a forma de uma contestação radical".

O receio de que as escaramuças entre progressistas e conservadores resultassem num cisma fez com que Paulo VI imprimisse aos documentos do Vaticano II fórmulas um tanto ambíguas, que podem ser interpretadas de várias maneiras. Isso também explica o fato de, passados quase quarenta anos, o espírito do concílio ainda ser objeto de disputa entre as duas alas. Tanto progressistas como conservadores julgam-se os verdadeiros portadores das idéias semeadas por João XXIII. Ao tentar agradar a ambos os lados, Paulo VI desagradou a todos – e seu pontificado caiu numa espécie de limbo. Foi nesse contexto de crise geral que surgiu a resplandecente figura de João Paulo II. O "papa da dúvida" foi sucedido pelo "papa da certeza", deixando-se de lado o brevíssimo pontificado de João Paulo I, um interstício desimportante que sugeriu mirabolantes teorias conspiratórias, segundo as quais o simpático e fugaz chefe da Igreja teria sido morto por cardeais maquiavélicos.  

Como "papa da certeza", João Paulo II não fez concessões que buscassem adaptar de algum modo o catolicismo ao mundo moderno. Rigoroso como a maior parte do clero polonês, ele acentuou seu fervor dogmático e lançou-se com fôlego redobrado em sua cruzada contra o aborto, a contracepção artificial, a dissolução do casamento, o consumismo. Os vaticanistas são unânimes em afirmar que o marco inicial da segunda fase do seu pontificado, em que os temas morais adquiriram mais importância do que os ideológicos, é a encíclica Veritatis Splendor ("O Esplendor da Verdade"), publicada em 1993, cuja confecção demorou seis anos e contou com a participação de uma centena de prelados e teólogos. Considerada o documento mais denso de João Paulo II, a encíclica é uma resposta ao que o papa acreditava ser a crise moral do Ocidente. O pressuposto de Veritatis Splendor está sintetizado no seguinte parágrafo: "Formou-se uma nova situação dentro da própria comunidade cristã, que experimentou a difusão de múltiplas dúvidas e objeções de ordem humana e psicológica, social e cultural, religiosa e até mesmo teológica, a propósito dos ensinamentos morais da Igreja. Não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do patrimônio moral, baseada sobre determinadas concepções antropológicas e éticas. Na sua raiz, está a influência, mais ou menos velada, de correntes de pensamento que acabam por desarraigar a liberdade humana da sua relação essencial e constitutiva com a verdade".  

Há estudiosos que acreditam que a pregação de João Paulo II em favor de valores imunes ao relativismo e à história representa um empobrecimento do ponto de vista teológico. Quase um retrocesso ao período anterior a João XXIII. O fato concreto, no entanto, é que essa intransigência lhe permitiu mudar o foco de sua atuação no cenário mundial. O argumento moral serviu, entre outras coisas, para que o papa vitorioso no embate contra o comunismo se transformasse em crítico incansável dos rumos do sistema capitalista. Em 1993, numa visita à Universidade de Riga, na Letônia, ele surpreendeu o público presente ao afirmar que "depois da falência histórica do comunismo, eu mesmo não hesitei em levantar sérias dúvidas sobre a validade do capitalismo. As sementes de verdade presentes no programa socialista não devem ser destruídas, não devem ser perdidas". Que sementes eram essas? "A luta contra o desemprego, o auxílio aos pobres", explicou. A indignação com a disparidade econômica Norte-Sul passaria a dar o tom das suas declarações políticas.

No campo do comportamento, uma das batalhas mais árduas de João Paulo II se deu em 1994, na Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, Egito. Dez anos antes, num evento similar organizado na Cidade do México, a Igreja contara com o apoio de Ronald Reagan para impedir que a ONU se engajasse decisivamente em projetos de contracepção artificial nos países subdesenvolvidos. Mas o contexto mudara muito desde então. O papa fora avisado pela Secretaria de Estado do Vaticano de que era certo que a conferência aprovaria não só um programa de distribuição de pílulas e camisinhas no Terceiro Mundo, como também recomendaria a legalização do aborto onde a prática não era permitida. "O papa considerava isso intolerável. Ele desconfiava que os Estados Unidos e um lobby feminista americano queriam impor estilos de vida sexual do Ocidente aos países em desenvolvimento. Numa carta às famílias do mundo inteiro, escrita algumas semanas antes, ele tinha definido as linhas de batalha: de um lado, a civilização da vida e do amor, defendida pela Igreja, e, do outro, uma anticivilização destrutiva, permeada de utilitarismo, com uma educação sexual irresponsável, aborto por encomenda, propaganda em favor do amor livre e uniões homossexuais, seguindo uma tendência que era perigosa para o futuro da família e da sociedade", sintetizam Carl Bernstein e Marco Politi, no livro Sua Santidade – João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo.  

Furioso com a situação desfavorável, João Paulo II deu uma pequena pausa na elaboração da encíclica Evangelium Vitae, em que tratava justamente desses temas, para receber a visita da paquistanesa Nafis Sadik, diretora executiva das Nações Unidas para População e Desenvolvimento. Foi um encontro tenso, que ilustra quão duro podia ser Wojtyla com quem ousava contrariar suas posições. O diálogo está registrado no livro de Bernstein e Politi:

– A senhora sabe que este é o Ano da Família. Mas a mim parece ser o Ano da Desintegração da Família – foi logo dizendo o papa.

– Há diversos tipos de família no mundo – respondeu Nafis Sadik, pega de surpresa.

– Como a senhora pensa que as populações do mundo cresceram? Foi graças à família. Uma família é um marido, uma mulher e suas crianças. E o casamento é a única base de uma família. Os homossexuais e as lésbicas não são famílias – disparou João Paulo II, de dedo em riste.

No decorrer da conversa, o papa foi ficando cada vez mais zangado.

– Cerca de 200.000 mulheres morrem a cada ano no mundo, vítimas de abortos provocados por elas próprias. E seus parceiros não se sentem responsáveis por isso – afirmou Nafis.

– A senhora não acha que o comportamento irresponsável dos homens é causado pelas mulheres? – fuzilou o papa, praticamente encerrando a audiência.  

Aberta a conferência no Cairo, o Vaticano usou de todos os expedientes para angariar apoio em sua cruzada. Entre outras manobras, adiou votações com o objetivo de ganhar tempo e tentou fazer uma aliança com países islâmicos fundamentalistas. Nada funcionou. Os enviados de João Paulo II saíram derrotados, embora tivessem conseguido que a ONU reafirmasse, no documento final do evento, que o aborto não era um método contraceptivo aceitável. Na prática, porém, as Nações Unidas reconheceram a legitimidade do procedimento em inúmeros casos e recomendaram aos países em que ele é legalizado que o tornassem seguro.

Essa não foi a única ocasião em que João Paulo II deixou as feministas irritadas. Ele refutou com veemência a idéia de que fosse permitido às mulheres seguir uma carreira eclesiástica igual à dos padres, da mesma forma que acontece na Igreja Anglicana. Seu argumento teológico: o fato de os apóstolos de Jesus serem todos homens demonstra que elas não podem ter vocação sacerdotal. Ao mesmo tempo, João Paulo II foi o primeiro papa a abordar especificamente a questão feminina num documento (a carta apostólica Mulieris Dignitatem, de 1988). Além disso, muitos de seus pronunciamentos enfocaram a exploração profissional e sexual a que inúmeras mulheres são submetidas. Numa epístola de 1995, ele chegou a fazer uma espécie de mea-culpa. "Não poucos integrantes da Igreja impediram o progresso das mulheres no passado", escreveu.

O reacionarismo moral de João Paulo II, para usar uma expressão dos seus opositores, está bem sumariado no Lexicon, um dicionário de 900 páginas e 78 verbetes que chegou às livrarias italianas em abril de 2003. Organizado pelo Conselho Pontifício para a Família, um dos braços da Cúria Romana, o livro mostra o que a Igreja de João Paulo II pensa sobre aborto, contracepção, divórcio, homossexualidade e sexo seguro. O capítulo mais assombroso é o que fala a respeito dos homossexuais. Diz que a homossexualidade é um "conflito psíquico não resolvido que a sociedade não pode institucionalizar" (ou seja, uma doença) e que o termo "homofobia" é "uma palavra criada por associações homossexuais para estigmatizar todos aqueles que se perguntam sobre o assunto e não aceitam a banalização e a 'normalização' da homossexualidade". Por essas e outras – como a recomendação da abstinência sexual como a única forma de prevenção contra a Aids –, o Lexicon foi recebido como um monumento à intolerância.  

O dado irônico é que, sob João Paulo II, a Igreja Católica teve de enfrentar o maior escândalo moral de sua história: a denúncia de que a pedofilia era uma prática corrente – e constantemente abafada pelo Vaticano – entre padres dos Estados Unidos. Depois que o assunto virou manchete, começaram a surgir histórias de abusos de crianças por parte de sacerdotes em países da Europa e até mesmo no Brasil. O problema tornou-se tão grave que João Paulo II viu-se obrigado a convocar uma reunião de emergência com todos os cardeais americanos, em abril de 2002, para discutir a melhor forma de enfrentá-lo. Inclusive porque a Igreja já havia torrado até então 350 milhões de dólares em indenizações às vítimas, valor que pode chegar a 1 bilhão de dólares quando se acertarem todas as pendengas. Padres foram entregues à Justiça, João Paulo II pediu perdão. Pecados mortais podem ser absolvidos à sombra dos confessionários. Mas essa mácula permanecerá na alma das vítimas e na memória de todos os que tiveram notícia desse comportamento aberrante por parte de sacerdotes e bispos criminosos.

 
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