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| Especial O
papa da certeza AFP
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curso da mais dura batalha que travou com a ONU, em 1994, João Paulo II escreveu
uma "carta às famílias do mundo inteiro", em que enfatizava a posição da Igreja
no campo do comportamento sexual: não ao aborto, não ao amor livre, não a uniões
homossexuais. À diretora executiva da ONU, afirmou, dedo em riste: "Uma família
é um marido, uma mulher e suas crianças. E o casamento é a única base de uma família.
Os homossexuais e as lésbicas não são famílias" |
O Concílio Vaticano II, que se estendeu de outubro de 1962 a dezembro de
1965, é ponto de partida obrigatório para entender os caminhos que
levaram a que João Paulo II impusesse de maneira tão férrea
a sua visão moral e religiosa. A assembléia convocada por João
XXIII deu margem a um debate sem precedentes no interior da Igreja, tendo como
norte o diálogo com o homem moderno e as outras religiões. Ao final,
o Vaticano II desfraldou a bandeira do ecumenismo e do diálogo inter-religioso,
inovou as práticas litúrgicas, com a abolição do latim
nas missas, entre outras providências, e preparou o terreno para que os
episcopados nacionais ganhassem autonomia decisória.
O concílio que prometia o paraíso aos católicos foi infernal
do ponto de vista ideológico e colocou no purgatório a figura de
Paulo VI, encarregado de levar adiante o trabalho iniciado sob os auspícios
de João XXIII. A crônica do catolicismo eternizou Paulo VI como o
"papa da dúvida". Apesar de suas intervenções para reafirmar
a autoridade pontifícia em meio ao tiroteio entre progressistas e conservadores
as duas alas que polarizaram o Vaticano II , ele passaria a seus
contemporâneos a imagem de um líder fraco, sem opiniões firmes,
ou pelo menos com receio de expô-las.
Paulo VI, que se ordenou padre usando uma túnica feita com o vestido de
noiva de sua mãe, era um homem perplexo e extremamente preocupado com as
divisões que ameaçavam corroer a Igreja tanto por dentro quanto
por fora. Ele não escondia sua angústia com o que ocorria nas décadas
de 60 e 70, marcadas pelos conflitos decorrentes da Guerra Fria entre Estados
Unidos e União Soviética e por transformações radicais
no campo dos costumes. Como sintetiza a respeito desse período Giancarlo
Zizola, um dos mais respeitados vaticanistas italianos, "ao concílio se
seguiu uma mudança fantástica no mundo, uma espécie de explosão
cultural, rápida e generalizada. Esta se traduziu na diminuição
das vocações sacerdotais e religiosas, numa onda de padres que abandonaram
o ministério, na troca da teologia pelas ciências humanas, na descoberta
de novas relações entre fé e política. Em relação
à instituição Igreja, serpenteava na base católica
uma profunda desafeição, que em alguns casos assumiu a forma de
uma contestação radical". O receio
de que as escaramuças entre progressistas e conservadores resultassem num
cisma fez com que Paulo VI imprimisse aos documentos do Vaticano II fórmulas
um tanto ambíguas, que podem ser interpretadas de várias maneiras.
Isso também explica o fato de, passados quase quarenta anos, o espírito
do concílio ainda ser objeto de disputa entre as duas alas. Tanto progressistas
como conservadores julgam-se os verdadeiros portadores das idéias semeadas
por João XXIII. Ao tentar agradar a ambos os lados, Paulo VI desagradou
a todos e seu pontificado caiu numa espécie de limbo. Foi nesse
contexto de crise geral que surgiu a resplandecente figura de João Paulo
II. O "papa da dúvida" foi sucedido pelo "papa da certeza", deixando-se
de lado o brevíssimo pontificado de João Paulo I, um interstício
desimportante que sugeriu mirabolantes teorias conspiratórias, segundo
as quais o simpático e fugaz chefe da Igreja teria sido morto por cardeais
maquiavélicos. Como "papa da certeza",
João Paulo II não fez concessões que buscassem adaptar de
algum modo o catolicismo ao mundo moderno. Rigoroso como a maior parte do clero
polonês, ele acentuou seu fervor dogmático e lançou-se com
fôlego redobrado em sua cruzada contra o aborto, a contracepção
artificial, a dissolução do casamento, o consumismo. Os vaticanistas
são unânimes em afirmar que o marco inicial da segunda fase do seu
pontificado, em que os temas morais adquiriram mais importância do que os
ideológicos, é a encíclica Veritatis Splendor ("O
Esplendor da Verdade"), publicada em 1993, cuja confecção demorou
seis anos e contou com a participação de uma centena de prelados
e teólogos. Considerada o documento mais denso de João Paulo II,
a encíclica é uma resposta ao que o papa acreditava ser a crise
moral do Ocidente. O pressuposto de Veritatis Splendor está sintetizado
no seguinte parágrafo: "Formou-se uma nova situação dentro
da própria comunidade cristã, que experimentou a difusão
de múltiplas dúvidas e objeções de ordem humana e
psicológica, social e cultural, religiosa e até mesmo teológica,
a propósito dos ensinamentos morais da Igreja. Não se trata já
de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão
global e sistemática do patrimônio moral, baseada sobre determinadas
concepções antropológicas e éticas. Na sua raiz, está
a influência, mais ou menos velada, de correntes de pensamento que acabam
por desarraigar a liberdade humana da sua relação essencial e constitutiva
com a verdade". Há estudiosos que
acreditam que a pregação de João Paulo II em favor de valores
imunes ao relativismo e à história representa um empobrecimento
do ponto de vista teológico. Quase um retrocesso ao período anterior
a João XXIII. O fato concreto, no entanto, é que essa intransigência
lhe permitiu mudar o foco de sua atuação no cenário mundial.
O argumento moral serviu, entre outras coisas, para que o papa vitorioso no embate
contra o comunismo se transformasse em crítico incansável dos rumos
do sistema capitalista. Em 1993, numa visita à Universidade de Riga, na
Letônia, ele surpreendeu o público presente ao afirmar que "depois
da falência histórica do comunismo, eu mesmo não hesitei em
levantar sérias dúvidas sobre a validade do capitalismo. As sementes
de verdade presentes no programa socialista não devem ser destruídas,
não devem ser perdidas". Que sementes eram essas? "A luta contra o desemprego,
o auxílio aos pobres", explicou. A indignação com a disparidade
econômica Norte-Sul passaria a dar o tom das suas declarações
políticas. No campo do comportamento, uma
das batalhas mais árduas de João Paulo II se deu em 1994, na Conferência
das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento,
realizada no Cairo, Egito. Dez anos antes, num evento similar organizado na Cidade
do México, a Igreja contara com o apoio de Ronald Reagan para impedir que
a ONU se engajasse decisivamente em projetos de contracepção artificial
nos países subdesenvolvidos. Mas o contexto mudara muito desde então.
O papa fora avisado pela Secretaria de Estado do Vaticano de que era certo que
a conferência aprovaria não só um programa de distribuição
de pílulas e camisinhas no Terceiro Mundo, como também recomendaria
a legalização do aborto onde a prática não era permitida.
"O papa considerava isso intolerável. Ele desconfiava que os Estados Unidos
e um lobby feminista americano queriam impor estilos de vida sexual do Ocidente
aos países em desenvolvimento. Numa carta às famílias do
mundo inteiro, escrita algumas semanas antes, ele tinha definido as linhas de
batalha: de um lado, a civilização da vida e do amor, defendida
pela Igreja, e, do outro, uma anticivilização destrutiva, permeada
de utilitarismo, com uma educação sexual irresponsável, aborto
por encomenda, propaganda em favor do amor livre e uniões homossexuais,
seguindo uma tendência que era perigosa para o futuro da família
e da sociedade", sintetizam Carl Bernstein e Marco Politi, no livro Sua
Santidade João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo.
Furioso com a situação desfavorável,
João Paulo II deu uma pequena pausa na elaboração da encíclica
Evangelium Vitae, em que tratava justamente desses temas, para receber
a visita da paquistanesa Nafis Sadik, diretora executiva das Nações
Unidas para População e Desenvolvimento. Foi um encontro tenso,
que ilustra quão duro podia ser Wojtyla com quem ousava contrariar suas
posições. O diálogo está registrado no livro de Bernstein
e Politi: A senhora sabe que este é
o Ano da Família. Mas a mim parece ser o Ano da Desintegração
da Família foi logo dizendo o papa.
Há diversos tipos de família no mundo respondeu Nafis Sadik,
pega de surpresa. Como a senhora pensa que
as populações do mundo cresceram? Foi graças à família.
Uma família é um marido, uma mulher e suas crianças. E o
casamento é a única base de uma família. Os homossexuais
e as lésbicas não são famílias disparou João
Paulo II, de dedo em riste. No decorrer da conversa,
o papa foi ficando cada vez mais zangado.
Cerca de 200.000 mulheres morrem a cada ano no mundo, vítimas de abortos
provocados por elas próprias. E seus parceiros não se sentem responsáveis
por isso afirmou Nafis. A senhora
não acha que o comportamento irresponsável dos homens é causado
pelas mulheres? fuzilou o papa, praticamente encerrando a audiência.
Aberta a conferência no Cairo, o Vaticano
usou de todos os expedientes para angariar apoio em sua cruzada. Entre outras
manobras, adiou votações com o objetivo de ganhar tempo e tentou
fazer uma aliança com países islâmicos fundamentalistas. Nada
funcionou. Os enviados de João Paulo II saíram derrotados, embora
tivessem conseguido que a ONU reafirmasse, no documento final do evento, que o
aborto não era um método contraceptivo aceitável. Na prática,
porém, as Nações Unidas reconheceram a legitimidade do procedimento
em inúmeros casos e recomendaram aos países em que ele é
legalizado que o tornassem seguro. Essa não
foi a única ocasião em que João Paulo II deixou as feministas
irritadas. Ele refutou com veemência a idéia de que fosse permitido
às mulheres seguir uma carreira eclesiástica igual à dos
padres, da mesma forma que acontece na Igreja Anglicana. Seu argumento teológico:
o fato de os apóstolos de Jesus serem todos homens demonstra que elas não
podem ter vocação sacerdotal. Ao mesmo tempo, João Paulo
II foi o primeiro papa a abordar especificamente a questão feminina num
documento (a carta apostólica Mulieris Dignitatem, de 1988). Além
disso, muitos de seus pronunciamentos enfocaram a exploração profissional
e sexual a que inúmeras mulheres são submetidas. Numa epístola
de 1995, ele chegou a fazer uma espécie de mea-culpa. "Não poucos
integrantes da Igreja impediram o progresso das mulheres no passado", escreveu.
O reacionarismo moral de João Paulo II,
para usar uma expressão dos seus opositores, está bem sumariado
no Lexicon, um dicionário de 900 páginas e 78 verbetes que
chegou às livrarias italianas em abril de 2003. Organizado pelo Conselho
Pontifício para a Família, um dos braços da Cúria
Romana, o livro mostra o que a Igreja de João Paulo II pensa sobre aborto,
contracepção, divórcio, homossexualidade e sexo seguro. O
capítulo mais assombroso é o que fala a respeito dos homossexuais.
Diz que a homossexualidade é um "conflito psíquico não resolvido
que a sociedade não pode institucionalizar" (ou seja, uma doença)
e que o termo "homofobia" é "uma palavra criada por associações
homossexuais para estigmatizar todos aqueles que se perguntam sobre o assunto
e não aceitam a banalização e a 'normalização'
da homossexualidade". Por essas e outras como a recomendação
da abstinência sexual como a única forma de prevenção
contra a Aids , o Lexicon foi recebido como um monumento à
intolerância. O dado irônico
é que, sob João Paulo II, a Igreja Católica teve de enfrentar
o maior escândalo moral de sua história: a denúncia de que
a pedofilia era uma prática corrente e constantemente abafada pelo
Vaticano entre padres dos Estados Unidos. Depois que o assunto virou manchete,
começaram a surgir histórias de abusos de crianças por parte
de sacerdotes em países da Europa e até mesmo no Brasil. O problema
tornou-se tão grave que João Paulo II viu-se obrigado a convocar
uma reunião de emergência com todos os cardeais americanos, em abril
de 2002, para discutir a melhor forma de enfrentá-lo. Inclusive porque
a Igreja já havia torrado até então 350 milhões de
dólares em indenizações às vítimas, valor que
pode chegar a 1 bilhão de dólares quando se acertarem todas as pendengas.
Padres foram entregues à Justiça, João Paulo II pediu perdão.
Pecados mortais podem ser absolvidos à sombra dos confessionários.
Mas essa mácula permanecerá na alma das vítimas e na memória
de todos os que tiveram notícia desse comportamento aberrante por parte
de sacerdotes e bispos criminosos. |