Papa João Paulo II . 6 de abril de 2005

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Especial
Pastor e político


AFP
Com Fidel Castro: poder de atrair multidões e desafiar governos ditatoriais


Desde os primórdios da Igreja, o papa é chefe espiritual e político. Ao aceitar a idéia de desvincular o cristianismo de certas práticas e costumes judaicos, São Pedro, o primeiro papa, tomou uma decisão eminentemente política. Essa providência permitiu que a nova religião se propagasse mais facilmente pelo Mundo Antigo. Depois que o primado de Roma foi estabelecido no século IV, e o catolicismo ganhou um centro de poder, os papas tiveram esse papel temporal realçado. Assim como reis e príncipes, os papas passaram a fazer alianças estratégicas e a contar com territórios e soldados – dos quais o Estado do Vaticano e a Guarda Suíça, respectivamente, constituem uma remota e quase alegórica lembrança. Todos os papas têm de ser políticos, mas uns o são mais do que os outros. João Paulo II foi muito político. Mais: ele foi eleito justamente para sê-lo.

O cardeal Karol Wojtyla, então arcebispo de Cracóvia, na Polônia, viu-se eleito papa em 16 de outubro de 1978, aos 58 anos, num conclave que, embora breve, foi cheio de peripécias. O cardeal austríaco Franz König, na época arcebispo de Viena, aproveitou-se da divisão entre os italianos para lançar a insólita candidatura do polonês. A respaldá-lo havia os influentes cardeais alemães e americanos – que, provenientes de arquidioceses riquíssimas, garantem ao Vaticano polpudas contribuições financeiras. A dissensão entre os cardeais da Itália teve um papel importante nesse processo, mas já fazia algum tempo que a idéia de um papa não-italiano vicejava nos bastidores da cúpula católica. Essa tendência provinha do desejo de parte da cúpula da Igreja de "internacionalizá-la" para concretizar uma resolução do Concílio Vaticano II. A partir do século XVI, a Igreja adquirira uma arquitetura forte demais. Muitos achavam que esse endurecimento da instituição limitava seu crescimento. A grave situação política da Itália na década de 70, marcada por atos terroristas de esquerda e de direita e pelo fisiologismo do Partido Democrata Cristão, também recomendava que se procurasse um nome fora do clero daquele país.  

Certos requisitos foram determinantes para que o austríaco König e seus aliados no conclave chegassem ao nome de Karol Wojtyla: a juventude, a personalidade forte, o fato de falar seis línguas modernas fluentemente, uma das quais o italiano (afinal de contas, o papa é também bispo de Roma), e, por último, e mais importante, a sua experiência no embate direto com os que eram então os maiores inimigos da religião católica, os comunistas. A Polônia, não custa lembrar, era dirigida na ocasião por um governo títere da ex-União Soviética. Ser cidadão de um país que estava na periferia da Europa afluente e hedonista conferia a Wojtyla uma qualidade suplementar. Não era pequeno o número de cardeais convictos de que, como resumiu o jornalista Tad Szulc, autor de uma alentada biografia de João Paulo II, "havia chegado o momento em que a Igreja só podia ser salva pelo Leste Europeu, já que a civilização ocidental mostrava sinais inequívocos de decadência".

Por diversos aspectos, raciocinavam seus proponentes, Wojtyla representaria um ponto de inflexão na história do catolicismo. Seria o primeiro pontífice não-italiano desde a eleição do holandês Adriano VI, que reinou de agosto de 1522 a setembro de 1523, e o primeiro eslavo a ocupar o Trono de Pedro. Em relação aos papas precedentes, ele exibia ainda outras peculiaridades: trabalhara como operário, havia se ordenado padre tardiamente, aos 26 anos, e no início de sua formação religiosa tivera de burlar a estreita vigilância dos invasores nazistas para estudar teologia. Existia também um forte componente simbólico no fato de ter enfrentado diretamente um regime hostil à doutrina católica, depois do fim da II Guerra. Aos olhos dos simpatizantes da candidatura do polonês, esse dado o aproximava dos primeiros papas, de São Pedro a São Melquíades, que num arco de 300 anos desafiaram o Império Romano para divulgar os preceitos cristãos, então tidos como subversivos.  

Quando o nome de Karol Wojtyla foi proferido em latim à multidão que aguardava o anúncio do novo papa, muitos pensaram tratar-se de um africano. "Carolum Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Wojtyla", gritou o cardeal camerlengo. Demorou algum tempo para que a informação de que o eleito era polonês chegasse a todos os presentes na Praça de São Pedro. Ao ser entronizado, João Paulo II fez questão de demonstrar que ali estava um papa disposto a estender sua autoridade espiritual ao plano secular. "Não temam! Abram as portas para Cristo! Abram as fronteiras de Estados, de sistemas políticos e econômicos, dos amplos domínios da cultura e da civilização!", discursou. Em seguida, conta o jornalista Tad Szulc na biografia do papa, Wojtyla mandou que o seu barrete cardinalício fosse mandado para a cidade de Vilnius, na então república soviética da Lituânia, para ser colocado no altar da Virgem Polonesa de Ostra Brama. A fim de evitar que os comunistas criassem empecilhos, o barrete foi enviado secretamente ao destino. Por meio desse gesto carregado de simbolismo, Wojtyla mostrou logo de início sua disposição de usar a cruz para derrubar a foice e o martelo.

A eleição de um cardeal polonês no Vaticano teve, evidentemente, o efeito de uma bomba no interior da Cortina de Ferro, o grupo de países comunistas do Leste Europeu que orbitavam em torno da então União Soviética. O governo da Polônia, em especial, receava que o fato extraordinário pudesse, por si só, fortalecer a oposição interna, desencadeando uma reação violenta da parte dos russos. O quadro ficaria ainda mais complicado quando Wojtyla comunicou, pouco depois de se tornar papa, sua decisão de visitar o país natal. Para os comunistas, proibir a visita de João Paulo II era uma temeridade: com fronteiras historicamente problemáticas, espremida entre a Alemanha de maioria protestante e a Rússia ortodoxa, a Polônia sempre teve no catolicismo um elemento fortíssimo de identidade nacional e de resistência aos invasores estrangeiros. Esse traço só ganhou força com a perseguição ao clero e as restrições à prática religiosa promovidas pelos títeres ateístas da União Soviética após a II Guerra. Desse modo, o veto à entrada do papa em seu próprio país seria o mesmo que acender o estopim de uma guerra civil. Por outro lado, a pressão dos russos para que a visita não acontecesse adquiria cada vez mais um aspecto de ultimato.  

O auge da tensão deu-se no início de 1979, numa conversa por telefone entre o líder soviético Leonid Brejnev e o primeiro-secretário do Partido Comunista da Polônia, Edward Gierek. "Você não deve receber o papa, porque isso causará grandes problemas. Sugira a João Paulo II, que é um homem sensato, que anuncie publicamente o cancelamento da viagem por motivo de doença", advertiu Brejnev. "Camarada Leonid, isso é impossível", respondeu Gierek. "Bem, não lamente depois", encerrou o soviético. Diante da ameaça do vizinho poderoso, seguiu-se uma operação diplomática extremamente delicada entre Gierek e a Secretaria de Estado do Vaticano, comandada na época pelo arcebispo italiano Agostino Casaroli. Ao final, chegou-se a uma fórmula conveniente: o convite para que o papa visitasse o país partiria do episcopado polonês, e não do governo. João Paulo II não pisaria em solo polonês na qualidade de chefe de Estado, mas na de líder espiritual da esmagadora maioria de seus compatriotas. A solução puramente formal, que serviu para apaziguar um pouco os ânimos no Kremlin, dá a exata medida de como funcionava o mundo durante o período da Guerra Fria.

O temor de Leonid Brejnev em relação à visita papal, no entanto, estava longe de ser fruto da paranóia soviética. Ao desembarcar na Polônia em junho de 1979, naquela que foi a viagem mais importante de todo o seu pontificado, João Paulo II propiciou que seu povo, pela primeira vez em quase quarenta anos, manifestasse abertamente seu descontentamento com o autoritarismo político, a estagnação econômica e a inércia social a que estavam submetidos. Foi um evento de proporções espantosas. Estima-se que 10 milhões de pessoas, quase um terço da população do país, tenham comparecido às missas e aos eventos comandados por Wojtyla nos nove dias em que ele permaneceu na Polônia. A histórica peregrinação teve o efeito de catalisar o processo de esfacelamento do regime comunista. No ano seguinte, João Paulo II seria peça fundamental nas tratativas que evitaram um banho de sangue em Gdansk. Essa estratégica cidade portuária, principal saída da Polônia para o Mar Báltico e sede de grandes estaleiros, foi o epicentro de uma greve gigantesca comandada pelo operário Lech Walesa, líder do sindicato Solidariedade, entidade que nasceu clandestina, fora do controle estatal. Depois de meses de tensas negociações, o governo viu-se obrigado a reconhecer formalmente o direito dos trabalhadores à livre associação, fato inédito num regime comunista. No momento de assinar o acordo, em um gesto carregado de simbolismo, Walesa sacou do bolso uma caneta com o retrato do papa. A Igreja de Wojtyla também cumpriria um papel importantíssimo em 1981, quando o regime agonizante impôs a lei marcial no país, para tentar destruir o Solidariedade e sufocar todas as aspirações libertárias da população. Graças à sintonia entre o papa e Lech Walesa, que viria a ser eleito presidente da República depois da queda do comunismo, o Solidariedade abriu caminho não só para a democratização da Polônia, como para a de todo o Leste Europeu.  

Enredadíssimo na questão polonesa, João Paulo II passaria a ter um canal de comunicação privilegiada com o governo americano. O livro Sua Santidade – João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo, assinado pelo vaticanista italiano Marco Politi e pelo jornalista americano Carl Bernstein (o mesmo do caso Watergate), conta que o papa recebia relatórios freqüentes da CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos, a respeito do que acontecia no Leste Europeu. Segundo os autores do livro, de 1981 até as vésperas da queda do Muro de Berlim, em 1989, pousaram sobre a mesa de João Paulo II informações de toda ordem sobre o que acontecia por detrás da Cortina de Ferro. Inclusive aquelas provenientes de satélites militares e escuta eletrônica. Contabilizam-se, ainda, quinze encontros secretos do papa com William Casey, na época diretor da CIA, e com o general Vernon Walters, ligado ao serviço de inteligência americano. Em contrapartida, os Estados Unidos usufruíam da capilaridade da Igreja nos países a leste do Rio Danúbio, a fim de obter pormenores dos movimentos de resistência política que acabariam por minar os alicerces do império soviético. A troca de informações entre o governo americano e o Vaticano extrapolava o âmbito europeu. Abarcava também a América Latina, onde a dita ala progressista da Igreja tentava promover uma exótica simbiose entre catolicismo e marxismo, por meio da Teologia da Libertação. Um dos alvos preferenciais de João Paulo II, o esquerdismo clerical latino-americano sucumbiria à sua mão de ferro, como demonstram as profundas transformações ocorridas na Igreja brasileira desde a década de 80.  

A aliança do Vaticano com os Estados Unidos, nesse período, mostra que a fronteira entre o secular e o espiritual é mesmo mera questão de circunstância. Para reforçar sua aliança com o papa, opositor ferrenho dos métodos contraceptivos artificiais e da legalização do aborto, o presidente americano Ronald Reagan mandou que fosse suspensa boa parte da ajuda financeira americana a programas de planejamento familiar nos países subdesenvolvidos. Agradecido, João Paulo II interveio no episcopado dos Estados Unidos, para que os bispos recuassem na sua decisão de criticar abertamente a política armamentista da Casa Branca. Também censurou a publicação das conclusões de um simpósio da Pontifícia Academia de Ciências contra o projeto Guerra nas Estrelas, lançado por Reagan. A lua-de-mel entre o papa e os americanos só terminaria em 1991, quando João Paulo II condenou a intervenção dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Mas aí o inimigo comum – o comunismo – já havia sido derrotado.

O fato de o papa ser protagonista no processo de desestabilização dos regimes do Leste Europeu fez com que surgissem teorias conspiracionistas a respeito do atentado na Praça de São Pedro, em 1981. Muitos desconfiaram de que o turco Ali Agca disparou contra João Paulo II a mando dos soviéticos. Agca diz que o fez por decisão própria. Existem indícios, porém, de que o criminoso possuía ligações com o serviço secreto da Bulgária, na época um satélite da União Soviética. Outra versão é a de que João Paulo II foi vítima de um complô de muçulmanos fundamentalistas, dispostos a torpedear a sua política ecumênica. Dois anos depois do atentado, o papa visitou Agca na prisão – e o perdoou. Os dois mantiveram uma longa conversa a sós, da qual nada se sabe. Tudo indica que a resposta a esse mistério morreu juntamente com Wojtyla. Em termos estritamente religiosos, o episódio produziu um fortalecimento do marianismo, o culto a Maria. Explica-se: João Paulo II sofreu o atentado no dia de Nossa Senhora de Fátima, da qual era devoto, e creditou à Virgem o fato de ter escapado com vida. Uma vez recuperado, foi ao santuário da santa, em Portugal, para agradecer a graça recebida. O sinal estava dado para que a adoração à mãe de Jesus ganhasse fôlego nos quatro cantos do mundo.  

A vitória contra o comunismo na Europa e a reafirmação da autoridade do Vaticano junto ao clero latino-americano marcaram a primeira fase do pontificado. Depois que esses objetivos foram atingidos, o papa teve seu papel reduzido no cenário mundial. Ao dizimar as fileiras da Teologia da Libertação e silenciar o clero simpático a comportamentos liberais, numeroso nos países desenvolvidos, João Paulo II construiu uma hierarquia eclesiástica à sua imagem e semelhança – rígida e desconectada das diferentes realidades do bilhão de católicos. Para completar o quadro desalentador, o catolicismo não conseguiu conquistar terreno no Leste Europeu. Pelo contrário. Os apelos materialistas do capitalismo são cada vez maiores nas nações egressas do pesadelo comunista, esgarçando os valores cristãos mais tradicionais, da mesma forma que ocorreu nas sociedades ricas do Ocidente. Na América Latina, por sua vez, as religiões evangélicas avançaram sobre o rebanho da Igreja com uma voracidade impressionante. Um epílogo melancólico para um político extraordinário como João Paulo II.

 
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