Papa João Paulo II . 6 de abril de 2005

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Especial
A hora da escolha

O conclave que elegerá o novo ocupante do trono
de Pedro está previsto para começar quinze dias
depois da morte de João Paulo II, de acordo com o
que determina a Constituição Apostólica Universi
Dominici Gregis, publicada em 1996 e que trata das
regras da sucessão. Dele participarão 116 cardeais,
dos quais 114 foram nomeados por Karol Wojtyla. Ao
todo, ele nomeou 232 cardeais, um recorde na história eclesiástica.

O colégio cardinalício conta atualmente com 183 cardeais, mas só votam aqueles que não completaram 80 anos. O continente com mais cardeais é a Europa (95), seguida de América Latina (31), América do Norte (18), Ásia (18), África (16) e Oceania (5). Ao moldar o colégio eleitoral, João Paulo II procurou influir diretamente nos rumos do novo pontificado que se avizinha. Ou seja, se tudo ocorrer conforme o seu desenho, não se deve esperar do futuro papa que devolva autonomia política ao clero do Terceiro Mundo ou que reveja os rígidos cânones morais da Igreja – cânones sobejamente desrespeitados pela maioria do rebanho católico.

Espera-se, contudo, que o novo pontífice seja uma figura mais conciliadora e menos imperial do que João Paulo II. Este seria o momento de a Igreja Católica ter um chefe que, sem abrir mão dos princípios reiterados pelo antecessor, mostre uma visão mais serena do mundo contemporâneo. A maioria dos vaticanistas aposta suas fichas no italiano Dionigi Tettamanzi. Também não é improvável que do próximo conclave saia um papa de fora da Europa: da América Latina ou da África. No caso de um conclave mais difícil, é possível, ainda, que seja escolhido um "papa de transição" – um cardeal de idade já avançada, a quem caberá um reinado curto, mas suficiente para aparar as arestas internas deixadas por Karol Wojtyla. A seguir, os cardeais mais cotados para suceder a João Paulo II.

 

Quem são os principais papáveis

Dionigi Tettamanzi,
71 anos, italiano.


AFP


Foi arcebispo de Gênova, antes de se tornar arcebispo de Milão, em 2002. Nessa função, sucedeu a Carlo Maria Martini, que durante anos foi apontado como o provável sucessor de João Paulo II. Tettamanzi entrou na lista dos candidatos a papa em 1996, quando ainda era bispo. É uma boa opção caso não se queira eleger um papa de transição – nessa mesma hipótese, aliás, encaixa-se o austríaco Christoph Schoenborn, de 58 anos, arcebispo de Viena. Tettamanzi foi secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana e desincumbiu-se de tarefas importantes que lhe foram dadas por João Paulo II. Comunicativo, tem amigos poderosos e pertence à linha moderada. Como se mantém eqüidistante dos grupos que disputam a hegemonia da Igreja, pode ser uma solução de consenso entre a Cúria Romana e os cardeais que não estão encastelados no Vaticano. É o franco favorito.

Camillo Ruini,
74 anos, italiano.


AFP


Talvez mais do que qualquer outro cardeal da Cúria Romana, ele cresceu à sombra de João Paulo II, de quem sempre procurou imitar algumas atitudes. Ruini teve uma ascensão meteórica e sua compleição frágil esconde um homem dotado de enorme energia para o trabalho. Em geral classificado como moderado pelos vaticanistas, nos últimos anos ele migrou para posições cada vez mais intransigentes em questões morais e doutrinárias. Por isso mesmo passou a contar com a simpatia do Opus Dei, o que não é pouco. Quando for aberto o conclave, adentrará a Capela Sistina como um dos favoritos à sucessão de João Paulo II.

Angelo Sodano,
77 anos, italiano.


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Designado secretário de Estado do Vaticano em 1991, Sodano respondia pela política externa de João Paulo II, um dos pilares de seu pontificado. Em nome do papa, ele também administrava diretamente o Vaticano, constituindo-se numa espécie de governador. Em função do cargo-chave que ocupava na hierarquia da Igreja e de sua habilidade de articulador, é um dos cardeais mais poderosos do Vaticano. Apesar de sua importância, não é um papável no qual os especialistas apostam muitas fichas. Eles preferem colocá-lo na categoria dos "grandes eleitores" da Cúria. Ou seja, Sodano poderá não angariar votos suficientes para tornar-se um "papa de transição", mas sem dúvida influenciará muitos cardeais durante o conclave.

Miloslav Vlk,
72 anos, checo.


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Em um conclave que se encaminhe para uma solução européia, mas não italiana, a candidatura de Vlk pode despertar alguma simpatia em diferentes lados. Durante o regime comunista em seu país, ele exerceu a profissão de operário, o que lhe confere uma aura de trabalhador, bem ao gosto dos cardeais mais à esquerda. Ao mesmo tempo, resistiu à ditadura bancada pela ex-União Soviética, o que agrada aos conservadores. Vlk foi presidente da Conferência Episcopal Européia, fala perfeitamente o italiano – o que não é pouco para quem terá de cumprir a função de bispo de Roma – e se inclui entre os focolarinos, um dos movimentos de renovação católica que mais cresceram sob João Paulo II. Seu problema é a etnia. Depois de um papa polonês, é difícil que elejam outro eslavo.

Francis Arinze,
72 anos, nigeriano.


AFP


A hipótese de um papa negro mexe com a imaginação dos vaticanistas, que se apóiam num fato inconteste para fazer essa aposta: o extraordinário crescimento do catolicismo na África, especialmente na última década. O Vaticano estima que, mantidas as atuais taxas de expansão, em 2010 haverá cerca de 200 milhões de católicos no continente. Extremamente cordial e cauteloso, Arinze é um candidato sempre presente na lista dos papáveis, dada inclusive a desenvoltura com que circula no ambiente inóspito da Cúria Romana, da qual faz parte. O seu ponto fraco é que ele representa uma comunidade católica insignificante do ponto de vista histórico e ainda muito sujeita à tradição animista. Arinze é uma boa possibilidade caso a Igreja aposte na intensificação da ação pastoral nas regiões mais pobres do mundo.

Angelo Scola,
63 anos, italiano.


AFP


O patriarca de Veneza não figura entre os cardeais veteranos: foi nomeado na lista divulgada pelo Vaticano em setembro de 2003. Teólogo respeitado, especialista em questões de família, integra o movimento conservador italiano Comunhão e Liberdade. Faz parte do grupo dos cardeais da linha dura. Recentemente foi nomeado relator geral do próximo sínodo dos bispos – muitos interpretaram essa escolha de João Paulo II como um sinal de que ele gostaria que Scola fosse um dos candidatos a sua sucessão.

Alfonso López Trujillo,
69 anos, colombiano.


AP


É o cardeal latino-americano que hoje goza de maior prestígio dentro do Vaticano. Presidente do Pontifício Conselho para a Família, nos últimos anos entregou-se de corpo e alma à luta contra a legalização do aborto e da eutanásia. Antes disso, foi um dos responsáveis pelo torpedeamento da Teologia da Libertação. Na Colômbia, Trujillo é um cidadão sob suspeita, por ter seu nome envolvido em episódios nebulosos. Acusam-no de usar métodos truculentos para constranger seus opositores e de fazer vista grossa para o dinheiro que o narcotráfico injetava em obras de caridade católicas. É um papável que, apesar dos serviços prestados à Igreja, tem telhado de vidro. Pode transformar-se num eleitor de razoável influência sobre diversos participantes do conclave, em especial os provenientes dos países subdesenvolvidos da América e África.

Cláudio Hummes,
70 anos, brasileiro.


Mario Rodrigues


Entre os papáveis do Terceiro Mundo, o brasileiro mais citado é o arcebispo de São Paulo. Aos 70 anos, idade considerada "boa" para papa, o gaúcho Hummes é um moderado perfeitamente afinado com as linhas adotadas por João Paulo II: condena a politização da liturgia, as interpretações livres do Evangelho, os métodos contraceptivos e o aborto (mesmo em caso de estupro) e prega o pleno resgate da mística católica. Além disso, fala cinco línguas, entre elas o italiano, e goza de ótima imagem entre os cardeais da Cúria Romana.

 

Oscar Andres Rodriguez Maradiaga,
62 anos, hondurenho.


AP


Jovem para os padrões vaticanos, culto, poliglota e comunicativo, o cardeal-arcebispo de Tegucigalpa tem o exato perfil que João Paulo II mais estimulou e favoreceu ao longo de seu pontificado: rigorosa ortodoxia temperada por nítida preocupação social. Em certos momentos, contudo, derrapa nas declarações. Já proclamou em alto e bom som que a Teologia da Libertação, execrada no Vaticano, "deixou muitas coisas boas". Na outra ponta, acusou a imprensa americana de exagerar na divulgação dos escândalos de pedofilia envolvendo religiosos católicos.

Joseph Ratzinger,
77 anos, alemão.


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O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi o grande ideólogo do pontificado de João Paulo II. É um dos cardeais mais poderosos da Cúria Romana, e será um dos "grandes eleitores" do próximo conclave. Pouco antes da morte do papa, seu nome começou a aparecer na lista de papáveis dos vaticanistas italianos. Ratzinger, no entanto, tem muitos inimigos e suas condições de saúde não são das melhores. Sua eleição seria uma grande surpresa, resultado de um conclave particularmente difícil.

 

Giovanni Battista Re,
71 anos, italiano.


AP


Prefeito da Congregação dos Bispos (em substituição a dom Lucas Moreira Neves) e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, Re é funcionário de carreira do Vaticano e profundo conhecedor da organização da Igreja Católica. Por isso mesmo, tornou-se peça-chave na administração do Vaticano e cuidou da preparação de boa parte das 104 viagens internacionais do papa, sendo elogiado por vaticanistas por sua "imensa capacidade de trabalho, mente brilhante e nervos de aço". Desvantagem: falta a Re a indispensável experiência pastoral à frente de uma diocese. E ele tem um inimigo poderoso na Cúria: Angelo Sodano.

 

 


O passeio dos cardeais

Até o último conclave, os cardeais eleitores eram obrigados a acampar em salas próximas à Capela Sistina, local das votações. Com a reforma do Ospizio Santa Marta, situado do outro lado do Vaticano, eles terão quartos e escritórios confortáveis, mas serão obrigados a vencer uma distância de aproximadamente 200 metros para chegar ao local da eleição. Há duas formas de fazer isso: de ônibus, dando a volta por trás da Basílica de São Pedro (em preto, no desenho), ou a pé, por dentro da igreja, usando passagens que ligam as três construções (em azul)

 
 
 
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