Carta ao leitor

A grandiosa
Olimpíada da China


Por dentro da
Vila Olímpica


Nossos atletas
em Pequim


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Bem-vindos,
atletas do mundo

A Vila Olímpica de Pequim, que vai hospedar
9 600 atletas de 205 países, tem confortos
de spa e segurança de palácio presidencial


Kalleo Coura

Feng Li/Getty Images
Funcionários fazem os últimos ajustes em jardim da Vila Olímpica: cartão de visita para atletas estrangeiros

É lá que, até o fim de agosto, os melhores atletas do planeta vão acordar – e também dormir, comer, relaxar e se divertir. A Vila Olímpica de Pequim foi construída para ser um oásis de conforto e tranqüilidade em meio ao rigor e à tensão das competições. Com 42 prédios, ela tem segurança de palácio presidencial e facilidades de spa: oferece piscinas, quadras de jogos, academias, cibercafés e até aulas de tai chi chuan e caligrafia chinesa para os interessados em mergulhar na cultura do país anfitrião. Centros religiosos – cristão, budista, hinduísta, islâmico e judaico – também estarão à disposição dos atletas que quiserem exercitar o espírito – ou pedir uma forcinha do além.

Para os esportistas estrangeiros, a Vila Olímpica representa o principal cartão de boas-vindas da China (afinal, será o primeiro lugar do país em que a maioria vai pisar). Assim, seus construtores se esforçaram para que ela fizesse jus à promessa do governo chinês de uma "Olimpíada verde": ladeada pelo Parque Florestal Olímpico, a Vila tem ainda 40% do seu espaço total de 66 hectares forrado de jardins. Além disso, 36 diferentes tecnologias foram utilizadas para reduzir a emissão de poluentes e o consumo de água e energia no complexo. Esses processos incluem desde a simples iluminação à base de energia solar em parte dos postes até sistemas sofisticados, como o que aquece e resfria os ambientes usando a energia produzida por água de esgoto tratada. Para que não reste dúvida quanto aos princípios ecológicos do país anfitrião dos Jogos, os atletas serão levados aos locais de competição em ônibus movidos a baterias de lítio.

Guang Niu/Getty Images
Cada delegação assistirá a uma cerimônia apresentada
por um grupo diferente de crianças: recepção personalizada

Boa parte dos 300 milhões de dólares que o governo chinês investiu para garantir a segurança dos Jogos Olímpicos foi para lá. Os quartos que receberão os 9 600 atletas que competem em Pequim – serão cerca de 10 500 no total – só poderão ser abertos com a digital dos hóspedes. Cada um deles acomoda de duas a três pessoas e, além do equipamento básico (televisão, frigobar e internet – mais extensores de cama, para "gigantes" como o jogador chinês de basquete Yao Ming, de 2,29 metros), conta com um alarme infravermelho para detectar eventuais invasores. Na alimentação, os cuidados são ainda maiores. Segundo disse a VEJA Doug Warner, diretor de comunicação da Aramark, empresa americana que fornece os alimentos para as Olimpíadas desde 1968, os ingredientes usados nos 3,5 milhões de refeições que serão servidas aos atletas terão seu trajeto – do fornecedor à Vila – monitorado por GPS. Os motoristas responsáveis pelas cargas estão proibidos de deixar os veículos sozinhos – a providência visa a impedir, por exemplo, que sejam colocados explosivos nos carros. Cozinhas e despensas serão vigiadas por câmeras, alarmes e guardas 24 horas com o mesmo objetivo: evitar sabotagem. Cada caixa de legumes ou frutas que entrar no complexo (só as maçãs serão 1 milhão) virá acompanhada de um chip que contém informações como a fazenda onde os produtos foram cultivados e a data em que foram coletados.

Fotos Guang Niu/Getty Images e China Photos/Getty Images
A petroquímica Yanshan, que cortou a emissão de poluentes: esforços para fazer jus à "Olimpíada verde"; abaixo, o Parque Florestal Olímpico, com 580 hectares de árvores

O restaurante onde os atletas farão as refeições também obedece à escala chinesa: tem o tamanho de dois campos de futebol e pode receber até 6 000 pessoas ao mesmo tempo. "A filosofia da Vila Olímpica é tentar fazer com que os atletas de diferentes esportes, nações e religiões entrem em contato uns com os outros", disse Laszlo Vajda, gerente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Pequim. Para recepcionar os esportistas, foram selecionados 205 grupos de crianças – um para cada delegação participante. Os grupos apresentarão danças típicas chinesas em cerimônias "personalizadas" de boas-vindas: nelas se ouvirá o hino nacional da nação homenageada, cuja bandeira será hasteada na Praça Olímpica.

A partir de setembro, quando a Olimpíada – e também a Paraolimpíada, que acontecerá nos mesmos locais – estiver encerrada e todos os atletas tiverem voltado para casa, a Vila sofrerá uma transformação: vai se tornar um grande condomínio residencial. Todos os apartamentos já estão vendidos desde o começo do ano e serão entregues em 2009. Os compradores pagaram o equivalente a 500 000 dólares por um imóvel de 200 metros quadrados. O valor, segundo o jornal China Daily, é quase 70% mais alto do que o de apartamentos localizados em áreas similares de Pequim. Mas, para muitos chineses, isso é o de menos. Afinal, o privilégio de habitar o mesmo lugar em que pisaram um dia heróis nacionais, como Yao Ming e o corredor Liu Xiang, tem seu preço.

Fotos Eugene Hoshiko/AP, Guo Yang/AFP e Guang Niu/Getty Images
O "gigante" do basquete Yao Ming, que terá cama com extensor (à dir.) e banheiro já adaptado para a Paraolimpíada, cujos atletas também ficarão na Vila Olímpica