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Tenha um plano B
Quando ainda morava com os pais nos canaviais de Marília e cursava o ensino fundamental, Osmar Barbosa, representante brasileiro nos 800 metros em Atenas, nunca aparecia nas aulas de inglês. "Eu pensava: 'O que um cortador de cana vai fazer com inglês?'." O destino levaria Osmar, como atleta, a conhecer 28 países e morar três anos nos Estados Unidos. Hoje ele reconhece que aquelas aulas cabuladas fizeram falta. A lição que Osmar aprendeu é a mesma que vários atletas, em algum momento da carreira, acabam por compreender: trocar os estudos pela carreira reduz as alternativas no futuro. No caso de atletas, a questão é crucial, pois a carreira é curta e nem sempre rende dinheiro, mesmo para campeões olímpicos. "É muito difícil começar tudo de novo. Assusta", diz o ex-campeão olímpico Joaquim Cruz. Pelo menos o sucesso no esporte oferece a muitos, como Cruz, a oportunidade de estudar. Instituições de ensino particulares, no Brasil e no exterior, dão bolsas de estudo integrais ou parciais a atletas, em troca da participação deles em competições universitárias. É assim que muitos obtêm um diploma, que vai ajudá-los a conseguir um emprego uma vez encerrada a carreira esportiva. Conciliar os estudos e as exigências do esporte de alto nível, porém, é complicado: 64% dos atletas conseguiram chegar à faculdade (veja quadro), mas só 17% conseguiram se formar, e nada menos que 30% interromperam os estudos por causa da rotina de viagens e treinos. "Você acha que jogador estuda? Tem um ou outro, mas a maioria é tudo burro", diz o líbero da seleção de vôlei, Sérgio Escadinha, que parou no 3º ano do ensino médio. "Minha mãe queria muito que eu estudasse, mas depois viu que o esporte deu certo e se acostumou", diz Fabiana, da seleção feminina de vôlei, que abandonou o 1º ano do 2º grau. Mesmo quem foi até o fim teve de fazer grandes sacrifícios. "Eu ia para a academia às 6 da manhã, à tarde treinava na represa e à noite estudava", conta o campeão de vela Robert Scheidt, diplomado em administração de empresas. Sua colega de equipe Fernanda Ryff de Oliveira, velejadora da classe 470, estava com a formatura em administração marcada para uma semana antes do embarque para Atenas. "Sempre preferi ter um plano B. O esporte é cheio de frustrações, por isso quis outra ocupação, que me trouxesse outro tipo de satisfação."
Antes mesmo de parar de competir, alguns atletas já começam a diversificar seus negócios. É o caso do nadador Gustavo Borges, que recentemente abriu uma academia de ginástica em São Paulo, e dos jogadores Anderson, Giba e Gustavo, da seleção de vôlei, que têm parceria em um bar na capital paulista. Nem sempre essas atividades paralelas visam ao lucro. Muitos encontram satisfação pessoal colaborando com iniciativas assistenciais. Hugo Parisi, dos saltos ornamentais, é o padrinho de um projeto que ensina os fundamentos do esporte a crianças cariocas. "Quero servir de espelho para as crianças." Também no Rio de Janeiro, o judoca Flávio Canto comanda um projeto social na favela da Rocinha. "O judô ajuda a formar o caráter, e lá eu posso ensinar isso." Embora tenham deixado de ser amadores ao longo dos últimos vinte anos, os esportes olímpicos ainda estão longe de ser uma atividade rentável para a maioria dos que os praticam. Aqueles que conquistam uma medalha olímpica individual, como Fernando Scherer, Gustavo Borges, Robert Scheidt e Torben Grael, mudam de patamar e obtêm patrocínios com mais facilidade. Candidatos à consagração, como Daiane dos Santos, também conseguem contratos melhores, pelo menos até os Jogos (a saltadora Maurren Maggi viu minguar os patrocínios depois de punida por um caso de doping). Esportes como vôlei e vôlei de praia, sustentados por patrocinadores fortes, podem bancar bons salários aos principais jogadores. Os demais, porém, vivem com pouco. O tae-kwon-do e a ginástica rítmica poderiam ser considerados amadores pelos padrões antigos do Comitê Olímpico Internacional. Outros, como o futebol feminino, carecem quase totalmente de apoio. Boa parte das jogadoras da seleção recebe apenas cerca de 1 000 reais por mês da Confederação Brasileira de Futebol.
O quadro abaixo, baseado em informações fornecidas pelos próprios atletas, embora dê uma idéia da situação financeira das estrelas de cada esporte, esconde disparidades. Na ginástica artística, Daiane dos Santos puxa a média para cima, pois calcula-se que ganhe pelo menos 60 000 reais por mês, bem mais que a maioria de suas colegas recebem da confederação e de patrocinadores. Na vela e no hipismo, também há um abismo entre as estrelas e os desconhecidos. Mesmo em um esporte bem mais divulgado como a natação, há atletas olímpicos que até abdicaram de buscar patrocínio. "Desisti de procurar, porque tem de ter pistolão. Para cada portfólio que eu deixo em uma empresa, são 50 reais de xerox, e nunca me dão retorno", reclama o nadador Rafael Mósca.
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