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Enfrente seus medos
Juliana Veloso salta desde criança. Começou aos 3 anos na ginástica olímpica, mas seu destino eram mesmo os saltos ornamentais, esporte em que seus pais foram atletas de alto nível. Hoje com 23 anos, vai disputar pela segunda vez as Olimpíadas. Para chegar lá, além dos obstáculos comuns a qualquer atleta, Juliana teve de se acostumar com um efeito colateral desagradável de seu esporte: as fraturas. Desde a infância, sofreu mais de vinte, a maior parte relacionada com a modalidade que pratica. Juliana aprendeu a encarar com naturalidade o que faria muita gente desistir dessa atividade. "Tem uma foto minha, com 1 ano e meio, com meu pai me segurando e dando um salto mortal. Quer dizer que, desde nova, acho isso normal." A única vez que sentiu receio de saltar foi há sete anos, quando voltou a competir após meio ano parada por causa de uma lesão na coluna. "O medo passou depois do primeiro salto", afirma. Do medo de se machucar não escapam nem atletas com vocação natural para seus esportes. O cavaleiro Nelson Pessoa Filho, que representou o Brasil em cinco Olimpíadas, levava jeito para montar cavalos desde a infância, mas durante muitos anos só o fazia porque o pai o obrigava. "Aos 12 anos, de um dia para o outro, o medo passou. Nunca mais soube o que era isso." Para evitar que o problema se repetisse com o filho Rodrigo, que hoje tem duas medalhas olímpicas, Nelson o fez começar montando pôneis, aos 6 anos. Ter receio é comum entre cavaleiros iniciantes. Outro membro da equipe nacional de saltos, Álvaro Affonso de Miranda, o Doda, confessa: "No início, tinha muito medo de cavalos. Mas tinha um dom natural e vi neles a oportunidade de competir para ganhar". Razões
para ter medo existem. Praticar esportes de alto nível exige muito
do corpo. Cerca de um terço da delegação brasileira
já sofreu alguma cirurgia ligada ao esporte (veja
quadro). Muitos, mais de uma, como Vivian Lopes, da seleção
de basquete, que já sofreu três em cada joelho. Apenas 9%
dos atletas não se recordam de alguma lesão séria
durante a carreira. O joelho é o mais castigado: 17% da delegação
já operou essa parte do corpo (mais de setenta operações
ao todo), e outros 19% têm ou já tiveram problemas. Alguns
esportes torturam outras partes do corpo. Seis dos quinze jogadores da
seleção masculina de handebol já foram operados nos
ombros, devido ao esforço constante de arremessar a bola para o
gol. Dois dos cinco boxeadores da equipe brasileira queixam-se de inchaço
nas mãos, e um terceiro, Glaucélio Serrão Abreu,
pôs seis pinos na mão direita em 2003.
Lesões são um medo bem específico de atletas. Outro temor a que estão sujeitos é comum a qualquer profissão: o da mudança de cidade ou país. O ciclista paranaense Luciano Pagliarini, um dos mais talentosos desta geração é o único brasileiro em atividade a ter disputado a Volta da França, a competição mais importante de seu esporte , quase deu meia-volta quando foi convidado a morar na Europa, passo indispensável para a evolução de qualquer ciclista. "A adaptação foi muito difícil. No começo, queria deixar tudo e voltar para minha família." Hoje, em sua quarta temporada como profissional, defende uma das maiores equipes do mundo, a italiana Lampre. "Os resultados foram aparecendo e fui me acalmando." Temer não estar à altura das circunstâncias também pode atrapalhar uma carreira. Cíntia Tuiú foi escalada no time adulto de basquete de Piracicaba ainda adolescente, aos 15 anos, ao lado de Paula, um mito de seu esporte. "Eu morria de pavor de não pegar um passe dela." Com o tempo e a experiência, chegou à seleção e às Olimpíadas. O medo pode até determinar o corte de uma seleção olímpica. O atual técnico do time feminino de vôlei, José Roberto Guimarães, certa vez distribuiu um questionário aos jogadores quando treinava a equipe masculina. Elaborado com a ajuda da psicóloga Regina Brandão, incluía três perguntas: quais seriam os doze jogadores da convocação final, quais seriam os seis titulares e quem jogaria no quinto set de uma partida decisiva. "Se o jogador não se incluísse entre os doze, já estaria fora da convocação por demonstrar falta de confiança em si mesmo", conta Zé Roberto. Para satisfação dele, nenhum se excluiu ao responder.
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