Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Foco no objetivo

 
Marco A. Rezende
A seleção feminina de futebol e suas bolinhas de tênis: símbolo concreto do objetivo, a medalha olímpica


"Não ponhas teus olhos em coisas distantes."
PÍNDARO
poeta, Odes Píticas, século V a.C.

Durante uma preleção para a seleção feminina de futebol, o técnico Renê Simões mostrou uma foto da própria família e perguntou às jogadoras o que elas viam ali. Intrigadas, algumas responderam o óbvio: a família do treinador. Simões discordou. Para ele, a foto simbolizava outra coisa, e por isso ele a levava consigo. "Esta foto lembra meu objetivo, por que estou aqui trabalhando tanto e o que quero para minhas filhas." Em seguida, o treinador entregou uma bola de tênis a cada atleta. "Essa bolinha vai representar a mesma coisa para vocês: a razão pela qual estão aqui treinando de domingo a domingo." Desde março, quando as convocadas iniciaram em Teresópolis (RJ) a preparação olímpica, cada uma carrega a sua.

Transformar um objeto palpável, como a bola de tênis, em símbolo de um objetivo concreto não foi o único método adotado por Renê Simões para aumentar a concentração das jogadoras. Vários manuais de auto-ajuda, que tratam de motivação e objetivos, incluem entre seus conselhos pôr no papel as próprias metas. Sabedor disso, Simões fez cada jogadora adotar um caderno para anotar reflexões sobre o treinamento. "Preciso melhorar meu passe com a perna esquerda", "Não estou driblando quando é necessário" são exemplos de frases dentro do espírito que o treinador quer incutir nas jogadoras. A maioria nunca tinha visto esses métodos. Dizem ter gostado da novidade. "O grupo está mais unido, as jogadoras estão mais dispostas e esforçadas", diz a meio-campista Maycon. Atletas de outros esportes também escrevem seus objetivos para tê-los bem claros. É o caso da paranaense Alessandra Picagevicz, que vai disputar a marcha de 20 quilômetros do atletismo. "Quando chega o fim do ano, escrevo tudo o que quero para a temporada seguinte. Fazer tal tempo em tal competição, conquistar tal medalha. No outro ano, vou lá ver se realizei aquilo que objetivei", diz, empregando um termo digno de livros de auto-ajuda. Alessandra anota até quanto pretende ter na conta bancária dali a doze meses.

 
Jonne Roriz/AE
O nadador Eduardo Fischer: histórias de superação pessoal tornaram atletas bons palestrantes motivacionais

Buscar modelos e casos exemplares é outra boa forma de se motivar. Por essa razão, o livro mais lido pelos atletas da delegação – fora a Bíblia – é o "clássico" de auto-ajuda A Semente da Vitória, de Nuno Cobra, ex-preparador físico de Ayrton Senna, que figurou três anos, até maio passado, na lista dos mais vendidos de VEJA. O livro recomenda o cuidado com o corpo como ingrediente básico para o sucesso pessoal. Escrito para não-atletas, acabou virando um inesperado livro de cabeceira de esportistas. "Fico surpreso com o número de atletas que me procuram. Percebi que eles são muito parecidos com o homem competitivo em sua batalha pela superação no mundo dos negócios", afirma Cobra. Manuais de estratégia como A Arte da Guerra e Musashi também são muito citados por atletas. Entre os filmes favoritos, figuram histórias de luta contra adversidades, como Gladiador, e parábolas como Um Sonho de Liberdade, sobre um homem que enfrenta estoicamente um longo período de prisão. "Esse filme é um exemplo de que nunca se deve perder as esperanças", diz o saltador em altura Jessé Lima.

 
Claudio Rossi
Alessandra Picagevicz, da marcha atlética, anota seus objetivos em cadernos: pôr no papel as próprias metas ajuda a atingi-las

Os próprios atletas acabaram por se tornar bons modelos para aulas de auto-ajuda: são figuras conhecidas que lutam por objetivos simples de entender, como uma medalha olímpica. Por isso começaram a ser chamados para ministrar palestras motivacionais. O catarinense Eduardo Fischer, especialista em nado de peito, já chegou a receber 2 000 reais para falar de sua experiência em escolas, academias de ginástica e empresas. "Não basta ser atleta, tenho de passar minhas experiências para outras pessoas. E, no esporte, a disciplina é mais palpável do que nas outras áreas, por isso serve como exemplo", conta Fischer. Um colega seu mais ilustre, Gustavo Borges, fez dessa atividade um ganha-pão extra. Recebe 10 000 reais por uma hora de palestra. Faz até duas por mês e sua agenda já está lotada até o fim do ano.

Uma lição importante ensinada pelos atletas nessas palestras é que fixar metas viáveis e progressivas funciona. Foi assim que a londrinense Ana Maria Maciel, da ginástica rítmica, chegou a Atenas: "Uma vez me disseram que era impossível fazer parte da equipe brasileira. Outra vez me disseram que o Brasil não conseguiria se classificar para os Jogos Pan-Americanos. Depois, que a gente não chegaria às Olimpíadas. Pois bem, tudo o que disseram que era impossível nós realizamos".