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Ninguém vence sozinho
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"Um homem apenas não pode ver
tudo." EURÍPEDES dramaturgo,
século V a.C., em As Fenícias | Diz
a lenda olímpica que Spiridon Louis, vencedor da primeira maratona olímpica,
em 1896, treinava sozinho entre as ovelhas que pastoreava nos arredores de Atenas.
Hoje, porém, é praticamente impossível um atleta ganhar uma
medalha se não estiver cercado por uma equipe. Treinadores, preparadores
físicos, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos,
ortodontistas, massagistas, secretários, assessores de imprensa e empresários
são parte integral da vida de um campeão.
Os primeiros assessores da maioria dos atletas são os próprios parentes.
A influência familiar começa por um ambiente estimulante para a prática
de esportes. Cerca de dois terços dos brasileiros que vão a Atenas
têm parentes próximos que foram ou são atletas. Claro, nenhum
caso é tão extremo quanto o das gêmeas Carolina e Isabela
de Moraes. "Condenadas" não só a competir juntas, mas a fazer os
mesmos movimentos, elas representam o Brasil no dueto do nado sincronizado. "Brigamos
às vezes. Mas só nos treinos, quando ficamos mais cansadas e nos
irritamos mais rápido. São besteiras, como correções
de movimentos. O humor se altera, mas nos damos muito bem e nunca pensamos em
parar de competir juntas", diz Isabela. Se a intensa convivência nem sempre
é fácil, pelo menos uma vantagem traz: "Logo que criamos um movimento
novo, ele já sai perfeito desde a primeira tentativa, o que é difícil
acontecer com outras atletas". Filhos de atletas
tendem a praticar o mesmo esporte dos pais. Dentre todos os casos de brasileiros
destes Jogos com pais ou tios ex-competidores olímpicos, o mais inusitado
é o da jogadora Valeskinha, da seleção de vôlei. A
mãe dela, Aída dos Santos, disputou os Jogos de Tóquio, em
1964, mas não jogando vôlei foi quarta colocada no atletismo,
na prova do salto em altura. Aída praticava os dois esportes e estimulou
a filha a fazer o mesmo, pelo menos até a adolescência. "Um dia ela
me perguntou o que eu queria fazer. Eu tinha de escolher. E atletismo era muito
cansativo", lembra Valeskinha.
Robson Fernandes/AE  |
| Carolina (à frente) e Isabela de Moraes:
brigas às vezes atrapalham os treinos, mas não as impedem de competir
juntas desde os 8 anos | A ajuda familiar,
às vezes, vem simplesmente de um ambiente tranqüilo. "Da minha família
só recebo energia positiva", diz Gustavo Kuerten, que constantemente carrega
os parentes próximos a mãe, os irmãos e até
a avó para torneios no circuito mundial. Guga também mantém
uma fidelidade rara a outros membros de sua equipe, a começar pelo técnico,
Larri Passos, o mesmo desde a adolescência. Ao longo da carreira, o tricampeão
de Roland Garros ouviu muitas críticas por não procurar um treinador
com mais prestígio internacional, o que supostamente lhe permitiria ir
mais longe na carreira. Guga diz que nunca deu ouvidos: "Quem vai saber se eu
vou ser mais feliz ganhando Wimbledon ou se vou ser mais feliz treinando com o
Larri?"
Claudio Rossi  | Cesar
Loureiro/Ag. O Globo  |
| Flávio Canto (à esq.)
derrotou Tiago Camilo em uma luta polêmica pela vaga em Atenas (foto
à dir.). Agora, os dois treinam juntos, mesmo com a amizade abalada
| Até trabalhando sozinho o atleta
está acompanhado por alguém. O técnico russo do saltador
em altura Jessé Lima morreu há alguns meses. Jessé decidiu
voltar de Portugal e seguir aqui o método do treinador falecido
não achou ninguém no Brasil com o nível que procura. Recebe
apenas a ajuda da namorada, que compete na mesma modalidade. "Você tem de
estar com um técnico em quem confie", explica.
Há, ainda, o caso dos atletas que contam com os próprios rivais
para treinar. Os dois representantes do Brasil na marcha atlética de 50
quilômetros, Sérgio Galdino e Mário José dos Santos
Jr., adversários em todas as competições no Brasil, preparam-se
juntos em Blumenau (SC). "Se você está sozinho, desanima. Quando
tem dois, um pega no pé do outro. Uma rivalidade saudável tem de
existir", diz Galdino. Ela nem precisa ser saudável. Os dois melhores judocas
brasileiros na categoria meio-médio, Flávio Canto e Tiago Camilo,
estão com a amizade abalada desde a seletiva olímpica brasileira.
O primeiro derrotou o segundo na luta decisiva graças a uma polêmica
decisão da arbitragem a dois segundos do final. Canto vai a Atenas para
competir; Camilo, para assistir aos Jogos como seu reserva. O relacionamento dos
dois azedou, mas a disciplina do judô os obriga a treinar juntos. "Já
estive do outro lado e infelizmente só um pode competir", diz Canto. "Treinando
juntos, com o tempo as coisas vão melhorando", prevê Camilo.
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