Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Ninguém vence sozinho

"Um homem apenas não pode ver tudo."
EURÍPEDES
dramaturgo, século V a.C., em As Fenícias

Diz a lenda olímpica que Spiridon Louis, vencedor da primeira maratona olímpica, em 1896, treinava sozinho entre as ovelhas que pastoreava nos arredores de Atenas. Hoje, porém, é praticamente impossível um atleta ganhar uma medalha se não estiver cercado por uma equipe. Treinadores, preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, ortodontistas, massagistas, secretários, assessores de imprensa e empresários são parte integral da vida de um campeão.

Os primeiros assessores da maioria dos atletas são os próprios parentes. A influência familiar começa por um ambiente estimulante para a prática de esportes. Cerca de dois terços dos brasileiros que vão a Atenas têm parentes próximos que foram ou são atletas. Claro, nenhum caso é tão extremo quanto o das gêmeas Carolina e Isabela de Moraes. "Condenadas" não só a competir juntas, mas a fazer os mesmos movimentos, elas representam o Brasil no dueto do nado sincronizado. "Brigamos às vezes. Mas só nos treinos, quando ficamos mais cansadas e nos irritamos mais rápido. São besteiras, como correções de movimentos. O humor se altera, mas nos damos muito bem e nunca pensamos em parar de competir juntas", diz Isabela. Se a intensa convivência nem sempre é fácil, pelo menos uma vantagem traz: "Logo que criamos um movimento novo, ele já sai perfeito desde a primeira tentativa, o que é difícil acontecer com outras atletas".

Filhos de atletas tendem a praticar o mesmo esporte dos pais. Dentre todos os casos de brasileiros destes Jogos com pais ou tios ex-competidores olímpicos, o mais inusitado é o da jogadora Valeskinha, da seleção de vôlei. A mãe dela, Aída dos Santos, disputou os Jogos de Tóquio, em 1964, mas não jogando vôlei – foi quarta colocada no atletismo, na prova do salto em altura. Aída praticava os dois esportes e estimulou a filha a fazer o mesmo, pelo menos até a adolescência. "Um dia ela me perguntou o que eu queria fazer. Eu tinha de escolher. E atletismo era muito cansativo", lembra Valeskinha.


Robson Fernandes/AE
Carolina (à frente) e Isabela de Moraes: brigas às vezes atrapalham os treinos, mas não as impedem de competir juntas desde os 8 anos

A ajuda familiar, às vezes, vem simplesmente de um ambiente tranqüilo. "Da minha família só recebo energia positiva", diz Gustavo Kuerten, que constantemente carrega os parentes próximos – a mãe, os irmãos e até a avó – para torneios no circuito mundial. Guga também mantém uma fidelidade rara a outros membros de sua equipe, a começar pelo técnico, Larri Passos, o mesmo desde a adolescência. Ao longo da carreira, o tricampeão de Roland Garros ouviu muitas críticas por não procurar um treinador com mais prestígio internacional, o que supostamente lhe permitiria ir mais longe na carreira. Guga diz que nunca deu ouvidos: "Quem vai saber se eu vou ser mais feliz ganhando Wimbledon ou se vou ser mais feliz treinando com o Larri?"


Claudio Rossi
Cesar Loureiro/Ag. O Globo
Flávio Canto (à esq.) derrotou Tiago Camilo em uma luta polêmica pela vaga em Atenas (foto à dir.). Agora, os dois treinam juntos, mesmo com a amizade abalada

Até trabalhando sozinho o atleta está acompanhado por alguém. O técnico russo do saltador em altura Jessé Lima morreu há alguns meses. Jessé decidiu voltar de Portugal e seguir aqui o método do treinador falecido – não achou ninguém no Brasil com o nível que procura. Recebe apenas a ajuda da namorada, que compete na mesma modalidade. "Você tem de estar com um técnico em quem confie", explica.

Há, ainda, o caso dos atletas que contam com os próprios rivais para treinar. Os dois representantes do Brasil na marcha atlética de 50 quilômetros, Sérgio Galdino e Mário José dos Santos Jr., adversários em todas as competições no Brasil, preparam-se juntos em Blumenau (SC). "Se você está sozinho, desanima. Quando tem dois, um pega no pé do outro. Uma rivalidade saudável tem de existir", diz Galdino. Ela nem precisa ser saudável. Os dois melhores judocas brasileiros na categoria meio-médio, Flávio Canto e Tiago Camilo, estão com a amizade abalada desde a seletiva olímpica brasileira. O primeiro derrotou o segundo na luta decisiva graças a uma polêmica decisão da arbitragem a dois segundos do final. Canto vai a Atenas para competir; Camilo, para assistir aos Jogos como seu reserva. O relacionamento dos dois azedou, mas a disciplina do judô os obriga a treinar juntos. "Já estive do outro lado e infelizmente só um pode competir", diz Canto. "Treinando juntos, com o tempo as coisas vão melhorando", prevê Camilo.

 
 
Montagem sobre fotos de Bobbo Lauhage/AP