Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Fé ajuda

"Todo homem precisa dos deuses."
HOMERO
poeta, Odisséia, século VIII a.C.

Antes de subir ao ringue, o pugilista Edvaldo de Oliveira ora pedindo a Deus que consiga vencer sem machucar o adversário. Evangélica como ele, a velocista Rosemar Coelho Neto, classificada para os 100 metros rasos em Atenas, diz só ter conseguido o índice para as Olimpíadas graças à fé. "Quando coloquei Deus em primeiro lugar na minha vida, em vez de mim mesma, as coisas mudaram." Sua colega de revezamento Kátia Regina de Jesus diz o mesmo. "Um dia puseram uma faca no meu pescoço. Mas Deus disse que não era minha hora. Se vou às Olimpíadas é porque Ele me deu alguma missão." A amazona Luciana Diniz, católica, encontrou ensinamentos em livros espíritas. Também católica, Vivian, do basquete, lê trechos da Bíblia em busca de inspiração na quadra.

Atletas de todas as modalidades têm em comum o recurso à espiritualidade na busca do equilíbrio interior necessário para a vitória. Como são brasileiros, seu perfil reflete a mistura de religiões característica de parte da população. "Minha mãe era católica, freqüentei a igreja evangélica e acho bonito o espiritismo", diz Helen, da seleção de basquete. "Fui criada na religião católica, mas já fui a cultos evangélicos e espíritas. Não me sinto bem seguindo uma doutrina só", afirma a nadadora Joanna Maranhão. Essa fusão de crenças é especialmente visível no caso do espiritismo. Segundo o último censo, 1,3% dos brasileiros são espíritas. Entre os atletas da delegação olímpica, essa proporção é de 8%. Mas muitos, embora se declarem católicos ou protestantes, são simpatizantes do espiritismo. Lêem, por exemplo, os best-sellers da escritora Zibia Gasparetto. O que quer que se pense desses controvertidos livros atribuídos a espíritos de autores mortos, uma coisa não se pode negar: eles exercem forte influência sobre seus leitores, ou não teriam vendido 5 milhões de exemplares. Um dos "clássicos" de Zibia, O Matuto, mudou a forma de ver o mundo da amazona Luciana Diniz. Aos 18 anos, sem saber direito do que se tratava, comprou a obra no aeroporto, antes de embarcar para uma competição, e nunca mais deixou de ler livros do gênero. Diz que eles ajudam a fazer dela uma esportista melhor. "É a maneira de entender a vida que me atrai no espiritismo. Prepara a aceitação dos abalos da vida, faz a gente ver que não sabe nada e deve tentar evoluir. São coisas positivas, e o atleta tem de ser uma pessoa positiva", explica.

 
Mario Rodrigues
O pugilista baiano Edvaldo de Oliveira: orações para ganhar a luta sem ferir o oponente

Religiosos ou não, esportistas também recorrem à superstição para ganhar confiança na hora de competir. Metade dos entrevistados por VEJA declarou ter algum tipo de mania ou ritual que segue antes de qualquer competição (veja alguns exemplos no quadro abaixo). À primeira vista, parece não fazer sentido que atletas que alcançaram à custa do próprio suor a excelência em sua modalidade recorram a expedientes irracionais. Esse fenômeno, que não se limita ao esporte, foi objeto de estudo de importantes cientistas sociais. O polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942) achou uma explicação. Adepto da tese segundo a qual qualquer costume, em qualquer civilização, desempenha alguma função indispensável, Malinowski concluiu que o recurso à magia, ou à superstição, é inerente ao ser humano diante de uma empreitada que ultrapassa seu conhecimento e seu poder de controle. "Você só recorre a seres ou a potências mais eficientes quando a sua força não chega lá. E atletas precisam muito disso", explica Antônio Flávio Pierucci, professor do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo e autor do livro A Magia (Publifolha).

 
Otávio Magalhães/AE
A velocista Rosemar Coelho (à esq.): índice olímpico depois de voltar para a religião

Os atletas sabem que os rivais também têm sua fé e suas magias (daí o famoso chiste que diz que o campeonato baiano de futebol deveria terminar sempre empatado). Claro, nem todos ganham a medalha de ouro. Isso não os impede de pedir a Deus um pequeno privilégio. "Antes da prova, faço a seguinte oração: 'Sei que todo mundo está pedindo, mas eu estou com medo, sou fraco'", diz Mário José dos Santos Júnior, que disputará em Atenas a prova da marcha atlética. Pouco importa se a oração de Mário funciona: ele acredita que sim, isso é o que importa.

 
 

As manias dos atletas