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Agarre suas chances
Acaso é palavra muito usada quando se fala nos fenômenos do esporte brasileiro. As seis moças ao lado, porém, não são fruto de uma conjunção astral. Se o Brasil pela primeira vez classificou uma equipe completa, de seis ginastas, para os Jogos Olímpicos (privilégio de apenas doze países), é porque já existe por trás delas uma pequena estrutura. O mérito de Ana Paula, Camila, Caroline, Daiane, Daniele e Laís foi aproveitar a oportunidade que passou à frente delas. Todas devem a iniciação esportiva à existência de alguma instalação esportiva na vizinhança de casa. Daiane foi vista por uma professora de ginástica fazendo piruetas nos brinquedos da escola onde estudava. Ana Paula Rodrigues, Camila Comin e Caroline Molinari começaram na escolinha de ginástica de uma praça em Curitiba. Daniele Hypólito viu a ginasta Luisa Parente nas Olimpíadas de Seul e pediu à mãe que a inscrevesse em uma escola de Santo André. Laís Souza iniciou-se em uma escolinha de Ribeirão Preto (SP). A combinação do potencial das seis
com uma estrutura que permitisse desenvolvê-lo só veio no
ano seguinte, quando a Confederação Brasileira de Ginástica
importou o técnico ucraniano Oleg Ostapenko e sua equipe e montou
em Curitiba um "centro de excelência" para as melhores ginastas
brasileiras. As notas de todas, mesmo as menos conhecidas, só têm
feito subir. No campeonato brasileiro disputado no mês passado,
Camila conseguiu 9,567 nas barras assimétricas; Ana Paula, 9,534
no mesmo aparelho; Laís, 9,384 no salto sobre o cavalo. Um ano
atrás, na mesma competição, as notas das três
nesses exercícios foram, pela ordem, 8,300, 9,475 e 9,050. "Estamos
conseguindo muitos movimentos novos e nos aperfeiçoando cada vez
mais", diz Ana Paula, atual campeã brasileira geral. Ainda falta
muito para que as seis sejam candidatas a uma medalha por equipe, mas
com notas como essas não darão vexame em Atenas.
Se a ginástica brasileira já é
capaz de levar ao ápice uma atleta talentosa, ainda precisa evoluir
em outro aspecto crucial, a detecção de talentos. Descobrir
crianças que podem se tornar campeãs, onde quer que estejam,
é crucial para que Daianes deixem de ser exceção.
No Brasil, apenas dois esportes resolveram esse problema: o futebol e
o vôlei. O primeiro se desenvolveu sem nenhum planejamento
a paixão de qualquer menino e a ambição de lucro
de olheiros e empresários garantem que praticamente nenhum bom
jogador passe despercebido. O vôlei teve de montar a própria
estrutura. Peneiras anuais nas grandes equipes atraem todo jovem com bastante
altura e algum talento. Cinco jogadores da atual seleção
masculina e três da feminina passaram por essas seleções
impiedosas no início da carreira. A do Banespa, a mais famosa do
país, atraiu 584 jovens de 113 cidades no ano passado. Apenas treze
foram aprovados e integrados às equipes juvenis do clube. Jogador
mais alto da seleção masculina de vôlei, com 2,04
metros, Rodrigo Santana, o Rodrigão, foi um caso assim. Aos 14
anos, já tinha 1,88 metro. "Vi na TV que ia ter uma peneira no
Banespa e fui. Não sabia jogar muito, mas me pegaram por causa
da altura", lembra. Três anos depois, já atuava ao mesmo
tempo em duas seleções brasileiras, a juvenil e a infanto-juvenil.
Outros esportes também organizam peneiras, ainda que em menor escala. O Projeto Futuro, que seleciona garotos no estádio do Ibirapuera, em São Paulo, impediu que boa parte da atual equipe nacional de atletismo desistisse precocemente do esporte. O campeão de salto triplo Jadel Gregório é o melhor exemplo. Mas para que esses atletas cheguem a uma peneira é preciso que eles tenham se destacado em algum lugar. É aí que entram os clubes, a base da pirâmide. Jadel começou no Sesi de Marília. Criados para proporcionar lazer aos empregados da indústria, os clubes recreativos do Serviço Social da Indústria se tornaram um celeiro de atletas olímpicos no Brasil. Catorze integrantes da delegação passaram pelas quadras, pistas e piscinas do Sesi no início da carreira. Eles souberam aproveitar suas chances. |