Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Artigo: BERNARDINHO
Técnico da seleção masculina de vôlei

Uma equipe vencedora


Cristina Granato
Divulgação Federação Internacional de Vôlei
Bernardinho atleta, em Los Angeles, em 1984 (à esq.), e técnico, na final da Liga Mundial, no mês passado: experiência dentro e fora da quadra

Nestes Jogos Olímpicos, os heróis do esporte terão sua carreira analisada, seu percurso escrutinado, em busca das razões de seu sucesso. Como resistir às pressões de uma empreitada olímpica? Como manter o foco quando há tantas distrações? Até onde esses seres especiais podem ter suas "cordas" esticadas por seus treinadores? São perguntas que faço a mim mesmo. Estudar a vida dos grandes campeões sempre me interessou – tenho centenas de livros a respeito: muitos, por exemplo, sobre os treinadores do esporte americano – e tem ajudado em minhas tentativas de formar equipes vencedoras.

Creio que há uma equação que descreve bem a trajetória dos grandes campeões: dedicação + talento. A dedicação pode ser definida como a força inesgotável que permite seguir em frente. É a busca constante da capacitação através do treinamento e da grande disciplina que esse processo exige. O segundo elemento, o talento, também é muito importante. Certa dose é necessária, mas nem sempre os grandes campeões são os mais talentosos. São, isso sim, aqueles que conseguem usufruir e desenvolver o dom que têm. Mas há um elemento que faz essa equação realmente dar resultado: a paixão que observamos no olhar dos grandes campeões, a intensidade em suas ações. O principal exemplo, para nós, brasileiros, é Ayrton Senna.

Além do fascínio que esses grandes campeões exercem sobre as pessoas, há outro elemento no mundo olímpico que me encanta ainda mais: os times campeões. É preciso buscar entender como funcionam os mecanismos dessas equipes, a importância e a função de seus elementos. Entender o papel e o valor do líder, aquele que inspira, mesmo que assuma, em prol do grupo, posições nem sempre populares. Que segredos, que estratégias usam os grandes treinadores, os capitães com seus times? São "conhecedores de pessoas", que conseguem, através de métodos de exigência e/ou recompensa, extrair o máximo de seus atletas. Como Bela Karolyi, o técnico de Nadia Comaneci e, mais tarde, da equipe americana de ginástica, fez sua pupila Kerri Strug ganhar a medalha de ouro saltando com o tornozelo torcido, em 1996? Ninguém a obrigou a fazer aquilo. Não adianta o líder gritar se não estiver envolvido, se não souber ler os sinais que o atleta envia. Isso é um exercício diário.

A importância dos supertalentos nas equipes é proporcional à influência deles sobre os companheiros. O valor de um Michael Jordan, por exemplo, não vinha apenas da capacidade de fazer 60 pontos em um jogo, mas sim por fazer os jogadores a sua volta atuarem melhor.

De que forma grandes equipes constroem o comprometimento necessário para dar consistência a sua trajetória? A única resposta que encontro está no dia-a-dia do treinamento intenso e obstinado, todos buscando a excelência constantemente, entendendo que são peças fundamentais de uma grande engrenagem. O esporte nos mostra que não há grandes campeões que nunca tenham sido derrotados. Mas certamente nunca deixaram de tentar novamente, com mais intensidade e de formas diferentes.

As pessoas, muitas vezes, acreditam que eu seja intransigente, ou excessivamente exigente. Mas como não se arrepender se não temos convicção de que demos 100% de nós?