![]() |
| ||||
|
O que devemos aos gregos A
maior herança deixada pelos jogos da antiguidade
No livro Paidéia (1934), uma análise da formação do homem grego que se tornou um clássico, o intelectual alemão Werner Jaeger (1888-1961) afirma: "Não é possível descrever em poucas palavras a posição revolucionária da Grécia na história da educação humana". O próprio termo "paidéia", de difícil tradução, dá uma idéia da abrangência da influência grega em nossa vida: engloba ao mesmo tempo civilização, cultura, educação e tradição de um povo. Muitas das idéias que ainda se discutem em vários domínios política, ciência e filosofia, por exemplo são ecos do que já pensavam os gregos mais de vinte séculos atrás. Os Jogos Olímpicos são, no fundo, a manifestação mais caricata dessa influência. Idéia improvável surgida no fim do século XIX, graças a uma mistura de interesse pelo esporte e pelo legado dos gregos, a ressurreição das Olimpíadas deveu-se sobretudo ao idealismo de um aristocrata francês, o barão Pierre de Coubertin, e ao empurrão de um milionário grego, George Averoff, que bancou a aventura em 1896. Neste ano, quando os Jogos voltam a Atenas pela primeira vez desde a edição inaugural, o lado pastiche das Olimpíadas modernas estará mais evidente do que nunca. Cerimônias como o acendimento do fogo olímpico, em Olímpia, por moças de vestido e efebos tocando flauta de Pã, ou o revezamento da tocha olímpica que percorreu o planeta pouco têm a ver com o que realmente ocorria durante os doze séculos (VIII a.C. a IV d.C.) de existência dos Jogos na Antiguidade. O estádio Panatenaico, palco da chegada da maratona no próximo dia 29, embora construído no século IV a.C., fica bem longe da Olímpia onde os gregos realmente competiam (a prova de arremesso de peso, porém, será disputada em Olímpia, em uma tocante reverência ao passado). A marca da cultura grega mais importante nos Jogos
não tem relação com estádios ou cerimônias.
A herança mais viva dos gregos são o gosto pela disputa esportiva
e a transformação dos campeões em ídolos. "Na Hélade
(sinônimo erudito para Grécia) antiga, o espírito de competição
e o ideal esportivo adquiriram uma posição vital na vida social
pela primeira vez na história da humanidade", explica Geórgios Khristópoulos
no livro Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga (editora Odysseus),
fonte das imagens da Antiguidade que ilustram estas páginas. No calendário
grego, contavam-se os anos pelas Olimpíadas, o que dá uma idéia
da importância atribuída a elas. Nos textos gregos que chegaram até
nós, abundam exemplos da glorificação dos heróis coroados
com os louros da vitória nas Olimpíadas.
Os
Jogos eram, como hoje, disputados no verão. Um armistício era declarado
em todo o mundo helênico, para que os campeões de cada cidade viajassem
em segurança para Olímpia (hoje o Comitê Olímpico Internacional
tenta ressuscitar a idéia de uma trégua olímpica, sem sucesso,
embora o líder palestino Yasser Arafat tenha anunciado recentemente seu
apoio). A cidade atraía filósofos, poetas e artistas. "Tratava-se
de um festival de caráter não apenas esportivo, mas também
religioso, político e artístico", diz Nelson Todt, professor da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e membro da
Academia Olímpica Brasileira. Qualquer um podia assistir aos Jogos, menos
as mulheres casadas as que transgredissem essa regra eram jogadas do alto
de uma rocha. Só se sabe de uma que foi perdoada: chamada Calipatira, invadiu
a arena para abraçar o filho e deixou o disfarce cair. Mas acabou absolvida,
por ser mãe, irmã e filha de campeões olímpicos. A
programação variou ao longo dos séculos, mas em geral os
Jogos duravam cinco dias. Os atletas chegavam a Olímpia com um mês
de antecedência e apenas os que se mostrassem bem preparados podiam competir.
Muitos contratavam treinadores profissionais. Os campeões das provas
corridas a pé e com cavalos, lutas, arremessos, saltos recebiam
uma coroa de ramos de oliveira selvagem, originalmente plantados por Hércules
(Héracles, em grego), segundo a lenda. Corriam nus tradição
surgida, conta-se, quando um atleta perdeu a roupa em plena corrida. Violação
das regras como suborno ou quebra do armistício, por exemplo
era punida com multas, eliminação ou até açoitamento.
Poucos desses detalhes
sobreviveram nos Jogos de hoje, mas há pelo menos mais uma semelhança
importante: a exaltação da vitória de um atleta como a vitória
de uma nação. "O atleta não participava como indivíduo.
Ele incorporava a identidade de sua cidade", explica Katia Rubio, psicóloga,
professora da Universidade de São Paulo e autora do livro O Atleta e
o Mito do Herói (Casa do Psicólogo). Assim como neste ano os
brasileiros torcerão por Daiane dos Santos e os espanhóis, por Elena
Gómez, na final do solo, também atenienses, espartanos, coríntios
e outros povos que compunham a Grécia vibravam com as façanhas de
seus patrícios. Os cidadãos de Tassos ergueram uma estátua
em louvor de Teágenes, campeão de pugilismo e pancrácio (um
tipo de luta livre). Leônidas de Rodes, uma espécie de Carl Lewis
da Antiguidade, foi tetracampeão olímpico em três diferentes
provas de corrida e ganhou status de divindade. Mais de 2 000 anos depois dessas
façanhas, Atenas se prepara para transformar em deuses seus novos heróis.
|