Índice
Carta ao leitor
Cenários: As parcerias entre grandes empresas na disputa pelo mercado global
Entrevista: John Battelle, autor de um livro que disseca o Google
Celulares: Os modelos que fazem sucesso no mundo inteiro
Foto digital: Um guia para armazenar, compartilhar e imprimir suas imagens
Informática: Vem aí a próxima geração de processadores, de 64 bits
TV digital: O Brasil adota um padrão de alta definição semelhante ao japonês
Medicina: Os novos equipamentos que mostram detalhes milimétricos do corpo humano
Inteligência: Ela já chegou às roupas, aos carros e aos eletrodomésticos
Sem fio: Como funciona o WiMax, que permitirá acesso à internet de banda larga em cidades inteiras
Entrevista: Jean Paul Jacob, o futurólogo brasileiro da IBM
Games: Os novos jogos e máquinas que transformaram o entretenimento em arte
Tradução: O primeiro software que ouve uma frase em um idioma e a pronuncia em outro
Rádio: A transmissão digital chega ao Brasil e renova um velho meio de comunicação
MP3: Por que o iPod faz tanto sucesso com suas diferentes versões
Entrevista: Ted Nelson, o pai do hipertexto, critica a internet atual
Guia de produtos: Os lançamentos no mercado de eletrônicos deste fim de ano
Celulares
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TV e home theater
DVDs
Tocadores de MP3
Aparelhos de som
Som do carro
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"O celular será um supercomputador"


José Edward


Bia Parreiras
"Não existe personalização maior do que esta: a TV que só transmite o que o usuário quer"

Futurólogo militante, o engenheiro eletrônico Jean Paul Jacob – que, apesar do nome afrancesado, é paulistano – previu com vários anos de antecedência muitas das tecnologias que se incorporaram ao dia-a-dia de cidadãos do mundo inteiro nos últimos anos. Na década de 1980, por exemplo, ele profetizou o surgimento dos computadores portáteis, das câmeras digitais e dos eletrodomésticos inteligentes. Aos 65 anos, 42 deles atuando como pesquisador da IBM nos Estados Unidos, Jacob continua a exercitar-se na bola de cristal. Nesta entrevista, entre outras previsões, afirma que, em pouco tempo, telefones celulares e videogames portáteis serão tão potentes quanto supercomputadores e que, no máximo em três décadas, o livro de papel será substituído por um similar digital.  

Veja – Quais inovações tecnológicas serão incorporadas ao dia-a-dia das pessoas nos próximos anos?

Jacob – Costumo dizer que o celular está se transformando numa espécie de canivete suíço digital, que oferece, ao mesmo tempo, cada vez mais e variados serviços. A convergência tecnológica ocorre de forma espetacular nos celulares. Cada vez mais esse aparelhinho funcionará como um computador, que permitirá ouvir músicas, ver vídeos, transmitir dados, acessar a internet, caixas eletrônicos e máquinas de refrigerantes, entre outros. Em algumas cidades da Europa e da América do Norte, até os parquímetros estão interligados à internet por redes de comunicação sem fio, o que permite que os motoristas paguem o estacionamento pelo celular.  

Veja – Além do celular, que outros equipamentos se beneficiarão da convergência?
Jacob – Os videogames. A tendência é que sejam acopladas cada vez mais funções a esses aparelhos. A IBM, por exemplo, está desenvolvendo um poderosíssimo processador, o Cell Chip, que é na verdade um supercomputador com dez vezes mais potência que os chips comuns. Ele permite que os videogames se transformem em computadores pessoais nos quais o usuário, além de jogar, poderá ver TV e acessar a internet, entre outras funções. Esse superchip será lançado oficialmente em 2006, mas já está sendo testado em games da Sony e em TVs da Toshiba. Graças a ele, já é possível, por exemplo, ouvir MP3, ver fotos e assistir a filmes no Playstation portátil, da Sony.  

Veja – O senhor daria outro exemplo de aplicação desse superchip?

Jacob – Ele permitirá também que os gamemaníacos fiquem plugados o tempo todo na web e possam, por exemplo, acessar internet banking a partir do videogame. Além disso, como teremos uma enorme quantidade de games em rede, é possível que haja uma grande expansão de jogos educacionais ou pedagógicos. As escolas poderão aproveitar a destreza que os jovens têm com aqueles botões e programar cursos mais atrativos, por meio de jogos.

Veja – Que outras tendências o senhor vê?

Jacob – A massificação com personalização dos serviços e do entretenimento. Ou seja: a possibilidade de produtos fabricados em massa poderem ser adaptados aos gostos e interesses de usuários específicos. O melhor exemplo nessa área é a TV digital. No futuro, todos os aparelhos de TV serão idênticos, mas cada pessoa vai poder formatar a seu bel-prazer a programação. Você "dirá" à TV os assuntos de sua preferência e ela selecionará automaticamente em todos os canais os programas disponíveis que atendem ao seu perfil. À noite, quando voltar para casa, terá um canal preparado exclusivamente para você. No futebol, por exemplo, será possível selecionar apenas os jogos do seu clube. Melhor ainda: no caso de derrota dele, para não se aborrecer muito, você poderá ordenar que seja gravado apenas o compacto do jogo. Não existe personalização maior do que esta: a TV que só transmite o que cada indivíduo quer.  

Veja – A TV de alta definição é realmente um ganho para o consumidor ou apenas uma "necessidade" criada pelo mercado e imposta ao público?

Jacob – É, sem dúvida, um grande avanço para o consumidor, porque associa alta definição com digitalização. Há uma série de vantagens, como o fato de o telespectador estar assistindo a um programa, clicar em algum objeto ou personagem na tela e poder obter, instantaneamente, mais informações sobre ele. Teremos, enfim, uma televisão personalizada e inteligente.  

Veja – E os home theaters?

Jacob – Os home theaters terão alto-falantes altamente direcionados, de tal forma que duas pessoas poderão ver canais e ouvir músicas diferentes, simultaneamente, no mesmo aparelho, cada uma com seu controle remoto. Através de efeitos holográficos ou de imagens polarizadas, pessoas sentadas em ângulos diferentes poderão ter áudio e imagens direcionados exclusivamente para elas.  

Veja – Se celulares e outros equipamentos vão assumir o papel de computadores pessoais, qual será o futuro dos notebooks?

Jacob – Os notebooks já chegaram ao que chamo de platô de produtividade. A tendência é que o formato atual seja rapidamente transformado ou substituído por uma série de instrumentos muito menores, mas com capacidade para executar as mesmas funções, além de outras, como os já citados celulares e videogames.  

Veja – Quais as vantagens desse acesso às tecnologias por vários meios?

Jacob – Costumo dizer que a web recolocou o homem no centro do universo. Hoje, a grande demanda, em termos de tecnologia, é poder acessar e conectar pessoas, informações e entretenimento a qualquer hora e em qualquer lugar. Junto com essa onipresença da tecnologia, o que se pretende é que ela seja embarcada em aparelhos que possam estar com o usuário o tempo todo. E, de preferência, que caibam no bolso ou na bolsa.  

Veja – O senhor sustenta a profecia que fez recentemente de que, dentro de no máximo três décadas, o livro de papel será substituído pelo livro eletrônico ou digital?

Jacob – Na década de 1980, quando eu dizia que o disco de vinil ia acabar, quase era apedrejado. Pois dou minha cara a tapa novamente: o livro em papel vai estar para o digital assim como o vinil está, hoje, para o CD ou o DVD. O conceito de livro não desaparecerá, mas você precisará comprar apenas um em toda a vida. O conteúdo será todo colocado em um chip de memória ou na internet, assim como ocorre hoje com os celulares. Já existem livros digitais apenas para ouvir, que podem ser baixados em palmtops, celulares e iPods.  

Veja – O que faz uma tecnologia "pegar" e outras não?

Jacob – A boa tecnologia é a que se traduz numa ferramenta que permite solucionar problemas ou criar situações socioeconômicas, culturais e políticas desejáveis. Uma empresa americana testou um telefone celular de papel feito com material biodegradável. A idéia era que o usuário o utilizasse por uma ou duas horas, como pré-pago, e o descartasse. Estudos de mercado revelaram, entretanto, que um equipamento do gênero, pelo menos por enquanto, não é socialmente aceitável. A tecnologia existe. Falta apenas viabilizá-la comercialmente.  

Veja – Que fatores interferem na velocidade de viabilização de uma nova tecnologia?

Jacob – Vários, como a estratégia de comunicação e, sobretudo, a aceitação do público. A velocidade de percurso, do disparo da tecnologia até sua viabilização, é diferente para cada produto. Em média, uma tecnologia que pega se torna madura em cinco anos, sendo que as grandes tecnologias conseguem se viabilizar com a metade desse tempo. O CD, por exemplo, demorou menos de dois para atingir a maturidade comercial. Já o celular precisou de mais de cinco anos, pois inicialmente era uma tecnologia muito cara. Alguns produtos, como o videofone, talvez levem um século para se viabilizar.