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Gente
Endiabrada, tatuada
e muito responsável
Em cinco anos, Diablo Cody foi de um
clube de strip-tease para o palco do Oscar.
E, pelo jeito, isso é só o começo
"O que está acontecendo?",
Diablo Cody indagou. Era sua primeira vez no Kodak Theatre, local
onde se realiza anualmente a cerimônia do Oscar. Trajando
um nada discreto vestido de oncinha, com os ombros e tatuagens à
mostra, Cody debutava em grande estilo. Do alto do palco, abraçada
à recém-entregue estatueta dourada, ela balbuciava
alguns nomes de amigos e palavras de agradecimento em um misto de
êxtase e incredulidade. Era um domingo de novidades para essa
jovem de 29 anos e para a indústria do cinema. Diablo, uma
estreante pé-quente, vencera na categoria de roteiro original
por Juno, o primeiro filme que escrevera. "Pela primeira
vez, essa coisa brilhante na minha mesa não é uma
lata de cerveja", brincou.
Não há como não simpatizar
com essa diaba de cabelos escuros e olhos claros. Assim como Juno,
a personagem que dá nome ao filme, Diablo Cody é irreverente,
espontânea e, portanto, impossível de resumir com adjetivos
cuja banalidade destoa do frescor e autenticidade que há
nela. A roteirista é do tipo de mulher que gosta de se reinventar
a cada estação. O jeito como fala, se veste ou até
mesmo como leva a vida está repleto de particularidades
não confundir com excentricidades.
Ex-aluna da prestigiada Benet Academy, colégio
católico nos arredores de Chicago, há nem cinco anos
Diablo era conhecida apenas como Brooke Busey, seu nome de batismo.
Brooke, que na adolescência adorava boy bands e falava com
as amigas em um telefone em formato de hambúrguer, como o
que Juno tem no filme, formou-se em comunicação na
Universidade de Iowa e foi trabalhar em uma agência de publicidade.
Entediada com o emprego, decidiu adotar um novo nome (escolhido
com a ajuda do designer gráfico Jonny, de quem está
recém-separada mas do qual continua amicíssima), tirar
a roupa e dançar para o heterogêneo público
masculino do Skyway Lounge, uma casa de strip-tease em Minneapolis.
Começou na "noite das amadoras", em que aspirantes
sobem ao palco para testar seu apelo junto à platéia.
Tomou tanto gosto pela arte de se despir e rebolar rente ao cano
de aço que largou a publicidade para trabalhar em período
integral como stripper. "A maioria das meninas estava lá
por necessidade", disse. "Eu não. Eu gostava de
fazer strip-tease e ainda ganhava por isso." As histórias
vividas no Skyway Lounge eram contadas em um blog, e o jeito bem-humorado
com que Diablo as relatava chamou a atenção de Mason
Novick, um agente de talentos de Los Angeles, que a convenceu a
escrever um livro sobre o assunto. O autobiográfico Candy
Girl: A Year in the Life of an Unlikely Stripper foi publicado
em 2005, mesmo ano de lançamento do genérico brasileiro,
Doce Veneno do Escorpião, da ex-prostituta Bruna Surfistinha.
Juno nasceu nesse mesmo período. Novick
sugeriu que Diablo escrevesse uma amostra de roteiro com que ele
pudesse fazer a ronda dos estúdios de Hollywood, a fim de
vender a algum produtor a idéia de transformar em filme a
singular história da garota de colégio católico
que se reinventa como stripper. Mas o teste saiu tão bom
que Diablo ganhou uma nova carreira de roteirista premiada.
Em entrevista concedida antes da cerimônia do Oscar, quando
lhe perguntaram se já tinha um discurso pronto sob a alcinha
do vestido indiscreto, para o caso de levar a estatueta, Diablo
afirmou estar tão despreparada quanto sempre esteve diante
de todos os acontecimentos de sua vida.
Pode-se mesmo dizer que o curso frenético
que ela tem seguido saiu exatamente conforme o não planejado.
O que não quer dizer que falte estofo à nova atração
de Hollywood. A história de Juno, uma garota de 16 anos que
engravida acidentalmente na primeira relação sexual
e opta por deixar a barriga crescer para que o bebê seja adotado
por um casal bem de vida, mas infértil, é de uma maturidade
irrefletida. A protagonista é uma adolescente que sabe menos
sobre a vida do que acredita saber mas mais do que os adultos
à sua volta imaginam. É mais ou menos como aquela
outra história, a da dançarina de cabaré da
qual se espera apenas ultraje e escracho e na qual se encontram
sensibilidade, perspicácia, humor e uma tremenda capacidade
de sintetizar tudo isso em um roteiro afiado.
Em se tratando de uma figura celebrizada pela
indústria do entretenimento, porém, onde tudo é
calculado e nada é deixado ao acaso, é justo questionar
se tanta autenticidade não é fruto exatamente de seu
oposto da habilidade para criar uma imagem. Competência
para forjar tal ilusão Diablo teria de sobra, já que
fez escola em um métier no qual o sucesso está em
mostrar sem de fato revelar. Os pesos-pesados da indústria,
porém, parecem ter descartado essa hipótese em favor
do veredicto de que Diablo é, sim, uma voz nova e genuína
além de uma profissional confiável. Steven
Spielberg, que não costuma cometer erros, colocou sobre os
ombros tatuados de Diablo a responsabilidade (e o considerável
investimento financeiro) de escrever a série de televisão
The United States of Tara, já em fase de produção.
Nem mesmo o homem mais experiente e influente do cinema americano
escapou do charme dessa jovem endiabrada.
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