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Fertilidade
Adiar, nem pensar
A medicina da reprodução
avança a passos
largos, mas os especialistas são unânimes:
é melhor engravidar antes dos 35
Primeiro, está-se no momento
de pensar no estágio, e então no emprego. Depois,
vêm a academia, uma horinha aqui e ali para namorar, mais
a promoção (aquela que você tanto fez por merecer
no trabalho e a do namorado a, quem sabe, marido). Segue-se a resolução
de parar de pagar aluguel e comprar um apartamento e lá
vem mais trabalho. Com tanto em que pensar, sempre tem alguma coisa
que fica de fora da agenda. E o que era mesmo essa coisa?, perguntam-se
as mulheres em todos os países em que elas trabalham (muito,
cada vez mais, e bem, cada vez melhor). Ops, elas lembram, quase
sempre quando o ponteiro do relógio biológico já
vai lá pela 25ª hora faltou engravidar.
Adiar o primeiro filho é
uma tendência mundial, estimulada pelas aspirações
profissionais e propiciada pela medicina, que hoje dá a mulheres
transbordando os 40 anos a oportunidade de se tornar mães.
Entre as americanas, estima-se que duas em cada dez deixam para
ter o primeiro filho depois dos 35 anos. No Brasil, onde não
há estatísticas oficiais, uma pesquisa feita com 800
mulheres pela psicóloga Cecília Russo Troiano, autora
de Vida de Equilibrista Dores e Delícias da Mãe
que Trabalha (editora Cultrix), mostrou que um terço
delas adiou repetidas vezes o plano de engravidar. Na confluência
entre as mudanças culturais e o progresso científico,
já se redefiniu até o que é uma primigesta
idosa expressão que de bonita não tem nada,
mas exprime uma noção fundamental: a faixa a partir
da qual uma gestação inspira cuidados especiais pela
simples idade da gestante. Três décadas atrás,
uma mulher caía nessa categoria já aos 28 anos. Hoje,
ela abrange as grávidas a partir dos 35 anos. E ninguém
há de dizer que esses sete anos de lucro não compõem
um considerável espaço de manobra.
Nem tudo o que é possível,
porém, é desejável ou ideal. Por mais dramáticos
que sejam os avanços na área da medicina reprodutiva
e pré-natal, e por mais reconfortante que seja a sensação
de segurança que esses progressos criam nos casais que esqueceram
de abrir espaço para o primeiro filho na agenda, as dificuldades
que uma aspirante a mãe enfrenta a partir dos 35 anos são
reais. Às vezes, penosamente reais. A fertilidade feminina
pode ser descrita como uma curva, que começa a cair suavemente
após os 25 anos e agressivamente depois dos 35. "Um
casal jovem tem 80% de chance ao ano de engravidar se tiver vida
sexual ativa", diz o ginecologista Pedro Augusto Monteleone,
especializado em reprodução humana. Mais tarde, a
história muda, e o próprio ato de conceber se torna
um problema potencial, como sabe qualquer um que conheça
(e, hoje em dia, quem não conhece?) um casal que tenha atravessado
essa experiência freqüentemente crivada de dúvida
e angústia. Complicação adicional: a concepção
é mais difícil não só pelo ótimo
método natural, como também pela não raro sofrida
(e cara) fertilização in vitro. "Aos 40 anos,
uma mulher tem uma fração das chances de engravidar
que tinha até os 30", explica Emerson Barchi Cordts,
coordenador clínico do departamento de reprodução
humana da Faculdade de Medicina do ABC. Isso acontece porque a mulher
já nasce com todos os óvulos que vai usar para gerar
filhos. Com o passar dos anos, esses óvulos envelhecem e
perdem qualidade, o que dificulta a formação de embriões.
Ou seja: ainda que com persistência
e boa assistência as chances de sucesso de uma fertilização
sejam muito razoáveis (frise-se: não garantidas),
é preciso contabilizar o custo emocional acarretado pela
montanha-russa de visitas a consultórios, pelas tentativas
que falham até dar certo, pelo stress sobre o dia-a-dia e
sobre a vida sexual dos parceiros e pelos abortos espontâneos,
aos quais as mulheres mais velhas estão especialmente sujeitas.
Há que lidar ainda com um fantasma: o risco de o bebê
apresentar alterações cromossômicas como a síndrome
de Down. Segundo o Centro de Controle e Prevenção
de Doenças dos Estados Unidos (CDC), quando a mãe
tem 20 anos, apenas um bebê em cada 1 500 tem probabilidade
de nascer com Down. Em filhos de mães de 35 anos, a ocorrência
é seis vezes maior: uma criança a cada 250 nascimentos.
Aos 45 anos, a taxa salta para até 4%, ou um bebê a
cada 25 nascimentos.
Outros obstáculos, menos
vultosos mas ainda assim delicados, assomam no horizonte das mães
tardias. Qualquer mulher que já tenha passado dos 30 sabe
que aquele quilo extra que se perdia com tanta facilidade de repente
finca o pé e se recusa a ir embora. Com a gravidez, a briga
com a balança se agrava. "É preciso ter muita
disciplina: começar a gravidez já mais leve, manter
atividade física antes, durante e depois do parto e seguir
uma dieta rica em proteínas, fibras e vegetais e pobre em
açúcares e carboidratos", ensina o ginecologista
e obstetra Alberto DAuria, diretor clínico da Maternidade
São Luiz. Não se trata de frivolidade: se os centímetros
indesejáveis parecem irrelevantes diante do sonho de ter
um bebê, depois eles quase certamente constituirão
um aborrecimento profundo. Para a maioria das mulheres, o sobrepeso
abate a auto-imagem, o prazer com o sexo, a energia para cuidar
de uma criança pequena e assim contribui para que
a mãe alimente o sentimento negativo de que não chegou
lá apenas tarde, mas tarde demais.
Esse é um sentimento que
pode facilmente se desdobrar também na esfera do convívio
social do descompasso com as amigas que já têm
filhos há tempos, ou não os têm, ao pavor de
ser confundida com a avó da criança na porta da escolinha.
A antropóloga Cynthia Sarti, da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp), acredita que o segredo para evitar essas armadilhas
está na responsabilidade com que a mãe tardia encara
a concepção. "Diante de todas as possibilidades
que a medicina nos oferece, a decisão de ter um filho passa
a ser ética. A futura mãe tem de ter condições
de criar, educar e amar aquela criança. E, para tanto, a
escolha do momento é hoje fundamental", diz. A mulher
que se sente pressionada a conceber estará vulnerável
aos dilemas que atingem as mães tardias; aquela que está
segura da decisão de gerar um filho será bem-aceita,
seja qual for sua idade. Só um conselho, reforçam
os especialistas: que essa idade não passe demais dos 35...
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