Carta ao leitor

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Por que homens e mulheres são tão diferentes

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Seis brasileiras à frente de grandes negócios

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Como economizar mais de 5000 reais ao ano na conta da casa

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Retrospectiva Veja 40 anos
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Sociedade
As verdadeiras rainhas do lar

As mulheres já chefiam 30% das residências
do país, e são as preferidas na hora de receber
benefícios: responsabilidade é o que não lhes falta

A diretora editorial Soraia Reis, de 41 anos, dirige carro do ano, mora num confortável apartamento de três quartos no Jardim Marajoara, na Zona Sul de São Paulo, e, em feriados prolongados e nas férias, hospeda-se em endereço também próprio na Praia de Pitangueiras, no Guarujá. Nas últimas semanas, ela tem sonhado com a casa de campo que vai construir em Águas de Santa Bárbara. "Ganhei o terreno de 450 metros quadrados em um sorteio de supermercado", diz. Fora a sorte do bilhete premiado, todo o resto foi ela quem conquistou. Além de garantir a própria sobrevivência, Soraia sustenta econômica e emocionalmente as duas filhas, Deborah e Luiza, de 15 e 10 anos, e a mãe, Nilza, de 79 anos (fora os "agregados" da família, o gato Chã e o cachorro Bob). Sempre que pode, acode ainda um ou outro membro da família com problemas financeiros ou pessoais. É assim desde 2002, quando o segundo casamento de Soraia acabou – época em que ela já trabalhava, havia alguns anos, com divulgação e edição de livros na Ática, Ediouro e Rocco. Em 2004, ela se mudou para São Paulo para montar o escritório da Larousse, do qual logo virou diretora editorial. No fim do ano passado, foi convidada a trabalhar com Paulo Rocco novamente, na recém-montada editora Prumo.

Histórias como a de Soraia Reis são cada vez mais comuns. Segundo pesquisa feita em agosto de 2006 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30% das trabalhadoras das seis maiores regiões metropolitanas do país – Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre – são as principais responsáveis pelo sustento financeiro da casa. E esse número está crescendo. Em 2003, a mesma pesquisa apontara 26% das trabalhadoras nessa situação. Tipicamente, essa é uma mulher de seus 40 anos que, na metade dos casos, mora sozinha com os filhos. Nem 13% delas recebem mais do que cinco salários mínimos. Conforme explica a técnica do IBGE Luciane Kozovits, a tendência de as mulheres chefiarem a casa começou na década de 90 e decorre de um conjunto de fatores – entre os quais, claro, o aumento da participação de mulheres mais velhas no mercado de trabalho e a crescente independência econômica feminina.

Sócia-fundadora da Co.R, empresa especializada em criação de novas estratégias de marketing, tecnologia e comunicação, a publicitária Rita Almeida é a chefe e a provedora de sua família. Com dois casamentos desfeitos, ela vive hoje com os filhos Paulo, de 23 anos, e Gabriela, de 13. Em casa, quem dá as ordens, decide os horários, enche a geladeira e compra as roupas é Rita. "Sempre fui dona do meu nariz. Fiquei casada enquanto a felicidade a dois durou. Quando não dava mais certo, eu me separava", diz Rita, do alto de uma carreira com passagens de destaque por agências como Talent, Loducca e AlmapBBDO – e que rendeu bordões célebres nacionalmente, como "os nossos japoneses são mais criativos que os dos outros", criado para a Semp Toshiba. No momento, o portfólio da empresa da qual é sócia tem entre seus clientes pesos-pesados como o Banco Real, a MasterCard, os postos Ipiranga e a Oi.

A administradora Paulina Arena é outra que ilustra bem os números do IBGE. Depois de década e meia casada, ela se separou em 1998, mas manteve com o ex-marido uma camisaria masculina. Seis anos mais tarde, as diferenças que haviam causado o divórcio minaram também a sociedade. Paulina vendeu sua parte no negócio e teve de se reinventar. Foi seu personal trainer quem apareceu com a solução: ele treinava também o casal Ronaldo e Beth Cavichioli, dono da marca Erva Doce, que procurava um profissional para administrar sua rede de lojas. Paulina ficou com o cargo e, hoje, mora sozinha com o filho Francisco, de 21 anos, num apartamento no Morumbi. Mantém a casa e viaja com seu sustento e se orgulha de ter ajudado o filho a comprar o segundo carro. "Trabalho loucamente. Mas, no fim de semana, quando junto amigos, filho e a namorada dele em torno dos meus risotos, vejo que vale a pena", diz.

Outra que vê no sorriso do filho, Pedro, de 4 anos, a realização de seus esforços é a vendedora Marcia Santos. Quando engravidou, Marcia era recepcionista do show-room da loja Zion e estava indo morar com o assistente contábil Claudenir, seu namorado. A criança nasceu, e ela se viu sozinha. Depois de tempos difíceis, em que teve de voltar para a casa dos pais, conseguiu ser promovida a vendedora. "Eu me agarrei à oportunidade", diz. Com o que ganha, Marcia paga o aluguel de uma casa de fundos no Jardim São Jorge, em São Paulo, e uma pessoa para ficar com o filho pela manhã. Sua ambição é dar instrução de qualidade ao pequeno Pedro. "Eu me esforço para melhorar sempre mais no trabalho. Vamos vencer na vida", garante.

Apesar de somente agora mulheres como Soraia, Paulina e Marcia estarem ganhando um contorno nas estatísticas, elas são velhas conhecidas dos programas assistenciais. No Brasil e no exterior, a experiência mostra que, quando a mulher é a titular do benefício, este é dirigido com mais prudência e eficiência às necessidades da família e, em particular, das crianças. A orientação de premiar a responsabilidade feminina pode ser informal, como no caso da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo, ou explícita, como acontece no Bolsa Família: os homens praticamente só recebem o auxílio federal quando não há mulheres em posição de chefia na família – a mãe já faleceu, não há tia ou avó que crie os filhos e, entre estes, não há nenhuma menina com mais de 16 anos. Isso mesmo: se houver uma adolescente dessa idade na casa, seu nome é que vai ser preferido ao do pai para constar do cadastro do Bolsa Família. Isso que é cartaz.

 

Em nome do filho

Fotos Lailson Santos

Marcia Santos, vendedora da loja feminina Zion, não reclama de trabalho: vai sorrindo para o emprego nos feriados e também nos fins de semana. Tem palavras certeiras para cativar as clientes e as mantém informadas das promoções que chegam às araras. Seu filho Pedro, de 4 anos, é a principal razão de todo esse empenho. "Ele só tem a mim", diz ela. Quando Marcia engravidou, seu namorado inicialmente se comprometeu a criar junto com ela a criança – e então desistiu do projeto. "Um belo dia, ele sumiu do mapa", relembra Marcia, cujo salário à época não bastava nem para o aluguel, quanto mais para manter o filho. "Tive de voltar para a casa de minha mãe", conta. Assim que percebeu uma chance de ser promovida, Marcia não a deixou escapar. Hoje, com um salário mensal de cerca de 1 600 reais, ela divide com o filho uma casa e paga a alguém para cuidar dele no período da manhã. De tarde, Pedro vai à escola. "E eu chego a tempo de buscá-lo", diz ela. Seu sonho é ver o filho virar doutor. "Ele é muito inteligente, acho que vai ser advogado ou médico", afirma. "E eu vou fazer tudo para que Pedro consiga o que quer."



Independência e vida nova

Quando Paulina Arena assumiu a direção executiva do grupo Erva Doce, em 2004, a rede tinha sete lojas. Hoje, são dezoito. "Os donos brincam que eu só os obrigo a trabalhar mais", diz ela. Paulina trabalha sem descanso. Acaba de voltar de uma viagem de pesquisa aos Estados Unidos, onde visitou lojas "de manhã, de tarde e de noite", e já está planejando o treinamento da equipe. Paulina foi contratada para tocar o dia-a-dia da marca num momento em que se via meio sem rumo: estava vendendo sua parte na camisaria em que era sócia do ex-marido – uma parceria comercial que sobreviveu ao divórcio por alguns anos, mas não muito bem. O novo trabalho era o que faltava para ela provar que era capaz de cuidar muito bem de si mesma e do filho, Francisco. Hoje, mora em apartamento amplo, viaja nos feriados e, sempre que pode, leva Francisco (e a namorada dele) em férias ao exterior. "No ano retrasado, passamos o réveillon em Nova York. Foi uma delícia constatar que eu é que tinha proporcionado aquela alegria aos que vivem à minha volta."



A alma da casa – e do negócio

Este ano será especial para Deborah, filha mais velha de Soraia Reis. Ela fará sua primeira viagem internacional, para Bariloche. Ano que vem é a vez de a mais nova, Luiza, estrear o passaporte: ela e a mãe vão para a Disney. Soraia se orgulha da vida que dá para as filhas. As duas estudam no colégio Paralelo, próximo ao condomínio Jardim Marajoara, onde moram. Fazem ainda teatro, jazz, academia e curso de línguas. "E, se tudo der certo, vão cursar pós-graduação no exterior." Soraia também sustenta a mãe, Nilza, de 79 anos. Para manter o padrão da família, passa longas horas, todos os dias, na sede da editora Prumo, da qual é diretora. "Fui eu que montei tudo. Achei o prédio, comprei os computadores, contratei a equipe", comemora. Soraia também responderá pelos cinco lançamentos que a Prumo fará em junho – número que ela tem o compromisso de elevar para doze ao mês a partir de 2009. No decorrer de uma carreira que abrangeu várias editoras, Soraia casou-se e se separou duas vezes, teve as duas filhas (uma de cada casamento) e mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo. "Sou uma pessoa feliz. Trabalho muito, gosto do que faço e, com esforço e determinação, realizo meus sonhos."