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Trabalho
Competência não tem gênero
Seis histórias de mulheres
de muito sucesso comprovam
a tendência: ser dona do próprio nariz é o melhor
negócio
Lailson Santos
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| A partir da esquerda, Nara Fauth Pereira,
Bia Aydar, Liliana Aufiero, Claudia de Carvalho Alves, Carmem
Campos Pereira e Rose Koraicho: algum sacrifício e muita tenacidade |
Ver
mulheres em posição de liderança já
deixou de ser motivo de espanto. Elas disputam (e levam) cargos
executivos; até há pouco tempo, uma mulher ocupava
a presidência do Supremo Tribunal Federal; e, no plenário
da Câmara e do Senado, o timbre feminino sobressai em discussões
relevantes. Uma pesquisa divulgada no início do ano, porém,
revela um dado surpreendente: as mulheres já compõem
a maioria entre os empreendedores nacionais. Segundo o estudo do
Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), 52% dos
negócios nacionais sejam eles recentes, estabelecidos
ou informais são comandados por mulheres. Em 2001,
quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez no Brasil, essa
participação se resumia a 29%. O levantamento integra
o Monitoramento Global de Empreendedorismo, análise anual
do comportamento da iniciativa privada realizada em 42 países.
O lado menos auspicioso desse número é a razão
para tamanha iniciativa feminina. Conforme apontam os dados do IBQP,
54% dos homens empreendem por uma questão de oportunidade
ou seja, encontram circunstâncias favoráveis
para começar um negócio. Por sua vez, 63% das mulheres
o fazem por pura necessidade: abrir um negócio é a
única às vezes, a última opção
possível para ganhar algum dinheiro.
Nas páginas seguintes,
apresentamos a história de seis mulheres que estão
na vanguarda dessa tendência apontada pela pesquisa. Todas
são executivas experientes e ocupam o cargo máximo
da empresa que representam. Rose Koraicho é dona e presidente
da Koema, incorporadora paulistana de imóveis de luxo; Bia
Aydar comanda a MPM, a agência de publicidade que mais cresceu
no ano passado; Liliana Aufiero rege a gigante têxtil Lupo,
criada por seu avô; Claudia de Carvalho Alves, que tem três
irmãos mais velhos, foi a escolhida para suceder ao pai na
presidência da Enterpa, uma das maiores empresas de engenharia
do país; Carmem Campos Pereira é a presidente do Grupo
Rede Energia, onde, há mais de vinte anos, entrou como estagiária;
e Nara Fauth Pereira é uma bem-sucedida produtora rural do
Rio Grande do Sul.
Nas entrevistas, elas foram unânimes
em afirmar que, para chegar ao topo, tiveram de tomar decisões
difíceis no âmbito da vida pessoal. As seis são
mães. À exceção de Nara, que começou
a carreira após os 40 anos, e de Rose, que resolveu trabalhar
depois de ter os três filhos, as outras nunca usufruíram
licença-maternidade. Nenhuma delas sabe o que é tirar
férias de um mês. Muitas vezes, viram-se na contingência
de ser as únicas mulheres em mesas dominadas por homens.
Para quem está começando, a boa-nova é que
todas consideram o momento atual propício à mulher.
Características tipicamente femininas, como a capacidade
de manejar vários problemas de forma simultânea, o
saber ouvir e a curiosidade, estão em voga nas grandes corporações.
Todas são, mais uma vez, unânimes: com jeitinho e perseverança,
tudo é possível.
Nara Fauth Pereira,
produtora rural
Jefferson Bernardes/Preview.com
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Aos 65 anos, Nara Fauth Pereira
está longe de ser uma tradicional avó gaúcha:
não faz ambrosia nem arroz-de-leite para os cinco netos e
muitas vezes não está em casa quando eles vão
visitá-la. Boa parte de seu dia é dedicada a administrar
a Estância Boa Vista da Quinta Ltda., que agrega cinco fazendas
e 10 600 hectares de terra. Além de cuidar do negócio,
Nara acompanha de perto a rotina das três fazendas de Rio
Pardo, a 150 quilômetros de Porto Alegre. As outras duas,
mais distantes, são comandadas por um veterinário,
que presta contas a ela. Nara planta arroz e soja e trabalha com
o ciclo pecuário completo insemina, cria, engorda
e abate bois para a venda de carne.
O gosto de Nara pela terra vem
de família, mas ela demorou a abraçá-lo. Quando
se casou, pôs na gaveta o diploma de letras para ter os três
filhos e cuidar deles, até a caçula fazer 6 anos.
Então se formou em psicologia e atuou por alguns anos na
área. Um dia, resolveu virar produtora rural. "No começo,
as fazendas serviam para os meus filhos terem o contato com a terra
que eu havia tido em pequena. Mas fui me empolgando." Em 1985,
já enfronhada na agropecuária, Nara perdeu a filha
caçula num acidente de carro. Quando conseguiu se aprumar
de novo, assumiu o negócio de vez: na separação
do primeiro marido, nem se discutiu com quem ficariam as terras.
"Eram minhas por direito."
Hoje Nara tem números respeitáveis
entre os gaúchos 200 quilos de carne e 8 toneladas
de arroz anuais por hectare e se ligou à Federação
da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, por uma questão
de filosofia. "No Brasil, o produtor rural é considerado
um engordador de boi e nada mais. Quero que nos dêem o devido
respeito", diz. Nos fins de semana, sempre passados no campo,
ela se dá ao luxo de brincar de casinha, dividindo a preparação
das refeições com o segundo marido, o médico
e presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Sérgio
Pinto Machado. "Nesses dias, os netos são superbem-vindos."
Rose Koraicho,
fundadora da incorporadora Koema
Lailson Santos
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A incorporadora Koema, de Rose
Koraicho, não foi a que mais metros quadrados construiu em
2007 nem a que mais faturou. Porque Rose não quer. Há
dois anos, quando construtoras e incorporadoras começaram
a unir forças para criar grandes negócios, a Koema
somava quarenta funcionários, ocupava um escritório
luxuoso e acumulava quatro prêmios Master, o Oscar do ramo,
por empreendimentos como o Credicard Hall. Rose era ainda, pelo
segundo ano consecutivo, diretora do Sindicato da Habitação
de São Paulo. Detalhe: foi a primeira mulher a ocupar o cargo.
Sua incorporadora era também a única de São
Paulo comandada por uma mulher, e um sucesso absoluto. Mas, ao receber
uma proposta de compra, Rose colocou o pé no freio. "Não
estava feliz. Tinha virado escrava do trabalho." Resultado:
mandou trinta funcionários embora e mudou tudo para um local
mais simples. Hoje a Koema ocupa um nicho: é uma incorporadora-butique,
procurada para executar projetos audaciosos e meticulosos. E a Rose
ainda sobra tempo para cuidar dos três filhos e do marido
e até para cozinhar.
Para entender a decisão
de Rose, é preciso retroceder até 1988. Aos 28 anos
e com a caçula de 10 meses nos braços, ela cansou
de seguir o roteiro traçado por seu pai, um dos pioneiros
do comércio na Rua 25 de Março costurar, cozinhar
e passar camisas com primor. Tirou o pó do diploma de desenho
industrial e pediu emprego ao pai, que então alugava 500
imóveis pela cidade. Ganhou trabalho de secretária.
Um dia, quando percebeu que a renegociação de um contrato
ia mal, pegou o telefone do parceiro de negócios e, com jeito,
acertou os ponteiros. Quando seu pai morreu, em 1996, Rose conversou
com o irmão, vendeu tudo e abriu a Koema tupi-guarani
para "renascer". Nunca, porém, deixou de ser muito
família. É casada pela terceira vez, se dá
bem com as namoradas dos filhos, organiza churrascos. "Por
isso, quando a minha empresa começou a crescer demais, resolvi
mudar. E acho que acertei."
Bia Aydar,
presidente da
agência MPM
Lailson Santos
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Bia Aydar tem uma vantagem sobre a maioria dos mortais: com quatro
horas de sono, está nova em folha. E outra sobre a concorrência:
vive para trabalhar. Aos 52 anos, com os filhos criados (Eduardo,
34, e a cantora Mariana, 28), quase tudo o que faz é ou será
revertido em benefício da MPM a agência do grupo
comandado por Nizan Guanaes que ela preside. Ela não está
nem aí quando dizem que é testa-de-ferro do publicitário
baiano. Sabe que não é e seus 200 funcionários
também. De sua sala, Bia avista o Parque do Ibirapuera de
um lado e a equipe do outro. "Se pego alguém brincando,
dou bronca mesmo." Ali ela tem também réplicas
de seu banheiro particular (todo branco, com espelho de camarim)
e de seu closet (com muito Manolo Blahnik, Gucci, Prada, Valentino
e Chanel), mais uma cama forrada com algodão egípcio.
Ou seja, dormir no trabalho ou já sair dele para uma festa
não é problema.
Na agenda dos seus três
celulares, essa paulistana de 1,56 metro tem o número pessoal
do alto tucanato, de ministros e celebridades e dos dirigentes
das empresas a que sua agência atende. Segundo o Ibope, em
2007 o faturamento da MPM bateu em 425 milhões de reais.
O preço: Bia dorme com o BlackBerry debaixo do travesseiro,
foge das férias e conta para tudo com a ajuda da irmã,
Fernanda Nigro. "Vivo da mesada que ela me dá. Não
sei administrar meu dinheiro", diz.
A competência de Bia começou
a fazer fama nos anos 80, quando ela empresariava o grupo Premeditando
o Breque (no qual tocava Mario Manga, seu ex-marido). Bia agenciou
também Lulu Santos, Ney Matogrosso e Marina Lima. Depois
abriu a empresa Face, que produziu os primeiros camarotes badalados
do Carnaval carioca e comandou os eventos da campanha presidencial
de Fernando Henrique Cardoso. E achava que já havia chegado
aonde queria. Por isso, quando Nizan Guanaes a convidou para tocar
a MPM, em 2003, ela não pensou duas vezes pensou várias.
"Dormi no trabalho o primeiro mês inteiro. Agora peguei
o jeito, e é só crescer."
Claudia de Carvalho Alves,
presidente da Enterpa
Lailson Santos
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Ao saber que estava grávida do primeiro filho, Claudia de
Carvalho Alves, atual presidente da Enterpa, tomou duas atitudes:
comemorou com a família a chegada do rebento e se inscreveu
num curso sobre congelamento de leite materno. Naquela época,
ela era uma das sócias da AD5 Associados, empresa de arquitetura
que abrira em 1991, no 3º ano do curso de arquitetura da Universidade
Católica de Santos, e não queria ficar longe do trabalho.
Com o tempo, Claudia percebeu
que, além de desenhar projetos, podia executá-los.
Depois, concluiu que a incorporação seria um passo
lógico. Aí seu destino se cruzou definitivamente com
o da Enterpa. Apesar de ser a filha única de Conrado de Carvalho
Alves, fundador e principal acionista da Enterpa, ela sempre seguira
seu próprio rumo. Gostava de surfar, pegava ônibus
para chegar cedo à praia e abrira sem a ajuda do pai o primeiro
negócio. Em 2001, quando a Enterpa decidiu entrar no segmento
de incorporação residencial, optou por fundir-se a
alguma empresa já existente e Claudia ofereceu a sua.
Tanto se envolveu nas operações do grupo que, em 2005,
foi convidada a assumir a vice-presidência, ao lado do pai.
No ano passado, ela subiu um novo degrau: deixando os três
irmãos para trás, foi escolhida por Conrado para suceder-lhe
na presidência.
Hoje Claudia controla cerca de
1 500 funcionários e, com menos de um ano no cargo, já
tem os números a seu favor: sob sua gestão, a Enterpa
cresceu 20%. Uma mulher que atue em áreas como dragagem marítima
e fluvial, saneamento e concessões rodoviárias é
uma raridade, e Claudia diz que, somada à sua pouca idade
41 anos , a novidade já lhe causou constrangimentos.
"Mas não me deixo intimidar", garante. Nem sair
do eixo: casada há catorze anos com o administrador Eduardo
Urioste e mãe de Victor, de 13 anos, e Mateus, de 9, ela
jura que o fim de semana é sagrado. "No sábado
e no domingo, estamos todos surfando juntos no litoral."
Carmem Campos Pereira,
presidente da
Rede Energia
Lailson Santos
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Desde pequena, Carmem Campos Pereira sabia que ia ser executiva:
colocava suas bonecas em fileira e, com uma bolsa no ombro, entrava
na sala para dar ordens. Em 1987, quando cursava administração
na Universidade São Judas Tadeu, viu no quadro de avisos
um anúncio que oferecia estágio na holding Denerge,
administradora de pequenos negócios na região de Bragança
Paulista, interior de São Paulo. "Fui e negociei para
trabalhar mais, mas com cargo e salário." Graças
à obstinação, em um ano Carmem ganhou a primeira
promoção e o apelido de "Mônica",
em alusão à menina briguenta dos quadrinhos. Por anos,
recebeu coelhos (a "arma" favorita de Mônica) de
presente de seus funcionários. "Nunca tive licença-maternidade.
Mal meu filho, João Victor, nasceu, me chamaram de volta
ao trabalho e eu fui." Quando passou ao grupo Caiuá
(depois Rede) de distribuição de energia, Carmem galgou
rapidamente os cargos executivos. Um de seus grandes feitos foi
captar 1 bilhão de reais para a construção
da hidrelétrica de Lajeado, no Tocantins.
Em 2003, a Rede já fornecia
energia a 30% do país. Como vice-presidente, cabia a Carmem
comandar a reestruturação financeira do grupo. Sua
atuação foi tão brilhante que ofuscou os boatos
de que fora promovida por namorar o presidente, Evandro Coura
que viria a ser seu segundo marido. Em 2007, Coura deixou a presidência
da empresa, e ele e Carmem se separaram. À espera de um novo
chefe, foi informada de que seria a nova presidente do grupo. "Fiquei
alegre, por ter chegado aonde queria, e triste, por ocupar a cadeira
de alguém muito querido." Logo ela arregaçou
as mangas e imprimiu seu jeito de mandar. Mudou o nome do grupo
para Rede Energia e instaurou programas de assistência nas
áreas carentes em que ele atua. Pelo menos uma vez por semana
toma o jatinho da empresa e vai ver se a casa está em ordem.
"Conheço todas as estações", afirma.
A sua casa, com certeza, está: Carmem e Coura fizeram uma
segunda festa de casamento e estão juntos de novo.
Liliana Aufiero,
presidente da Lupo
Lailson Santos
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Quando Liliana Aufiero se tornou a primeira mulher a ser aceita
no curso de engenharia da USP de São Carlos, em 1963, ninguém
estranhou: sua inteligência e ótimas notas eram célebres
em família. Achou-se normal também que, em vez de
se casar e ter filhos, como quase todas as suas amigas de Araraquara,
no interior paulista, ela quisesse viver na capital. Liliana fez
pós-graduação na Fundação Getulio
Vargas, mestrado na USP e teve bem-sucedida carreira como engenheira
civil de grandes obras. Em 1986, ela empreendeu uma volta inesperada
a Araraquara: o cargo de diretora comercial da empresa de seu avô
a gigante Lupo ficou vago, e ela pleiteou o posto.
Aí fez o que não fizera antes casou-se e teve
um filho (seu marido já tinha cinco de casamentos anteriores).
E seguiu a carreira.
Em Araraquara, o relógio
da fábrica da Lupo tem fama de nunca atrasar. A vida de Liliana
segue a mesma batida. Exceto pela morte trágica do marido
em um acidente de carro, de que ela não fala, o resto seguiu
um ritmo constante de ascensão. Em 1993, quando a família
foi afastada do comando da empresa, ela permaneceu "e
na linha de frente", orgulha-se. Como presidente, é
ela quem administra os 3 340 funcionários do grupo, que fatura
perto de 350 milhões de reais ao ano. Estão sob seu
comando também o Shopping Lupo e o hotel-fazenda instalado
na antiga sede da propriedade de seu avô.
Liliana fez a Lupo mudar e crescer
muito, em ambos os casos. Centralizou a operação
da empresa em um único endereço, atualizou o maquinário,
abriu as primeiras lojas de varejo (140, na maioria franquias) e
começou a investir em cuecas. Impulsionada pelo sucesso no
ramo masculino, passou a fabricar lingerie sem costura. Outro gol.
O último lance decisivo de sua administração
foi a descoberta do universo teen e infantil. No grupo, ela é
conhecida como "Doutora". "O apelido pegou logo que
cheguei de São Paulo, acho que porque sou engenheira",
diz. Mas pode ser também por causa do pulso firme e das ordens
simples e indiscutíveis.
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