| |
Ciência
Iguais, jamais
As meninas levam a melhor sobre os meninos
na vida escolar mas perdem a vez para eles
quando começa a vida profissional. Essa, porém,
é uma diferença que não vem só da cultura:
a genética também tem seu papel nela

Thereza Venturoli
Fotos Lailson Santos
 |
 |
Conta a Bíblia que, antes que
o céu destruísse Sodoma e Gomorra com uma chuva de
fogo e enxofre, os anjos aconselharam Lot a fugir para as montanhas
com a esposa e as filhas. Havia apenas uma condição
para que toda a família se salvasse: que ninguém olhasse
para trás. Mas a mulher de Lot desobedeceu às ordens
e olhou por cima dos ombros para a cidade em chamas. Como castigo,
foi transformada imediatamente numa estátua de sal. Nada
mais natural que tivesse sido a esposa e não Lot
a se render à curiosidade, se considerarmos que, segundo
a ciência, as mulheres têm olfato, audição
e visão periférica mais apurados que os dos homens.
Como poderia a mulher de Lot deixar de dar uma espiadinha no caos,
se sentiu o cheiro de enxofre, ouviu os gritos de horror e percebeu
as chamas pelos cantos dos olhos?
Para muito além do folclore e das piadas
sexistas, a neurologia, a fisiologia e a psicologia confirmam que
homens e mulheres são efetivamente seres muito diferentes,
não só nos sentidos, mas também no modo como
compreendem o mundo e interagem com ele. Algumas dessas diferenças
têm reflexo prático na vida profissional e financeira
das mulheres. Tomem-se como exemplo os resultados do Programa Internacional
de Avaliação do Estudante (Pisa), realizado a cada
três anos, desde 2000, pela Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O último Pisa, de 2006, mediu o desempenho de 400 000 estudantes
que representavam 20 milhões de adolescentes de 15 anos de
idade de 57 nações. O objetivo do exame é fazer
uma radiografia da qualidade do ensino de cada país, avaliando
quanto os alunos dominam temas importantes para a solução
de problemas do dia-a-dia. Tabulados de acordo com o sexo, os resultados
mostram, nas três edições, que: as meninas
vão, em média, bem melhor do que os garotos em leitura
e redação; os meninos
vão um pouco melhor em matemática; e segundo
resultados da última edição não
há diferença significativa entre homens e mulheres
no desempenho em ciências.
Em resumo: as mulheres têm maior capacidade
de comunicação e não ficam muito distante dos
homens em cálculos e ciências. Ainda assim, a presença
de mulheres nas diretorias de grandes empresas, nos altos escalões
do governo e na vida acadêmica fica muito aquém da
maioria masculina. A história está recheada de exemplos
de que mesmo as melhores alunas alcançam, na vida adulta,
sucesso profissional mais tímido que o dos meninos de desempenho
escolar mais medíocre. A que devemos atribuir essa, digamos,
injustiça aos genes ou aos preconceitos de uma sociedade
que segue moldes masculinos?
Que homens e mulheres sejam diferentes, ninguém
que esteja a par das últimas conquistas da ciência
põe em dúvida. Mas por que existem essas diferenças?
Porque milhões de anos de evolução concederam
a cada sexo ferramentas distintas para garantir a sobrevivência
da espécie. Simples assim: homens são homens e mulheres
são mulheres para o bem e para o mal porque
assim nos fez a seleção natural, conforme as pressões
do ambiente. O complicado é achar que tais dessemelhanças
representem superioridade de um sexo sobre o outro. Ou tentar atribuir
qualquer diferença única e exclusivamente à
genética ou, por outro lado, a influências culturais.
Estratégia da evolução
As diferenças começam pelos óbvios
dotes anatômicos. Reconhecemos imediatamente quem é
homem e quem é mulher com uma simples passada de olhos na
região dos órgãos genitais, no peito, nos quadris
e na estatura do indivíduo à nossa frente. Com relação
a essas distinções de forma, somos idênticos
a boa parte dos mamíferos, das aves e dos insetos que apresentam
dimorfismo sexual. É o dimorfismo que dá ao pavão
a cauda multicolorida e ao leão a basta juba, enquanto à
pavoa resta a insossa coloração castanha nas penas
e à leoa, a pelagem rala sobre a cabeça. A ciência
atribui tais discrepâncias anatômicas entre os sexos
a uma estratégia da evolução das espécies,
que o naturalista inglês Charles Darwin chamou de seleção
sexual. Segundo as idéias darwinianas, a aparência
exuberante de um macho funciona como isca para atrair mais fêmeas.
A força física e a habilidade para a luta servem para
competir com outros machos pelas parceiras sexuais. Com isso, o
macho mais bem dotado garante um número maior de acasalamentos
e, assim, maior probabilidade de perpetuar seus genes.
Na espécie humana, o dimorfismo sexual
nem é dos maiores. Consideráveis, mesmo, são
as discrepâncias fisiológicas. As mulheres geralmente
pesam menos, mas têm mais gordura subcutânea. O cérebro
delas, apesar de menor, carrega mais ligações neuronais
e, para algumas funções, emprega regiões diferentes,
dos dois hemisférios. Tais diferenças na estrutura
e no funcionamento do organismo se refletem na vulnerabilidade a
certas doenças e distúrbios. Tradicionalmente, homens
têm maior tendência a desenvolver doenças cardíacas,
surdez e tumores no fígado, nos pulmões e no pâncreas.
As mulheres sofrem mais de depressão, osteoporose e câncer
de tireóide. O metabolismo celular também varia conforme
o sexo. Como resultado, cada sexo apresenta uma reação
diferente a substâncias químicas álcool,
tabaco ou drogas. No geral, por trás das diferenças
fisiológicas está a ação de hormônios
a testosterona neles e o estrógeno nelas , que,
por sua vez, são definidos pelos genes próprios de
cada sexo, presentes nos cromossomos X ou Y. Os hormônios
começam a distinguir os organismos masculino e feminino quando
ainda estamos no útero materno, definindo não só
os órgãos sexuais, mas também o arcabouço
neuronal do feto.
O que as ciências biológicas não
têm como garantir de maneira tão categórica
são as conseqüências dessas variações
fisiológicas em aspectos mais sutis da existência humana,
como o comportamento, as habilidades mentais e as disposições
emocionais. Até que ponto a arquitetura e a bioquímica
dos organismos masculino e feminino podem influir nessas características?
E como comprovar se traços de personalidade e talentos são
definidos pelos genes ou determinados pelo meio ou seja,
pela cultura?
Igual no mundo todo
A maioria dos dados disponíveis para
o estudo das diferenças de gênero vem de testes, questionários
e estatísticas, que muitas vezes pecam pela pequena abrangência
da amostra ou pela impossibilidade de se separar o joio do trigo
ou seja, o fator genético do viés cultural.
"Em algumas características, é patente a influência
da genética como no caso da oscilação
periódica de humor nas mulheres no período pré-menstrual",
diz o neurologista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. "Mas, na análise de outros traços
como a fluência verbal nas mulheres e o senso espacial
nos homens , as diferenças entre sexos passam raspando
pela significância estatística."
Os indícios mais confiáveis vêm
da análise de características que variam pouco entre
diferentes populações humanas. É o caso da
longevidade. Está mais do que provado: no mundo todo, as
mulheres vivem, em média, mais do que os homens. Segundo
o Centro Nacional de Estatísticas da Saúde, dos Estados
Unidos, os homens integram a maioria das mortes em praticamente
todas as faixas etárias naquele país. Apenas a partir
dos 80 anos morrem mais americanas do que americanos até
porque já não existem muito mais homens vivos a essa
altura. Os últimos dados disponíveis mostram que,
em algumas idades, a diferença é assombrosa. Em 2004,
morreram quase 15 000 homens para apenas 4 800 mulheres com idade
entre 20 e 24 anos. Na faixa seguinte, dos 25 aos 29 anos, foram
13 500 mortes masculinas contra apenas 5 200 femininas. No Brasil,
as estatísticas seguem a mesma curva.
As mulheres devem essa vantagem na longevidade,
em parte, aos hormônios femininos, que as protegem de várias
doenças tipicamente masculinas, como as cardíacas.
Mas, no mundo inteiro, os homens morrem antes também porque
se expõem mais a riscos resultado da ação
da testosterona sobre o organismo e são as principais
vítimas de morte por causas violentas. É claro que
ser assassinado numa esquina ou morrer numa estrada não é
destino traçado pela genética. Se os homens flertam
mais com o perigo, eles são também, por conta disso,
os maiores promotores da violência e da insegurança
nas cidades e rodovias. Por outro lado, o crescimento no número
de mulheres que sofrem de problemas cardíacos é atribuído
ao fato de elas adotarem hábitos de vida que até algumas
décadas atrás eram exclusivamente masculinos
como fumar e trabalhar em situação competitiva. Ou
seja: no fundo, é impossível separar as causas puramente
orgânicas da realidade social.
Quando se trata de analisar disposições
psicológicas e aptidões mentais, as discussões
e conclusões são ainda mais polêmicas. Centenas
de trabalhos científicos publicados nos últimos anos
dão algumas dicas sobre essas diferenças. As mulheres
expressam com maior facilidade suas emoções, identificam-se
mais facilmente com o próximo e conseguem se dedicar a várias
tarefas ao mesmo tempo, mas têm menos habilidades espaciais
e lidam pior com números. Os homens, por sua vez, costumam
ter raciocínio mais analítico e maior facilidade para
se concentrar. A princípio, faz sentido: a maior capacidade
de análise lógica e de concentração
dos homens estaria por trás do melhor desempenho em ciências
exatas matemática, ciência da computação
e engenharias , enquanto elas sobressaem nas humanidades
educação, história, psicologia e línguas.
Onde a política pesa
Mas nem diferenças, digamos, globalizadas
estão livres de interpretações carregadas de
valores políticos e ideológicos. Um dos melhores exemplos
do quão apaixonada e confusa pode ser a discussão
nesse campo é a suposta falta de aptidão das mulheres
para a ciência. A última edição do Pisa
indica que os garotos são melhores que as meninas para explicar
cientificamente um fenômeno em especial os que envolvem
física. No entanto, elas são mais eficientes na hora
de identificar se a solução de determinado problema
depende de conceitos científicos. Mais: na maioria dos países,
garotos e garotas praticamente não apresentam diferença
no desempenho em ciências em doze nações,
o desempenho delas foi até um pouco superior ao dos meninos.
Apesar de tudo isso, no mundo inteiro as mulheres
são minoria nas posições mais altas da carreira
científica. Nas universidades da Inglaterra, por exemplo,
elas constituem menos de 5% dos professores de física com
formação completa. Mesmo na área das ciências
biológicas, tradicional seara feminina, a parcela de professoras
doutoradas não passa de 10%. A mesma desproporção
aparece no número de artigos científicos publicados:
em todo o mundo, eles produzem 33% mais artigos do que elas a cada
dois anos, e quase duas vezes mais ao longo de toda a carreira científica.
A explicação mais simplista
a de que as mulheres não têm tanto talento para a ciência
foi defendida pelo então presidente da Universidade
Harvard, Law-rence Summers, num desastroso discurso, em 2005. Segundo
Summers, a ausência de mulheres no topo da carreira acadêmica
deve-se ao fato de que elas não estão prontas para
tanto. Para o economista, apesar de as pesquisas indicarem que,
na média, as habilidades masculinas e femininas para a ciência
são semelhantes, há mais homens do que mulheres com
mente excepcionalmente dotada para a ciência. Assim, seria
natural que existisse um número maior de cientistas excepcionais.
É claro que o discurso foi execrado como sexista e levantou
uma enxurrada de artigos que, em defesa das mulheres, afirmam que
elas enfrentam muito mais preconceitos e recebem muito menos incentivos
à vida profissional do que eles. (Detalhe: Summers, o orador
politicamente incorreto de Harvard, deixou a presidência da
universidade em 2006, para uma mulher, a historiadora Drew Faust.)
Em janeiro deste ano, pesquisadores da Universidade
de Toronto, no Canadá, divulgaram um estudo que dá
idéia de quanto as mulheres podem, sim, ser vítimas
de preconceito no mundo masculino da ciência. Eles compararam
o número de artigos científicos publicados por elas
numa das mais importantes revistas da área de biologia comportamental,
antes e depois da adoção de um sistema de seleção
dos artigos que exclui a identificação do autor. Nas
revistas científicas, qualquer artigo, antes de ser publicado,
passa pela análise de especialistas. Segundo o estudo canadense,
o número de mulheres que conseguiram ter artigos na revista
Behavioural Ecology subiu 8% nos quatro anos seguintes à
adoção do novo sistema, em comparação
aos quatro anos anteriores, quando os revisores conheciam o sexo
do autor. Ou seja, mesmo que um dia se confirme que algum fator
genético influi na aptidão para a ciência, fica
claro que o preconceito também dita as regras no mercado.
No recém-lançado The
Sexual Paradox (O Paradoxo Sexual, ainda não
traduzido no Brasil), a jornalista e psicóloga Susan Pinker
tem outra explicação para o menor sucesso profissional
das mulheres: o fato de elas tentarem se encaixar num mercado de
valores eminentemente masculinos. Enquanto eles trabalham por poder
e dinheiro, elas se satisfazem com posições menores,
mas que ofereçam recompensa emocional ou psicológica.
Em outras palavras, para elas é mais importante "fazer
a diferença". Isso justificaria, para Pinker, o fato
de as mulheres ocuparem apenas 2% dos cargos executivos das empresas
americanas e, em compensação, representarem 75% da
mão-de-obra dedicada a trabalhos beneficentes, não
remunerados. Isso explicaria também por que garotos que tiveram
desempenho escolar pífio como Albert Einstein e Bill
Gates alcançam tanto sucesso como adultos, enquanto
meninas geniais desaparecem ao chegar ao mercado de trabalho.
Questão de evolução
As feministas radicais e os machistas exacerbados
que nos desculpem, mas nada é tanto ao céu nem tanto
à terra. "Temos hoje claro que muitas das diferenças
entre homens e mulheres como altura e peso médios,
a idade de amadurecimento sexual e a inclinação para
a agressividade são diretamente influenciadas pela
genética, mas ainda há pouca evidência de que
isso ocorra com as diferenças intelectuais", disse a
VEJA o biólogo David Barash, da Universidade de Washington,
especializado no estudo evolucionista do comportamento humano e
de outros animais.
Ainda que não defina claramente as causas
diretas de cada diferença entre os sexos, a psicologia evolucionista
encontra boas razões para essa desigualdade: os papéis
desempenhados por homens e mulheres na sobrevivência da espécie,
ao longo de milhões de anos, lapidaram aptidões específicas.
Do mesmo modo como nos homens a seleção natural favoreceu
a visão a longa distância como ferramenta importante
para a caça, valorizou na mulher o olfato, a visão
periférica e a audição sentidos extremamente
úteis para defender a prole. O fato é que essas e
outras características, ainda que ditadas pelos genes, foram
e ainda são selecionadas e moldadas pelo meio ou seja,
por sua utilidade e eficiência na luta pela sobrevivência.
Em resumo, a cultura é parte essencial da biologia e da evolução
das espécies. "Nada na história da evolução
da espécie humana garante que todos devam ser iguais. A igualdade
entre homens e mulheres não é um atributo natural,
mas um produto da cultura ocidental recente e, em vez de herança
genética, é conquista de cada sociedade", diz
o psicólogo evolucionista Eduardo Ottoni, da Universidade
de São Paulo.
|
Nigel Dickson/Contour by Getty Images

|
"Política não é
a minha paixão. É a paixão de Barack. Tenho
uma série de outras paixões que não entram
em conflito com as dele, e por isso temos equilíbrio.
Mas o que tenho notado nos homens e isso em todos os
homens é que as prioridades deles são:
eu mesmo, minha família e, em algum lugar nisso tudo,
Deus. Antes de tudo, porém, vem o eu. Para
as mulheres, ao contrário, voltar-se para si mesmas fica
em último lugar. E isso não é nada saudável."
Michelle
Obama, advogada e mulher de Barack Obama, pré-candidato
democrata à Presidência dos Estados Unidos, ao
Chicago Tribune |
Robyn Beck/AFP
 |
"Minha mãe tem 88 anos e
mora comigo. Ela nasceu antes da época em que mulheres
podiam votar. Se nós pensarmos nas nossas filhas, nas
opções e oportunidades que elas têm, é
muito empolgante. Mas não estou concorrendo à
Presidência porque sou mulher. Estou concorrendo porque
penso ser a pessoa mais qualificada para o cargo."
Hillary
Clinton, respondendo à Newsweek o que acha
da possibilidade de se tornar a primeira mulher à frente
da Casa Branca |
Alex Wong/Getty Images
 |
"À medida que as mulheres aumentam sua importância
no cenário político, não há dúvida
de que elas trazem uma perspectiva diferente, centrada em
outra gama de assuntos. Isso não significa que mulheres
em cargos eletivos só dão atenção
aos chamados assuntos de mulher. O que as pesquisas
mostram é que, seja qual for seu partido, elas batalham
mais do que os seus correligionários homens por leis
que busquem justiça social, protejam o meio ambiente,
defendam a família e promovam soluções
não-violentas para conflitos."
Dee
Dee Myer, que na gestão Clinton se tornou a
primeira porta-voz mulher da Casa Branca, no livro Por
que as Mulheres Deveriam Mandar no Mundo
|
|
"Meu pai não sabia o que
fazer com uma filha. Então, ao me criar, foi como se
tivesse dito: Vamos ensiná-la a se defender.
Eu só saía para jogar futebol ou beisebol com
os meninos. Era uma moleca. Ter um pai que ignorou as barreiras
entre meninos e meninas fez com que eu aprendesse muito sobre
ganhar e perder, uma experiência que muitas mulheres
não têm, e me ensinou que o certo é fazer
aquilo que eu acho certo. "
Amy
Pascal, que começou a carreira como secretária
e hoje comanda o estúdio Sony e é uma das mulheres
mais poderosas de Hollywood, à Newsweek
|
| |