Carta ao leitor

Para onde vamos: Angelina Jolie, linda, poderosa e filantropa:
a mulher do futuro


Tendências: Como iremos comer, morar, trabalhar e nos vestir

Sexo: Desejo: de onde vem, do que é feito e como despertá-lo

Carreira: Saiba quais são as profissões de futuro

Saúde: Voz: como mantê-la jovem

Dieta: Três chefs dão receitas de como manter
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Consumo: O que as mulheres levam em conta
na hora de comprar


Poder: Quem tem medo
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Meio ambiente: 20 maneiras de ajudar o planeta

Fitness: Como ficar em forma mesmo detestando academia

Perfil: Kate Moss: o que ela veste, o mundo copia

Viagem: Guia para montar a mala perfeita

Arte: É moderno: pintura direto na parede

Arquitetura: O hotel-espetáculo de Frank Gehry

Beleza: Sephora: na gigante mundial de cosméticos, beleza em pílulas

Spa: Repórter passa três dias no sexto melhor spa do mundo

Luxo: Dez coisas para sonhar

   
 

Spa
"Fui para um spa e não passei fome"

Repórter hospeda-se em spa brasileiro considerado
um dos melhores do mundo, faz sete refeições
por dia e emagrece 1 quilo e meio


JULIANA LINHARES

Fotos Mirian Fichtner
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Surpresas do menu: salada de camarões (à esq.) e pêra ao molho de gorgonzola

"Cheguei ao Kurotel num domingo à tarde. O spa, em Gramado, no Rio Grande do Sul, há dois anos consecutivos é considerado o sexto melhor do mundo pela revista Spa Finder, a mais respeitada do ramo. Ele fica afastado do centro da cidade, no meio de um bosque, rodeado de propriedades enormes. A sede principal parece uma casa de campo européia, daquelas do século XIX. Quinze minutos depois de eu fazer o check-in, todos os funcionários já me cumprimentavam pelo nome. Meu quarto, o mais simples de todos (2 835 reais o pacote de três dias, refeições incluídas), era bastante confortável. Sobre a penteadeira, uma cesta cheia de chazinhos, cremes e xampus acompanhava um cartão me dando as boas-vindas. Na mesinha ao lado da cama, um livreto apresentava tudo o que eu tinha à disposição lá dentro, incluindo um 'menu de travesseiros'. Eram quatro tipos: um que não se deformava, outro caso eu fosse alérgica, um terceiro que prometia absorver líquidos rapidamente – até mesmo a oleosidade do cabelo e lágrimas – e, por último, um de penas. Enquanto lia, o telefone tocou: 'Dona Juliana, a senhora acaba de chegar de viagem e deve estar com fome. Não quer um lanchinho?'. Estranhei. Estava em um spa, para um programa de emagrecimento, e já vinham me oferecendo comida? Por curiosidade, aceitei. No restaurante (mesas pequenas, talheres de prata, guardanapos e toalhas de linho), um garçom me serviu um sanduíche de pão integral com cream cheese light e um pedaço de abacaxi. Os garçons do Kur usam terno e puxam a cadeira para as mulheres sentarem. Todos falam ao menos algumas palavras em inglês, e muitos ainda se comunicam em espanhol e alemão. Terminado o lanche, uma enfermeira me abordou para dizer que, dali a pouco, eu teria a minha primeira consulta com o médico que iria planejar a minha dieta. Eu deveria ir de roupão e 'chinelinho de quarto'. Fiquei morrendo de vergonha de circular assim. A enfermeira me tranqüilizou: 'Aqui, todo mundo só anda de roupão'.

Carrinhos com ervas in natura para temperar as refeições

Quando cheguei para a consulta, o médico já estava de posse de uma batelada de exames que eu fui orientada a levar. Como já sou magra (tenho 1,68 metro e 58,6 quilos), estava com vergonha de dizer a ele que queria perder peso. Fiquei dando voltas em torno do assunto, até que ele foi direto ao ponto: 'Mas você não quer emagrecer?'. Definida a questão, passamos para a elaboração do meu programa. Por sugestão dele, optei pela dieta mais rigorosa, a que previa a ingestão de 800 calorias por dia (a outra opção era de 1 200). Parece pouco – e é. Em uma terça-feira, por exemplo, meu almoço foi salada de maçã, agrião e gorgonzola, duas porções pequenas de coelho ao molho Dijon e, de sobremesa, três lascas de pêra com canela. O lanche da tarde resumiu-se a quatro amêndoas, e o jantar, a uma salada de damascos com ricota, duas conchas de sopa de cenoura e uma pequena taça de musse de morango. Apesar de comer muito menos do que de costume, em nenhum dos dias passei fome. Esse é um dos principais trunfos alardeados pelo Kur: lá, os pacientes não sofrem com a falta de comida. Duas técnicas explicam o 'milagre'. Primeira delas: todos os dias, são servidas nada menos do que sete refeições. Além das três principais, há ainda quatro lanches: um de manhã, dois à tarde e o último duas horas após o jantar. Segunda técnica: os pacientes são orientados a tomar, três vezes ao dia, uma pílula à base de Fucus vesiculosus, uma alga marinha que, uma vez no estômago, vira uma gelatina volumosa. O efeito 'engana' o cérebro e ajuda os pacientes a não se sentir esfomeados.

O Kur tem 120 funcionários, 25 deles pertencentes à equipe médica do hotel, que inclui nutricionistas, psicólogos, cardiologistas e fisioterapeutas. Isso dá uma média de dois funcionários para cada paciente, no caso de o hotel estar lotado. Quando fui, havia apenas quinze hóspedes, o que dá oito funcionários por pessoa. O resultado é que o hóspede é paparicado em tempo integral. Durante o dia todo, garçons e copeiros se desdobram para nos servir. A hora do lanche da tarde é uma loucura. Eles encontram os clientes que não aparecem para lanchar onde quer que estejam. Interfonam para seus quartos, vão até a academia e pedem ajuda a outros funcionários. Em uma bandeja (de prata), servem não só a refeição como todos os remédios que as pessoas, eventualmente, tenham de tomar. 'Esta pílula, que é para baixar a ansiedade, deve ser tomada antes do iogurte. A verde, depois, para saciar o apetite', dizia um garçom a uma hóspede. 'Esta é minha terceira vez no Kur. Em que outro spa você veria um garçom correndo atrás de uma gordinha com uma bandeja de comida? Sou muito paparicada aqui', comentava a tal gordinha. E os mimos não param por aí. Todos os dias, pela manhã, os clientes do Kur têm de passar pela enfermaria – para tirar a pressão, a temperatura, relatar o funcionamento do intestino, o estado de humor etc.

Fotos Mirian Fichtner
"Levantamento de glúteos", um dos dez tipos de massagem disponíveis no spa; nos quartos, "menu de travesseiros"

Quase 90% das pessoas que se hospedam lá vão para emagrecer. Pela manhã, há aulas de hidroginástica, dança, musculação e caminhada. Os professores, atenciosos, oferecem toalhinhas brancas a quem começa a suar. Já a parte da tarde é dedicada ao relaxamento. Há sessões de massagem, hidroterapia, sauna e ioga leve. O hotel oferece mais de dez tipos de massagem. Experimentei uma chamada 'terapia de redução de celulite e levantamento de glúteos'. Dura 45 minutos. Começa com uma massagem vigorosa na parte posterior das coxas e no bumbum e termina com a aplicação de uma camada de gesso na pele, que, segundo me explicou a massagista, serve para manter a 'empinação' que a massagem estimulou. Hummmm...

Hospedar-se sozinho no Kur pode não ser uma boa idéia. Tirando o recital das noites de domingo (quando cada cliente é servido com quatro canapés do tamanho de um grão-de-bico e uma taça de champanhe sem álcool), baladas não são o forte do lugar. Depois das 22 horas, todos os hóspedes já estão em seu quarto. Apenas os casais mais animados se aventuram a dar um giro de carro pelo centro da cidade (o hotel tem motoristas à disposição dos hóspedes que quiserem passear). Durante toda a minha estada, sofri de insônia, já que passava as tardes entregue às mais variadas técnicas de relaxamento. Nesse ponto, o Kur não se diferencia dos seus congêneres: spas, mesmo os melhores do mundo, são um tédio – ainda que você saia de lá, como eu, feliz da vida por ter perdido 1 quilo e meio e me livrado de 3 centímetros de cintura."