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"Fui para um spa e não passei fome" Repórter
hospeda-se em spa brasileiro considerado um dos melhores do mundo, faz sete
refeições por dia e emagrece 1 quilo e meio 
JULIANA LINHARES
Fotos Mirian Fichtner  | tner
 | | Surpresas
do menu: salada de camarões (à esq.) e pêra ao molho de gorgonzola
| "Cheguei ao Kurotel num
domingo à tarde. O spa, em Gramado, no Rio Grande do Sul, há dois
anos consecutivos é considerado o sexto melhor do mundo pela revista
Spa Finder, a mais respeitada do ramo. Ele fica afastado do centro da cidade,
no meio de um bosque, rodeado de propriedades enormes. A sede principal parece
uma casa de campo européia, daquelas do século XIX. Quinze minutos
depois de eu fazer o check-in, todos os funcionários já me cumprimentavam
pelo nome. Meu quarto, o mais simples de todos (2 835 reais o pacote de três
dias, refeições incluídas), era bastante confortável.
Sobre a penteadeira, uma cesta cheia de chazinhos, cremes e xampus acompanhava
um cartão me dando as boas-vindas. Na mesinha ao lado da cama, um livreto
apresentava tudo o que eu tinha à disposição lá dentro,
incluindo um 'menu de travesseiros'. Eram quatro tipos: um que não se deformava,
outro caso eu fosse alérgica, um terceiro que prometia absorver líquidos
rapidamente até mesmo a oleosidade do cabelo e lágrimas
e, por último, um de penas. Enquanto lia, o telefone tocou: 'Dona Juliana,
a senhora acaba de chegar de viagem e deve estar com fome. Não quer um
lanchinho?'. Estranhei. Estava em um spa, para um programa de emagrecimento, e
já vinham me oferecendo comida? Por curiosidade, aceitei. No restaurante
(mesas pequenas, talheres de prata, guardanapos e toalhas de linho), um garçom
me serviu um sanduíche de pão integral com cream cheese light e
um pedaço de abacaxi. Os garçons do Kur usam terno e puxam a cadeira
para as mulheres sentarem. Todos falam ao menos algumas palavras em inglês,
e muitos ainda se comunicam em espanhol e alemão. Terminado o lanche, uma
enfermeira me abordou para dizer que, dali a pouco, eu teria a minha primeira
consulta com o médico que iria planejar a minha dieta. Eu deveria ir de
roupão e 'chinelinho de quarto'. Fiquei morrendo de vergonha de circular
assim. A enfermeira me tranqüilizou: 'Aqui, todo mundo só anda de
roupão'.
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| Carrinhos com ervas in natura para temperar as refeições |
Quando cheguei para a consulta, o
médico já estava de posse de uma batelada de exames que eu fui orientada
a levar. Como já sou magra (tenho 1,68 metro e 58,6 quilos), estava com
vergonha de dizer a ele que queria perder peso. Fiquei dando voltas em torno do
assunto, até que ele foi direto ao ponto: 'Mas você não quer
emagrecer?'. Definida a questão, passamos para a elaboração
do meu programa. Por sugestão dele, optei pela dieta mais rigorosa, a que
previa a ingestão de 800 calorias por dia (a outra opção
era de 1 200). Parece pouco e é. Em uma terça-feira, por
exemplo, meu almoço foi salada de maçã, agrião e gorgonzola,
duas porções pequenas de coelho ao molho Dijon e, de sobremesa,
três lascas de pêra com canela. O lanche da tarde resumiu-se a quatro
amêndoas, e o jantar, a uma salada de damascos com ricota, duas conchas
de sopa de cenoura e uma pequena taça de musse de morango. Apesar de comer
muito menos do que de costume, em nenhum dos dias passei fome. Esse é um
dos principais trunfos alardeados pelo Kur: lá, os pacientes não
sofrem com a falta de comida. Duas técnicas explicam o 'milagre'. Primeira
delas: todos os dias, são servidas nada menos do que sete refeições.
Além das três principais, há ainda quatro lanches: um de manhã,
dois à tarde e o último duas horas após o jantar. Segunda
técnica: os pacientes são orientados a tomar, três vezes ao
dia, uma pílula à base de Fucus vesiculosus, uma alga marinha
que, uma vez no estômago, vira uma gelatina volumosa. O efeito 'engana'
o cérebro e ajuda os pacientes a não se sentir esfomeados.
O Kur tem 120 funcionários, 25 deles
pertencentes à equipe médica do hotel, que inclui nutricionistas,
psicólogos, cardiologistas e fisioterapeutas. Isso dá uma média
de dois funcionários para cada paciente, no caso de o hotel estar lotado.
Quando fui, havia apenas quinze hóspedes, o que dá oito funcionários
por pessoa. O resultado é que o hóspede é paparicado em tempo
integral. Durante o dia todo, garçons e copeiros se desdobram para nos
servir. A hora do lanche da tarde é uma loucura. Eles encontram os clientes
que não aparecem para lanchar onde quer que estejam. Interfonam para seus
quartos, vão até a academia e pedem ajuda a outros funcionários.
Em uma bandeja (de prata), servem não só a refeição
como todos os remédios que as pessoas, eventualmente, tenham de tomar.
'Esta pílula, que é para baixar a ansiedade, deve ser tomada antes
do iogurte. A verde, depois, para saciar o apetite', dizia um garçom a
uma hóspede. 'Esta é minha terceira vez no Kur. Em que outro spa
você veria um garçom correndo atrás de uma gordinha com uma
bandeja de comida? Sou muito paparicada aqui', comentava a tal gordinha. E os
mimos não param por aí. Todos os dias, pela manhã, os clientes
do Kur têm de passar pela enfermaria para tirar a pressão,
a temperatura, relatar o funcionamento do intestino, o estado de humor etc.
Fotos Mirian Fichtner  |
| "Levantamento de glúteos", um dos dez tipos de massagem
disponíveis no spa; nos quartos, "menu de travesseiros" |  |
Quase 90% das pessoas que se hospedam
lá vão para emagrecer. Pela manhã, há aulas de hidroginástica,
dança, musculação e caminhada. Os professores, atenciosos,
oferecem toalhinhas brancas a quem começa a suar. Já a parte da
tarde é dedicada ao relaxamento. Há sessões de massagem,
hidroterapia, sauna e ioga leve. O hotel oferece mais de dez tipos de massagem.
Experimentei uma chamada 'terapia de redução de celulite e levantamento
de glúteos'. Dura 45 minutos. Começa com uma massagem vigorosa na
parte posterior das coxas e no bumbum e termina com a aplicação
de uma camada de gesso na pele, que, segundo me explicou a massagista, serve para
manter a 'empinação' que a massagem estimulou. Hummmm...
Hospedar-se sozinho no Kur pode não
ser uma boa idéia. Tirando o recital das noites de domingo (quando cada
cliente é servido com quatro canapés do tamanho de um grão-de-bico
e uma taça de champanhe sem álcool), baladas não são
o forte do lugar. Depois das 22 horas, todos os hóspedes já estão
em seu quarto. Apenas os casais mais animados se aventuram a dar um giro de carro
pelo centro da cidade (o hotel tem motoristas à disposição
dos hóspedes que quiserem passear). Durante toda a minha estada, sofri
de insônia, já que passava as tardes entregue às mais variadas
técnicas de relaxamento. Nesse ponto, o Kur não se diferencia dos
seus congêneres: spas, mesmo os melhores do mundo, são um tédio
ainda que você saia de lá, como eu, feliz da vida por ter
perdido 1 quilo e meio e me livrado de 3 centímetros de cintura." | |