| | Arquitetura
Arquitetura-espetáculo Insólitas,
surpreendentes ou monumentais, novas obras atraem multidões e chegam
a mudar a vida das cidades 
CHRIS CAMPOS
Denise Doyle/Getty Images  |
| O hotel de Frank Gehry: hipermodernidade em paisagem
medieval | Projetado por
Frank Gehry, o Hotel Marqués de Riscal, na Espanha, é, na definição
de seus proprietários, "um castelo do século XXI". Assim como o
Museu Guggenheim de Bilbao, o grande hit do arquiteto, o Marqués de Riscal
é coberto por enormes e finíssimas placas de titânio em formato
de ondas e entrelaçadas de uma maneira aparentemente impossível.
Instalado em La Rioja, bucólica região vinícola no norte
do país, ele é mais um exemplo daquilo que vem sendo chamado
nem sempre elogiosamente de "arquitetura de efeitos especiais".
A nova extravagância de Gehry está
incrustada em uma minúscula cidade de pouco mais de 1 000 habitantes
Elciego, uma vilazinha de ares medievais, cuja maior construção
era, até a chegada de Gehry, uma igreja do século XVI. As lâminas
de titânio que a recobrem têm 1 milímetro de espessura e foram
cortadas e tingidas no Japão de maneira a reproduzir os tons da vinícola
que batiza a obra. Sob o sol, elas ganham nuances de rosa, dourado e prata. A
estrutura principal da construção é formada por três
blocos de concreto empilhados em formato de pirâmide e sustentados por três
supercolunas. Dessa área do hotel, onde ficam catorze de suas 43 suítes,
sai uma passarela de vidro e aço, pela qual os hóspedes caminham
para chegar aos outros 23 quartos e a um luxuoso spa especializado em vinoterapia.
No percurso, assistem a um incrível jogo de luz e sombra proporcionado
pelas curvas e cores da construção.
NACASA & Partners  |
| Coluna da Midiateca Sendai imitando feixe de palitos
(acima) e o hotel Unique, em São Paulo | Renata
Ursaia  |
No Japão, essa arquitetura
do ilusionismo, que privilegia o espetáculo e beira a mágica, está
bem representada pela Midiateca Sendai. A obra, assinada pelo arquiteto Toyo Ito,
está sustentada por colunas feitas de estruturas tão finas que mais
parecem um feixe de palitos. O Swiss Re Tower, do britânico Norman Foster,
instalado na City londrina, assim como o Museu do Louvre de Abu Dhabi, com inauguração
prevista para 2012 e assinado pelo francês Jean Nouvel (o mesmo que idealizou
o sinistro museu Quai Branly, de Paris), são outros exemplos de projetos
de custo astronômico e resultado espetacular. Evidentemente, não
agradam a todo mundo. "É uma arquitetura que berra, eu gosto de uma arquitetura
que sussurra", afirma o arquiteto Isay Weinfeld. Já o professor Joaquim
Guedes, titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é mais
incisivo. "São obras caras e totalmente desprovidas de lógica",
afirma. O complexo no qual está inserido o Marqués de Riscal, e
que inclui a vinícola de mesmo nome e o spa de vinoterapia, custou 70 milhões
de euros.
Na defesa da "arquitetura
que berra", desponta Ruy Ohtake, ele mesmo um representante da corrente, com projetos
como o hotel Unique, em São Paulo, freqüentemente comparado a uma
melancia. Para Ohtake, obras como a da iraquiana Zaha Hadid, que assina o projeto
da monumental Guangzhou Opera House, na China, têm a virtude de provocar
reações em qualquer ponto do planeta em que se encontrem. "Ela e
outros arquitetos desse movimento apostam na liberdade de formas, na incorporação
de tecnologias e na idéia de que a arquitetura pode ocupar expressivamente
um espaço na cidade, com um poder de atração por si só",
diz. De fato, alguns projetos arquitetônicos têm a capacidade de mudar
a vocação e a vida de um lugar. Aconteceu em Bilbao: há dez
anos decadente, sujinha e voltada para a siderurgia, a cidade renasceu desde a
inauguração do Guggenheim. Ganhou aeroporto novo, outras obras de
arquitetos famosos e passou a receber, só por causa do museu, mais de 1
milhão de visitantes por ano. La Rioja, com seu castelo do século
XXI, torce para que tenha chegado a sua vez. | |