| | Arte
Arte sob encomenda
Nas salas dos modernos, grafites e pinturas feitas diretamente na parede
substituem telas e gravuras 
RAQUEL HOSHINO
Fotos Fabiano Accorsi  |
| Acima, obra de Daniel Melim; abaixo, quarto do Hotel
Fox, na Dinamarca, pintado por Speto |  |
Eles tomaram as
ruas nos anos 80, conquistaram as galerias de arte nos anos 90 e agora chegam
às paredes da sala de estar. O grafite e seus congêneres o
estêncil (máscara vazada com a silhueta do desenho que será
pintado), os desenhos feitos com látex ou canetas especiais , em
alguns lares modernos, já ocupam o lugar de honra que um dia esteve reservado
a telas e gravuras. Sim, porque não se trata aqui de decoração,
mas de arte mais precisamente de um tipo de arte que atende pelo nome de
site-specific, ou "feita para um lugar específico", em tradução
direta. "Isso significa que ela foi pensada e elaborada para um determinado lugar
e que aproveita e se integra às características arquitetônicas
do local", explica o galerista Eduardo Brandão. No Brasil, os expoentes
dessa arte têm nomes estranhos como Titi Freak, Onesto e Speto
e origens comuns: o universo da tatuagem, das histórias em quadrinhos e
da arte de rua. Surgido nos anos 60, nos
Estados Unidos, pode-se dizer que o site-specific existe desde a Roma antiga
onde já era moda ricos contratarem artistas para pintar cenas no
interior das casas. Aqui, não são exatamente os ricos (nem os investidores
de arte) os clientes preferenciais desse tipo de pintura personalizada e feita
diretamente na parede. Tal como os autores das obras, os compradores são
jovens que trabalham com arte, mídia ou entretenimento. "Não são,
necessariamente, conhecedores profundos de arte, mas pessoas que gostam e acompanham
a carreira de determinado artista", diz Baixo Ribeiro, proprietário de
uma galeria em São Paulo. A proximidade entre artista e comprador é
fundamental para a elaboração da obra. "Como uma encomenda, ela
não é pré-pronta: depende de uma negociação
entre o artista e o cliente", afirma a arquiteta Heloísa Dallari, professora
de pós-graduação em história da arte da Faap.
Paulo Vitale  |
| Os gêmeos Gustavo e Otavio Pandolfo: os precursores
| Depois de visitar a casa
do comprador, estudar o espaço e fotografá-lo, o artista sugere
possibilidades de tema e local. Escolhido o layout, látex, tinta acrílica,
spray e rolinhos entram em ação. O resultado é sempre uma
obra única. "Tão exclusiva que não pode ser arrancada da
parede e passada para outra pessoa", lembra a professora Heloísa. Os trabalhos
costumam custar a partir de 1 000 reais, mas alguns artistas já podem cobrar
bem mais do que isso. É o caso dos irmãos Gustavo e Otavio Pandolfo,
de 33 anos, que assinam osgemeos. Principais representantes de uma geração
de artistas que partiu das ruas para as galerias, eles fazem grafites desde 1985
e foram os primeiros brasileiros a ter sua obra reconhecida internacionalmente.
Entre exposições e projetos de arte pública, já mostraram
seu colorido trabalho em países como Itália, Espanha, Holanda, Inglaterra,
Grécia, França, Alemanha, Japão, Estados Unidos e Cuba. Hoje,
uma tela da dupla, por exemplo, não custa menos de 20 000 dólares.
Os intrincados arabescos do goiano Kboco e os estênceis bem-humorados do
paulista Daniel Melim também já começam a cruzar oceanos:
os dois estão com trabalhos expostos na Bienal de Valência. Já
o paulistano Speto foi selecionado, em 2005, para ser um dos 21 jovens artistas
do mundo a participar do projeto Hotel Fox, na Dinamarca. Os artistas foram incumbidos
de transformar os 61 quartos do hotel em obras vivas.
As estrelas brasileiras do site-specific, assim como os compradores de
suas pinturas, proclamam um certo desprendimento em relação ao próprio
trabalho. "É um desapego que a gente traz da rua", afirma Daniel Melim.
"Lá, é a ação do tempo o que acaba por apagar o desenho."
A arte de Melim e sua turma não é de fato o tipo de coisa feita
para guardar no cofre. Tampouco se presta a servir de investimento. "Ela serve
unicamente para o usufruto de quem a vê", afirma o crítico de arte
e curador do Masp, Teixeira Coelho. E existe motivo melhor do que esse?
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