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Por que a moda ama Kate Moss Nem
os escândalos nem o tempo foram suficientes para apagar a estrela da
top inglesa: o que ela veste, o mundo copia 
ERIKA PALOMINO
Toby Melville/Reuters  |
Dentro de uma vitrine, usando um vestido longo
cor de laranja, ela foi o manequim vivo de sua própria coleção
que se esgotou em questão de horas. No dia 1º de maio, mais
de 1 000 pessoas esperavam a abertura da Topshop, em Londres, para comprar as
peças da primeira série de roupas que a modelo inglesa fez para
a loja de departamentos. Para o projeto, diz-se que Kate recebeu 3 milhões
de libras. Caso alguém ainda não
tenha percebido, estamos na era das celebridades, como já disse o mais
poderoso ser humano da indústria da moda hoje, a jornalista inglesa Anna
Wintour, dezenove anos à frente da Vogue americana. São as
"celebrities", artistas ou apenas famosos que influenciam o que querem usar as
chamadas "pessoas normais" aquelas que vão consumir a absurda quantidade
de roupas e acessórios produzida no mundo. Estilistas e desfiles, esses
são referência mais para quem trabalha com moda. Daí que,
quando esta ou aquela estrela aparece numa foto de paparazzi ou num evento social
vestindo uma determinada peça, essa imagem ganha o mundo, e o potencial
de venda e de cópia vai à enésima potência. Ainda mais
quando a celebridade em questão tem o que se chama de "senso de estilo"
e compõe e remexe o próprio guarda-roupa, criando ela mesma os looks
que usa no dia-a-dia (em vez de recorrer a profissionais especializados, como
faz atualmente a maior parte dos artistas no Brasil e no mundo, Madonna incluída).
Ainda mais quando essa celebridade é Kate Moss.
Entre os hypes recentes lançados pela modelo estão as horríveis
botas Ugg (meio parecidas com uma pata de urso); as nada feias bolsas Balenciaga;
os shorts jeans rasgados; as calças ultra-skinny usadas com sapatilhas
de balé; as echarpes Louis Vuitton e as megabolsas largonas, tipo saco.
"Ela se veste de uma maneira que significa alguma coisa. O que Kate usa, as pessoas
usam", declarou Peter Arnold, diretor executivo do respeitado Council of Fashion
Designers of America (CFDA), que, em 2005, homenageou Kate com o Fashion Icon
Award. Kate Moss transcendeu a categoria celebridade. Virou ícone. Aliás,
o ícone número 1 da moda. Como conquistou
tudo isso uma garota considerada baixinha (1,68 metro), magricela (48 quilos),
sem busto e sem formas, descoberta aos 14 anos num aeroporto, é uma história
digna de roteiro de cinema. Em 1988, a adolescente Katherine fazia uma conexão
no aeroporto JFK, em Nova York, com seu irmão Nick. Os dois vinham das
Bahamas (onde, por sinal, a modelo perdeu a virgindade). Kate estava falando num
telefone público quando foi vista por Sarah Doukas, diretora da Storm,
uma agência de modelos inglesa. Ela descreveria mais tarde sua visão
da menina: "Vi ossos. Ossos incríveis".
Reprodução  |
| A primeira grande campanha, para a Calvin Klein: cabelos
molhados e ar adolescente | De volta
a Londres, Kate fez apenas algumas revistas para teenagers até ser fotografada,
dois anos depois, para a revista The Face com um cocar na cabeça,
seios (ou não-seios) de fora. A fotógrafa era Corinne Day. Era 1990.
O choque foi imediato. O Planeta Fashion começava a se saturar da estética
das supermodels, mulheres luxuosas que vendiam glamour, dinheiro e poder. Kate
foi considerada "real". "Era a antítese de garotas como Christy Turlington
e Naomi Campbell. Não era tão alta, tinha real spunk (algo
como atitude, bravura) e uma beleza absolutamente fantástica", declarou
o estilista americano Marc Jacobs.
O fotógrafo
Mario Sorrenti, que havia se tornado seu namorado, foi quem a clicou para a sua
primeira grande campanha: para Calvin Klein, perfume Obsession. Kate aparecia
nua, deitada sobre um sofá preto, cabelos molhados e ar adolescente. A
primeira opção para o trabalho era Vanessa Paradis, mas Calvin Klein
desistiu da francesa na hora depois de ver Kate que se tornaria a imagem
da grife por sete anos. A câmera ama Kate
Moss. Como amava Marilyn Monroe. Pode-se dizer que ela é "comum"
ou, como o cinema e a moda gostam de dizer, ela é a girl next door,
a garota que mora ao lado, aquela que poderia ser qualquer uma. Mas Kate está
longe de ser qualquer uma. "Ela tem o que se chama de star quality. É
minha modelo favorita em todo o mundo", declarou a VEJA o fotógrafo Terry
Richardson. "Ela cria essa energia maravilhosa que inspira a todos. É uma
catalisadora", já disse seu amigo John Galliano, o estilista da Dior. "Kate
é extremamente profissional", diz o publicitário Marcelo Sebá,
que, em 1999, trouxe a modelo para desfilar pela Ellus na São Paulo Fashion
Week e para passear no Rio. "Ela chega e vai embora nos horários combinados,
não faz pedidos exóticos, não exige camarim exclusivo", conta.
"No aspecto pessoal, é a mesma coisa: trata as pessoas sem distinção
e comporta-se como se não tivesse consciência de sua posição
de estrela. E tem mania de dar selinho em todos. É pior do que a Hebe Camargo!
Depois de conviver por dez dias com ela entendi perfeitamente por que Kate é
e sempre será a maior modelo de todos os tempos", diz Sebá. Segundo
ele, de caldinho de feijão no bar Jobi a noitada na boate gay Le Boy, no
Rio, Kate "fez de tudo". Os jornais ingleses sempre
insinuaram que ela usava drogas e, em 1998, a modelo teria passado cinco semanas
numa clínica de reabilitação. Mas com Pete Doherty, seu namorado
e vocalista da banda Babyshambles, a coisa foi mais longe. Em setembro de 2005,
veio a público uma foto em que Kate aparece em uma situação
que sugere o uso de cocaína. A foto foi feita em um estúdio de gravação
de Doherty. Não demorou muito para que uma série de marcas com que
a modelo mantinha contrato tirasse suas fotos de cena e cancelasse seus acordos
milionários. Kate teve de pedir desculpas públicas. "Há várias
questões pessoais com as quais eu devo lidar e já comecei a tomar
os difíceis, porém necessários, passos para resolvê-las",
declarou. Quem a trouxe de volta foram seus amigos na indústria da moda,
como a editora Carine Roitfeld, John Galliano, Naomi Campbell e, principalmente,
Alexander McQueen. O estilista britânico, além de ter entrado para
agradecer as palmas de seu desfile vestindo uma t-shirt em que se lia "Nós
a amamos, Kate", na temporada seguinte colocou uma holografia com a imagem da
modelo para encerrar sua apresentação. Nela, Kate flutuava, como
uma ninfa. Meio irreal, meio surreal. Totalmente Kate. | |