| | Poder
Medo de mulher Pesquisa
aponta que 14% dos americanos não votariam em uma mulher para presidente,
quem quer que fosse ela. A maior resistência vem dos mais velhos 
MARCELO CARNEIRO
Foi em 1960, com a eleição
de Sirimavo Bandaranaike, no Sri Lanka, que uma mulher assumiu pela primeira vez
a direção de um país. Mas o verdadeiro gostinho do poder
as mulheres só sentiram mesmo em 1979, com a ascensão de Margaret
Thatcher ao governo britânico. Naquele tempo, a dama de ferro figurava como
a única mulher do planeta no comando de um país rico. Quase três
décadas se passaram e... nada mudou. Ao menos em termos quantitativos,
a situação continua rigorosamente a mesma: hoje, apenas a alemã
Angela Merkel se senta à mesa dos chefes de estado do G7, grupo que reúne
as nações mais ricas do mundo. Ségolène Royal, a candidata
socialista à Presidência da França, teve uma chance, mas foi
barrada por 2 milhões de votos, diferença que definiua vitória
do candidato de centro-direita, Nicolas Sarkozy. Hillary Clinton passará
pelo teste em breve, caso seja indicada candidata do Partido Democrata à
disputa pela Presidência dos Estados Unidos nas eleições do
ano que vem. Nos últimos meses, porém, pesquisas de intenção
de voto mostram que a senadoratem perdido terreno para o colega Barack Obama.
Eleitores têm medo de mulher? Ao menos no
caso dos mais velhos, a resposta parece ser sim. Um estudo feito nos Estados Unidos
no fim do ano passado pelo instituto Rasmussen indicou que, quanto mais velho
o eleitor, seja ele homem ou mulher, maior a sua resistência em votar em
uma candidata para a Presidência. Na pesquisa, perguntados se dariam seu
voto a uma mulher sem que a questão incluísse referências
a nomes ou a plataformas eleitorais , 82% dos eleitores entre 18 e 29 anos
responderam que sim. Entre os americanos com mais de 65 anos, essa porcentagem
caiu para 71%. Na média geral, 14% dos americanos disseram que não
votariam em uma candidata do sexo feminino, independentemente de quem fosse ela
ou quais fossem suas idéias. Scott Rasmussen, presidente do instituto,
tem motivos para acreditar que essa porcentagem é ainda maior. Isso porque,
no mesmo levantamento, ao serem perguntados se parentes e colegas de trabalho
estariam dispostos a votar em uma mulher para presidente dos Estados Unidos, apenas
51% dos entrevistados disseram acreditar que sim. Como, na pergunta imediatamente
anterior, 78% haviam declarado que dariam seu voto a uma candidata à Presidência,
a conclusão é óbvia: alguém está mentindo.
A tática de perguntar "a opinião do vizinho" é usada pelos
institutos de pesquisa quando as perguntas envolvem temas polêmicos, como
a regulamentação do uso de drogas ou políticas de imigração.
"Isso porque, quando estão em dúvida, os entrevistados tendem a
dar respostas que consideram politicamente corretas", diz Rasmussen.
A resistência em colocar mulheres em funções de chefe de estado
não é exatamente nova. "Desde a Grécia antiga, passando pela
teologia cristã e chegando aos modernos pensadores, a capacidade feminina
para cuidar da coisa pública sempre foi posta em dúvida", diz o
filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Ele aponta um trecho da Filosofia
do Direito, texto clássico do pensador alemão Friedrich Hegel,
como exemplo desse temor. O trecho é uma pérola do chauvinismo.
Diz Hegel: "Se as mulheres estão no ápice do governo, o estado corre
perigo. A formação das mulheres se faz não sabemos bem como,
mais pelas circunstâncias da vida do que pela aquisição de
conhecimento". O avanço das mulheres nessa
área foi ínfimo, se comparado às conquistas femininas em
outros campos. No Brasil, as mulheres já detêm 40% das vagas de juiz
do trabalho, por exemplo, profissão até recentemente reservada aos
homens. "Onde a mulher depende apenas de si mesma e o mérito está
em questão, caso das profissões liberais e das que envolvem concursos
públicos, o avanço foi bem maior", diz a cientista política
Lucia Hippolito. Não é o caso da política, em que se depende
do voto do eleitor. Na Inglaterra, estudo da Equal Opportunities Commission mostrou
que, a julgar pelo ritmo de crescimento da participação feminina
no Legislativo (apenas 19,5% dos membros do Parlamento são mulheres), levará
200 anos para que elas consigam se igualar aos homens em número de cadeiras.
Nas nações onde há grande participação da mulher
nesse poder, a situação, regra geral, é resultado da aplicação
de políticas de cotas. Na Argentina e na Suécia, por exemplo, onde
a presença feminina no Parlamento varia entre 35% e 45%, há leis
obrigando os partidos a reservar pelo menos uma entre três vagas para candidatas
do sexo feminino. Mesmo assim, os maiores avanços registrados se dão
no campo do Legislativo. No casodo Poder Executivo, o mundo segue com parcas doze
governantes. Ainda levará muito tempo para que o sexo dos candidatos seja,
aos olhos do eleitor, apenas um detalhe.
| AS DEZ MAIS PODEROSAS Governando,
distribuindo dinheiro, vendendo discos ou ditando comportamentos, elas influenciam
a vida de gente do mundo inteiro Hillary
Clinton Primeira mulher a se eleger senadora pelo estado de Nova York,
Hillary Clinton, 59 anos, pode ser também a primeira a concorrer à
Presidência dos Estados Unidos por um grande partido
J.K. Rowling Quase 380 milhões de
pessoas já compraram seus livros. A criadora de Harry Potter, 41 anos,
foi a primeira pessoa a entrar para uma lista de bilionários tendo como
atividade escrever livros Condoleezza
Rice Se há uma mulher que pode se gabar de influenciar os destinos
do planeta, ela é Condoleezza Rice, 52 anos, secretária de estado
do governo Bush e voz dos Estados Unidos nas negociações do país
com o resto do mundo, da Europa ao Oriente Médio
Angela Merkel A primeira-ministra alemã,
52 anos, comanda o país mais populoso da União Européia,
a terceira maior economia do planeta e a maior da Europa. É a primeira
mulher a governar a Alemanha
Molly Riley/Reuters
 | Angelina
Jolie Nomeada pela ONU embaixadora da boa vontade,
a atriz, de 31 anos, foi apontada pelos leitores da revista Time como a
segunda mulher mais influente do mundo, atrás apenas da escritora J.K.
Rowling Anna
Wintour No comando da edição americana da Vogue
desde 1988, a inglesa, de 57 anos, não só influencia estilistas
de todo o mundo como "descobriu" nomes hoje consagrados, como John Galliano e
Marc Jacobs Oprah Winfrey
A apresentadora, 53 anos, comanda o talk-show de maior audiência da TV americana,
visto por 14 milhões de pessoas. O programa atinge outros 100 milhões
de espectadores em 132 países
Pascal Lauener/Reuters
 | Melinda
Gates Mulher de Bill Gates, comanda, aos 42 anos,
a mais rica instituição filantrópica do mundo. Com orçamento
de 60 bilhões de dólares, a fundação subsidia entidades
em mais de 100 países Madonna
Aos 48 anos de idade e 24 de carreira, ainda é o maior nome feminino do
showbiz. Já vendeu 275 milhões de discos, o que a deixa atrás
apenas de Beatles, Michael Jackson e Elvis Presley
Gisele Bündchen Há treze anos
nas passarelas, a gaúcha continua a ser uma das modelos mais solicitadas
do mundo. Com 26 anos, já foi capa de revista 414 vezes. É referência
para meninas de todo o planeta |
| |