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De onde vem o desejo Quase
10% das mulheres dizem não ter vontade de fazer sexo. Especialistas
explicam por quê 
LAURA MÜLLER No
início, era o orgasmo ou a dificuldade de chegar a ele. Hoje, se
a busca pelo clímax continua sendo o principal motivo da ida das mulheres
a consultórios de sexólogos e terapeutas, essa queixa agora é
seguida de perto por outra: a falta de desejo. Segundo uma pesquisa do Projeto
Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da USP, para quase 10% das
mulheres, a dificuldade não está em tirar o máximo de prazer
do sexo (o que muitas até conseguem), mas em ter vontade de fazê-lo.
De onde vem o desejo? O que o estimula e o que impede que ele floresça?
Do
ponto de vista hormonal, tanto para o homem quanto para a mulher, a testosterona
é o principal responsável pela vontade de fazer sexo ela
"motiva" o desejo. Já o estrógeno, hormônio sexual feminino
por excelência, atua como uma espécie de "facilitador" da libido.
Ele acentua as características femininas, irriga, intumesce e prepara o
corpo para o sexo. No corpo de uma mulher adulta, a produção hormonal
oscila de acordo com o ciclo menstrual (veja
quadro). É a natureza trabalhando em prol da procriação:
quando a mulher está no período fértil, as taxas do hormônio
se elevam. Isso favorece o desejo e, conseqüentemente, a possibilidade de
sexo e fecundação. Ocorre que os seres humanos são um pouco
mais complexos do que isso, e, diante de certos imperativos psíquicos,
o funcionamento biológico nem sempre leva a melhor. Em outras palavras:
ainda que os hormônios estejam no seu pico mais alto, uma mulher que não
estiver disponível para sentir vontade de fazer sexo não sentirá.
E entre os vários fatores que impedem que isso ocorra está a falta
de experiência. "A nossa cultura não estimula as mulheres a sentir
desejo", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex. "Pelo contrário:
tradicionalmente, ela atribui a iniciativa do sexo aos homens", diz.
Ainda assim, muitas mulheres insatisfeitas com a própria libido têm
acorrido aos consultórios médicos convencidas de que um remedinho
pode acabar com os seus problemas. "Elas chegam aqui querendo alterar as taxas
hormonais, porque ouviram dizer que isso aumenta o desejo", conta o ginecologista
Mauro Haidar, chefe da disciplina de ginecologia endócrina da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp). De acordo com o médico, esse tipo
de recurso pode funcionar apenas nos casos de pacientes que apresentam problemas
hormonais (cerca de 13% da população feminina que afirma não
ter desejo, segundo o Estudo da "Vida sexual do brasileiro", conduzido pelo ProSex).
Isso porque, nas mulheres saudáveis, as taxas de hormônio já
se encontram dentro dos limites da normalidade. "O excesso geraria um desequilíbrio,
em vez de trazer vantagens", explica Haidar. Em
2005, a divulgação de uma tese inovadora de autoria da pesquisadora
canadense Rosemary Basson mostrou que o caminho para chegar ao desejo feminino
pode ser mais curto do que se imaginava. No estudo intitulado "Disfunção
sexual feminina: definições revisadas e ampliadas", publicado no
Canadian Medical Association Journal, a canadense apresenta um novo modelo
de funcionamento sexual feminino. Até então, a classe médica
acreditava que homens e mulheres seguiam um ciclo de reações físico-psíquicas
em que, primeiro, sentiam desejo, depois se excitavam, em seguida chegavam ao
orgasmo e, num quarto momento, entravam numa fase de resolução ou
relaxamento (se tudo corresse bem, evidentemente). A canadense afirma que o.k.,
os homens funcionam assim. Mas as mulheres, não.
Antes da fase do desejo, mostra o estudo de Rosemary Basson, há, no caso
das mulheres, uma etapa até hoje pouco valorizada, que é a da estimulação:
para ter vontade de fazer sexo, a maioria precisa ser tocada. Em outras palavras,
o desejo, para elas, não brotaria de forma quase espontânea como
ocorre com os homens. Para eles, a ocorrência de uma fantasia ou de um estímulo
visual já é suficiente para desencadear a libido. As mulheres necessitam
de mais: precisam sentir-se acolhidas, acarinhadas e estimuladas. Para a psiquiatra
Carmita Abdo, a tese da canadense pode redefinir os rumos do estudo do desejo
feminino: "Talvez seja a idéia que faltava para as mulheres reconhecerem
que seu desejo passa por outros caminhos, diferentes dos do homem", conclui.
Fotos Otávio Dias de Oliveira
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"A TERAPIA RESGATOU MINHA LIBIDO"
"Na
fase da minha separação, todo o meu desejo morreu. Talvez pelo fato
de as coisas estarem acontecendo de um jeito muito ríspido, mesmo dormindo
na mesma cama, fiquei oito meses sem ter o menor desejo. Depois da separação,
tive muita dificuldade para resgatar a vontade de fazer sexo. Fiz até terapia,
o que foi bom. Descobri que o desejo sempre esteve em mim, mas ficou quieto, calado.
Ressurgiu quando descobri coisas minhas que estavam apagadas, como a vaidade,
a vontade de ter uma posição social e de despertar o desejo do outro
também." Fabiana Vieira,
39 anos, empresária, divorciada |
| "MATERNIDADE
E DESEJO NÃO COMBINAM" "Dos
cinco meses até o nono mês da minha gravidez, fiz sexo, no máximo,
duas vezes, e por insistência do meu marido. Achava que era um desrespeito
para com o bebê. Depois do parto, o meu desejo voltou com força total.
Mas, hoje, quando viajamos e a minha filha está por perto, não faço
sexo. Tenho a mesma sensação de quando estava grávida: a
de que estaria desrespeitando-a. A maternidade atrapalha muito o desejo sexual.
Hoje, eu sinto que preciso ter um momento só meu e do meu marido para sentir
desejo. Quando estou no papel de mãe, tudo se complica e ele fica para
escanteio." Daniela Donato, 24
anos, bacharel em psicologia, casada |
| "POR
MIM, TRANSARIA TODA HORA" "Tenho muita
vontade de fazer sexo. Por mim, eu transava todo dia, toda hora. Num fim de semana
chuvoso com meu namorado, por exemplo, podemos ficar tendo relações
o dia inteiro. Não sei explicar de onde vem essa minha libido. Meus pais
são tradicionais, conservadores, mas nunca falaram que sexo era feio e
sujo. Então, sempre me dei bem com meu próprio corpo. Nunca tive
problemas com masturbação, por exemplo: sempre encarei como uma
maneira de a gente se conhecer melhor. Acho também que tive boas parcerias.
É preciso saber escolher, senão não dá certo mesmo."
Juliene Prado Côrtes, 30
anos, produtora de moda, solteira |
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