Carta ao leitor

Para onde vamos: Angelina Jolie, linda, poderosa e filantropa:
a mulher do futuro


Tendências: Como iremos comer, morar, trabalhar e nos vestir

Sexo: Desejo: de onde vem, do que é feito e como despertá-lo

Carreira: Saiba quais são as profissões de futuro

Saúde: Voz: como mantê-la jovem

Dieta: Três chefs dão receitas de como manter
a linha


Consumo: O que as mulheres levam em conta
na hora de comprar


Poder: Quem tem medo
de mulher?


Meio ambiente: 20 maneiras de ajudar o planeta

Fitness: Como ficar em forma mesmo detestando academia

Perfil: Kate Moss: o que ela veste, o mundo copia

Viagem: Guia para montar a mala perfeita

Arte: É moderno: pintura direto na parede

Arquitetura: O hotel-espetáculo de Frank Gehry

Beleza: Sephora: na gigante mundial de cosméticos, beleza em pílulas

Spa: Repórter passa três dias no sexto melhor spa do mundo

Luxo: Dez coisas para sonhar

   
 

Sexo
De onde vem o desejo

Quase 10% das mulheres dizem não ter vontade
de fazer sexo. Especialistas explicam por quê


LAURA MÜLLER


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Os hormônios e o desejo

No início, era o orgasmo – ou a dificuldade de chegar a ele. Hoje, se a busca pelo clímax continua sendo o principal motivo da ida das mulheres a consultórios de sexólogos e terapeutas, essa queixa agora é seguida de perto por outra: a falta de desejo. Segundo uma pesquisa do Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da USP, para quase 10% das mulheres, a dificuldade não está em tirar o máximo de prazer do sexo (o que muitas até conseguem), mas em ter vontade de fazê-lo. De onde vem o desejo? O que o estimula e o que impede que ele floresça?

Do ponto de vista hormonal, tanto para o homem quanto para a mulher, a testosterona é o principal responsável pela vontade de fazer sexo – ela "motiva" o desejo. Já o estrógeno, hormônio sexual feminino por excelência, atua como uma espécie de "facilitador" da libido. Ele acentua as características femininas, irriga, intumesce e prepara o corpo para o sexo. No corpo de uma mulher adulta, a produção hormonal oscila de acordo com o ciclo menstrual (veja quadro). É a natureza trabalhando em prol da procriação: quando a mulher está no período fértil, as taxas do hormônio se elevam. Isso favorece o desejo e, conseqüentemente, a possibilidade de sexo e fecundação. Ocorre que os seres humanos são um pouco mais complexos do que isso, e, diante de certos imperativos psíquicos, o funcionamento biológico nem sempre leva a melhor. Em outras palavras: ainda que os hormônios estejam no seu pico mais alto, uma mulher que não estiver disponível para sentir vontade de fazer sexo não sentirá. E entre os vários fatores que impedem que isso ocorra está a falta de experiência. "A nossa cultura não estimula as mulheres a sentir desejo", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex. "Pelo contrário: tradicionalmente, ela atribui a iniciativa do sexo aos homens", diz.

Ainda assim, muitas mulheres insatisfeitas com a própria libido têm acorrido aos consultórios médicos convencidas de que um remedinho pode acabar com os seus problemas. "Elas chegam aqui querendo alterar as taxas hormonais, porque ouviram dizer que isso aumenta o desejo", conta o ginecologista Mauro Haidar, chefe da disciplina de ginecologia endócrina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). De acordo com o médico, esse tipo de recurso pode funcionar apenas nos casos de pacientes que apresentam problemas hormonais (cerca de 13% da população feminina que afirma não ter desejo, segundo o Estudo da "Vida sexual do brasileiro", conduzido pelo ProSex). Isso porque, nas mulheres saudáveis, as taxas de hormônio já se encontram dentro dos limites da normalidade. "O excesso geraria um desequilíbrio, em vez de trazer vantagens", explica Haidar.

Em 2005, a divulgação de uma tese inovadora de autoria da pesquisadora canadense Rosemary Basson mostrou que o caminho para chegar ao desejo feminino pode ser mais curto do que se imaginava. No estudo intitulado "Disfunção sexual feminina: definições revisadas e ampliadas", publicado no Canadian Medical Association Journal, a canadense apresenta um novo modelo de funcionamento sexual feminino. Até então, a classe médica acreditava que homens e mulheres seguiam um ciclo de reações físico-psíquicas em que, primeiro, sentiam desejo, depois se excitavam, em seguida chegavam ao orgasmo e, num quarto momento, entravam numa fase de resolução ou relaxamento (se tudo corresse bem, evidentemente). A canadense afirma que o.k., os homens funcionam assim. Mas as mulheres, não.

Antes da fase do desejo, mostra o estudo de Rosemary Basson, há, no caso das mulheres, uma etapa até hoje pouco valorizada, que é a da estimulação: para ter vontade de fazer sexo, a maioria precisa ser tocada. Em outras palavras, o desejo, para elas, não brotaria de forma quase espontânea como ocorre com os homens. Para eles, a ocorrência de uma fantasia ou de um estímulo visual já é suficiente para desencadear a libido. As mulheres necessitam de mais: precisam sentir-se acolhidas, acarinhadas e estimuladas. Para a psiquiatra Carmita Abdo, a tese da canadense pode redefinir os rumos do estudo do desejo feminino: "Talvez seja a idéia que faltava para as mulheres reconhecerem que seu desejo passa por outros caminhos, diferentes dos do homem", conclui.

 
Fotos Otávio Dias de Oliveira


"A TERAPIA RESGATOU
MINHA LIBIDO"

"Na fase da minha separação, todo o meu desejo morreu. Talvez pelo fato de as coisas estarem acontecendo de um jeito muito ríspido, mesmo dormindo na mesma cama, fiquei oito meses sem ter o menor desejo. Depois da separação, tive muita dificuldade para resgatar a vontade de fazer sexo. Fiz até terapia, o que foi bom. Descobri que o desejo sempre esteve em mim, mas ficou quieto, calado. Ressurgiu quando descobri coisas minhas que estavam apagadas, como a vaidade, a vontade de ter uma posição social e de despertar o desejo do outro também."
Fabiana Vieira, 39 anos, empresária, divorciada



"MATERNIDADE E DESEJO
NÃO COMBINAM"

"Dos cinco meses até o nono mês da minha gravidez, fiz sexo, no máximo, duas vezes, e por insistência do meu marido. Achava que era um desrespeito para com o bebê. Depois do parto, o meu desejo voltou com força total. Mas, hoje, quando viajamos e a minha filha está por perto, não faço sexo. Tenho a mesma sensação de quando estava grávida: a de que estaria desrespeitando-a. A maternidade atrapalha muito o desejo sexual. Hoje, eu sinto que preciso ter um momento só meu e do meu marido para sentir desejo. Quando estou no papel de mãe, tudo se complica e ele fica para escanteio."
Daniela Donato, 24 anos, bacharel em psicologia, casada



"POR MIM, TRANSARIA TODA HORA"

"Tenho muita vontade de fazer sexo. Por mim, eu transava todo dia, toda hora. Num fim de semana chuvoso com meu namorado, por exemplo, podemos ficar tendo relações o dia inteiro. Não sei explicar de onde vem essa minha libido. Meus pais são tradicionais, conservadores, mas nunca falaram que sexo era feio e sujo. Então, sempre me dei bem com meu próprio corpo. Nunca tive problemas com masturbação, por exemplo: sempre encarei como uma maneira de a gente se conhecer melhor. Acho também que tive boas parcerias. É preciso saber escolher, senão não dá certo mesmo."
Juliene Prado Côrtes, 30 anos, produtora de moda, solteira