Coisas de mulher: O que elas têm na bolsa e na cabeça

Entrevista: Maureen Dowd, a diva do New York Times, fala dos homens

Poder: Quando o assunto é mandar, as diferenças entre os sexos acabam

Trabalho: Mais cultas e estudadas, as mulheres têm dificuldade para encontrar um parceiro à altura

Cotidiano: Como simplificar a sua vida

Maturidade: Os filhos saem de casa, a vida continua

Vida a dois: Por que um diz uma coisa e o outro entende algo completamente diferente

Filhos: As dificuldades da maternidade tardia

Família: Mãe e filha, ou seja, uma relação passional

Feminismo: A crise existencial do movimento que mudou o mundo, mas não tudo o que pretendia

Finanças: O principal motivo de desentendimentos em um casal

Consumo: Comprar compulsivamente. Cuidado, isso é uma doença

Comportamento: O amigo gay se tornou um companheiro inseparável

Solteiras: O que é preciso saber para sobreviver sem homem

Sexo: Orgasmo é uma corrida de obstáculos. É possível vencê-la

Saúde: As novidades que vêm dos consultórios e laboratórios

Dieta: O teste, bem-sucedido, de emagrecer sem dieta ou exercício

Corpo: Estudos mostram a mudança das formas femininas

Moda: Os conselhos de especialistas para realçar as qualidades de sua silhueta

Livros: Cinco escritoras sugerem leituras sobre e para as mulheres

Boa forma: Qual o exercício físico mais indicado para cada idade e estilo de vida
   
 

Entrevista: Maureen Dowd
A volta da mulherzinha

A ferina colunista do New York Times explica
por que os homens se tornaram dispensáveis


Tania Menai, de Nova York


Alex Wong/Getty Images

"A maioria deles prefere se relacionar com as subordinadas"

A jornalista Maureen Dowd adora uma provocação. Por tantas que já fez ao governo, é chamada de "a víbora" pelo presidente George W. Bush. Vencedora de um Prêmio Pulitzer pela coletânea de textos publicados à época da tentativa de impeachment do ex-presidente Bill Clinton, ela volta à cena com uma nova polêmica. Seu livro Os Homens São Necessários? – Quando os Sexos Colidem, best-seller nos Estados Unidos, a ser lançado no Brasil em outubro, tornou-se alvo de duras críticas por afirmar ter havido uma espécie de retrocesso na ambição feminina. E que os homens, de sua parte, estão adorando a mudança, já que sempre tiveram problema em lidar com a mulher poderosa. Maureen passou trinta anos cobrindo a influência dos gêneros feminino e masculino no mundo da política. A experiência a fez perceber notáveis diferenças entre os sexos na sociedade. Com suas sacadas irônicas, num texto recheado de anedotas, sociologia, política e, de certa maneira, com a própria experiência de quem nunca se casou, ela tenta responder a algumas questões antigas com as quais a mulher ainda depara. O que sobrou do feminismo? Por que os homens querem se casar com mulheres que ganham menos do que eles? Por que elas estão mais do que nunca preocupadas em colocar silicone? Aos 54 anos, Maureen faz um balanço negativo da nova geração, que, segundo ela, deve prestar atenção para não perder direitos já conquistados pelas mulheres. De seu escritório em Washington, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja Quais as grandes questões da mulher hoje?
Maureen Dowd – Alcançar uma mistura harmônica entre família e trabalho e o equilíbrio entre força e sexualidade. A geração pós-feminismo está buscando uma identidade. Antes, a idéia era imitar os homens. Trabalhar e ser como eles. Até orgasmo deveríamos sentir igual. Muitas de nós tentaram, mas, obviamente, não deu certo. Não somos homens. Não podemos fugir da nossa biologia de uma maneira tão fácil. Por outro lado, há uma mudança curiosa nos desejos femininos. No começo, as mulheres desejavam igualdade, mas, no fim, acabaram desejando Botox.

VejaPor que isso aconteceu?
Dowd – O movimento feminista tentou mudar a mulher, o que é impossível. Se você quisesse falar sobre homens bonitos, bebês, sapatos e roupas, era imediatamente rotulada de maneira negativa. Isso é um grande erro. Mulheres falam disso e gostam disso. Não se pode apagar o que é a mulher. Por isso, ela luta hoje para se refazer, encontrar seu novo papel na sociedade, expressando desejos de mulher e mãe. O problema é que elas estão tão ocupadas se refazendo que pararam de se preocupar em refazer o mundo – e esse era um grande feito do feminismo.

VejaA senhora parece ter uma visão pessimista, como se tivesse havido um retrocesso na ambição feminina.
Dowd – Acho que houve ganhos financeiros. Em várias profissões, as mulheres alcançaram níveis igualitários. Isso é ótimo. Mas o que me chama atenção é que, culturalmente, muito daquilo pelo que as feministas batalharam foi distorcido. Durante anos, as feministas brigaram para derrubar o status de Mrs. (o equivalente de Sra. Fulano de Tal). Hoje, cada vez mais mulheres estão adotando o sobrenome do marido. O status de senhora agora é acessório chique. Elas querem ser vistas como pertencentes a seu homem. Querem agarrar esse marido com toda a força. Outra coisa foi a obsessão pela aparência, por se manter magra e jovem. Sem falar do crescente movimento, pelo menos aqui nos Estados Unidos, de mulheres com carreira brilhante que abandonam o emprego para cuidar dos filhos.

VejaO que esse fenômeno indica?
Dowd – É um problema para o futuro das mulheres, principalmente no mercado de trabalho. A feminista Gloria Steinem queria que as mulheres deixassem de ser esse robô, responsável por tarefas domésticas e pela educação das crianças. Mas parece que as próprias mulheres querem voltar a essa vida. Voltar a ser as ladies da década de 50. Elas estão abandonando a carreira, mesmo quando podem pagar uma babá. E fazem isso porque não querem ficar fora de casa o dia todo e ter os filhos educados por estranhos. E sobretudo: querem cuidar do marido. Se todas as mulheres inteligentes abandonarem seus cargos para ficar em casa, quem vai garantir um futuro melhor no mercado de trabalho para elas? Os homens?

VejaE quanto à obsessão pela aparência?
Dowd – Não sei se é reflexo de um avanço na sociedade ou simplesmente mudança nas roupas que elas usam. Antigamente, você não via mulheres de 40 anos usando minissaia como no seriado Desperate Housewives. Essas atrizes exportaram esse estereótipo. Todas as mulheres de 40 querem se parecer com as protagonistas desse seriado. Elas são os símbolos sexuais dos Estados Unidos – e têm mais de 40 anos.

VejaE o que isso quer dizer?
Dowd – Acho excelente a idéia de que a mulher pode ser sexy em todas as idades. No entanto, há uma percepção de que as mulheres só podem ser atraentes se elas conseguirem replicar o visual que tinham aos 25 anos. Um exemplo disso é a atriz Goldie Hawn. Com os homens não acontece isso. Ao contrário. A atriz Sharon Stone acaba de lançar seu filme Instinto Selvagem 2. E muitos blogs já estão falando mal da nudez de uma mulher de 48 anos. Se fosse George Clooney, duvido que houvesse tal movimento.

VejaPor que uma mulher que trabalha e ganha bem ainda espera que o homem pague a conta do restaurante?
Dowd – Antigamente, entendia-se que não pagar a própria conta significava algo do tipo "se você está pagando o meu jantar, você tem o direito de me assediar sexualmente". Era um pensamento das feministas, que queriam sepultar qualquer ligação entre beleza e compensação financeira. Isso mudou radicalmente. Elas querem que eles paguem. Sobretudo o primeiro jantar. Aliás, isso passou a ser um teste. É como se elas quisessem ter certeza de que eles estão interessados nelas. E pagar a conta se tornou um sinal.

Veja – Como assim?
Dowd – Atualmente, quando a maioria das pessoas tem relacionamentos sem compromisso, é muito difícil para as mulheres decifrar o que os homens querem com elas. As mulheres estão voltando para os rituais de romance à moda antiga. Uma delas me disse que, quando se interrompe esse ritual, se instala o caos. É preciso ter regras. Nesse caso, os homens podem até ter prejuízo financeiro. Por outro lado, eles preferem lidar com mulheres que desejam ser patrocinadas. Se as mulheres querem que os homens paguem e eles querem pagar, por que perder tanto tempo com essa discussão?

Veja – É simples assim?
Dowd – Não, mas as coisas são claras. Quando os homens ficam mais velhos e mais poderosos, sua capacidade de atrair mulheres aumenta. O contrário não ocorre. Tenho uma amiga cuja carreira jornalística é mais bem-sucedida que a do marido. Ela tem de cuidar constantemente para que ele não se sinta ameaçado pela diferença. Numa briga recente, ele disse a ela que, no fundo, os homens têm uma vozinha lá dentro que diz: "Mulher, onde está a minha comida?" Quando comentei isso com outra amiga, ela disse que as mulheres têm, em contrapartida, outra vozinha: "Homem, cadê o meu dinheiro?" Isso resume a história toda. A evolução humana nos levou ao fato de que mulheres preferem se casar com homens mais poderosos que elas e homens preferem as subordinadas.

Veja – Como indaga o título de seu livro, os homens são necessários?
Dowd – Eles não são mais necessários. São artigos de luxo. À medida que a ciência avança e as mulheres conquistam o próprio cartão de crédito, muda a função do homem na vida da mulher. Ele não é mais necessário para as situações tradicionais, como pagar as contas da casa e reproduzir. Entrevistei um geneticista britânico que disse que no futuro meninas de 16 anos devem congelar seus óvulos, porque é nessa faixa etária que se tem os bebês mais saudáveis. Ele acha que isso será uma rotina. Os homens estão um pouco apreensivos com isso, depois do surgimento da clonagem. E, se as mulheres não precisarem mais de homens para se reproduzir, será que elas precisarão de homens em geral? Mas acho que os homens são necessários romanticamente. Quem, além deles, irá nos atormentar?

Veja – Por que os homens ainda preferem se casar com mulheres que ganham menos do que eles?
Dowd – Eles continuam se casando com mulheres que cuidem deles. E para cuidar é preciso ter tempo. E, para ter tempo, é necessário trabalhar menos. Ou seja: a carreira dela não compete com a dele. Numa entrevista da atriz Bette Davis, ela diz que seus casamentos faliram porque, quando um homem e uma mulher têm carreiras poderosas, eles acabam colidindo entre si. A coisa funciona melhor para um homem quando ele tem alguém que viva para ele. Não tenho dúvidas disso. Ou seja: os tempos parecem ter mudado, mas ainda há milhões de casos em que a vida da mulher gira em torno da vida do marido.

Veja – É culpa deles?
Dowd – Não. Quando o ator Jude Law traiu a namorada, a atriz Sienna Miller, com a babá de seus filhos, a babá alegou que Sienna viajava para fazer filmes em vez de cuidar dele. Ou seja, as mulheres enxergam as coisas desse modo. Há uma tensão entre a carreira da mulher que empata com a do homem e a carreira de uma mulher que faz a do homem melhorar. Isso não tem jeito.

Veja – A senhora está convencida de que a maioria dos homens pensa assim?
Dowd – Alguns homens, de fato, gostam de mulheres viajadas e interessantes. Mas a maioria acha o convívio com as bem-sucedidas desgastante, sobretudo porque eles se sentem com o ego ferido. Conversei com o ator Steve Martin sobre isso. Ele fez o filme A Garota da Vitrine, sobre uma vendedora de loja pela qual o personagem rico se apaixona. Na vida real, ele namora uma checadora da revista The New Yorker, em que ele escreve eventualmente. Ele me disse, meio brincando: "É, assim funciona melhor". Mas o fato é que parece funcionar mesmo. Certa vez, fui tomar uns drinques com o ator Ethan Hawke, ex-marido da atriz Uma Thurman. Ele me disse que, de fato, é difícil ter dois cromossomos Y na mesma relação. Eu não acho errado ter uma mulher em casa vivendo para o marido – a minha mãe foi assim. Apenas acho diferente do que se esperava para a vida das mulheres no século XXI.

Veja – Por que as mulheres topam isso?
Dowd – Porque a realidade ainda é muito cruel para elas. Parece-me que as mulheres têm de ser humilhadas ritualmente por ser dominadoras – e só depois elas ganham sinal verde para prosseguir. Quando se iria pensar que uma figura como Hillary Clinton, tão inteligente e dona de uma bela carreira em direito, teria de entrar para o Senado americano no figurino de mulher traída? Mas foi isso que aconteceu. Se Monica Lewinsky não tivesse existido, nunca teríamos a senadora Clinton. Antes do episódio Lewinsky, Hillary era vista como uma mulher controladora. Ninguém gostava dela, nem os homens nem as mulheres. Ela precisou passar por um episódio que revelou sua falta de controle para que as pessoas começassem a simpatizar com ela. Ela era uma vítima quando foi eleita. Tanto Hillary quanto a empresária Martha Stewart, que seguiu orientação de seus advogados homens, não eram benquistas e tiveram de sofrer algo drástico para que a sociedade lhes permitisse continuar com a carreira. Essa é uma síndrome muito interessante, que não ocorre com os homens.