| |
Mulheres
de preto
Ninguém
resiste a ele: há quase um século que
o pretinho básico é o melhor amigo
da mulher

Por
Lizia Bydlowski
Reprodução
 |
A
CRIADORA
Coco Chanel, de cigarro na boca e alfinete na mão,
ajusta na modelo uma de suas criações em
preto: ao publicar um croqui na Vogue, em 1926,
a estilista francesa ganhou o título de inventora
do pretinho básico. "Simplicidade é
a chave da verdadeira elegância", proclamou
mademoiselle Chanel, na linha de frente da revolução
que, nos anos 20, reduziu de 20 para 7 metros a quantidade
de tecido para fazer um vestido |
E Chanel inventou o pretinho básico. E as mulheres
lhe foram gratas para sempre. Na verdade, ao produzir a mãe
de todos os pretinhos, mademoiselle embarcava em uma tendência
lançada por seu contemporâneo Jean Patou. Não
importa: era dela o croqui do vestido reto, simplérrimo,
saia pouco abaixo do joelho, todo preto com um debrum branco
e preto no punho, que a revista Vogue publicou em 1926
com uma muito acertada previsão: "Vai se tornar o uniforme
de toda mulher de bom gosto". Assim foi. O preto, praticamente
de uso exclusivo em velórios e festas de gala, ganhou
a manhã, a tarde e qualquer momento em que a mulher
precise estar "bem". Apesar do diminutivo consagrado, pretinho
básico hoje é qualquer indumentária infalivelmente
certa para a ocasião em que for usada. Vale vestido,
tailleur, longo, terninho. Até o macacão de
Matrix, como pode ser constatado nas fotos desta reportagem,
em que divas das telas e da vida real demonstram como mulheres
fabulosas conseguem ficar, de pretinho, mais espetaculares
ainda.
Junto com a simplicidade, o preto trouxe para o universo feminino
a materialização da mais pura elegância.
Preto é puro e elegância, como mademoiselle
ensinava, tem muito mais a ver com expurgar detalhes do que
com acrescentá-los. A própria Chanel, feia e
baixinha, vestida de preto (com pérolas, seu par perfeito)
ganhava uma distinção incomum. Wallis Simpson,
a duquesa de Windsor, feia e esquálida, de preto se
tornou o nome e o sobrenome do que havia de mais chique no
seu tempo. E assim foi a caminhada do vestidinho preto, de
madame em madame, de beldade em beldade, de dona-de-casa em
dona-de-casa, até se firmar definitivamente em seu
pedestal de glória no dia em que Audrey Hepburn, adorável
em seu corpo de sílfide e interminável pescoço,
apareceu em Bonequinha de Luxo de luvas, piteira, franjinha
e vários e inesquecíveis pretinhos desenhados
por Givenchy. Nunca glamour e modernidade, às vezes
tão contraditórios, combinaram com tanta perfeição.
Columbia Pictures
 |
A
INIMITÁVEL
Rita Hayworth no strip-tease que nunca aconteceu: uma
única luva foi tudo o que Gilda tirou, em uma das
cenas mais eróticas do cinema. Mais não
precisava nunca houve mesmo mulher como a ruiva
estonteante. No sensualíssimo vestido preto, o
drapeado na altura da cintura não é mero
detalhe. Com ele, o estilista hollywoodiano Jean Louis
disfarçou a gravidez da atriz |
Como se não bastasse ser simples e elegante, o pretinho
também é funcional. Esconde manchas, disfarça
amassados, facilita a combinação (preto vai
com preto, ponto) e, vantagem sobre todas as vantagens, emagrece.
Num pretinho bem-talhado, as gordinhas podem se sentir belas,
esbeltas, poderosas, praticamente uma Rita Hayworth na sensualíssima
pele de Gilda, ou uma Jacqueline Kennedy a mulher mais
elegante do século XX, que usava poucos, mas inesquecíveis,
modelos pretos e deixou gravada na história uma imagem
de tragédia grega reencenada, vestida de tailleur preto,
véu de viúva sobre o rosto, levando pela mão
os dois filhos pequenos, no enterro do marido John, em 1963.
Desde sua invenção, nos anos 20, o pretinho
básico só perdeu força na década
de 70, quando o guarda-roupa feminino (e masculino também)
foi ocupado pelo psicodélico princípio do quanto
mais colorido, estampado, florido e descombinado, melhor
por sinal, o período mais visualmente prejudicado da
moda desde a abolição das anquinhas. Na década
seguinte, no entanto, ele voltou com renovado furor, impondo-se
nos anos seguintes como o uniforme diurno e noturno do agressivo
figurino yuppie. A tal ponto se instalou no dia-a-dia das
mulheres que deu lugar ao inimaginável, em se tratando
de algo tão perfeito: o exagero. "Do Rio de Janeiro
para cima, o pretinho mantém a função
de roupa elegante. Mas, em São Paulo, as mulheres extrapolam",
provoca a consultora de moda Gloria Kalil. "Em uma manhã
de sol, ver uma mulher toda de preto, como acontece em São
Paulo, é overdose." Sendo assim, num dia quente e ensolarado
de verão, busque no closet algo colorido, ou branco,
ou claro, que combine com a estação e quebre
a negra hegemonia. Bastará o termômetro cair
1, 2 ou 3 graus e pronto: está liberada a volta, ansiosa,
saudosa, deliciosa, dos adorados pretinhos.
|
|