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As
incríveis atletas de shopping
Campeãs
de consumo contam segredos
do mais feminino dos prazeres: as compras

Por
Marcelo Camacho
Bruno Veiga
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BOLSAMANÍACA
Maria Regis, entre suas prediletas: "Quando chego ao shopping,
as vendedoras saem pulando até o corredor e me convidam
a entrar" |
Assinale
qual a mais sublime combinação de palavras da
língua portuguesa: a) "Nossa, como você está
bonita e supermagra"; b) "A empresa avisa que todo mundo vai
emendar o feriadão"; c) "Começou a liquidação
de roupas de grife com descontos de 70%".
Quem cravou a última opção, sem hesitar,
é da tribo das compradoras profissionais, assumidas,
desinibidas. A estudante carioca Maria Regis, de 26 anos,
é um caso paradigmático da paixão pelo
consumo exercida de forma metódica, com a mesma disciplina
que os grandes atletas dedicam à prática de
feitos esportivos. Bolsas de grife, por exemplo, ela tem mais
de vinte. Só Louis Vuitton são nove. Mais Fendi,
Dior, Prada... Maria também adora comprar sapatos.
E vestidos. E jeans. E maquiagem. E perfumes. E bijuterias.
Maria adora comprar quase tudo o que vê pela frente
objetos em forma de coração, especificamente,
são uma mania incontrolável. "Não consigo
ficar uma semana sem fazer compras", diz ela. Quando pisa
no mais badalado dos shoppings cariocas, é uma festa.
"As vendedoras saem pulando até o corredor e me convidam
para entrar nas lojas", diverte-se.
Atleta de shopping, Maria personifica as características
que fazem das compras um esporte feminino por excelência.
Não que os homens não gastem e consumam, às
vezes mais do que as mulheres. Eles são simplesmente
diferentes. Qualquer pessoa que já tenha visto um exemplar
do sexo masculino com cara de mártir na porta da loja,
esperando a mulher, sabe como é patente essa diferença.
Homens, em geral, podem gostar de consumir, até de
pagar um ato de reafirmação da própria
capacidade produtiva , mas aquele ar de doce volúpia,
de prazer primitivo à medida que as sacolas vão
se acumulando nos braços, é um campo em que
elas reinam. "Não há mulher no mundo que não
goste de comprar", diz, com precoce sabedoria, a estudante
Nicole Tamborindeguy, 19 anos, sobrinha da socialite Narcisa.
"E isso independe de classe social e de quanto se tem no banco.
Toda mulher é louca por compras."
E mulheres loucas costumam cometer loucuras, certo? Quem nunca
abusou pelo menos uma vezinha que se atreva a criticar casos
como o da mineira Ana Paula Carneiro. Dois anos atrás,
ela viu numa revista um top da grife italiana Dolce &
Gabbana cravejado de cristais Swarovski. Acompanhavam a peça
um cinto e uma coleira igualmente cintilantes. Ana Paula desejou
o conjunto tão ardentemente que, ao confirmar que a
roupa jamais seria vendida no Brasil, ligou para a loja de
Paris, deu o número do cartão de crédito
e comprou o top pelo telefone, sem ao menos experimentá-lo.
A encomenda, pela qual Ana Paula pagou, feliz, 9 000 dólares,
chegou pelo correio. "Minhas amigas não acreditam nas
coisas que faço. Fico mesmo com fama de louca por compras",
diz ela, uma bem-sucedida empresária do ramo de jóias.
As verdadeiras profissionais não estão nem aí
para as críticas. No ano passado, a advogada Elisa
Sesana, de 37 anos, comprou numa butique de luxo uma saia
de cetim rodada do estilista Fause Haten. Levou também
uma bolsa. Gostou tanto de suas novas aquisições
que, quando chegou em casa, ficou sonhando em comprar as peças
também em outras cores. No dia seguinte, não
deu outra: voltou à loja e escolheu mais uma saia e
mais uma bolsa. Mais tarde, em casa, teve os mesmos pensamentos
da noite anterior. Elisa foi novamente à loja e repetiu
a compra. Ao fim de quatro dias seguidos, havia adquirido
quatro vezes os mesmos modelos de saia e de bolsa. Não
demorou muito para a administradora de seu cartão de
crédito estranhar. "Eles me ligaram com a suspeita
de que a loja estivesse fazendo cobranças duplicadas
indevidamente", diz Elisa. "Precisei explicar a situação."
A escritora inglesa Sophie Kinsella usa metáforas bem
básicas para explicar o prazer de comprar no livro
Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, divertido
romance no estilo Bridget Jones: "Como é? É
como passar fome durante dias, depois encher a boca de torrada
quentinha com manteiga. É como acordar e se dar conta
de que é fim de semana. É como os melhores momentos
do sexo". Ou às vezes até melhor e é
aí que se deve ter cautela. O prazer das compras se
torna problemático quando substitui outros. "Nas minhas
pesquisas, já entrevistei mulheres que, entre comprar
roupas e transar com o namorado, diziam que o prazer de fazer
compras era maior que o do sexo", diz a antropóloga
Mirian Goldenberg.
Quem não faz esse tipo de substituição
tem direito a curtir sossegada seus pequenos prazeres. "Uma
das melhores coisas do mundo é comprar uma coisa que
você amou, chegar em casa e experimentá-la de
novo. Levanta a auto-estima, sabe?", explica Nicole Tamborindeguy.
O efeito desestressante das compras também é
praticamente comprovado. "Às vezes, faço uns
gastos para desopilar", admite a física nuclear Valéria
Pastura, que não vê contradição
entre ser cientista e consumista. "O problema é que,
enquanto estou colocando a raiva para fora, acabo estourando
o limite do cheque especial." A experiência aumenta
com os erros. "Não compensa comprar quando se está
triste. Você acaba acreditando nos elogios das vendedoras
e leva para casa coisas de que não precisa", analisa
Maria Regis. Consciência pesada também atrapalha.
A advogada Elisa Sesana levou para o consultório da
analista seu "problema" com as compras: culpa cristã.
"É que, para o catolicismo, é tão bonito
ser pobre...", diz ela, que trabalha duro e acha que merece
rechear seu guarda-roupa com os estilistas prediletos. A produtora
de moda Fabíola Fantinato ignora solenemente as aguilhoadas
na consciência. Apaixonada por roupas, bolsas, jóias
e sapatos antigos por gosto e profissão (recorde: uma
pulseira dos anos 20 que conseguiu convencer o dono do antiquário
a lhe vender em nada menos que dezoito prestações),
ela tem um lema: "Não agüento quem diz que fazer
compras é uma futilidade. Passar a vida sofrendo é
que é uma perda de tempo".
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Para
usar antes de gastar
Profissionais das compras dividem aqui, em suaves
prestações, algumas de suas conclusões
Atire o primeiro cartão de crédito
a mulher que nunca fez isso: comprar para neutralizar
uma frustração séria. Não
é preciso nem dizer que você continuará
frustrada e, ainda por cima, endividada. Resista.
Em compensação, pequenos aborrecimentos
podem se desvanecer rapidamente diante de um corredor
de shopping. Reconheça o mecanismo compensatório,
com toda a maturidade. E ataque.
Está viajando, passou, viu, gostou? Compre.
Dificilmente você voltará por lá.
Passar séculos se lembrando de uma maravilhosa
aquisição não realizada geralmente
é pior do que o estouro no cartão de crédito.
Falando nele: dividir a conta, no cartão
ou no pré-datado, dá a sensação
ilusória de que não se está gastando
muito. Todo o cuidado é pouco.
Você não resistiu? Faça compras
parceladas em lojas onde costuma gastar bastante. A
gerente deve ter todo o interesse em oferecer condições
mais camaradas.
Ir às compras com uma amiga pode ser animado
e até útil, se ela tem um bom olho. Mas
você tenderá a gastar mais em tempo
e dinheiro. As verdadeiras profissionais preferem agir
sozinhas.
"Ficou lindo!", em linguagem de vendedora, significa
"Oba, mais comissão". Você é quem
sabe o que lhe cai bem. Mais: roupas justas não
lasseiam; largas, não encolhem. Só compre
o que serve perfeitamente.
Não permita que as compras sejam o maior
prazer de sua vida. Tem gente que reluta em acreditar,
mas existem outras coisas boas na vida. Tente variar:
um passeio num lugar bonito, um programa com amigos,
até sexo num horário incomum.
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