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A primeira vez das caras-lavadas


Por Tatiana Schibuola

Elas são inteligentes e respeitadíssimas em seus meios profissionais, mas de vaidade não sabem nada – e algumas até têm raiva de quem sabe. Vá perguntar a elas o que é uma chapinha ou qual o jeito certo de passar delineador e terá como resposta um ponto de interrogação. Uma tarde de cuidados no cabeleireiro, experiência que encerra pelo menos prazer antecipatório para a maioria das mulheres, para elas é sacrifício – um pouco por falta de vaidade, um tanto pela agenda atribulada e muito pelo medo de que o excesso de cuidado com a aparência denote futilidade, subserviência aos padrões impostos de beleza ou sabe-se lá que outro horror. Para mostrar que pode existir coexistência pacífica entre vaidade e inteligência, VEJA propôs um desafio à deputada radical petista Luciana Genro, à auditora fiscal do Ministério do Trabalho Fernanda Giannasi, à médica Valéria Petri e à cientista política Tatiana Ribeiral: passar por uma transformação nas mãos do maquiador e cabeleireiro Celso Kamura. A seguir, as diferentes reações a essa primeira vez.


Superficial, nem pensar

 
Fotos Mario Fontes

Nem no dia de seu casamento a deputada federal gaúcha Luciana Genro, 32 anos, do PT, procurou os serviços de um maquiador. No dia-a-dia, usa só lápis no olho e corretivo para disfarçar olheiras. Quando a ocasião é mais sofisticada, complementa com batom. "Para ser respeitada no meio político, a mulher precisa romper com o estereótipo de superficialidade", prega. Não se trata de desleixo, mas de atitude. Desde 1994, Luciana vive lutando: contra a Alca, contra o neoliberalismo e, agora, contra o próprio partido. Evidentemente, encampa as teses feministas mais duras. "Somos contra a mulher-objeto. Nada pior que explorar o corpo feminino para vender cerveja." Abre, no entanto, uma exceção: "Sexy, só para o meu marido", entrega. No dia destas fotos, descobriu-se que Luciana não é tão antivaidade assim: tinha as unhas pintadas de vermelho e, na prodigiosa cabeleira ruiva, a raiz mais escura denunciava tintura. "Descolori para ficar no tom do meu cabelo no verão", desculpou-se. Luciana não transigiu nem quando viu a beleza realçada pelo visual caprichado: "Está bonito. Mas não serve para mim".

Beleza por trás dos óculos

 

Aos 27 anos, a cientista política Tatiana Ribeiral está preparando tese de mestrado sobre legislação eleitoral pela Universidade de São Paulo, aguardando o lançamento de seu primeiro livro, em que incentiva os jovens a votar e a cobrar ações dos representantes eleitos, e ainda concluindo um projeto de inclusão política pela organização não-governamental Ágora. Para ganhar credibilidade, esconde beleza e juventude atrás dos óculos. "Usá-los é uma forma de garantir que o que eu vou dizer será realmente levado em consideração. Funciona como um disfarce. O meio acadêmico é muito preconceituoso", avalia. Reforçar a imagem de mulher inteligente é um dos motivos que mantiveram Tatiana afastada dos salões de cabeleireiro a vida toda. Ela nunca havia sido maquiada e só tinha feito as unhas duas vezes: aos 15 anos e na festa de formatura da faculdade. "É difícil me acostumar com essa imagem, mas gostei muito. Acho que as mulheres precisam se livrar da idéia de que, para conquistar espaço profissional, têm de deixar de lado a vaidade."

Peeling e Botox nos outros

 

Aos 55 anos, a dermatologista Valéria Petri, primeira médica a diagnosticar um caso de Aids no Brasil, entre consultório e aulas ainda trabalha com a energia de uma recém-formada – sua jornada pode chegar a vinte horas diárias. Para ela, dormir é perda de tempo. Mas, ao contrário de muitas colegas de especialidade, não faz o tipo vitrine das novidades da dermatologia: não se aplica Botox nem preenchimento, tampouco é adepta dos peelings na própria face (embora faça tudo isso em seus pacientes). Para não dizer que não se cuida, ela aplica cremes à base de vitamina C e filtro solar todos os dias e fiscaliza o cabelo, cuidando para disfarçar os fios brancos. "Até os 35 anos, eu era mais vaidosa. Hoje, posso dizer que minhas prioridades dizem respeito a qualquer outra coisa que não seja eu mesma", informa. Valéria chegou para a "transformação" meio ressabiada – foi preciso coragem, revelou, para encarar o desafio de estar no centro das atenções. "Afinal, se não olho no espelho, não vejo os meus defeitos", argumentou. No final, olhou bem e ficou muito satisfeita com o que viu: "É impressionante como o trabalho de um artista transforma a nossa identidade".

O sacrifício do salto alto

 

A engenheira Fernanda Giannasi, 45 anos, separada, uma filha, é a típica viciada em trabalho. Como auditora fiscal do Ministério do Trabalho, Fernanda batalha para conseguir banir o amianto, mineral utilizado na fabricação de telhas, caixas-d'água e pastilhas de freio, considerado um elemento desencadeador de doenças respiratórias e câncer. Luta também pela indenização das vítimas. Sua campanha lhe rendeu prêmios e reconhecimento, mas custou caro em termos de vaidade. Fernanda, que adorava salto e maquiagem, conta que aos poucos foi percebendo que ser bonita e bem-cuidada incomodava os colegas de trabalho, principalmente os do sexo masculino, e isso atrapalhava a defesa dos seus pontos de vista. Por isso, deixou de lado os cuidados com a aparência, ganhou 20 quilos e adotou a aparência despojada como se fosse uma bandeira. "É uma espécie de autoflagelo. Sempre tive de provar que era competente, apesar de meus atributos físicos", desabafa. Para ela, a imagem criada por Kamura é, na verdade, o que ela gostaria de ser todos os dias. "Essa sou eu", reconheceu-se, encantada, ao ver o resultado.