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Madame
que faz
Eliana
Tranchesi era uma jovem senhora
dona de butique. Aí, ela construiu a Daslu

Lizia Bydlowski
Pedro Rubens
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Entrar,
mesmo, é para poucos. Mas, de ouvir falar, quem não
conhece a Daslu, a mais luxuosa entre as butiques de luxo
do país? São 6 500 metros quadrados tomados
de cima a baixo por artigos finos, selecionados, de alta qualidade
e, evidentemente, caríssimos a peça mais
barata, uma camisetinha básica da marca Daslu, custa
70 reais. De um lado fica a Daslu feminina: onze casas interligadas
por corredores, formando um labirinto de saletas forradas
de vestidos, saias, blusas, casacos, sapatos, bolsas, quase
tudo ajeitado por cor. Do outro, separados por uma rua, estão
a Daslu Homem e seus apêndices, a Daslu Casa, a Daslu
Teen e uma série de corners terceirizados, mais ou
menos uns quiosques de luxo, onde se vendem jóias,
revistas, vinhos, chocolates e até apartamentos. A
parte visível da Daslu acaba aí, mas na mesma
vizinhança, em outros emaranhados de casinhas interligadas,
estão os escritórios, a cozinha, uma parte do
estoque e uma creche para filhos das funcionárias que
atende atualmente 150 crianças. Até uma oficina
com setenta costureiras também funciona ali perto.
Quem manda em toda essa gente é Eliana Tranchesi, 47
anos, loira, bonita, bem-cuidada, "consumista fissurada em
bolsa e sapato". Eliana vem de família rica e, em tese,
nem precisaria trabalhar, não fosse por uma anomalia
biográfica: a certa altura da vida, descobriu-se uma
comerciante de mão cheia. "Pois é: eu tenho
tino para negócio. Foi uma surpresa para todos, para
mim inclusive", revela. Foi esse tino que a colocou no comando
de um conglomerado de luxo sem paralelos, no Brasil ou no
exterior.
Parque de diversões de milionárias, retrato
involuntário das disparidades de renda do país,
paradigma da gastança das classes privilegiadas, entre
outros epítetos usados pelos críticos em momentos
de mau humor, a Daslu de Eliana é uma mistura de butique
do interior com o que de mais requintado a sociedade pós-industrial
é capaz de produzir. A mistura é proposital.
Eliana está convencida de que a Daslu é o que
é porque as vendedoras tratam as clientes como amigas
do peito, tal e qual nas lojinhas de bairro. A maioria é
mesmo, já que boa parte das 78 "dasluzetes", como são
chamadas as moças bonitas e chiques que trabalham na
casa, é parente de cliente. Embora o cadastro registre
70 000 freguesas, o número das que visitam a loja com
freqüência é bem mais rarefeito. No ápice
da lista, clientes com cacife para gastar 30 000, 40 000 reais
por mês. "Somos quase um clube", define Eliana. Nesse
clima, madames e filhas de madames (cerca de 300 por dia)
entram na Daslu, cumprimentam todo mundo com beijinhos e são
atendidas pela "sua" vendedora. Examinam uma arara e ali mesmo
tiram a blusa e experimentam (há espelhos por todo
lado e homem não entra) um corselete Dolce & Gabbana
de 3 000 reais e outro, e mais outro. Seleção
encerrada, o pagamento é feito num balcão com
cadeiras confortáveis na frente. "Acho o fim ter de
esperar em pé numa fila para pagar", critica Eliana.
No capítulo dos mimos, a Daslu oferece cafezinho, biscoitinho,
sofás e música ambiente. "São esses cuidados
que fazem da Daslu a Disney das mulheres", diz Eliana. "O
self-service não tem sonho e, neste ramo, sonho é
essencial." É de bom alvitre que a freguesa de primeira
viagem apareça munida de apresentação
não são poucas as reclamações
de neófitas que entram na Daslu e ninguém lhe
dirige a palavra. Eliana "tem chilique", segundo as funcionárias,
quando toma conhecimento de um caso assim.
Pedro Rubens
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SOFÁ
COM CAFÉ
Mimos: as clientes batem papo, provam tudo sem pressa
e, no fim, assinam o cheque sentadas |
Além das clientes-amigas de invejável conta
bancária, está no cadastro da Daslu boa parte
das celebridades nacionais. Às vezes, faz-se a ponte
entre os dois mundos: Antonio Carlos Magalhães, o senador
baiano, é famoso e amicíssimo dos Tranchesi.
"Quando ele teve um infarto, há quase quinze anos,
foi tratado pelo meu ex-marido, Bernardino. Ficamos muito
amigos." Na Daslu, porém, o senador não é
de fazer grandes compras. "Ele gosta mesmo é de sentar
no café e conversar com as gerentes, com as vendedoras.
A Carol, neta dele, é uma delas", diz Eliana. Carolina
Magalhães, Sophia Alckmin (a filha do governador de
São Paulo) e mais uma coleção de sobrenomes
imponentes ser dasluzete é o sonho profissional
de muita jovem bem-nascida. Desde o começo do ano,
130 se inscreveram e oito foram chamadas, não por falta
de currículo, mas porque as vagas são raríssimas.
O fenômeno se repete no mundo das funcionárias
"de apoio": 150 mulheres uniformizadas, encarregadas de dobrar,
guardar e arrumar rapidamente tudo o que as vendedoras e clientes
desarrumam. "Temos muitos casos de mães que trazem
a filha para cá", diz Eliana. No total, 680 pessoas
trabalham na Daslu, uma loja que começou singelamente
há 45 anos na casa da mãe de Eliana, Lucia Piva
de Albuquerque, em sociedade com a amiga Lourdes Aranha dos
Santos (as "Lu"). "A mercadoria ficava no armário do
meu quarto. Vinham as amigas, passava um cafezinho, a gente
conversava. Eu quero que seja sempre assim", afirma. Eliana,
única menina entre seis filhos, gostava de roupas e
de compras, mas não pensava em trabalhar na loja
queria ser artista plástica e montar um ateliê.
"Mas aí eu me casei com o Bernardino, que é
médico. Ele fez aaanos de residência, depois
aaanos de especialização. Alguém precisava
ganhar dinheiro." Ela foi vender na Daslu, claro, e pegou
gosto.
Ao assumir o controle da butique quando a mãe morreu,
em 1983, Eliana entrou para o grupo das jovens senhoras bem-nascidas
que têm loja. Com uma notável diferença:
esta jovem senhora fez a Daslu. "Não sabia nada", afirma.
Seus oráculos foram o irmão mais velho, Carlos
Eduardo, já morto a viúva e outros dois
irmãos são, segundo Eliana, seus únicos
sócios na Daslu hoje , algumas consultorias e
Abilio Diniz, dono do Grupo Pão de Açúcar.
"O Abilio é um grande amigo da família, sabe
tudo de varejo e até hoje me dá conselhos",
diz. A grande virada, de loja bem-sucedida para fenômeno
de fama internacional, ocorreu em 1990, quando as importações
foram liberadas. "Nunca me esqueço: era março
e o país inteiro via na televisão o governo
Collor confiscar o dinheiro da população. Eu
deletei tudo e só guardei uma frase 'As importações
serão liberadas'", conta Eliana. Em maio, com o dinheiro
que conseguiu amealhar, foi para a Europa. "O mercado brasileiro
era totalmente desconhecido. Achavam que aqui não tinha
cliente para seu produto, que as compradoras não iam
assimilar o alto preço. Foi um duro trabalho de convencimento."
De lá para cá, a Daslu fui reunindo nas saletas
de seu labirinto uma fortuna em roupas, sapatos e bolsas.
A Chanel veio em 1997, depois de outra duríssima negociação.
"Eles supervisionaram tudo: treinamento de funcionários,
decoração, disposição das peças.
Pois no dia da inauguração nossa butique foi
destruída por clientes enlouquecidas. Quando vi, o
diretor para a América Latina estava no chão,
de joelhos, afivelando um sapato", lembra Eliana. Hoje, a
Daslu representa, em roupas e acessórios, cerca de
setenta grifes estrangeiras, além da vastíssima
coleção da marca Daslu.
Eliana está separada "sem traumas" há quatro
anos e namora o empresário Álvaro Coelho da
Fonseca. Costuma acordar cedo, faz ginástica em casa,
chega à butique às 11 horas e só encerra
o expediente à noite muitas vezes, em festas
e jantares. Além de compradora oficial da marca e negociadora
de contratos, é ela quem tem a palavra final sobre
cada linha Daslu. Também gosta de marketing, de fazer
a revista Daslu (recheada de anúncios
"dá até um lucrinho"), de acompanhar editoriais
de moda, de organizar desfiles. Dez vezes por ano, vai à
Europa para temporadas de desfiles. Nas viagens, leva junto
Donata Meirelles, atual senhora Nizan Guanaes, seu braço
direito. Na última viagem, em julho, levou também
a filha menor, Marcela, de 11 anos. "Ela ama o negócio.
Fez as compras comigo, tomou nota, fotografou tudo", relata,
orgulhosa. Luciana, a filha de 14, também gosta da
Daslu, mas para rechear o closet. "Ela é tão
consumista quanto a mãe", brinca. Todos só vestem
Daslu, inclusive o filho Bernardino, 17 anos, que no ano passado
morou na Europa, em um intercâmbio. Religiosa de ir
à missa todo domingo, a mãe preocupada cometeu
uma loucura: em troca de proteção constante,
prometeu a Nossa Senhora, de quem é devotíssima,
não comer doce "pelo resto da vida". "Mas não
vai dar. Já quebrei uma vez. Vou ter de renegociar",
confessa.
Exportar a marca Daslu é hoje o item número
2 na agenda de Eliana. O número 1 é a mudança
da loja. Ponto comercial irregular em bairro residencial,
a Daslu deve ir para um prédio próprio na vizinha
Vila Olímpia, em projeto que já está
quase pronto e é parecido com o atual: rua calma, salas
pequenas, dois andares, no máximo. "Depois de assinado
o contrato, devemos mudar em um ano e meio", antecipa a suave
czarina do império do luxo. Os endereços passam,
a Daslu continua.
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Isto
é Daslu
Algumas
etiquetas de uma loja que é caríssima
até na liquidação
Pedro Rubens
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1
500 a 3 000 reais
Objeto de desejo das personagens de Sex and the
City, as sandálias Manolo Blahnik somem
em semanas |
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8
680 reais
O vestido de seda preto, todo bordado, leva a
marca Daslu e faz parte da novíssima coleção.
Todo mês de agosto, parte da loja fecha por uma
ou duas semanas, para troca de estoque
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Pedro Rubens
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Pedro Rubens
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14
780 reais
Afinal, quanto poderia custar um jogo (24 peças)
de porcelana Herend, marca húngara que decora
mesas nobres da Europa desde 1826? |
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