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Patricinha,
não!
Criada
para se casar, Patrícia Saboya Gomes
aprendeu a andar só e chegou ao Senado

Por Thaís
Oyama
Orlando Brito
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"IRACEMA"
Ex-comunista, ex-vereadora, ex-deputada e ex-mulher
de político, Patrícia tem luz e trajetória próprias: traços
indígenas e doçura iluminam a primeira senadora eleita
da história do Ceará |
A
senadora Patrícia Saboya Gomes nasceu com tudo para
ser mulher de político. Filha da elite cearense, bonita
e mimada, foi criada tal e qual uma princesa do agreste
nunca precisou fazer a própria cama e até hoje
mal sabe fritar um ovo. Aos 19 anos, casou-se com o galã
da sua cidade, a orgulhosa Sobral, oásis de prosperidade
no sertão do Ceará. O rapaz, igualmente da fina
flor local e igualmente bem-apessoado, deu-lhe três
filhos e elegeu-se prefeito em 1988, transformando-a na mais
jovem primeira-dama do Estado. Se tivesse seguido seu destino
natural, Patrícia seria hoje, aos 40 anos, uma ex-mulher
de político o Brasil inteiro sabe que o marido
se apaixonou por uma outra Patrícia, a Pillar.
Nem
como namorada, nem como esposa, nem como ex, no entanto, ela
seguiu os clichês previsíveis. Patrícia
nunca foi patricinha. Quando conheceu o hoje ministro Ciro
Gomes, aos 18 anos, de calça jeans boca-de-sino e muitas
idéias na cabeça, já presidia o Centro
Acadêmico do curso de fisioterapia da Universidade de
Fortaleza. Militava no linha-duríssima Partido Comunista
do Brasil, o PC do B. Ele, jovem advogado, ensaiava uma candidatura
a deputado infinitamente mais à direita, pelo PDS.
Apaixonaram-se, casaram-se, tiveram três filhos (Lívia,
de 19 anos, Ciro, de 17, e Yuri, de 13). A paixão pela
política acompanhou-a durante os mais de quinze anos
em que foram tidos como um casal-modelo, quando ela foi vereadora
e deputada estadual e também a salvou da obscuridade
depois que a união acabou. A retidão de caráter
transformou-a num caso raríssimo de mulher abandonada
que não apenas não recrimina o ex: elogia-o
e reconhece os imperativos do coração que o
levaram para os braços de outra. A mãe de Patrícia,
Marly Saboya, conta que a filha proibiu quem quer que fosse
ela, Marly, incluída de criticar Ciro.
"Fiquei um pouco revoltada", lembra Marly. "Mas, quando ameaçava
dizer alguma coisa, minha filha me interrompia: 'Mãe,
isso acontece'."
Patrícia
não é deste mundo? Ao contrário, como
qualquer mulher normal, ela sofreu o diabo. "Imagina o que
é você ser traída em cadeia nacional e
ainda ter como rival uma estrela de TV no auge da fama?",
indaga um amigo. Ela própria reconhece: "Chorei muito,
me desesperei até. Eu me casei com um homem por quem
estava apaixonada e queria morrer
ao lado dele. Não foi possível". Logo, porém,
reaflora o senso de justiça, talvez o mais difícil
sentimento de um parceiro rejeitado: "Eu também poderia
ter me apaixonado por outra pessoa". Patrícia continua
a admirar o ex-marido, com quem mantém singulares laços
político-afetivos, e não abre a guarda nem um
instante quanto à lisura de seu comportamento. "Não
me importa se o Ciro me contou o que aconteceu no dia em que
aconteceu ou dez dias depois", diz. "Ele não deixou
de ser o homem íntegro que conheci só porque
o nosso casamento acabou."
Reprodução Leo Caldas/Titular
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DESILUSÃO
Cortando o bolo com Ciro e, já separada, com ele
e Lívia, a filha mais velha: "Eu me casei com um homem
por quem estava apaixonada e queria morrer ao lado dele.
Não foi possível" |
Pedro David
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A
separação dolorosa e a experiência política,
própria e conjugal não a prepararam, porém,
para o que a esperava quando se candidatou a prefeita de Fortaleza,
em 2000. Durante a campanha, a recém-separada deputada
estadual viu fotos suas nos cartazes de propaganda serem retocadas
com desenhos de chifres. Outdoors que a mostravam de braços
abertos passaram por um sistemático e anônimo
trabalho de pichação para que as mãos
exibissem, no lugar do microfone, uma imagem que era a representação
do machismo que torpedeou a disputa: um falo grotesco. Patrocinados
por adversários, programas de rádio aproveitaram-se
da popularidade de uma marca de manteiga que levava o seu
nome para insinuar uma suposta fragilidade da candidata, ao
mesmo tempo que exaltavam as qualidades de um certo "biscoito
Pillar" apresentado como "o preferido do ex-governador".
Foram seis meses de bombardeio incessante, que a fizeram desabar
várias vezes. "Chorei muito diante dos meus filhos",
lembra. Ao final, além do casamento desfeito e da campanha
sórdida, ela amargava a mais retumbante derrota eleitoral
da carreira.
A virada só aconteceu dois anos depois, quando venceu
as resistências do partido, o PPS, que preferiria vê-la
candidata a deputada, e dos amigos, traumatizados com a campanha
pela prefeitura. Ela teimou, concorreu, venceu e se tornou
a primeira senadora eleita da história do Ceará.
Hoje, vice-líder do governo no Senado, só não
acumula mais funções do que fãs. O mais
ardoroso deles, o senador Mão Santa, é incapaz
de avistá-la pelos corredores sem deixar escapar um
suspiro, seguido de um sonoro "Iraceeeema" apelido
tirado da personagem de José de Alencar com quem compartilha
a beleza de traços indígenas. Patrícia
não liga, dá risada. Ao contrário do
estereótipo da política nordestina de pêlo
nas ventas, como a colega senadora Heloísa Helena,
a mãe de todas as fúrias na tribuna, Patrícia,
como a virgem de lábios de mel do romance, é
sempre dulcíssima. Sua área de atuação,
aí sem grande originalidade, é voltada para
a infância: coordena a Frente Parlamentar pela Defesa
dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, é
relatora de uma das subcomissões da Criança,
Adolescente e Juventude e presidente da CPI da Exploração
Sexual. Fala quase que diariamente com o ex-marido e, mesmo
tendo resgatado o Saboya de solteira, não conseguiu
se livrar do Gomes. Este retribui a admiração,
talvez até a ultrapasse. Entrevistado para esta reportagem,
declarou: "Patrícia é uma grande mulher". E,
de olhos marejados, parou de falar por alguns instantes, interrompido
pela emoção.
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