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É
bom que eles
paguem
Pesquisa
revela o que as mulheres escondem:
a maioria detesta dividir as despesas

Débora Chagas
Antonio Milena

Bárbara
e Álvaro: ela nunca põe a mão no bolso |
O
rol de conquistas femininas é tão longo que
algumas já começam a ser revistas. A primeira
da lista de revisão parece ser o pagamento das contas.
Houve um tempo em que as mulheres precisavam pagar todas as
suas despesas, ou bancar metade das despesas conjuntas, como
forma de provar que ficaram independentes financeiramente.
Mas a regra continua a vigorar quando ninguém mais
questiona essa independência?
De acordo com pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi encomendada
por VEJA, começa a surgir entre as próprias
mulheres uma corrente que questiona o pagamento das despesas.
Elas declaram aborrecer-se com a responsabilidade de dividir
gastos de casa, como contas de luz, condomínio e aluguel.
Rachar a nota de um restaurante, por exemplo, é motivo
de irritação para uma parte significativa das
entrevistadas. A verdade é que elas podem até
assinar o cheque, mas, lá no fundo, gostariam que eles
tomassem a iniciativa.
À
primeira vista, os resultados da pesquisa denotam uma contradição.
As mulheres suaram para competir em igualdade com os homens
no mercado de trabalho e também por uma divisão
mais equilibrada das responsabilidades com a casa e a família.
Por que então pregar a volta da "mulherzinha" sustentada
pelo marido ou pelo namorado? "Não tem nada a ver com
submissão. A conquista do pagamento foi substituída
por uma espécie de imposição social para
que a gente divida as contas, como se isso fosse a prova da
independência feminina", comenta a arquiteta Vanessa
Bhering, de Brasília, que sempre defendeu que os namorados
tomassem à frente das despesas.
De
acordo com dados de consultorias de recursos humanos, as mulheres
costumam ganhar 20% a menos que os homens mesmo ocupando cargos
iguais. De cara, isso poderia ser entendido como um bom pretexto
para que as despesas fossem desigualmente divididas. É
o que pensa a gerente de marketing Bárbara Levy, de
31 anos. Morando há um ano com o médico Álvaro
Razuk, de 33 anos, ela raramente põe a mão no
bolso quando se trata das despesas domésticas. "Meu
dinheiro é para mim: cabeleireiro, celular, o seguro
do meu carro. O resto, acho que ele deve pagar. Afinal, ele
ganha três vezes mais que eu", diz. Entre o casal, o
fato é encarado de maneira tranqüila. Na opinião
do marido, assumir todas as despesas é uma questão
de gentileza e, quase, uma obrigação. "Não
me sinto explorado. Ao contrário. Acho que é
uma nova maneira de encarar a distribuição de
tarefas. Sinto-me lisonjeado de poder dar conforto a ela",
afirma.
A opinião popular captada pela pesquisa não
traduz o pensamento dominante dos estudiosos (e principalmente
das estudiosas) sobre o tema. A grande maioria dos trabalhos
sobre o assunto prega que a mulher deve, sim, pagar as despesas,
como forma de manter a relação em pé
de igualdade, sem dar a ele a oportunidade de se autoproclamar
"provedor". Mas as mulheres, de acordo com a pesquisa, não
se importam com o que pensam os estudiosos.
Pagar a conta entra no mesmo rol de gentilezas admiráveis
como abrir a porta do carro e puxar a cadeira. Para o psicoterapeuta
carioca Sócrates Nolasco, a questão de quem
vai ou não pagar a conta do jantar leva, simbolicamente,
à seguinte pergunta: afinal, quem manda aqui?. "Está
claro que elas querem ser conduzidas", afirma ele, autor dos
livros O Mito da Masculinidade e A Desconstrução
do Masculino. Para Nolasco, as mulheres optam pela passividade
na hora de colocar a mão no bolso quando querem preservar
um certo encanto romântico na relação.
"O cotidiano é muito pragmático; então
elas tratam o jantar com o parceiro como se fosse uma trégua."
Há ainda um dado adicional que afeta diretamente as
mulheres casadas. A grande maioria delas se diz sobrecarregada
e estressada com as tarefas domésticas, que assumem
quase sempre sem a participação do marido (veja
reportagem). Sob essa ótica, deixá-los
pagar funciona como uma espécie de compensação.
"É uma reação como se elas dissessem:
'Tudo bem, eu continuo a ser a mãe de seus filhos e
a rainha do lar, fora o fato de eu trabalhar fora, mas quero
ser recompensada por isso'. Elas querem é uma reverência
pública", diz o psicanalista Joel Birman.
Existe certo consenso de que as discussões financeiras
se tornaram uma erva daninha tão devastadora para o
relacionamento quanto a rotina, a "mesmice". Muitos casais
minimizaram a discussão separando o mundo financeiro
do mundo sentimental. Cada um mantém uma conta corrente
individual e nenhum dos dois deve satisfação
ao outro sobre o que faz com o dinheiro. Na data dos pagamentos,
os dois preenchem cheques no valor exato correspondente à
metade de cada despesa do mês. É uma forma de
manter a individualidade econômica. Outros casais optam
pela conta corrente conjunta, na qual não há
segredos. A transparência financeira é o principal
propósito.
Não existem regras preestabelecidas para dizer o que
está certo ou errado. No dicionário amoroso,
cabe pagar ou não dependendo da situação.
Em geral, recomenda-se o diálogo. O importante é
falar sobre o assunto de maneira aberta desde o início
do relacionamento. Dinheiro, casamento, amor e romantismo
são coisas intimamente ligadas. Encare o debate de
maneira positiva. Antes de começar uma discussão
que envolva dinheiro, é preciso ter certeza de que
o problema é realmente financeiro, e não um
bode expiatório para outras questões do casal.
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