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"Já
fez o dever de casa?"
Não
há como escapar: a maternidade
deixa culpadas as que trabalham fora
e as que ficam em casa

Valeria Rossi
Fotos Selmy Yassuda
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Denise
Areal: angústia provocada pela ausência
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O
filho Rodrigo: dez chamadas da mãe por dia |

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Converse
sobre a vida com uma mãe que trabalha fora. É
praticamente certo que uma de suas principais fontes de angústia
seja deixar o filho em casa quando sai para o escritório.
Tente o mesmo com uma mulher que abriu mão da carreira
para cuidar das crianças. Decerto ela vai lamentar
a monotonia de seu cotidiano, a ausência de uma vida
"só sua". Parece não haver escolha
plenamente satisfatória. Em qualquer um dos casos,
a mulher convive com uma culpa aparentemente incontornável
que acompanha a maternidade. "Uma amiga minha diz que
ser mãe é ter culpa. Às vezes, é
isso o que sinto por passar pouco tempo com meu filho. É
um eterno conflito", afirma a atriz Claudia Raia, mãe
de Enzo, de 5 anos. A mesma sensação atinge
quem fez a opção contrária. "Larguei
minha vida profissional para cuidar das crianças. Muitas
vezes, acordo me sentindo um pouco inútil. É
um alto preço que se paga", diz a empresária
Isabel Staub, de 32 anos, herdeira da Gradiente, mãe
de duas crianças. Tanto Claudia quanto Isabel são
mulheres bem-sucedidas e que podem contar com o apoio de babá,
enfermeira e empregados que lhes garantam conforto e pouca
dor de cabeça. Se para elas a sensação
beira o incômodo, imagine o que significa para uma mulher
de classe média que, em geral, conta apenas com o apoio
dos parentes quando precisa de ajuda para cuidar dos filhos.
É
muito difícil para a mulher conseguir administrar os
papéis que são exigidos dela: provedora, junto
com o homem, na parte econômica, alicerce emocional
da família e profissional bem-sucedida. "Elas
sentem que vão fracassar em algum desses compromissos",
afirma a terapeuta de família Gladis Brum, autora do
livro Pais, Filhos & Cia. Ilimitada (Record). "E
o maior temor é fracassar como mãe", diz
a terapeuta. No tempo de nossas avós, a mãe
exemplar era a que criava os filhos homens para o trabalho,
longe de doenças e vícios. As filhas eram treinadas
para repetir esse papel. Hoje, ser "boa mãe"
é tarefa mais exaustiva. Ela precisa ser professora,
psicóloga, enfermeira, cozinheira, motorista, conselheira
e ainda trabalhar fora. A diretora de marketing da Duloren,
Denise Areal, de 42 anos, vive o drama desde o nascimento
de Rodrigo, de 11. Apesar de ter uma rotina extenuante, que
inclui viagens freqüentes ao exterior e reuniões
diárias que podem varar a madrugada, ela procura acompanhar
ao máximo o cotidiano do filho - mesmo que na maioria
das vezes o contato seja mesmo por telefone. "Eu ligo
umas dez vezes por dia para saber se ele já almoçou,
se já fez o dever de casa, se já está
pronto para dormir. É uma situação horrível.
Eu sempre acho que estou perdendo a melhor parte da vida dele",
conta.
Assumir
a responsabilidade irrestrita pelos filhos é uma questão
indiscutível para a maioria das mulheres. Nas últimas
décadas, elas obtiveram conquistas notáveis
no campo profissional, como a ascensão irreversível
no mercado de trabalho. No entanto, no âmbito individual,
a maioria ainda se mostra confusa para lidar com a multiplicidade
de papéis. É preciso ter em mente que, se não
houver uma colaboração masculina - do pai, do
marido -, o dilema jamais será solucionado. "Eu
não tinha escolha. O que iria fazer? Deixar minha filha
morando com o pai enquanto eu investia alucinadamente na minha
carreira? Poucas mães concordam com algo assim",
diz a ex-ministra da Administração Federal Cláudia
Costin, que se separou do primeiro marido quando a filha tinha
1 ano e meio.
Estudos
americanos informam que a convivência entre mãe
e filho resume-se a duas horas diárias. No passado,
o período de convívio era cinco vezes maior.
Dizer que os filhos de mulheres que trabalham fora são
mais ou menos bem educados é discussão das mais
tolas. Há centenas de pesquisas sobre o assunto. As
mais sérias desqualificam qualquer relação
entre a atividade da mãe e o equilíbrio emocional
dos filhos. Uma criança pode ser muito bem criada pela
mãe (ou pelo pai) que trabalha em casa, ou simplesmente
não trabalha. E pode ser igualmente bem criada por
pais workaholic. Tudo depende da qualidade do tempo que o
casal dedica aos filhos.
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