Carta ao leitor
Pesquisa: O que pensa e o que quer a brasileira
  Dos 20 aos 60 anos: Os desafios que envolvem beleza, amor e carreira em cada fase da vida da mulher
  Cinema: As questões femininas na tela
  Beleza: A obsessão feminina pela aparência
Teste: O que você acha de sua aparência?
Gastronomia: Por que cozinhar virou hobby
Luxo: Sete famosas listam seus objetos de desejo
  Sexo: Por que elas continuam fingindo
Teste: Você está satisfeita com sua vida sexual?
Solteiras: Elas dizem estar vivendo muito bem sozinhas
Ídolos: Marília Gabriela e Adriane Galisteu são referências para as brasileiras
Pesquisa: O que as estatísticas revelam sobre os hábitos da brasileira típica
  Roupa: O modelo ideal para cada tipo de corpo
  Maternidade: Por que as mães se sentem sempre culpadas
Relacionamento: Dicas para se dar bem com sua sogra, sua nora ou a ex do seu marido
Babás (exclusivo on-line): É preciso administrar a relação com a babá de seu filho. Sem ela, é difícil ter paz no trabalho
  Dinheiro: Elas querem que os parceiros paguem as contas
Rotina: O que dizem os maridos de mulheres muito bem-sucedidas
Vida a dois: Por que eles não fazem a dupla jornada
  Carreira: A maioria delas detesta ter chefe mulher
Vida profissional: É possível conciliar trabalho e filhos?
Teste: Chefe, fiquei grávida
  Guia: O A a Z da saúde da mulher
  William Bonner e Fátima Bernardes
 
 
   
 

"Já fez o dever de casa?"

Não há como escapar: a maternidade
deixa culpadas as que trabalham fora
e as que ficam em casa


Valeria Rossi


Fotos Selmy Yassuda

Denise Areal: angústia provocada pela ausência

O filho Rodrigo: dez chamadas da mãe por dia

Veja também
Trecho do livro
Pais, Filhos & Cia. Ilimitada
Dos arquivos de VEJA
Reportagem da Edição especial VEJA Mulher, de 11/2001: "Se não tê-los, como sabê-lo?"

Converse sobre a vida com uma mãe que trabalha fora. É praticamente certo que uma de suas principais fontes de angústia seja deixar o filho em casa quando sai para o escritório. Tente o mesmo com uma mulher que abriu mão da carreira para cuidar das crianças. Decerto ela vai lamentar a monotonia de seu cotidiano, a ausência de uma vida "só sua". Parece não haver escolha plenamente satisfatória. Em qualquer um dos casos, a mulher convive com uma culpa aparentemente incontornável que acompanha a maternidade. "Uma amiga minha diz que ser mãe é ter culpa. Às vezes, é isso o que sinto por passar pouco tempo com meu filho. É um eterno conflito", afirma a atriz Claudia Raia, mãe de Enzo, de 5 anos. A mesma sensação atinge quem fez a opção contrária. "Larguei minha vida profissional para cuidar das crianças. Muitas vezes, acordo me sentindo um pouco inútil. É um alto preço que se paga", diz a empresária Isabel Staub, de 32 anos, herdeira da Gradiente, mãe de duas crianças. Tanto Claudia quanto Isabel são mulheres bem-sucedidas e que podem contar com o apoio de babá, enfermeira e empregados que lhes garantam conforto e pouca dor de cabeça. Se para elas a sensação beira o incômodo, imagine o que significa para uma mulher de classe média que, em geral, conta apenas com o apoio dos parentes quando precisa de ajuda para cuidar dos filhos.

É muito difícil para a mulher conseguir administrar os papéis que são exigidos dela: provedora, junto com o homem, na parte econômica, alicerce emocional da família e profissional bem-sucedida. "Elas sentem que vão fracassar em algum desses compromissos", afirma a terapeuta de família Gladis Brum, autora do livro Pais, Filhos & Cia. Ilimitada (Record). "E o maior temor é fracassar como mãe", diz a terapeuta. No tempo de nossas avós, a mãe exemplar era a que criava os filhos homens para o trabalho, longe de doenças e vícios. As filhas eram treinadas para repetir esse papel. Hoje, ser "boa mãe" é tarefa mais exaustiva. Ela precisa ser professora, psicóloga, enfermeira, cozinheira, motorista, conselheira e ainda trabalhar fora. A diretora de marketing da Duloren, Denise Areal, de 42 anos, vive o drama desde o nascimento de Rodrigo, de 11. Apesar de ter uma rotina extenuante, que inclui viagens freqüentes ao exterior e reuniões diárias que podem varar a madrugada, ela procura acompanhar ao máximo o cotidiano do filho - mesmo que na maioria das vezes o contato seja mesmo por telefone. "Eu ligo umas dez vezes por dia para saber se ele já almoçou, se já fez o dever de casa, se já está pronto para dormir. É uma situação horrível. Eu sempre acho que estou perdendo a melhor parte da vida dele", conta.

Assumir a responsabilidade irrestrita pelos filhos é uma questão indiscutível para a maioria das mulheres. Nas últimas décadas, elas obtiveram conquistas notáveis no campo profissional, como a ascensão irreversível no mercado de trabalho. No entanto, no âmbito individual, a maioria ainda se mostra confusa para lidar com a multiplicidade de papéis. É preciso ter em mente que, se não houver uma colaboração masculina - do pai, do marido -, o dilema jamais será solucionado. "Eu não tinha escolha. O que iria fazer? Deixar minha filha morando com o pai enquanto eu investia alucinadamente na minha carreira? Poucas mães concordam com algo assim", diz a ex-ministra da Administração Federal Cláudia Costin, que se separou do primeiro marido quando a filha tinha 1 ano e meio.

Estudos americanos informam que a convivência entre mãe e filho resume-se a duas horas diárias. No passado, o período de convívio era cinco vezes maior. Dizer que os filhos de mulheres que trabalham fora são mais ou menos bem educados é discussão das mais tolas. Há centenas de pesquisas sobre o assunto. As mais sérias desqualificam qualquer relação entre a atividade da mãe e o equilíbrio emocional dos filhos. Uma criança pode ser muito bem criada pela mãe (ou pelo pai) que trabalha em casa, ou simplesmente não trabalha. E pode ser igualmente bem criada por pais workaholic. Tudo depende da qualidade do tempo que o casal dedica aos filhos.