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Tão
bom quanto
ir ao shopping
Elas
voltaram à
cozinha depois que a culinária
ficou chique e passou a se chamar gastronomia

Adriana Dias Lopes
Claudio Rossi
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| Daniela
Fitipaldi com as amigas: arrumadíssima e sem avental |

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Uma
das batalhas do movimento feminista foi tirar as mulheres
da cozinha, afastá-las daquele ambiente engordurado
e do fardo de prestar um serviço desvalorizado pela
sociedade. Muitas desataram o nó do avental para ir
trabalhar fora. Desde então, nunca mais pensaram na
mais simbólica das tarefas domésticas. Passaram-se
os anos e elas estão de volta à beira do fogão.
Detalhe: animadíssimas. Mudaram as mulheres? Não,
foi a culinária que mudou. Aliás, que culinária,
que nada. Agora, ir à cozinha é exercitar-se
na arte da gastronomia. O cheiro de alho nas mãos,
a frigideira engordurada ou o talher com cabo de madeira viraram
realidade do passado. As mulheres retornaram à cozinha
para lidar com utensílios inacreditáveis, temperos
raros, eletrodomésticos caríssimos, receitas
elaboradas e, sobretudo, desobrigadas de preparar o arroz
com feijão cotidiano.
A artista plástica paulista Daniela Fitipaldi, de 37
anos, a cada semana lota sua cozinha de amigas. Enquanto as
panelas francesas Le Creuset (400 reais) esquentam no fogão,
o papo, que pode durar uma tarde inteira, é sempre
regado a prosecco bebericado em copos luxuosos da marca Strauss
(35 reais a taça). "Isto aqui é minha melhor
terapia. Eu não posso estar malvestida!", diz. No último
ano, Daniela freqüentou seis cursos de culinária
(ops, gastronomia!). Adorou as aulas que ensinaram a preparar
pratos franceses e risotos italianos. "É melhor do
que ir ao shopping", brinca. Daniela faz parte de uma legião
de mulheres mais acostumadas a passar a mão no telefone
e fazer reserva em restaurantes estrelados do que a acumular
farinha embaixo da unha. No entanto, foi picada pela mosca
da cozinha, como várias de sua geração.
É o caso da publicitária carioca Mariana Bezerra
da Costa, de 29 anos, que já tem uma coleção
de 43 livros de receitas. "Eu me sinto muito mais confortável
e gasto muito menos dinheiro se faço um superjantar
em casa em vez de ir a um restaurante. Bebo o vinho que quiser,
não tenho de me incomodar com um chato fumante nem
com um vizinho de mesa bêbado."
Há quem diga que as mulheres só se aproximaram
do fogão depois de perceber que os homens o fizeram
e não perderam o glamour. Foram eles os responsáveis
por essa onda culinária. A idéia é entrar
na cozinha, misturar os ingredientes, provar o tempero, levar
à mesa e chega. Nada de lavar a louça depois
ou guardar as panelas no armário. "É, lavar
louça, eu não lavo", diz a consultora de moda
Rosy Verdi, de 54 anos, que mesmo na cozinha se veste sempre
de Dolce & Gabbana e Chanel. Em companhia de quatro amigas,
cada uma costuma pagar 300 reais por dia para o chef italiano
Alessandro Segatto ensiná-las o ponto exato de uma
polenta ou como ralar trufas.
Claudio Rossi
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| A
advogada Jaqueline Furrier: reforma na cozinha para acomodar
fogão de 2 700 reais |
A
presença maciça das mulheres é visível
nos cursos oficiais de gastronomia. No curso de gastronomia
italiana ministrado pela Universidade Anhembi Morumbi, que
ocorreu entre os meses de abril e junho deste ano, 60% das
vagas foram ocupadas por mulheres. O mesmo ocorre no terreno
da enologia. Há pouco tempo, os cursos avançados
sobre vinhos tinham no máximo 20% de alunas. Atualmente,
de acordo com a Associação Brasileira de Sommeliers,
as mulheres correspondem a 50% dos inscritos. O chef e dono
do restaurante La Vecchia Cucina de São Paulo, Sergio
Arno, reforça a tese. "Antigamente, era muito raro
a mulher pedir a carta de vinhos, isso era tarefa para o homem
da mesa", conta Arno. "Agora, as mulheres não só
pedem como também provam a bebida."
Cozinhar reúne algumas práticas de que as mulheres
mais gostam: jogar conversa fora, comer, receber elogios e,
claro, comprar. É curioso notar como a cozinha se tornou
um indicador de sucesso. No passado, o símbolo de poder
estava na garagem, onde ficava estacionado o carrão
de matar os outros de inveja, e na sala, lugar do sonzão
de última geração. Agora, o poder foi
parar na cozinha. Afinal, em que outro ambiente da casa se
consegue achar um utensílio de 13.000
reais? Em 1995, a importadora dos fogões americanos
da marca DCS vendia no máximo sessenta unidades anuais
do modelo que era top da linha, que custa exatamente isso,
o preço de um carro popular. No ano passado, vendeu
120.
Uma pesquisa do instituto Ricardo Botelho Marketing com 900
paulistanos com salário superior a 2.500
dólares mensais revelou que, na hora de escolher um
produto doméstico, 38% valorizam a qualidade, 28% o
design e apenas 13% dão bola para o preço. Do
total, 80% eram do sexo feminino. A advogada paulista Jaqueline
Furrier, de 35 anos, sócia do ex-ministro da Justiça
José Carlos Dias, não mediu esforços
nem dinheiro para fazer de sua casa um perfeito cenário
de criações gastronômicas. No ano passado,
ela botou abaixo sua cozinha para acomodar um fogão
italiano da marca Lofra, avaliado em 2.700
reais. "Todo mundo que vem aqui quer ver a cozinha. Virou
uma atração à parte", diz. Jaqueline
costuma "assumir" o fogão em jantares com até
trinta amigos. Na última vez, preparou camarão
com lentilhas, linguine com abobrinha e salada verde com queijo
brie. "Sinto-me poderosa", brinca. É por isso que o
mercado gastronômico sonha com consumidoras como Jaqueline,
ávidas por novidades.
Os cursos de gastronomia ensinam que cozinhar começa
antes e depois do fogão propriamente dito. Tudo se
inicia com a seleção dos ingredientes, que deve
ser feita pessoalmente, e termina numa mesa "bem-posta", como
se diz no jargão. Na parte que interessa, recomenda-se
que os principiantes não se arrisquem a concretizar
pratos muito ousados, a não ser que a missão
seja realizada em grupo. Uma coisa é oferecer um jantar
aos amigos e homenageá-los com uma criação
própria. Nesse caso, aconselham-se combinações
mais seguras, como um talharim ao funghi, em vez de tentativas
mais elaboradas, como um ossobuco com polenta. Muito diferente
é reunir uma turma para que todos cozinhem juntos.
Numa situação dessas, até mesmo o erro
é divertido.
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