| |
Sexo e saúde Artigo
Sem
culpa na cama, mas...
A sexualidade
da mulher brasileira virou
assunto obrigatório tão obrigatório
que chega a ser entediante

Mary del Priore
Lúcia Brandão
 |
Nos
lençóis macios, amantes se dão", como na canção
de Roberto e Erasmo. Bonito, não? Mas foi preciso percorrer um longo caminho
para que a brasileira visse os "travesseiros soltos" e as "roupas
pelo chão". A ruptura só começou no fim dos anos 1960,
e se consolidou nos anos 1970 e 1980. Antes, a mulher vivia em um mundo no qual
manter as aparências de moça de família era fundamental. Nada
de "proceder mal". A felicidade conjugal, do ponto de vista feminino,
era ser complemento do marido no cotidiano doméstico, dormir de camisola
e fazer amor à meia-luz. Nudez total? Só no escuro. Nada de acrobacias
eróticas. Fundamental mesmo era ter bom senso: no caso de traição
por parte do marido, "fingir ignorar tudo e esmerar-se na aparência
para atraí-lo", como sugeriam as revistas femininas. As mesmas que
definiam o bem-estar masculino como o bem supremo. E, para atingir tal bem-estar,
qual a receita? Conquistar pelo coração e prender pelo estômago.
Jamais discutir por dinheiro. Não se precipitar para abraçá-lo
quando começasse a ler o jornal. E não contrariá-lo nem quando
quisesse fumar um charuto, antes de dormir com luz acesa. Brigas entre o
casal? A razão era sempre dele. Mas, se razões houvesse,
ela tinha de resignar-se em nome da tal felicidade. O melhor era usar o "jeitinho":
assim o marido cedia. Nada de enfrentamentos ou franqueza exagerada. Afinal, o
temperamento poligâmico do homem explicava tudo. Em meados do século
XX, continuava-se a acreditar que ser mãe e dona de casa era o destino
natural da mulher. Já a iniciativa, a participação no mercado
de trabalho, a força e o espírito de aventura definiam a masculinidade.
A
chegada maciça da pílula anticoncepcional às farmácias,
na virada dos 60 para os 70, representou a antessala da chamada revolução
sexual. Livre da sífilis, e ainda longe da aids, a jovem podia
provar de tudo. O rocknroll introduziu a agenda: férias,
velocidade e o lema "amai-vos uns sobre os outros". A batida e as letras
indicavam a rebeldia diante da autoridade do mundo adulto. Nas capitais e nos meios estudantis, a moça escapava às malhas apertadas da família. Encontros em festas, festivais de música, atividades
esportivas e clubes noturnos deixaram-na cada vez mais solta. Saber dançar
tornou-se o passaporte para o amor e a tentativa de adaptação a
um mundo novo e esforçadamente rebelde.
Carícias
se generalizavam. Na cama, novidades. A sexualidade, graças aos avanços
da higiene íntima, se estendia ao corpo inteiro. Preliminares ficaram mais
longas. Na moda, a minissaia começou a despir os corpos. Lia-se Wilhelm
Reich, para quem o nazismo resultou da falta de orgasmos. A ideia de que os casais,
além de amar, deviam ser sexualmente equilibrados começava a ser
discutida por algumas "prafrentex", como se dizia. Era o início
do direito ao prazer para todos, sem que a mulher fosse atormentada por se
interessar por alguém.
A imprensa da época revelava
idas e vindas do "casal moderno". As reportagens anunciavam a necessidade
de a mulher conhecer a si mesma (e aos homens). Afinal, ela já estava
"cansada das angústias que a marcaram por tanto tempo". Quanto
à "dificuldade de ser fiel", eis a conclusão de um texto
de jornal daquele tempo: "Ora, a imagem da mulher emancipada não suprime
a imagem da mulher essencialmente pura, basicamente fiel". Quanto ao homem,
sua infidelidade seguia intocável. Havia ambiguidade semelhante em relação
ao feminismo: se a mulher deixou de baixar a cabeça para passar a dizer
"eu quero, eu posso, eu vou fazer", os primeiros sinais de desprezo
pelo movimento não tardaram.
A imprensa feminina, reflexo
natural da sociedade, continuou a investir na figura da mãe e da dona de
casa. Só que, agora, angustiada. Questionada pelos filhos e ameaçada
pelas mais jovens, seu horror era "ser trocada por duas de 20". Multiplicavam-se
as colunas do gênero "como salvei meu casamento". Para a liberada
que aderisse à revolução sexual, não faltavam informações
para "entrar no fechadíssimo clube das cabeças que pensam e
decidem". Porém, para entrar no tal clube, era preciso ter cabelos
esvoaçantes e corpo sedutor. O casal continuava a ser o ponto de referência.
E, como antes, o homem era o juiz que avaliava a mulher. Ele era o seu
objetivo e razão de ser. E, como antigamente, o "medo de se amarrar"
continuava o mesmo. Os argumentos científicos brotavam para ilustrar as
diferenças: "Ele tem, biologicamente, o instinto da conquista desde
os tempos pré-históricos (...) já a maternidade dotou
a mulher de uma estrutura emocional passiva".
Início
do século XXI: graças à pílula, o sexo não
é mais uma questão moral, mas de bem-estar e prazer. O aumento
de divórcios não impede a mulher de recomeçar. Por isso,
seu álbum de família contém novos atores: enteados, meios-sogros,
produções independentes. Ocupando cada vez mais os postos de trabalho,
ela busca o equilíbrio entre o público e o privado. Entre parceiros,
surgem regras e práticas mais igualitárias. Graças à
independência financeira, ela não fica mais casada por conveniência,
dividida entre o desejo de vários parceiros sexuais e a estabilidade
necessária aos filhos.
Seu percurso aponta para
conquistas, mas também armadilhas. Se a profissionalização
trouxe independência, trouxe também stress e exaustão. A desorganização familiar onerou, sobretudo, os mais indefesos:
as crianças. A tirania da perfeição física empurrou
a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação.
O nu, na mídia, despiu seu corpo em público, banalizando-o. Uma
estética voltada ao culto da boa forma, fonte de ansiedade e frustração,
levou a melhor. No início do século XXI, "liberar-se"
tornou-se sinônimo de lutar, centímetro por centímetro, contra
a decrepitude. A mulher continua submissa. Agora, não mais ao marido, mas
à publicidade. E não há prisão pior do que aquela
que não permite mudar nem envelhecer junto com o resto da população.
Nas
últimas décadas, ela participou de outro movimento: o que separou
a sexualidade, o casamento e o amor. Foi o momento de transição
entre a tradição das avós e a sexualidade obrigatória
das netas. Ninguém mais quer casar sem "se experimentar". Frigidez,
nem pensar. "Ficar e se mandar" é a regra. E só se
fala em "sexualidade plural". Separada da procriação,
sem culpa, ancorada pela psicanálise e exaltada pela imprensa, a sexualidade
da mulher brasileira se tornou assunto obrigatório. Tão obrigatório
que chega a entediar. Resta perguntar quem vai lavar, passar e arrumar os tais
lençóis macios da cama. Os historiadores de amanhã dirão.
Mary
Del Priore, historiadora, é autora de História das Mulheres no Brasil (Editora Contexto)
| |