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Imprensa
A revista censurada

A apreensão da REALIDADE de janeiro de 1967 — surpreendente porque o AI-5 ainda não vigorava


Fábio Altman

Jorge Butsen
Roberto Civita (sentado, de terno escuro e óculos), diretor de redação de REALIDADE:
"Éramos um bando de jovens criativos e inquietos, com 30 anos ou menos"
 
Esta edição especial de VEJA bebe na fonte do número 10 da revista REALIDADE, com data de capa de janeiro de 1967, apreendida por ordem do Juizado de Menores, em São Paulo e no Rio. Ao longo das próximas páginas, VEJA retoma o fio condutor daquela revista – "A mulher brasileira, hoje" – para retratar quatro décadas de mudanças de comportamento. Convém antes conhecer o Brasil da passagem de 1966 para 1967 e entender por que REALIDADE foi subtraída das bancas.


O Brasil de 1966 – o terceiro ano do regime militar – nada tinha a ver com o país que viveria anos plúmbeos, de ditadura e terrorismo, depois da decretação do AI-5, em dezembro de 1968. O ambiente político era incomparavelmente mais tranquilo, embora já houvesse sinais de fechamento. Em fevereiro daquele ano, o AI-3 do presidente Humberto Castello Branco estabeleceu eleições indiretas para governador e prefeito de capitais. Em outubro, ele fechou o Congresso durante um mês, como retaliação pelos protestos dos parlamentares contra a cassação do mandato de deputados. Mas não havia censura nem tortura nos porões.

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Nesse ambiente, em abril de 1966 nasceu a revista REALIDADE, da Editora Abril, que dois anos depois lançaria VEJA. Em apenas seis meses, ela já vendia 475 000 exemplares. "Éramos um bando de jovens inquietos e criativos, com 30 anos ou menos, loucos para cutucar todas as onças com varas muito curtas", diz Roberto Civita, à época diretor de redação de REALIDADE, hoje presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril e Editor de VEJA. "Conseguimos, com boas ideias e reportagens muito benfeitas, além de esteticamente bonitas, encantar uma geração – era a revista deles." Não havia tema espinhoso que escapasse do crivo: divórcio (desquite, naquele tempo), sexo, homossexualidade, juventude, drogas, celibato na Igreja e muito mais, assuntos tabus habitualmente sumidos de outras publicações.

Para a edição de número 10, de janeiro de 1967, os editores – que faziam as reuniões de pauta em volta de uma mesa no restaurante do elegante Hotel Claridge, no centro de São Paulo, pertinho da redação – decidiram desenhar o mais completo retrato da mulher brasileira jamais feito. "Tudo nesta edição – desde as cartas até o ‘Brasil Pergunta’ – trata de mulheres. Trabalhando, amando, rezando, pensando, falando... sendo", escreveu Civita na apresentação. Foram seis meses de reportagens. Uma pesquisa encomendada ao mais respeitado instituto daquele tempo, o Inese, ouviu 1 200 mulheres para entregar um amplo panorama do país feminino. A principal chamada de capa: "Edição Especial – A mulher brasileira, hoje". REALIDADE chegava às bancas, tradicionalmente, dois ou três dias antes do mês anotado na capa. Poucas horas depois da distribuição de metade dos mais de 400 000 exemplares, em 30 de dezembro de 1966, uma sexta-feira, a revista começou a ser recolhida das bancas pelas viaturas do serviço de vigilância e ronda especial da polícia, com apoio da Delegacia de Costumes de São Paulo. Os 231 600 exemplares que ainda estavam empilhados na gráfica também foram confiscados – depois seriam triturados.

No despacho, o juiz de menores Artur de Oliveira Costa dizia que a publicação continha "algumas reportagens obscenas e profundamente ofensivas à dignidade e à honra da mulher, ferindo o pudor e, ao mesmo tempo, ofendendo a moral comum, com graves inconvenientes e incalculáveis prejuízos para a moral e os bons costumes". Ele atendia a uma demanda do curador de menores, que tinha sido alertado pelo governador (Laudo Natel), que ouvira o cardeal-arcebispo (dom Agnelo Rossi). "Recebemos a apreensão com espanto", diz Civita.

No dia seguinte ao embargo em São Paulo, foi decretada a apreensão também no Rio. Nas palavras do juiz de menores do então estado da Guanabara, Alberto Cavalcanti de Gusmão, "a revista REALIDADE divorcia-se, destarte, da realidade brasileira e, em matéria de costumes, de moral familiar, intenta promover – ao que parece – uma verdadeira revolução". E mais: "Na reportagem ‘Nasceu’, a revista apresenta sequência fotográfica completa, inclusive o ato da délivrance. Os editores, ao que parece, entendem que com esse realismo estão honrando o nome do periódico. É evidente que, com tal concepção de realismo, a revista chegará, sempre honrando seu nome, às mais incríveis agressões ao decoro público".

Civita lembra-se de ter se incomodado especialmente com esse trecho da decisão do juiz, o que fazia referência às sete páginas da reportagem "Nasceu!", com texto de Narciso Kalili e fotos de Cláudia Andujar, que retratava um parto em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Numa das fotografias, Preta, a grávida, já estava na cama, segundos antes de dar à luz uma menina. As pernas estão afastadas, nota-se a cabecinha do bebê apontando. Os editores de REALIDADE, ao verem a imagem pela primeira vez, foram quase unânimes: "Vai dar encrenca". Civita insistiu na publicação e, para diminuir o impacto, teve uma ideia: pôr a foto no meio das páginas 72 e 73, de modo que ela ficasse discretamente sumida na dobra da revista. Não foi suficiente para aplacar o incômodo do cardeal e das autoridades locais.

A REALIDADE recolhida virou peça de colecionador. Nas bancas, os jornaleiros que conseguiram esconder os exemplares chegaram a vendê-los por preço até cinco vezes superior ao anotado na capa (800 cruzeiros). Dos que leram, houve quem gostou (a maioria) e quem se ofendeu. Na edição seguinte, de fevereiro, existiam vinte cartas de leitores – apenas as duas primeiras condenavam REALIDADE. "Sr. Diretor: estão vendendo pornografia, mas isto vai acabar. Palmas para os srs. Juízes de Menores que saíram em defesa da moral brasileira", escreveu Clementina Soares Mintori, de São Paulo. Em defesa da publicação, Hernani L. Furtado, também de São Paulo, anotou: "Sr. Diretor: com satisfação li num jornal dessa capital que o nº 10 de REALIDADE foi lido num colégio de freiras com o consentimento da Madre Superiora. Estabelecer o diálogo é coisa importantíssima na educação da juventude e qualquer assunto, sem exceção, deve ser discutido e esclarecido para que as gerações de amanhã possam conduzir o Brasil para um futuro mais feliz".

Enquanto os leitores caçavam exemplares escondidos de REALIDADE, o advogado Sílvio Rodrigues, contratado para defender a Editora Abril, impetrava mandado de segurança junto ao presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. O recurso foi rejeitado. No Rio, o advogado João de Oliveira Filho fez o mesmo e em sua petição de defesa chegou a citar a encíclica Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), do papa Paulo VI, que defendia um olhar mais cuidadoso da Igreja para as mudanças da sociedade. Só houve parecer favorável – e definitivo – concedido pelo Supremo Tribunal Federal em outubro de 1968, às vésperas da decretação do AI-5, quase dois anos depois de a REALIDADE nº 10 ter virado papel picado. Nas palavras do voto do ministro Aliomar Baleeiro: "A linguagem é decorosa, a exposição se faz em tom alto e não encontrei apologia do vício, da anomalia ou mesmo da irreverência, enfim nenhum juízo de valor que se possa considerar antissocial".

A liberação veio tarde demais, evidentemente. Houve prejuízos – a Editora Abril chegou a devolver aos anunciantes, em forma de crédito, 50% do dinheiro que haviam desembolsado com páginas de publicidade, o equivalente à metade da tiragem que tinha sido apreendida. Mas aquela apreensão, espantosa por ridícula, ajudou a tornar REALIDADE ainda mais querida (e combativa) para quem a lia. "REALIDADE foi inovadora não apenas na escolha dos temas, mas também na forma como os apresentava, com textos longos, muito bem escritos, misturando jornalismo com literatura", diz Letícia Nunes de Moraes, doutora em história social pela USP, autora de Leituras da Revista Realidade 1966-1968 (Editora Alameda). A edição Mulher de 1967 foi uma espécie de cânone desse modo de fazer jornalismo. "Um modelo, um jeito de tratar de questões do comportamento, que nunca mais foi alcançado", afirma Letícia. Para Cláudia Andujar, a fotógrafa do parto, havia uma palavra a servir de sinônimo para REALIDADE: "liberdade".

Realidade, 1967   Veja, 1994   Veja, 2010

A mulher em três tempos
Ao longo desta edição, em quadros com esta cor, o leitor encontrará as respostas a uma parte das perguntas feitas por REALIDADE na pesquisa publicada na edição de janeiro de 1967, às mesmas questões repetidas em 1994 por VEJA e agora, em 2010, em uma enquete realizada pelo Ibope Inteligência. A comparação dos três momentos ajuda a entender os avanços (e alguns recuos) da posição da mulher na sociedade brasileira.