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Casamento e sociedade Perfil
Alianças tardias
A
atriz Ítala Nandi, agora Ittala, abandonou
questões carnais como
o sexo, tema de sua
entrevista de 1967, pelo apego
ao hinduísmo

Flávia Ribeiro
Ernani d'Almeida
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Ittala, com o filho Giuliano e a neta, Sofia: "Os
homens se feminilizaram e evoluíram".
À
direita, a entrevista na REALIDADE de 1967 |
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| Na edição de REALIDADE recolhida pela polícia em janeiro
de 1967, a atriz Ítala Nandi, então com 24 anos, foi apresentada
como "uma moça que não tem medo de dizer a verdade sobre amor
e sexo no Brasil". Ela fora convidada a dar uma entrevista semelhante à que concedera a atriz sueca Ingrid Thulin, no primeiro número
da revista, com frases que marcaram aquele tempo: "o pecado não é
um corpo nu", "casar é para os que não sabem viver sós". VEJA reencontrou Ítala agora Ittala, com dois "t"
e sem acento no i quatro décadas depois daquele corajoso
depoimento. |
A mudança de nome aconteceu por adesão
à aritmosofia, teoria que busca o significado dos números. "Com
essa mudança, não preciso voltar ao início da palavra
para pôr o acento", diz. "A cada vez que fazia isso, era como
se estivesse dando um passo para trás." Mística, como se percebe,
mora em um apartamento no Rio de Janeiro cheio de referências zen, com cheiro
de incenso e um quadro com a pintura do deus hindu Ganesha. Para Ittala,
essa virada para o misticismo explica por que a nudez, tema primordial
daquela entrevista de 1967, não a incomodava como aos outros,
e não a incomoda hoje. "No hinduísmo, a nudez está
associada à pureza. Para mim era isso, mesmo que eu não
soubesse."
Hoje, aos 67 anos, produtora de teatro, cinema
e televisão, ela diz já não empunhar as bandeiras que desfraldava
no fim dos anos 1960, especialmente a da liberdade sexual. "Alguém
acreditar, hoje, que uma revista foi apreendida em parte por causa do que eu disse
é uma piração", espanta-se. "Conquistei minha liberdade
sexual, as mulheres a conquistaram, e por isso já não se fala desse
assunto. O que não está resolvido é a hipocrisia, a
corrupção, essa olimpíada da violência em
que vivemos, os estragos no ambiente, na biodiversidade da natureza. Naquele
momento não se falava sobre isso. Os focos agora são outros."
Um olhar mais atento ao cotidiano de Ittala, um passeio com
suas ideias atuais, permite uma conclusão: ela está mais preocupada
com a elevação do espírito para além da matéria
do que com questões carnais. Foi 22 vezes à Índia desde 1990
e estudou hinduísmo. Para completar, está para lançar um
livro sobre uma antiga civilização baseada no matriarcado, Os
Sonhos de Vesta. Conta que a história se passa no neolítico,
a idade da pedra, mas garante que é um romance futurista, sobre uma mulher
que tem o dom de sonhar com passado e futuro.
No presente,
a atriz se desdobra entre novelas da Rede Record, a implantação
de um polo de cinema e vídeo no Paraná, o livro e a nova vida de
avó. Sofia nasceu há cinco meses. O bebê a ajuda a mostrar
as diferenças entre a vida que a cercava aos 24 anos de idade
quando foi entrevistada pelo jornalista Alessandro Porro, com fotos (sem maquiagem)
de David Drew Zingg e a de hoje. Giuliano, o filho de Ittala, pai de Sofia,
ligou recentemente para a avó da menina com uma notícia: "Mãe,
estou trocando a fralda da Sofia". A reação de Ittala, algo
que ela não podia dizer em 1967: "O Giuliano tem um machismo moderado.
Ele não pode ser um liberal total porque vivemos no patriarcado. Mas o
pai do meu filho nunca trocou uma fralda. Os homens se feminilizaram e evoluíram".
O
pai de seu filho, o cineasta André Faria, por sinal, reaproximou-se de
Ittala em 2005. Os dois criaram a Escola Superior Sul Americana de Cinema e TV
do Paraná. Mas a atriz afirma que eles não estão exatamente
namorando. "Namoro na minha idade?", brinca, para em seguida lembrar
que "o ator Renato Borghi costumava me chamar de símbolo sexual que
não transa". Ittala garante que não era o furacão sexual
que a entrevista a Realidade deixou transparecer e afirma que nada mudou muito
nesse sentido. "Eu falava sobre sexo e ficava nua com naturalidade, mas era
tímida sexualmente", diz. Prefere viver poucas mas intensas aventuras,
como a que mantém com um empresário da Índia há mais
de uma década os dois ficam juntos quando ela vai para lá
e, às vezes, marcam encontros em países europeus.
Está feliz com suas conquistas. Fala com orgulho do documentário Índia, o Caminho dos Deuses, que dirigiu em seu país favorito
em 1991; com alegria de sua importância na história do teatro e do
cinema brasileiros; e com tranquilidade sobre sua vida. Bem diferente da jovem
que declarou em 1967 não ver "saída a curto prazo que possa
ser indicada à mulher brasileira". Embora ainda acredite que
fora do eixo Rio-São Paulo a mulher continue submissa ao homem, hoje enxerga
avanços. "Era muito pessimista quando jovem. Sou mais otimista agora,
pelo conhecimento do mundo oriental. Lá, nada acaba, não há
pecado, você prepara seu futuro post mortem, a sua nova vida."
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