Carta ao leitor

IMPRENSA

A apreensão
de REALIDADE


IDEIA

As mulheres fizeram história porque nunca tiveram medo do ridículo

TRABALHO E MATERNIDADE

Filhos e carreira,
opção sem drama

O perfil de uma executiva pioneira
Artigo: Meu bebê
é como um vício,
por Katie Roiphe

Tecnologia para mães

CASAMENTO E SOCIEDADE

As brasileiras se casam mais tarde
Artigo: A novidade
é o respeito entre
os cônjuges,
por Betty Milan

O perfil de Ittala Nandi
A bolsa em 1967
e em 2010

O paradoxo
da tristeza feminina

Leitura para
as supermães

O matriarcado digital


EXCLUSIVO
ON-LINE

O matriarcado digital

SEXO E SAÚDE

Os cinquenta
anos da pílula

Artigo: A sexualidade da mulher virou
tema obrigatório
(e entediante), por
Mary Del Priore

É tudo culpa
dos hormônios?

O paradoxo da
tristeza feminina

Reprogramação
do DNA da pele

Cultura: Sexo naliteratura deixou
de ser espaço de
rebeldia masculina,
por Sérgio Rodrigues


POLÍTICA E ECONOMIA

Abolicionismo de saias
A nova mulher
da nova classe C


ENSAIO - MODA

As transformações por meio da tela do cinema

   
 

Casamento e sociedade • Perfil
Alianças tardias

A atriz Ítala Nandi, agora Ittala, abandonou
questões carnais como o sexo, tema de sua
entrevista de 1967, pelo apego ao hinduísmo



Flávia Ribeiro

Ernani d'Almeida
Ittala, com o filho Giuliano e a neta, Sofia: "Os homens se feminilizaram e evoluíram".
À direita, a entrevista na REALIDADE de 1967
 
Na edição de REALIDADE recolhida pela polícia em janeiro de 1967, a atriz Ítala Nandi, então com 24 anos, foi apresentada como "uma moça que não tem medo de dizer a verdade sobre amor e sexo no Brasil". Ela fora convidada a dar uma entrevista semelhante à que concedera a atriz sueca Ingrid Thulin, no primeiro número da revista, com frases que marcaram aquele tempo: "o pecado não é um corpo nu", "casar é para os que não sabem viver sós". VEJA reencontrou Ítala – agora Ittala, com dois "t" e sem acento no i – quatro décadas depois daquele corajoso depoimento.

A mudança de nome aconteceu por adesão à aritmosofia, teoria que busca o significado dos números. "Com essa mudança, não preciso voltar ao início da palavra para pôr o acento", diz. "A cada vez que fazia isso, era como se estivesse dando um passo para trás." Mística, como se percebe, mora em um apartamento no Rio de Janeiro cheio de referências zen, com cheiro de incenso e um quadro com a pintura do deus hindu Ganesha. Para Ittala, essa virada para o misticismo explica por que a nudez, tema primordial daquela entrevista de 1967, não a incomodava como aos outros, e não a incomoda hoje. "No hinduísmo, a nudez está associada à pureza. Para mim era isso, mesmo que eu não soubesse."

Hoje, aos 67 anos, produtora de teatro, cinema e televisão, ela diz já não empunhar as bandeiras que desfraldava no fim dos anos 1960, especialmente a da liberdade sexual. "Alguém acreditar, hoje, que uma revista foi apreendida em parte por causa do que eu disse é uma piração", espanta-se. "Conquistei minha liberdade sexual, as mulheres a conquistaram, e por isso já não se fala desse assunto. O que não está resolvido é a hipocrisia, a corrupção, essa olimpíada da violência em que vivemos, os estragos no ambiente, na biodiversidade da natureza. Naquele momento não se falava sobre isso. Os focos agora são outros."

Um olhar mais atento ao cotidiano de Ittala, um passeio com suas ideias atuais, permite uma conclusão: ela está mais preocupada com a elevação do espírito para além da matéria do que com questões carnais. Foi 22 vezes à Índia desde 1990 e estudou hinduísmo. Para completar, está para lançar um livro sobre uma antiga civilização baseada no matriarcado, Os Sonhos de Vesta. Conta que a história se passa no neolítico, a idade da pedra, mas garante que é um romance futurista, sobre uma mulher que tem o dom de sonhar com passado e futuro.

No presente, a atriz se desdobra entre novelas da Rede Record, a implantação de um polo de cinema e vídeo no Paraná, o livro e a nova vida de avó. Sofia nasceu há cinco meses. O bebê a ajuda a mostrar as diferenças entre a vida que a cercava aos 24 anos de idade – quando foi entrevistada pelo jornalista Alessandro Porro, com fotos (sem maquiagem) de David Drew Zingg – e a de hoje. Giuliano, o filho de Ittala, pai de Sofia, ligou recentemente para a avó da menina com uma notícia: "Mãe, estou trocando a fralda da Sofia". A reação de Ittala, algo que ela não podia dizer em 1967: "O Giuliano tem um machismo moderado. Ele não pode ser um liberal total porque vivemos no patriarcado. Mas o pai do meu filho nunca trocou uma fralda. Os homens se feminilizaram e evoluíram".

O pai de seu filho, o cineasta André Faria, por sinal, reaproximou-se de Ittala em 2005. Os dois criaram a Escola Superior Sul Americana de Cinema e TV do Paraná. Mas a atriz afirma que eles não estão exatamente namorando. "Namoro na minha idade?", brinca, para em seguida lembrar que "o ator Renato Borghi costumava me chamar de símbolo sexual que não transa". Ittala garante que não era o furacão sexual que a entrevista a Realidade deixou transparecer e afirma que nada mudou muito nesse sentido. "Eu falava sobre sexo e ficava nua com naturalidade, mas era tímida sexualmente", diz. Prefere viver poucas mas intensas aventuras, como a que mantém com um empresário da Índia há mais de uma década – os dois ficam juntos quando ela vai para lá e, às vezes, marcam encontros em países europeus.

Está feliz com suas conquistas. Fala com orgulho do documentário Índia, o Caminho dos Deuses, que dirigiu em seu país favorito em 1991; com alegria de sua importância na história do teatro e do cinema brasileiros; e com tranquilidade sobre sua vida. Bem diferente da jovem que declarou em 1967 não ver "saída a curto prazo que possa ser indicada à mulher brasileira". Embora ainda acredite que fora do eixo Rio-São Paulo a mulher continue submissa ao homem, hoje enxerga avanços. "Era muito pessimista quando jovem. Sou mais otimista agora, pelo conhecimento do mundo oriental. Lá, nada acaba, não há pecado, você prepara seu futuro post mortem, a sua nova vida."